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Idílios e Cantatas

Armia

JOSINO
Salve, meu caro Elmano, enfim voltaste
D'Scalabis aos campos, onde outr'ora
Cantando os versos teus nos encantaste.
Porém que avesso te diviso agora
Do que estavas então! Fere-te o peito
Interna mágoa, que se vê por fora.
Pastor, às musas, e à ternura afeito,
Que mal te aconteceu? Talvez padeces
O de amor, a que tudo está sujeito?
Elmano, o antigo Elmano (ah!) não pareces;
Conta-me, por quem és, o teu desgosto;
Quanto o devo sentir já tu conheces.
ELMANO
Banhai-me sempre, lágrimas, o rosto,
Té que este corpo mísero, e cansado
Tenha na fria sepultura encosto.
Choremos, coração desenganado,
Chorai, ninfas gentis, gentis Amores,
Com lágrimas de sangue o nosso estado.
Oh céus! Oh rio! Oh árvores! Oh flores!
Eis o mais consumido, o mais saudoso
Entre a turba infeliz dos amadores.
JOSINO
Refreia o terno pranto copioso,
E co'um peito fiel reparte, amigo,
Danos, que te granjeia o fado iroso.
Se és qual foste, qual fui, qual sou contigo,
Dize-me a tua mágoa, o teu segredo,
Que no meu coração terá jazigo.
Como que nos acena este arvoredo,
Movendo-se tão manso que parece
Estão soprando os Zéfiros a medo.
Sentemo-nos: contado o mal decresce;
A queixa é natural; e a filomela
No raminho cantando a pena esquece.
Imita, meu pastor, o exemplo d'ela;
Do peito amargurado a voz desata:
Que pastora te aflige, ingrata, e bela?
ELMANO
Pastora bela sim, mas não ingrata,
Dá motivo a meu pranto, a meu tormento;
Não mata de rigores, de amores mata.
No momento em que a vi (fatal momento!)
Para seus olhos meigos me voaram
A vontade, o prazer, e o pensamento.
Eles a noute carrancuda aclaram,
N'eles as Graças vivem, n'eles moram
Os que ardentes farpões em mim disparam.
D'eles o céu, e a terra se namoram,
Serenos como as águas em remanso,
Lindos no gosto, e lindos quando choram.
Dei por eles meu siso, e meu descanso,
Custam-me esta saudade, esta agonia,
E os ais, que sem proveito aos ares lanço.
JOSINO
Torno a dizer: — se extremos de algum dia
Inda te não passaram da memória,
Claramente de mim teus males fia.
D'este queixoso amor a inteira história,
Dando-te a dor lugar, saber quisera:
Crê que a ninguém por mim será notória.
ELMANO
Se da amizade a força me não dera
Causa, oh Josino, a declarar qual ando,
Também meu mal por mim ninguém soubera.
Lá onde o Tejo teu, que vai manando
Tão claro para o mar, se dana, e torna
Em salgado e feroz, de doce e brando;
Vasta planície de árvores se adorna,
Junto de um fresco vale, onde sereno
Murmurante cristal no chão se entorna:
Dos Arroios se chama o vale ameno;
Além d'ele o casal tem n'um recosto
Armia, por quem ardo, e por quem peno.
Ela, e Felisa, em voz, em modo, em rosto,
Em tudo, sendo irmãs, diferem tanto
Como em calor difere Abril de Agosto.
A fama, que por lá ganhei no canto,
Os meus laços teceu, guiou-me um dia
À minha desventura, ao meu encanto.
De ouvir-me curiosa a mãe de Armia
Roga a dous sócios meus, Montano, e Fido,
Me levem ao casal onde vivia.
Segui-os, fui, olhei, fiquei perdido
D'amores e desejos por aquela,
Que nunca fugirá do meu sentido.
Descansei mansamente os olhos n'ela;
Mudo lhe expus meu mal, e a vi, e achei-a
Fagueira, maviosa, além de bela.
Já leda nos meus versos se recreia,
Minha lira lhe apraz, e em meus louvores
Não sofre se antecipe a língua alheia.
Calados, mas dulcíssimos favores
Desfruto do meu bem, e ambos sentimos
Os brandos corações arder de amores.
Ligados desde a hora em que nos vimos,
Fomos passando o tempo em doce estado,
Em furtiva ternura, e cautos mimos.
Da mãe, e irmãos d'Armia era prezado,
(Irmãos, porque esquecia o moço Anselo,
Que sempre então me desejava ao lado!)
Porém tu, da inocência atroz flagelo,
Tu, oh calúnia vil, n'um fero instante
Nos foste malograr tanto desvelo.
Ditosos n'este amor igual, constante,
(Turbado às vezes só pelo ciúme,
