Idílios e Cantatas
Ulina
De Pedrouços na praia extensa e fria,
Quando, extinguindo os astros, apontava
No corado horizonte a luz do dia:
Sozinho um pescador se lamentava,
Enquanto na tenaz fateixa preso
Seu batel sobre as ondas flutuava:
D'amores o infeliz perdido, aceso,
Derretia-se em lágrimas queixosas,
Provando amarga dor, cruel desprezo.
Ulina, irmã das tágides formosas,
E inveja das irmãs, a bela Ulina,
Lhe motivava as ânsias lastimosas.
Em seus olhos gentis, com que domina
Rendidos corações Amor tirano,
Em sua linda face, e voz divina,
Perdera a liberdade o terno Elmano
(Assim se nomeava o triste amante,
Que ainda não cedia ao desengano).
«Oh tu (clamava o cego, o delirante)
Filha das ondas, como as ondas pura,
E também como as ondas inconstante!
Que mal te fiz, que mal? Porque tão dura
Negas doce atenção, doce piedade
Aos ais de amor, aos prantos da ternura?
Se és prole de Nereu, se és divindade,
De feia ingratidão como te infamas,
Vício, que enche de horror a humanidade?
Que prêmio dás ao coração, que inflamas?
Teu prazer, teus amores me chamaste,
Teu ódio, teu desgosto hoje me chamas.
Risos e afagos em desdéns trocaste,
Risos e afagos mil, com que os sentidos,
Com que os livres sentidos me enlaçaste.
Meu canto foi suave a teus ouvidos,
Hoje aos ouvidos teus somente é grato
O rouco, inútil som dos meus gemidos.
As lágrimas de amor, que em vão desato,
Amarguras, que em míseros clamores
À terra, ao vento, ao mar, e ao céu relato,
Dobram-te as iras, cevam-te os rigores;
E debalde a teu lado estão carpindo,
Chamando-te à piedade os meus amores:
De meus ais, de meu mal tu, ímpia, rindo,
Tens por timbre, por glória a tirania,
Manchas co'um gênio fero um rosto lindo.
Noute, mais clara para mim que o dia,
Minha prisão forjou, quando eu folgava
No regaço da paz, e da alegria.
Ferindo a lira, ao ar meus versos dava
N'esta lustrosa praia; a branda lua
Lá no cume dos céus então brilhava.
Eis sobre as águas límpidas flutua
Das ninfas o tropel, e Amor me of'rece
O sereno esplendor da face tua;
Confusamente aos olhos me aparece
Entre as mais; e um sagaz presentimento
De todas por melhor te reconhece.
Levaste-me na voz o pensamento;
Sendo, oh ninfa, o momento de escutar-te
Da minha perdição fatal momento.
Vieste sobre a margem reclinar-te,
Jurando que meus sons encantadores
Puderam d'entre as ondas arrancar-te.
Absorto me deixaram teus louvores,
E o ver das belas ninfas a mais bela
Mover-se à rude voz dos pescadores.
Que noute para mim, que noute aquela!
Tempo, que tudo estragas, e devoras,
Ah! Não me roubes as memórias d'ela.
Horas do meu prazer, benignas horas,
Ao menos consolai na ideia um triste,
Tende sequer fantásticas demoras.
Oh céus! Com quanto júbilo me ouviste,
Minha adorada Ulina, e quão mimosa
Que volvesse a teus olhos me pediste!
Que vezes n'esta praia deleitosa
(Que ufana de gozar teu meigo rosto
Mais fresca se tornava, e mais formosa)
Pintaste em brando olhar o amor, e o gosto!
Vieste, encanto meu, lograr comigo
As amenas manhãs do claro Agosto!
Venturas, que idolatro, e que não digo,
Altas venturas, em que trago a mente,
O carinhoso Amor me deu contigo.
Ah! Que nunca o prazer foi permanente;
Arremeda o relâmpago a alegria,
É tão fugaz como ele, e tão luzente.
Quando serenas glórias possuía,
E erguido ao céu d'Amor meu pensamento
Do térreo mundo vil já nada via,
Agros zelos traçaram n'um momento
A minha desventura, e quis a Sorte
Fartar-se nos meus ais, no meu tormento.
Qual súbita rajada aguda, e forte,
Que ao ledo, ao descuidado navegante
Esperança e baixel destrói co'a morte;
Tal para meu amor foi outro amante,
Que por ti, ninfa ingrata, olhado apenas,
Viu terno acolhimento em teu semblante.
