Idílios e Cantatas
Tritão
Onia vincit Amor. (Virgil., Eclog. X)
À Foz do Tejo, em bronca penedia
Minada pelas ondas salitrosas,
Prisioneiro de Amor, Tritão gemia.
Luziam-lhe as espadoas escamosas,
Sustentava o marítimo instrumento,
O búzio atroador nas mãos calosas:
Conchas da cor do líquido elemento
Parte do corpo enorme lhe vestiam,
Igual na ligeireza ao próprio vento:
Da barba salsas gotas lhe caíam,
E nos olhos, que amor afogueava,
Em borbotões as lágrimas ferviam.
Lília, que um bosque próximo habitava,
Lília a Napeia, desdenhosa e bela,
Amorosos clamores lhe arrancava:
Um dia a viu na praia, e só de vê-la
Seu coração feroz enfeitiçado,
Voou, gemendo, para os olhos d'ela,
Das entranhas do pélago salgado,
Louco de amores, louco de saudades,
O queixoso amador tinha saltado:
Do pai, que abafa as negras tempestades,
Já seu voraz tormento era sabido,
E das outras equóreas divindades.
De aéreas esperanças iludido,
Gran tempo seu espírito saudoso,
Rastejando a cruel, vagou perdido;
Gran tempo glórias vãs sonhou, teimoso,
Antes que desse frutuosa entrada
Ao acre desengano o peito ansioso.
Já pela transparente, imensa estrada
No coche rutilante o Sol corria
Após a Aurora cândida, e rosada,
Quando envolto nas sombras da agonia
Ao vento derramava o deus amante
Tais queixas, que eu não longe oculto ouvia:
«Lília! Lília! Ah cruel! Ver um instante
Teus olhos garços, tuas louras tranças
Para meu lenitivo era bastante.
Ardo, choro, e não vens, e não te amansas!
Oh céus! Talvez nos braços cabeludos
De vil, bicórneo Sátiro descansas?
Fera, pior que os jacarés sanhudos,
Rirás talvez com ele, enquanto abalo
Com meus suspiros os penhascos mudos!
Ah! De zelos frenéticos estalo,
E doces ilusões desvanecendo,
Na desesperação o inferno igualo.
Quantas serpes contêm seu bojo horrendo
Vem cravar-me o letal, maligno dente
Pelas entranhas, que me estão fervendo.
Como te sofre o céu, como consente
Que ultrajem teus desdéns a prole augusta
Do númen, que maneja azul tridente!
Não ponderas quem sou, bárbara injusta!
Se o meu rendido amor te não comove,
Nem meu grande poder sequer te assusta!
No mar à minha voz tudo se move:
Eu aos deuses undívagos intimo
Altos decretos do cerúleo Jove:
De Éolo as fúrias em tão pouco estimo,
Que até na horrível, sinuosa gruta
Com cem cadeias os tufões lhe oprimo:
Muge o mar, treme a terra, o céu se enluta
Apenas, tempestade apregoando,
Este meu búzio côncavo se escuta:
Também, se quero, os duros sons lhe abrando;
E os magos versos do cantor de Trácia
Vou no rijo instrumento arremedando;
E desprezas-me ainda, e tens a audácia
De rejeitares com soberbo enfado
O filho de Netuno, e de Salácia!
Em que, ninfa cruel, te desagrado?
Que te afugenta? As lúcidas escamas,
As verdes conchas, de que estou forrado?
Pois isto, que, por feio, em mim desamas,
E que te obriga a nunca me escutares,
Gera em mais dócil peito ardentes chamas.
Oh quantas vezes sai dos vítreos lares
Só para ver-me Arginia, que, em se rindo,
Enfreia os ventos, agrilhoa os mares!
A Dóris, à benigna mãe fugindo,
Brando afago me traz no lácteo rosto:
O teu vaidosa, o teu não é mais lindo;
Mas a seus doces mimos sempre oposto
Acha meu coração, que foge d'ela,
E vem sacrificar o amor ao gosto.
Debalde a triste ninfa se desvela
Em finezas, e em lágrimas, que tudo
Enjeito por amar-te, oh dura, oh bela:
Com semblante enrugado, e carrancudo,
Lhe atalho os ternos ais, e, se porfia,
Ou as costas lhe volto, ou fico mudo.
Oh pasmo! Nem Proteu pensar devia
Que eu por uma campestre semideia
A prole de Nereu desprezaria.
Mas ah! Já sinto Amor, que me refreia
A petulante voz. — Não mais, perdoa
À desesperação, gentil Napeia:
Para meus braços amorosos voa,
Voa, e verás então, que alegres hinos
Meu rude búzio, respirando entoa.
Depois de ouvires os meus sons divinos,
Mergulhando comigo, irás sem medo
Aos majestosos paços netuninos;
Lá no seio de um côncavo rochedo
Jaz de meu pai a esplêndida morada,
D'onde para te ver saí tão cedo:
De ouro, e safiras altamente obrada,
E de lustrosas conchas de mil cores
Com mimoso artifício variada,
Atrairá teus olhos, e os Amores,
Que te acompanham, lograrão, pasmados,
Mais prazer entre as águas, que entre as flores:
Ali sobre diáfanos estrados
Oh Lília, a par de Tétis, e Anfitrite
Repousarão teus membros delicados:
Em honra tua festival convite
Farei aos pátrios deuses: o meu gosto
Nos mesmos imortais inveja excite:
Meu venerando pai, no sólio posto,
Com grave riso, e plácida alegria
A senil ruga alisará no rosto:
Rubros corais, fulgente pedraria
Te of'recerá nos cândidos regaços
A chusma das Nereidas à porfia:
Aquela mesma, que em gostosos laços
Pretende unir-me a si, teus olhos vendo
Confio que te aperte entre seus braços:
Tanto poder terás! Ah! Vem correndo,
Que já seus raios de ouro o Sol dardeja
Do etéreo carro, o mundo esclarecendo:
Punge os Etontes, como que deseja
A queda antecipar nas águas, onde
De perto, oh ninfa, tuas graças veja.
Vem, pois, encanto meu, vem, corresponde
Ao fervoroso amor, em que me inflamo,
Sai d'entre a basta selva, que te esconde.
Mas ai, que em vão te rogo, em vão te chamo:
Nem fazes caso de meu ser divino,
Nem das lágrimas tristes, que derramo.
Peito insensível, peito diamantino,
Às maviosas preces da ternura
Não amaciam teu rigor ferino.
Ah! Basta de cegueira, e de loucura,
Basta de suspirar, paixão funesta:
Quem há de n'uma penha achar brandura?
Víboras, que jazeis n'essa floresta,
Vingai-me, envenenai c'o tênue dente
A ingrata, que me foge, e me detesta:
Sinta rábidas ânsias, como sente
Meu triste coração, de amor ferido,
Atassalhado de pior serpente...
Mas não. Fúrias do inferno, eu vos convido!
Sois mais dignas de mim: de vós se vale
Um deus irado, um deus escarnecido:
Rebentai do vulcão, que o mundo abale,
E a peste, que exalais do peito horrendo,
O férreo coração de Lília rale!»
Calou-se, e do alto escolho à pressa erguendo
O formidável corpo, inda mais alto,
E as negras mãos, frenético, mordendo,
Por entre as ondas se abismou de um salto.