Epístolas e Sátiras
A Márcia
(Imitação de uns versos de Mr. Parni)
Tu, de meus amorosos pensamentos
Secretária fiel, tu, que mil vezes
Afagas, adormeces os desgostos
De que semeia Amor meus tristes dias;
Oh lira, em que estes dedos preguiçosos
Geram sem arte a lânguida harmonia,
Efeito da ternura, e da saudade!
Hoje teus sons patéticos se apurem
Da amizade leal no casto seio.
Cândida amiga do extremoso Elmano,
Minha Márcia gentil, se eu a teu lado
Te entretenho os ouvidos, e te influo
Por eles no formoso, ebúrneo peito
O encanto da suave melodia,
A maga sensação das almas belas;
Se te aprazem meus versos inocentes,
Se teus olhos brilhantes como os astros
Volves benignamente ao grato amigo,
Que externas perfeições, de que és tão rica,
Que o virgíneo candor te não profana
Com torpes, sequiosos pensamentos;
E nos dons da tua alma embelezado
Como se ama no céu, no mundo te ama;
Se a teus mimosos lábios, quando as Musas
Nas ternas aflições vêm consolá-lo,
Sorriso aprovador merece Elmano;
Se no mole regaço deleitoso
Acolhes do teu vate a doce lira
Quando os sons lhe falseia a mão dormente;
Que tenho com os mais, que têm comigo?
Que me importam, querida, a voz da Fama,
As críticas do sábio, as invectivas
Dos Zoilos vis, dos Bávios de Ulisseia,
Gralhas, que entre pavões se não confundem,
Inda que astutas, iludindo os néscios,
Vestem pomposas, fulgurantes plumas?
Ou que me importa o público juízo?
Amante, e não autor, desdenho, oh Márcia,
Uma inquieta glória, um árduo nome;
Nada sou: minha Musa às vezes leda,
Leda, ou antes cansada de carpir-se,
Cuida somente em adoçar meus males,
Os séculos por vir, e o seu não teme.
Pungidos de fantástica vaidade
Outros lidem, padeçam, velem, suem,
Matem-se por viver além da morte;
Que eu não quero comprar como eles compram
Imaginários bens por males certos.
Fagueira, linda Márcia, quando o Fado
Vier co'a negra mão tocar meu rosto,
Sumir-me para sempre à luz do dia;
Quando teus braços melindrosos derem
Suave encosto à lânguida cabeça
Do descorado moribundo amigo,
E os frouxos olhos seus, metade abertos,
Turvo clarão vital forem perdendo;
Quando enfim minhas mãos em vão tentarem
Secar teus prantos, serenar teus olhos,
Fitos no leito da benigna morte,
E à boca o solto espírito acudindo
Colher n'essa, que adoro, o derradeiro
Ósculo teu dulcíssimo, e piedoso;
Não, não permitas que funérea pompa
Me alumie a serena escuridade,
Nem que por mãos venais alvoroçado
O bronze atroador publique a todos
Que mais um dos mortais volveu à terra.
No meu asilo incógnito, e seguro,
Vivendo para os outros indif'rente,
Sobre as minhas ações um véu lhe corro:
Qual fui na vida quero ser na morte,
Contanto que a fiel, a afável Márcia
Dê honra às cinzas do amoroso Elmano,
Com suspiros, com lágrimas, e habitem
Memórias minhas na memória d'ela.
Tu, dos cuidados meus primeiro objeto,
Anália desleal, encantadora,
Que do vário Martinio te cegaste,
Ouvindo que morri, talvez que folgues!
Depois que a Morte amiga houver talhado
De meus dias fatais a débil teia;
Depois que mudo, e fúnebre jazigo
Meus males encerrar, e os meus extremos,
Ide, Amores gentis, onde verdeja
A amena, salutífera Colares,
De mil benignos zéfiros lavada,
E ante a falsa, que adoro, ali pousando,
Dizei-lhe:—«Exulta, ingrata! Elmano é morto;
Mas o céu tem poder, justiça, e raios,
O céu castigará teu vil perjúrio,
O céu...» Não, sumo Jove, eu lhe perdoo,
Eu perdoo ao meu bem; não, não me vingues!
Antes aos puros luminosos dias
De que ela goza em paz, antes, oh nume,
Une os dias de gosto, e de ventura,
Que eu desfrutara, se a cruel não fosse!