Elegias e Epicédios
À lamentável morte do sereníssimo senhor D. José, príncipe do Brasil
(Escrita em Macau)
Levou a cruel Morte, sem ter pejo
Aquele belo moço, a quem tributo
Esperavam pagar o Indo, e o Tejo. (Bernardes, Ecl. I)
Aquele belo moço, a quem tributo
Esperavam pagar o Indo, e o Tejo. (Bernardes, Ecl. I)
Eu vos saúdo, oh túmulos anosos,
Onde a Tristeza c'o silêncio mora
Entre cinzas, e espectros pavorosos:
Salve, bosque medonho, onde a canora
Filomela infeliz a injúria antiga
No curvo ramo solitária chora:
Oh Noute, cujo véu meus ais abriga,
E vós, Manes, Fantasmas, sócios d'ela,
Vede a que extremos a paixão me obriga!
Paixão louvável, justa, e não aquela,
Que às almas a razão, e a liberdade
Destrói, da vida na estação mais bela.
Mudos objetos, feia soledade,
Só vós encheis meu sôfrego desejo:
Longe, longe de nós a claridade.
Porém que escuto, oh céus! Oh céus! Que vejo!
Ah Musa minha!... És tu? Vem, vem, pranteia
O caso, que gelou de mágoa o Tejo.
Velemos sobre a fria, agreste areia,
Enquanto nos ornados aposentos
Venturosos mortais o sono enleia.
Vê, se é próprio o lugar para lamentos,
Repara: que espetáculo! Que espanto!
Mochos! Larvas! Ciprestes! Monumentos!
Celebrem nossos ais, e nosso pranto
O comum benfeitor (ah negra sorte!)
O herói pio, em quem Lísia perdeu tanto:
Aquele fruto singular, que a morte
Arrancou de alta planta generosa,
Que Deus abençoou no tronco forte;
Aquele, cuja face majestosa
Inda entre as mais gentis se distinguia,
Qual entre as flores se distingue a rosa;
Aquele, que te honrou, sabedoria,
Que tantas, tantas vezes, oh pobreza,
A víbora fartou, que te roía;
Aquele, que do cume da grandeza
Baixava a consolar-nos, atentando
Que todos somos uns por natureza;
Aquele gênio raro, afável, brando,
Que está na etérea abóbada fulgente
Astro novo, entre os astros cintilando;
Aquele, que era o pai da lusa gente,
Nosso bem, nosso amor, nossa esperança,
Príncipe n'alma, príncipe excelente;
José, que em doce paz no céu descansa,
Enquanto o povo seu, já delirante,
Em vãs, perdidas lágrimas se cansa.
Triste povo! E mais triste eu, que distante
Não pude acompanhar teu choro aflito
N'aquele amargo, lutuoso instante!
Triste povo! E mais mísero eu, que habito
No remoto Cantão, d'onde, Ulisseia,
Não pode a ti voar meu débil grito!
Misérrimo de mim, que em terra alheia,
Cá onde muge o mar da vasta China,
Vagabundo praguejo a morte feia!
Que rigorosa lei, que horrível sina
Me estorvou que escutasse os ais extremos
D'aquela alma real, antes divina?
D'aquele augusto peito, onde vivemos,
D'aquele coração, que idolatramos,
D'aquele benfeitor, que já perdemos!
Mas pois que nós, oh Musa, não logramos
O doloroso bem de estar presentes
Ao fim do moço herói, que tanto amamos:
Já que não vimos consternadas gentes
Ferindo os rostos, e ferindo os ares
Com frenéticas mãos, com ais ardentes:
Já que não vimos nos pomposos lares
A meiga mãe, carpindo, ora ante o leito
Do filho, ora do Imenso ante os altares;
Já que não vimos de paixão desfeito
O fiel coração da esposa amante
Em lágrimas sair do ansioso peito;
Já que não vimos o preclaro infante,
Prezando mais o irmão, que a monarquia,
Traçar a interna mágoa no semblante;
E o bom príncipe, enfim, já na agonia,
Estas vozes soltar, balbuciente,
Pondo os olhos na esposa, que o perdia:
«A mão, que nos uniu tão docemente,
Ordena, amada, que de ti me aparte:
Seja feita a vontade omnipotente.
Despindo o pó, minha alma alegre parte;
Mas crê, que, voluntária, só pudera,
Querida esposa, por um Deus trocar-te;
Não chores, não suspires... ah! Pondera
Que o teu amado, o teu contentamento
Não morre, vai viver lá n'outra esfera;
Chamado ao sumo bem do firmamento,
Vou morar entre os justos, por clemência
D'aquele, que subjuga o mar, e o vento.
Louva, louva comigo a providência,
A sacrossanta lei, que tem disposto
Esta do mundo necessária ausência.
Nadando em mares de inefável gosto,
Vendo os coros angélicos sagrados,
Em cada rosto lograrei teu rosto.
Poder, que move os céus, que rege os fados,
Há de aplacar a dor, que te flagela,
Anuir a meus rogos inflamados...
Deixa voar minha alma, oh alma bela,
Adeus... Pai... Redentor... sê... sê comigo...
Adeus...» Eis expirou nos braços d'ela.
Já que não pude, oh Musa, este castigo,
Este dano, fatal à humanidade,
Contigo ver, e deplorar contigo:
Pela imaginação, pela saudade
A nós (tristes de nós!) se represente
O efeito da geral calamidade.
A mente o pinte; que não pode a mente?
Como se goza o bem no pensamento,
Também no pensamento o mal se sente.
Oh colossos de aéreo fundamento!
Fantasmas, ilusões, que o mundo preza!
De que servis no fúnebre momento?
Porque blasona a túmida grandeza,
Se é vítima do abutre carniceiro,
Filho do inferno, horror da natureza?
Que bens herdamos nós do pai primeiro?
A culpa? A morte? Abominosa herança!
Mal haja o negro monstro lisonjeiro.
Ai prole da magnânima Bragança,
Quão cedo te sumiu na eternidade
A pavorosa mão, que os raios lança!
Cometeste sacrílega maldade,
Para... ah! Cessa, mortal, mortal insano,
Treme, ajoelha, adora a divindade!
Não pode (a Razão diz) ser um tirano
Esse, que fez o barro inteligente,
Que o filho deu por ti, gênero humano.
O rei dos reis, o padre omnipotente
Alma, que o mundo vil não merecia,
Consigo quis no céu resplandecente.
Cala-te, oh dor!... Silêncio, oh agonia!...
E vós, que os prantos da paixão mais nobre
Verteis do morto herói na cinza fria;
Vós, que beijais o mausoléu, que o cobre,
Oh lusos! Consolai-vos: inda temos
Quem preze o sábio, quem socorra o pobre.
Basta, basta, não mais, não mais extremos:
No irmão vereis José ressuscitado,
João restaurará quanto perdemos.
Inda há de ser por todos tão cantado
O novo sucessor no trono augusto,
Quanto José no túmulo é chorado.
Nação, fiel nação, desterra o susto:
Outro herói, outro Atlante a monarquia
Nos firmes ombros susterá robusto.
E tu, mãe do teu povo excelsa, e pia,
Que inda desfeita em lágrimas contemplo
Na revolta, enlutada fantasia:
Sobe, constante, da Memória ao templo;
Lá vale mais que um cetro uma alma forte,
Sê da conformidade o santo exemplo.
À triste, cara irmã, que invoca a morte,
Vai docemente o pranto reprimindo;
Pinta-lhe a glória do feliz consorte,
Que entre os anjos está, cantando, e rindo.