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Sonetos

Bocage · 251 poemas

Sonetos

  1. Incultas produções da mocidade
  2. Chorosos versos meus desentoados
  3. De suspirar em vão já fatigado
  4. Raios não peço ao criador do mundo
  5. Já sobre o coche d'ébano estrelado
  6. Mavorte, porque em pérfida cilada
  7. Ao templo do propício Desengano
  8. Não, Marília, teu gesto vergonhoso
  9. A loura Fílis, na estação das flores
  10. Marília, nos teus olhos buliçosos
  11. Negra fera, que a tudo as garras lanças
  12. De Pafos o menino ardendo em ira
  13. Oh tranças, de que Amor prisões me tece
  14. Já se afastou de nós o Inverno agreste
  15. Grato silêncio, trêmulo arvoredo
  16. Temo que a minha ausência e desventura
  17. Enquanto o sábio arreiga o pensamento
  18. Aflito coração, que o teu tormento
  19. Por esta solidão, que não consente
  20. Marília, se em teus olhos atentara
  21. O corvo grasnador, e o mocho feio
  22. Guiou-me ao templo do letal Ciúme
  23. Ânsias terríveis, íntimos tormentos
  24. Olha, Marília, as flautas dos pastores
  25. Fiei-me nos sorrisos da ventura
  26. Arde em vão por Elisa, em vão porfia
  27. Há pouco a mãe das Graças, dos Amores
  28. A teus mimosos pés, meu bem, rendido
  29. Os suaves eflúvios, que respira
  30. Esses tesouros, esses bens sagrados
  31. Meu frágil coração, para que adoras
  32. Os garços olhos, em que Amor brincava
  33. Não disfarces, Marília; por Josino
  34. Urselina gentil, benigna, e pura
  35. Em veneno letífero nadando
  36. Do arbusto, oh Nise, a Vênus consagrado
  37. Oh retrato da morte, oh Noute amiga
  38. Vinde, Prazeres, que por entre as flores
  39. Canta ao som dos grilhões o prisioneiro
  40. Entre as tartáreas forjas, sempre acesas
  41. Pela porta de ferro, onde ululando
  42. Triste quem ama, cego quem se fia
  43. Busquei n'um ermo Algânia feiticeira
  44. Importuna Razão, não me persigas
  45. Oh trevas, que enlutais a natureza
  46. No carro de marfim sentada a Lua
  47. Inda em meu frágil coração fumega
  48. Já o Inverno, espremendo as cans nevosas
  49. Mimosa, linda Anarda, atende, atende
  50. Meus olhos, atentai no meu jazigo
  51. Já no calado monumento escuro
  52. Oleno, meia-noute está caindo
  53. Vai-te, fera cruel, vai-te, inimiga
  54. Não temas, oh Ritália, que o choroso
  55. Oh deusa, que proteges dos amantes
  56. Aquela, que na esfera luminosa
  57. Sonhei que a mim correndo o gnídeo nume
  58. Oh céus! Que sinto n'alma! Que tormento
  59. Da minha ingrata Flérida gentil
  60. Tragado o peito de cruéis pesares
  61. Desprega as asas, tímida Esperança
  62. Nise, das Graças e de Amor tesouro
  63. Em que estado, meu bem, por ti me vejo
  64. Eu deliro, Gertrúria, eu desespero
  65. O ledo passarinho, que gorjeia
  66. Oh terra, onde os seus dons, os seus favores
  67. Perverso estragador da formosura
  68. Vendo o soberbo Amor, que eu resistia
  69. Honroso louro o capitão valente
  70. Deitado sobre a relva Amor estava
  71. De cima d'estas penhas escabrosas
  72. Antes eu visse matador cutelo
  73. De emaranhadas cans o rosto cheio
  74. Debalde um véu cioso, oh Nise, encobre
  75. Das faixas infantis despido apenas
  76. Enquanto muda jaz, e jaz vencida
  77. Incense da Fortuna os vãos altares
  78. Minha alma se reparte em pensamentos
  79. Por indústria de uns olhos, mais brilhantes
  80. Em sonhos na escaldada fantasia
  81. Doce nume d'amor, se à bela Armia
  82. O céu não te dotou de formosura
  83. Às margens do Regaça cristalino
  84. Sobre estas duras, cavernosas fragas
