Sonetos
Sonetos
- Incultas produções da mocidade
- Chorosos versos meus desentoados
- De suspirar em vão já fatigado
- Raios não peço ao criador do mundo
- Já sobre o coche d'ébano estrelado
- Mavorte, porque em pérfida cilada
- Ao templo do propício Desengano
- Não, Marília, teu gesto vergonhoso
- A loura Fílis, na estação das flores
- Marília, nos teus olhos buliçosos
- Negra fera, que a tudo as garras lanças
- De Pafos o menino ardendo em ira
- Oh tranças, de que Amor prisões me tece
- Já se afastou de nós o Inverno agreste
- Grato silêncio, trêmulo arvoredo
- Temo que a minha ausência e desventura
- Enquanto o sábio arreiga o pensamento
- Aflito coração, que o teu tormento
- Por esta solidão, que não consente
- Marília, se em teus olhos atentara
- O corvo grasnador, e o mocho feio
- Guiou-me ao templo do letal Ciúme
- Ânsias terríveis, íntimos tormentos
- Olha, Marília, as flautas dos pastores
- Fiei-me nos sorrisos da ventura
- Arde em vão por Elisa, em vão porfia
- Há pouco a mãe das Graças, dos Amores
- A teus mimosos pés, meu bem, rendido
- Os suaves eflúvios, que respira
- Esses tesouros, esses bens sagrados
- Meu frágil coração, para que adoras
- Os garços olhos, em que Amor brincava
- Não disfarces, Marília; por Josino
- Urselina gentil, benigna, e pura
- Em veneno letífero nadando
- Do arbusto, oh Nise, a Vênus consagrado
- Oh retrato da morte, oh Noute amiga
- Vinde, Prazeres, que por entre as flores
- Canta ao som dos grilhões o prisioneiro
- Entre as tartáreas forjas, sempre acesas
- Pela porta de ferro, onde ululando
- Triste quem ama, cego quem se fia
- Busquei n'um ermo Algânia feiticeira
- Importuna Razão, não me persigas
- Oh trevas, que enlutais a natureza
- No carro de marfim sentada a Lua
- Inda em meu frágil coração fumega
- Já o Inverno, espremendo as cans nevosas
- Mimosa, linda Anarda, atende, atende
- Meus olhos, atentai no meu jazigo
- Já no calado monumento escuro
- Oleno, meia-noute está caindo
- Vai-te, fera cruel, vai-te, inimiga
- Não temas, oh Ritália, que o choroso
- Oh deusa, que proteges dos amantes
- Aquela, que na esfera luminosa
- Sonhei que a mim correndo o gnídeo nume
- Oh céus! Que sinto n'alma! Que tormento
- Da minha ingrata Flérida gentil
- Tragado o peito de cruéis pesares
- Desprega as asas, tímida Esperança
- Nise, das Graças e de Amor tesouro
- Em que estado, meu bem, por ti me vejo
- Eu deliro, Gertrúria, eu desespero
- O ledo passarinho, que gorjeia
- Oh terra, onde os seus dons, os seus favores
- Perverso estragador da formosura
- Vendo o soberbo Amor, que eu resistia
- Honroso louro o capitão valente
- Deitado sobre a relva Amor estava
- De cima d'estas penhas escabrosas
- Antes eu visse matador cutelo
- De emaranhadas cans o rosto cheio
- Debalde um véu cioso, oh Nise, encobre
- Das faixas infantis despido apenas
- Enquanto muda jaz, e jaz vencida
- Incense da Fortuna os vãos altares
- Minha alma se reparte em pensamentos
- Por indústria de uns olhos, mais brilhantes
- Em sonhos na escaldada fantasia
- Doce nume d'amor, se à bela Armia
- O céu não te dotou de formosura
- Às margens do Regaça cristalino
- Sobre estas duras, cavernosas fragas
- Debalde contra Amor seu fel derrama
- Tu, que na fouce de sanguíneo gume
- Que ideia horrenda te possui, Elmano
- Sobranceiro ao poder, e às leis da sorte
- Áureo fio sutil, que teve unida
- Vem, suspirada, carinhosa Armia
- Do cárcere materno em hora escura
- Igual ingratidão, e igual vileza
- Há um medonho abismo, onde baqueia
- Às águas, e às areias d'este rio
- Voai, brandos meninos tentadores
- Não dês, encanto meu, não dês, Armia
- Fatais memórias da traidora Alcina
- O céu, de opacas sombras abafado
- Sonho, ou velo? Que imagem luminosa
- Em verso torneado ao som da lira
- Se, vítima da ingrata, e do tirano
- Voaste, alma inocente, alma querida
- Já de novo a meus olhos aparecem
- Nascemos para amar; a Humanidade
- A frouxidão no amor é uma ofensa
- Nos torpes laços de beleza impura
- Perdi tudo (ai de mim!) perdi Marfida
- Da rama escura de letal cipreste
- Lá onde o Fado impenetrável mora
- Quantas vezes, Amor, me tens ferido
- Oh tu, consolador dos malfadados
- Quando à que me rendeu jurava ufano
- Pode o tosco pincel, que mal sustento
- Em frágil lenho o pélago cruzando
- Quis, Marília gentil, cantar teu dia
- Tu és meu coração, tu és meu nume
- Quando meu coração de Amor vivia
- Noute, amiga de Amor, calada, escura
- De homens e numes suspirado encanto
- Da fria habitação, da vítrea gruta
- Da triste, bela Inês, inda os clamores
- De radiosas virtudes escoltada
- Olhos suaves, que em suaves dias
- Da pérfida Gertrúria o juramento
- Por fofos escarcéus arremessado
