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Primeiros Cantos

À Morte Prematura da Ilma. Sra. D. Leonor Francisca Lisboa Serra

No álbum de seu Irmão o Dr. João Duarte Lisboa Serra.
Il semble que le ciel aux cœurs les plus magnanimes
Mesure plus de maux. (Lamartine)
Perfeita formosura em tenra idade,
Qual flôr, que anticipada foi colhida,
Murchada está da mão da sorte dura. (Camões, Soneto)
Lá, bem longe d'aqui, em tarde amena,
Gozando a viração das frescas auras,
Que do Brasil os bosques brandamente
Faziam balançar, — e que espalhavam
No éter encantado odor, pureza —
Do que a rosa mais bela, — meiga e casta,
Como as virgens do sol,
Que de vezes não foi ela pendente
Dos braços fraternais em meigo abraço,
Como mimosa flor presa, enlaçada
A tenro arbusto que a vergôntea débil
Lhe ampara docemente!...
E o Irmão que só n'ela se revia,
O Irmão que a adorava, qual se adora
Um mimo do Senhor,
Que a tinha por farol, conforto e guia,
Os seus dias contava por encantos;
E as virtudes co'os dias pleiteavam.
E ela morreu no viço de seus anos!...
E a lajem fria e muda dos sepulcros
Se fechou sobre o ente esmorecido
Ao despontar da vida,
Tão rico de esperanças e tão cheio
De formosura e graças!...
Campa! campa! que terror me incutes!
Quanto esse teu silêncio me horroriza!
E quanto se assemelha a tua calma
A do cruel malvado que impassível
Contempla a sua vítima torcer-se
Em convulsões horríveis, desesp'radas,
Cruas vascas da morte!...
Quem tão má te criou?
Tu que tragas o ente que esmorece
Ao despontar da vida,
Tão rico de esperanças e tão cheio
De formosura e graças?!.
O farol se apagou! a luz sumiu-se!
Como o fugaz clarão do meteoro,
Extinguiu-se a esperança; — e o mal-fadado
Sobre a terra deserta em vão procura
Traços d'essa que amou, que tanto o amara,
Da jovem companheira de seus brincos,
Pesares e alegrias.
Ele a procura!... o viajor pasmado
Nos campos de Pompeia, alonga a vista
Pela amplidão do praino,
Destroços e ruínas encontrando,
Onde esperava achar ação e vida.
Não poder eu a troco de meu sangue
Poupar-te dessas lágrimas metade!
Não poder eu correr por esse mundo,
Espessas brenhas, escarpadas rochas,
Assoberbar torrentes, e trazer-te
As águas soporíferas do Letes!
Oh! poder que eu podesse! — e almo sorriso,
Que tanto me compraz ver-te nos lábios,
Inda uma vez brilhasse!
E essa existência,
Que tão cara me é, t'a visse eu leda,
E feliz como a vida dos Arcanjos!
Infeliz é quem chora: ela finou-se,
Porque os anjos à terra não pertencem;
Mas lá dos imortais sobre os teus dias
A suspirada irmã vela incessante.
Vinde, cândidas rosas, açucenas,
Vinde roxas saudades;
Orvalhai tristes lágrimas, as c'roas,
Que hão de a campa adornar por mim depostos
Em holocausto à vítima da morte.
Inocência, pudor, beleza e graça
Com ela n'essa campa adormeceram.
Anjo no coração, anjo no rosto,
Devera o amor chorar sobre o teu seio,
Que não grinaldas fúnebres tecer-te;
Devera a voz d'um esposo acalentar-te
O sono da inocência, — não grosseira,
Canção de trovador não conhecido.
Coimbra, Junho de 1841.

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