Ir para o texto
Biblioteca

Idílios e Cantatas

As Tágides

De Sadino, e Tagano os vãos clamores
Em tosco verso renovar desejo,
Ambos amantes, e ambos pescadores.
Parece-me que ainda os ouço, os vejo,
Como quando escondido os espreitava
Onde, salgado já, sussurra o Tejo.
No regaço de Tétis descansava
O louro Febo, à porta do ocidente
A Noute sobre o carro negrejava;
Ia para os casais a rude gente;
Só do curto batel os dous soltavam
Queixas, lágrimas, ais inutilmente:
Morriam de saudades, suspiravam
De amor por Dinopeia, e por Armia,
Que entre o coro das tágides brilhavam.
O choroso Tagano a voz erguia,
E Sadino após ele: eu sempre atento
Decorava entretanto o que lhe ouvia,
E tal era o recíproco lamento:
TAGANO
Armia, no semblante mais serena,
Que o manso Tejo azul, quando nem bole
A tênue viração na tarde amena,
Embalando o raminho curvo, e mole;
Mais ímpia a quem por ti nem olhos cerra,
Que o tubarão no mar, que o lobo em terra:
SADINO
Dinopeia, mais loura, e mais corada,
Que a nuvem da manhã, do sol ferida;
Mais branca, mais gentil, mais engraçada
Que a deusa, que é dos deuses tão querida;
Mais cruel, mais fatal a um triste amante,
Que o canto da sereia ao navegante:
TAGANO
Mil vezes corro a praia, ora apanhando
Conchinhas para ti, bela inimiga,
Outr'ora dos penedos arrancando
Raiados mexilhões, de que és amiga:
As mãos, por te agradar, mil vezes firo,
E nem sequer me sofres um suspiro.
SADINO
Ruivas lagostas, maculosas trutas,
O salmonete, o pâmpano te of'reço
Para atrair-te, para ver se escutas
Parte das penas, que por ti padeço;
Mas se vou dar-t'os, foges de improviso,
E nem sequer me enganas co'um sorriso.
TAGANO
Viste bater no baixo pedregoso
Mísera nau, dos ventos impelida,
Que, aberto o frágil centro cavernoso,
Em breve pelas vagas é sorvida?
Pois, qual a triste nau sobre os escolhos,
Minha alma vim perder n'esses teus olhos.
SADINO
Não tens visto das ondas agitada
A boia, sem parar um só momento,
Ou quem sobre os escarcéus com ânsia nada,
Quase rendido à fúria do elemento?
Pois tal meu coração, por culpa tua,
Em amorosas lágrimas flutua.
TAGANO
Inda, ninfa cruel, não te enternece
Um triste, em pranto, em ais quase desfeito?
Ah! Que não sabes quanto mal parece
Um feroz coração n'um lindo peito,
N'um corpo delicado alma tão dura,
Tanta maldade em tanta formosura!
SADINO
Não basta ainda, oh Tágide, não basta
De ofensas, de rigor, de iniquidade?
Em que peito arderá paixão mais casta,
Do que a minha paixão? Quem na lealdade,
Quem me vence no amor? De um teu benigno,
De um teu suave olhar quem é mais digno?
TAGANO
Querem-se os brutos: amam-se os golfinhos,
E os outros peixes no interior das águas;
Dão-se mil beijos os fiéis pombinhos,
A todos causa amor prazer, ou mágoas:
Só tu, que o seu poder não reconheces,
Nem por Amor te alegras, nem padeces.
SADINO
Gemer o deus da gruta os céus ouviram
Pela filha do mar, mãe dos Amores;
Namorado Netuno as ondas viram,
E ao selvático Pã os seus pastores;
Ardeu também por Ácis Galateia:
Quem te resiste, Amor? Só Dinopeia.
TAGANO
Se por ser pescador te desagrado,
Se o meu sórdido ofício te injuria,
Também com redes Glauco foi criado,
Glauco viveu também da pescaria:
Que importa ser humilde? É deus agora,
Hoje como deidade o mar o adora.
SADINO
Se acaso de meu rosto a cor tostada,
Meus pés grosseiros, meu cabelo escuro,
E esta mão, das escotas calejada,
Me ganham teu desprezo amargo, e duro,
Vê, que nem só na graça, e na beleza
Faz consistir seus dons a natureza.
TAGANO
Eis por entre as estrelas vem raiando
A alva lua... eia, assome, oh ninfa bela,
Teu brando corpo sobre o Tejo brando,
E sobre o Tejo brilhará mais que ela;
Dá, dá glória a meus olhos... mas ai louco,
Que esfalfo em gritos vãos o peito rouco!
SADINO
Deixa, causa gentil de meus martírios,
Deixa o fundo arenoso, é tempo, amansa
Com tua vista as ânsias, os delírios
D'esta alma, que sem ver-te não descansa;
Vem, pois, e o meigo Amor contigo venha...
Mas triste, com quem falo! Ah! co'uma penha.
TAGANO
Suaves esperanças até'gora
Nutri de amaciar teu gênio duro,
Que por costume ao coração, que adora,
Sempre se representa um bem futuro;
Mas menos cego já, menos insano,
Ouvidos quero dar ao desengano.
SADINO
Até'gora pensei que os teus rigores
À força das finezas cederiam;
Que minhas queixas, lágrimas, e amores
Ao menos compaixão te inspirariam;
Crédulo fui, mas já desenganado
Conheço que o meu mal provém do fado.
TAGANO
Já não te aflijo mais, cruel, sossega,
Repousa, vive alegre, e descansada;
Nunca mais, apesar da paixão cega,
Com meus gritos serás importunada;
Mas teme que dos deuses a vingança
Venha punir tão bárbara esquivança!
SADINO
Já me calo, cruel, já não prossigo
N'estes vãos desafogos da amargura;
Assaz desperdicei meus ais contigo,
Desperdiçá-los mais será loucura;
Mas treme, treme; ainda que te escondas,
O raio vingador penetra as ondas!
Faltos de alento os dous aqui pararam,
Um para o outro olhando,
Em silêncio a chorar continuando:
E depois que esgotaram
De infrutuosas lágrimas o peito,
Se foram recolher no tosco leito.

Sobre esta edição