  85. Debalde contra Amor seu fel derrama
  86. Tu, que na fouce de sanguíneo gume
  87. Que ideia horrenda te possui, Elmano
  88. Sobranceiro ao poder, e às leis da sorte
  89. Áureo fio sutil, que teve unida
  90. Vem, suspirada, carinhosa Armia
  91. Do cárcere materno em hora escura
  92. Igual ingratidão, e igual vileza
  93. Há um medonho abismo, onde baqueia
  94. Às águas, e às areias d'este rio
  95. Voai, brandos meninos tentadores
  96. Não dês, encanto meu, não dês, Armia
  97. Fatais memórias da traidora Alcina
  98. O céu, de opacas sombras abafado
  99. Sonho, ou velo? Que imagem luminosa
  100. Em verso torneado ao som da lira
  101. Se, vítima da ingrata, e do tirano
  102. Voaste, alma inocente, alma querida
  103. Já de novo a meus olhos aparecem
  104. Nascemos para amar; a Humanidade
  105. A frouxidão no amor é uma ofensa
  106. Nos torpes laços de beleza impura
  107. Perdi tudo (ai de mim!) perdi Marfida
  108. Da rama escura de letal cipreste
  109. Lá onde o Fado impenetrável mora
  110. Quantas vezes, Amor, me tens ferido
  111. Oh tu, consolador dos malfadados
  112. Quando à que me rendeu jurava ufano
  113. Pode o tosco pincel, que mal sustento
  114. Em frágil lenho o pélago cruzando
  115. Quis, Marília gentil, cantar teu dia
  116. Tu és meu coração, tu és meu nume
  117. Quando meu coração de Amor vivia
  118. Noute, amiga de Amor, calada, escura
  119. De homens e numes suspirado encanto
  120. Da fria habitação, da vítrea gruta
  121. Da triste, bela Inês, inda os clamores
  122. De radiosas virtudes escoltada
  123. Olhos suaves, que em suaves dias
  124. Da pérfida Gertrúria o juramento
  125. Por fofos escarcéus arremessado
  126. Qual o avaro infeliz, que não descansa
  127. Enquanto os bravos, formidáveis Notos
  128. Usurpando um minuto a meu lamento
  129. Alva Gertrúria minha, a quem saudoso
  130. Meia noute seria; eu passeando
  131. Sonhei que nos meus braços inclinado
  132. Eu me ausento de ti, meu pátrio Sado
  133. Do Mandovi na margem reclinado
  134. Praias de Sacavém, que Lemnoria
  135. Camões, grande Camões, quão semelhante
  136. Adeja, coração, vai ter aos lares
  137. Ah! que fazes, Elmano? Ah! Não te ausentes
  138. Deixar, amado bem, teu rosto lindo
  139. Não mais, oh Tejo meu, formoso e brando
  140. Já por bárbaros climas entranhado
  141. Aquele, a quem mil bens outorga o Fado
  142. Qual novo Orestes entre as Fúrias brada
  143. Se a minha lastimosa desventura
  144. Oh Deus, oh rei do céu, do mar, da terra
  145. Apenas vi do dia a luz brilhante
  146. No etéreo prado a lua apascentava
  147. Cessarões, Viriatos, Apimanos
  148. Musa chorosa, que por terra estranha
  149. Sobre os contrários o terror e a morte
  150. Ser prole de varões assinalados
  151. Em bando espesso, em número infinito
  152. Blasfema Rumecão, jura vingança
  153. Louca, cega, iludida Humanidade
  154. José, sangue d'heróis, príncipe amado
  155. Por terra jaz o empório do Oriente
  156. Rompe os ares pelouro sibilante
  157. Adamastor cruel! De teus furores
  158. Cala a boca, satírico poeta
  159. Das terras a pior tu és, oh Goa
  160. Preside o neto da rainha Ginga
  161. Não tendo que fazer Apolo um dia
  162. Oh triste malfadada Academia
  163. Sanhudo, inexorável Despotismo
  164. Liberdade, onde estás? Quem te demora
  165. Liberdade querida, e suspirada
  166. A prole de Antenor degenerada
  167. Não sinto me arrojasse o duro fado
  168. N'esta, do feio opróbrio estância feia
  169. Quando na rósea nuvem sobe o dia
