Endechas
A gruta do Ciúme
Há um cerrado bosque
Aquém do abismo eterno,
Vê-se o vapor do inferno
Nos ares negrejar;
Ali rebentam, crescem
Mil plantas venenosas,
Mil serpes tortuosas
Ouvem-se ali silvar;
Rochedos escabrosos
As nuvens ameaçam;
Rios por eles passam,
Medrosos de os tocar;
Ali tremula a rama
Do teixo, e do cipreste,
Fermenta estígia peste,
Que as almas vem danar;
De infestas, roucas aves
O bando ali se acouta,
Que está de mouta em mouta
Desastres a agourar;
As asas não meneias,
Ali, Favônio brando,
Tufões de quando em quando
Só se ouvem rebramar.
Ali umas com outras
As árvores se fecham,
De sorte que não deixam
Do dia a luz entrar;
A custo ali respira,
Cercada a Natureza
De horror, e de tristeza,
Capaz de a sufocar;
Ali, sempre aclarado
Pelo tartáreo lume,
Jaz do cruel Ciúme
O temeroso lar.
Na aborrecida entrada
Vela a mordaz Suspeita,
Continuamente afeita
A crer, e a recear;
No seio da caverna
A torpe Inveja escura
Frenética murmura,
Venenos a espumar:
Sente-se lá no fundo
Da estância sinuosa
Caterva pavorosa
De monstros ulular:
N'um férreo trono em brasa
Reina o Ciúme horrendo,
Angústias mil tecendo,
Para os mortais tragar:
Na mão tem negra taça
Cheia do fel da morte,
Com rábido transporte
Não cessa de arquejar;
Ara fatal ao mundo
Terror n'um canto inspira,
Sulfúrea, ardente pira
N'ela se vê fumar;
N'ela milhões d'amantes
Vão por destino infausto
Ser mísero holocausto,
As veias esgotar;
Ministro carrancudo
Frio cutelo amola,
E as vítimas degola
Sobre o medonho altar.
Vós deveis crer, humanos,
Que a descrição, que ouvistes,
É de quem foi tão tristes
Objetos contemplar.
Ah! Sim, já tenho sido
Pelo tirano alado
Mil vezes arrastado
Ao hórrido lugar;
E se eu, mortais, não pude
Como puderam tantos,
Em sangue, em ais, em prantos
O espírito soltar;
Foi porque Amor cruento
Não quis que extinto eu fosse:
Achou que era mais doce
Morrer do que penar.