- Qual o avaro infeliz, que não descansa
- Enquanto os bravos, formidáveis Notos
- Usurpando um minuto a meu lamento
- Alva Gertrúria minha, a quem saudoso
- Meia noute seria; eu passeando
- Sonhei que nos meus braços inclinado
- Eu me ausento de ti, meu pátrio Sado
- Do Mandovi na margem reclinado
- Praias de Sacavém, que Lemnoria
- Camões, grande Camões, quão semelhante
- Adeja, coração, vai ter aos lares
- Ah! que fazes, Elmano? Ah! Não te ausentes
- Deixar, amado bem, teu rosto lindo
- Não mais, oh Tejo meu, formoso e brando
- Já por bárbaros climas entranhado
- Aquele, a quem mil bens outorga o Fado
- Qual novo Orestes entre as Fúrias brada
- Se a minha lastimosa desventura
- Oh Deus, oh rei do céu, do mar, da terra
- Apenas vi do dia a luz brilhante
- No etéreo prado a lua apascentava
- Cessarões, Viriatos, Apimanos
- Musa chorosa, que por terra estranha
- Sobre os contrários o terror e a morte
- Ser prole de varões assinalados
- Em bando espesso, em número infinito
- Blasfema Rumecão, jura vingança
- Louca, cega, iludida Humanidade
- José, sangue d'heróis, príncipe amado
- Por terra jaz o empório do Oriente
- Rompe os ares pelouro sibilante
- Adamastor cruel! De teus furores
- Cala a boca, satírico poeta
- Das terras a pior tu és, oh Goa
- Preside o neto da rainha Ginga
- Não tendo que fazer Apolo um dia
- Oh triste malfadada Academia
- Sanhudo, inexorável Despotismo
- Liberdade, onde estás? Quem te demora
- Liberdade querida, e suspirada
- A prole de Antenor degenerada
- Não sinto me arrojasse o duro fado
- N'esta, do feio opróbrio estância feia
- Quando na rósea nuvem sobe o dia
- Folheando os anais da antiguidade
- Idosa fada, que nos astros lia
- Quem se vê maltratado, e combatido
- Do velho Ertílio, mágico afamado
- Elmano, de teus mimos anelante
- De noturno, horroroso pesadelo
- Nise mimosa, como as Graças pura
- Nas horas de Morfeu vi a meu lado
- Aceso no almo ardor, que a mente inflama
- Bem hajas, oh Morfeu! A fantasia
- Na acesa fantasia estou medindo
- Excedo lustros seis por mais três anos
- Em sórdida masmorra aferrolhado
- Tu, que em torpes desejos atolado
- Os milhões de áureos lustres coruscantes
- Filho, Espírito, e Pai, três e um somente
- Oh rei dos reis, oh árbitro do mundo
- Se te adornas de sã filosofia
- O filho do gran'rei, que a monarquia
- Se considero o triste abatimento
- Nos campos o vilão sem sustos passa
- Tu de quantos dragões o inferno encerra
- Tu, por Deus entre todas escolhida
- Senhor, que estás no céu, que vês na terra
- Miseranda Inocência és nome abstrato
- N'este horrível sepulcro da existência
- Sonho cruel o espírito inquieto
- Minh'alma quer lutar com meu tormento
- Vós, crédulos mortais, alucinados
- Tenho assaz conservado o rosto enxuto
- Não sou vil delator, vil assassino
- Queimando o véu dos séculos futuros
- Aquele, que domina os céus brilhantes
- A frente, que de louro ergui cingida
- Aqui, onde arquejando estou curvado
- Tão negro como a turba que vagueia
- Oh vós que lamentais d'Elmano a sorte
- Meus dias, que já foram tão luzentes
- Vítima do rigor, e da tristeza
- Para as sombras da morte aqui me ensaio
- Do Tempo sobre as asas volve o dia
- Néscia, vil ignorância, injuriada
- Pela voz do trovão corisco intenso
- Lá quando a tua voz deu ser ao nada
- Um Ente, dos mais entes soberano
- Encantador Garção, tu me arrebatas
- Ao crebro som do lúgubre instrumento
- Sobre o degrau terrível assomava
- Oh tu, que tens no seio a eternidade
- Já com tênue clarão, já quase escura
- Vós, que de meus extremos sois a história
- Distrai, meu coração, tua amargura
- Tenta em vão temerária conjectura
- Amor, que o pensamento me salteias
- Quando Anália, o meu bem, que o céu namora
- Se é doce no recente, ameno estio
- Desejo iluso, e vão! Para que traças
- Planta mimosa de louçãos verdores
- De um nume aos ais d'Elmano oh dom mimoso
- Oh ninfa, que das graças melindrosas
- Contigo, alma suave, alma formosa
- Cantor, que a fronte erguia engrinaldada
- Se o Destino cruel me não consente
- Pouco a pouco a letífera Doença
- Se na que, morna e lúgubre, murmura
- Dura filosofia audaz forceja
- Às rígidas lições do férreo Zeno
- Em vão, para tecer-me um ledo engano
- No abismo tragador da Humanidade
- Se o grande, o que nos orbes diamantinos
- Meu ser evaporei na lida insana
- Já Bocage não sou!... À cova escura
- D'Elmano a Musa, que entre imagens vela
- D'Elmano antes da morte é morto o canto
- Ave da morte, que piando agouros
- Nestóreos dias, que sonhava Elmano
- Magro, de olhos azuis, carão moreno
- De cerúleo gabão, não bem cuberto
- Se eu poderá ir de tralha, ir à surdina
- Chalaça minha, que chibavas tanto
Idílios e Cantatas