  170. Folheando os anais da antiguidade
  171. Idosa fada, que nos astros lia
  172. Quem se vê maltratado, e combatido
  173. Do velho Ertílio, mágico afamado
  174. Elmano, de teus mimos anelante
  175. De noturno, horroroso pesadelo
  176. Nise mimosa, como as Graças pura
  177. Nas horas de Morfeu vi a meu lado
  178. Aceso no almo ardor, que a mente inflama
  179. Bem hajas, oh Morfeu! A fantasia
  180. Na acesa fantasia estou medindo
  181. Excedo lustros seis por mais três anos
  182. Em sórdida masmorra aferrolhado
  183. Tu, que em torpes desejos atolado
  184. Os milhões de áureos lustres coruscantes
  185. Filho, Espírito, e Pai, três e um somente
  186. Oh rei dos reis, oh árbitro do mundo
  187. Se te adornas de sã filosofia
  188. O filho do gran'rei, que a monarquia
  189. Se considero o triste abatimento
  190. Nos campos o vilão sem sustos passa
  191. Tu de quantos dragões o inferno encerra
  192. Tu, por Deus entre todas escolhida
  193. Senhor, que estás no céu, que vês na terra
  194. Miseranda Inocência és nome abstrato
  195. N'este horrível sepulcro da existência
  196. Sonho cruel o espírito inquieto
  197. Minh'alma quer lutar com meu tormento
  198. Vós, crédulos mortais, alucinados
  199. Tenho assaz conservado o rosto enxuto
  200. Não sou vil delator, vil assassino
  201. Queimando o véu dos séculos futuros
  202. Aquele, que domina os céus brilhantes
  203. A frente, que de louro ergui cingida
  204. Aqui, onde arquejando estou curvado
  205. Tão negro como a turba que vagueia
  206. Oh vós que lamentais d'Elmano a sorte
  207. Meus dias, que já foram tão luzentes
  208. Vítima do rigor, e da tristeza
  209. Para as sombras da morte aqui me ensaio
  210. Do Tempo sobre as asas volve o dia
  211. Néscia, vil ignorância, injuriada
  212. Pela voz do trovão corisco intenso
  213. Lá quando a tua voz deu ser ao nada
  214. Um Ente, dos mais entes soberano
  215. Encantador Garção, tu me arrebatas
  216. Ao crebro som do lúgubre instrumento
  217. Sobre o degrau terrível assomava
  218. Oh tu, que tens no seio a eternidade
  219. Já com tênue clarão, já quase escura
  220. Vós, que de meus extremos sois a história
  221. Distrai, meu coração, tua amargura
  222. Tenta em vão temerária conjectura
  223. Amor, que o pensamento me salteias
  224. Quando Anália, o meu bem, que o céu namora
  225. Se é doce no recente, ameno estio
  226. Desejo iluso, e vão! Para que traças
  227. Planta mimosa de louçãos verdores
  228. De um nume aos ais d'Elmano oh dom mimoso
  229. Oh ninfa, que das graças melindrosas
  230. Contigo, alma suave, alma formosa
  231. Cantor, que a fronte erguia engrinaldada
  232. Se o Destino cruel me não consente
  233. Pouco a pouco a letífera Doença
  234. Se na que, morna e lúgubre, murmura
  235. Dura filosofia audaz forceja
  236. Às rígidas lições do férreo Zeno
  237. Em vão, para tecer-me um ledo engano
  238. No abismo tragador da Humanidade
  239. Se o grande, o que nos orbes diamantinos
  240. Meu ser evaporei na lida insana
  241. Já Bocage não sou!... À cova escura
  242. D'Elmano a Musa, que entre imagens vela
  243. D'Elmano antes da morte é morto o canto
  244. Ave da morte, que piando agouros
  245. Nestóreos dias, que sonhava Elmano
  246. Magro, de olhos azuis, carão moreno
  247. De cerúleo gabão, não bem cuberto
  248. Se eu poderá ir de tralha, ir à surdina
  249. Chalaça minha, que chibavas tanto

Idílios e Cantatas

  1. A Ulina (soneto dedicatório)
  2. Soneto dedicatório (ao desembargador Sebastião José Ferreira Barroco)