Sonetos
Aflito coração, que o teu tormento
Aflito coração, que o teu tormento,
Que os teus desejos tácito devoras,
E ao doce objeto, às perfeições que adoras,
Só te vás explicar c'o pensamento:
Infeliz coração, recobra alento,
Seca as inúteis lágrimas, que choras;
Tu cevas o teu mal, porque demoras
Os voos ao ditoso atrevimento.
Inflama surdos ais, que o medo esfria;
Um bem tão suspirado, e tão subido,
Como se há de ganhar sem ousadia?
Ao vencedor afoute-se o vencido;
Longe o respeito, longe a cobardia;
Morres de fraco? Morre de atrevido.