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Primeiros Cantos

O Vate

No álbum de um poeta (O Sr. Dr. José Freire de Serpa)
Moi... j'aimerai ta victoire;
Pour mon cœur, ami de toute gloire,
Les triomphes d'autrui ne sont pas un affront:
Poète, j'eus toujours un chant pour les poètes,
Et jamais le laurier qui pare d'autres têtes
Ne jeta d'ombre sur mon front. (V. Hugo)
Vate! vate! que és tu? — Nos seus extremos
Fadou-te Deus um coração de amores,
Fadou-te uma alma acesa borbulhando
Ardidos pensamentos, como a lava
Que o gigante Vesúvio arroja às nuvens.
Vate! vate! que és tu? — Foste ao princípio
Sacerdote e profeta;
Eram nos céus teus cantos uma prece,
Na terra um vaticínio.
E ele cantava então: — Jeová me disse,
Majestoso e terrível.
» Vês tu Jerusalém como orgulhosa
» Campeia entre as nações, como no Líbano
» Um cedro a cuja sombra a hissope cresce?
» Breve a minha ira transformada em raios
» Sobre ela cairá;
» Um fero vencedor dentro em seus muros
» Tributária a fará;
» E quando escravos seus filhos, sobre pedra
» Pedra não ficará. »
E os réprobos de saco se vestiam,
Em pó, em cinza envoltos;
E colando co'a terra os torpes lábios,
E açoitando co'as mãos o peito imbele,
Senhor! Senhor! — clamavam.
E o vate entanto o pálido semblante
Meditabundo sobre as mãos firmava
Suplicando ao Senhor do interno d'alma.
Fomos santos então. — Homero o mundo
Criou segunda vez, — o inferno o Dante, —
Milton o paraíso, — fomos grandes!
E hoje!... em nosso exílio erramos tristes,
Mimosa esp'rança ao infeliz legando,
Maldizendo a soberba, o crime, os vícios;
E o infeliz se consola, e o grande treme.
Damos ao infante aqui do pão que temos,
E o manto além ao mísero raquítico;
Somos hoje Cristãos.

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