Necessária pensão do peito amante)
Dávamos ternos ais, e algum queixume,
Sem recear mudanças da ventura,
Vária por gênio, vária por costume.
Eis se arma em nosso dano, eis se conjura
Contra a nossa alegria um maldizente,
Tão mordaz como as feras da espessura.
Péssima produção de má semente,
Ínfimo pegureiro, o vil Domício,
Que d'ali longo tempo andara ausente,
Era por compaixão, por benefício
Aceito, recebido, agasalhado
Nos lares onde Amor me foi propício.
Em baixas cantilenas mal versado
Às vezes, mas debalde, usar queria
Das Musas imortais o dom sagrado.
Este, pois, com sagaz aleivosia
(Sem que jamais de mim provasse ofensa)
Um sedutor me finge à mãe d'Armia.
Ela acredita o monstro; em raiva intensa
Arde contra a paixão, que em nós conhece,
Olha-nos já com ríspida presença.
Claro de dia em dia o tédio cresce,
Converte-se em rigor o afago d'antes,
Tudo nos desampara, e nos empece.
Nós desvalidos, míseros amantes,
Com disfarces em vão cegar queremos
A cuidadosa mãe, e os circunstantes.
Todos a nosso amor contrários vemos:
Comigo desleais Montano, e Fido
Condenam quais delitos meus extremos.
Para tormentos mil eu fui nascido;
Quis sofrer o pior, sacrificar-me
Àquela, que me tinha ali rendido.
A furto não deixava de animar-me,
Dizendo-me: «Tolera a mãe raivosa,
Até que o tempo as fúrias lhe desarme.»
Mas vendo, a seu pesar, minha alma ansiosa
Que de alguns dons, que devo à Natureza,
O desconto me faz Fortuna irosa;
Ousado me arrojei a estranha empresa;
Fugi subitamente ao caro objeto,
Para evitar-lhe a maternal dureza.
No peito a dor, e a palidez no aspecto,
Morrer longe de Armia amante, e bela,
Era ao princípio meu feroz projeto:
Mas o fervente amor, que me desvela,
Me disse ao coração que não perdesse
A glória, o bem de padecer por ela.
À morte eu antepus este interesse:
(Se alguém a si prefere a sua amada,
O fiel, o estremado amante é esse!)
Em fugir ao meu bem vi requintada
Esta acesa paixão, que me transporta,
Paixão, que é tão leal quão desgraçada!
E dado todo à mágoa, que me corta
O triste coração, sem tino a mente,
Com alma esmorecida, ou quase morta;
Deixo aqueles contornos de repente,
Desertos, solidões achar desejo,
Onde as aves da noute andem somente.
Mil vezes canso, vezes mil forcejo
Por caminhar no mato, onde me entranho,
E enfim (sem saber como) aqui me vejo.
JOSINO
Com lágrimas as tuas acompanho;
Mas a quem, meu pastor, conhece o mundo
Nenhum mal como o teu se faz estranho.
A sólida exp'riência em que me fundo
Bravezas das paixões em mim quebranta,
Salvando-me de um pego tão profundo.
Amor nos multiplica, e nos encanta,
Docemente ligado à natureza,
Os homens, os mortais ao céu levanta:
Mas se influi o prazer n'uma alma acesa,
Às vezes todavia em nós se aferra,
Qual monstro de ímpia garra, aguda presa.
O velho Auliso não treslê, não erra
Em dizer, e afirmar que amor é fogo,
Fogo devorador de toda a terra.
Mas cumpre haver, Elmano, um desafogo,
Um corte nas paixões. Valor, constância,
Não chores, cai em ti, cede a meu rogo.
Os males diminui a tolerância;
De amor o ativo incêndio se modera
C'os auxílios do tempo, e da distância.
Atento n'este prado a dor tempera;
Vê como brilha na planície amena
A vistosa estação da primavera.
Olha a corrente como vai serena,
Ouve quão branda pelos ares soa
Das aves a amorosa cantilena.
ELMANO
Primeiro que este mal, que me magoa,
Cesse de me afligir, serão gostosos
Os ecos do trovão, que o mundo atroa:
Serão sem graça os pássaros mimosos,
As estrelas sem luz, sem pranto a aurora,
Bravos os cabritinhos buliçosos.
JOSINO
Não te quero oprimir, pranteia embora;
Mas em penhor de afeto, ao puro amigo
Ao menos um prazer concede agora.
Acompanha meus passos, vem comigo,
Que já são horas de acolher-se o gado.
ELMANO
Sim, Josino fiel, eu vou contigo;
Mas sofre lamentar-se um desgraçado.

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