Desde então me aborreces, me condenas,
Do desdém, do ciúme, e da saudade
Às negras aflições, às duras penas.
Horrenda, carrancuda tempestade,
Que rebenta nas rochas, e enegrece
Dos mares, e dos céus a claridade,
À que tolero em mim não se parece:
Em breve aquela afrouxa, e se abonança,
N'esta, de dia em dia, a fúria cresce.
Mas oh cruel, tristíssima lembrança!
Se ao menos de outro o mérito murchasse
A meus vivos desejos a esperança!
Se outro, digno de ti, me despenhasse
N'este abismo de horror, n'esta agonia,
E os prazeres em flor me desfolhasse,
Desculpara a traição, a aleivosia,
A soberba, o desdém com que me tratas,
Quando fagueiro amor te merecia:
Porém de puros laços te desatas,
E n'um sórdido nó tua alma prendes,
Exemplo das cruéis, e das ingratas.
Esse rival objeto, a quem te rendes,
Não sabe em mole verso harmonioso
Cantar-te as perfeições, com que me acendes:
Não é constante, férvido, extremoso;
Pranto de amor aos olhos não lhe acode,
Não conhece o que vale um ai piedoso.
As redes, e os anzóis apenas pode
Introduzir no mar co'a mão bisonha,
E a isca preparar, que o peixe engode.
Oh quanto me envilece, e me envergonha
Esta amargosa ideia! Oh céus!... E é crível
Que Ulina um torpe amante me anteponha!
Ciúme abrasador, paixão terrível,
Deixa-me; — oh tu, Razão, Razão sagrada,
Presta-me auxílio, torna-me insensível!
Na mente por amor incendiada
Apaga, desvanece-me os encantos,
As graças, e o poder da minha amada.
Rompa-se um jugo, tão penoso a tantos,
Corre... mas ai de mim, que em vão te imploro
És surda a minhas preces, a meus prantos.
Não, não me atendes; e a infiel, que adoro,
Se paga, e se gloria, e se recreia
Com as perdidas lágrimas, que choro.
Oh tu, que lambes a ditosa areia,
Onde gozei mil gostos, mil favores,
Mar, que a muda bonança agora enfreia!
Propício à minha dor, e a meus clamores
Sacode a mansidão: tu, rei dos ventos,
Teus monstros solta, excita-lhe os furores.
Travem raivosa guerra os elementos,
Enquanto no alto pego a sepultura
Escolho, por fugir aos meus tormentos.
Noturnas aves da morada escura
Venham, voando, aqui carpir de dia
Os rigores de Ulina ingrata, e dura.
Amor, que tantos bens me prometia,
Quebre os cruéis farpões, que me abrasaram,
Lance um ai de piedade, e de agonia.
Os delfins, os tritões, que me espreitaram
Mil vezes de sentidos, de invejosos,
Quando amorosas ditas me encantaram,
Agora enternecidos, maviosos,
Vejam como perece um triste amante,
Por culpa só de uns olhos tão formosos.
Brilhe alegre sorriso em teu semblante,
Origem de meu mal, doce inimiga,
Surge a ver-me, entre as águas flutuante.
Graças ao mar piedoso, à morte amiga;
Ingrata, o seu poder (pois não te abrando)
Ao menos dos teus laços me desliga.»
Disse; e com turvos olhos foi trepando
Ao agro pico de rochedo ingente,
Que as ondas porfiosas vão cavando.
Para os céus ergue a vista, e de repente
Se arroja, se despenha o desgraçado,
Vítima da paixão, do mal que sente.
Eis que do seio do licor salgado
Salta a ninfa gentil, mimosa, e nua,
Dos ternos olhos seus objeto amado.
«Espera, caro amante! Inda sou tua!
(Exclama, e transportada as mãos lhe lança,
O infeliz arrancando à morte crua):
«Espera, torna em ti, não há mudança
No meu cândido amor; de vãos ciúmes
Com fingida traição tomei vingança.
Não cometo a perfídia, que presumes,
Sou qual fui, sou fiel...» (E orvalha em tanto
De chorosa piedade os puros lumes).
À voz, e à vista do seu doce encanto
No ansioso pescador, no amante aflito,
Qual foi a confusão?... Qual foi o espanto?...
De prazer desmaiou soltando um grito,
E a ninfa padeceu no susto a pena
Do suposto, fantástico delito:
Suspirando o conduz à praia amena,
Onde lhe dá dulcíssimos instantes...
De puros gostos inefável cena,
Sempre te gozem corações amantes!