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Primeiros Cantos

À Noite

... Jehovah déploie autour de nos demeures
Le linceul de la nuit, et la chaîne des heures
Tombe anneau par anneau. (Turquety)
I.
Estou só n'este mudo santuário,
Eu só — com minha dor, com minhas penas.
E o pranto nos meus olhos represado,
Que nunca viu correr humana vista,
Livremente o derramo aos pés de Cristo,
Que também suspirou, gemeu sozinho,
Que também padeceu sem ter conforto,
Como eu padeço, e sofro, e gemo, e choro.
Remorso não me punge a consciência,
Vergonha não me tinge a cor do rosto,
Nem crimes perpetrei; — por que assim choro?
E direi eu por quê? — Antes meu berço,
Que vagidos de infante vivedouro,
Os sons finais de um moribundo ouviste!
Que esperanças que eu tinha tão formosas,
Que mimosos enlevos de ternura,
Não continha minha alma toda amores!
Esperanças e amor, que é feito d'elas?
Um dia me roubava uma esperança,
E sozinho, uma e uma, me deixaram.
Morrerão todas, como folhas verdes
Que em princípio do inverno o vento arranca.
E o amor! — podia eu senti-lo ao menos;
Quando eu via a desdita de bem perto
Co'um sorriso infernal no rosto squálido,
Com fome e frio a tiritar demente.
Acenando-me infausta? — quando vinda
Minha hora já sentia, em que os meus lábios,
Tremendo de vergonha, soluçassem
Ao f'liz com que eu na rua deparasse
De mãos erguidas: Meu Senhor, piedade!
Eis por que sofro assim, por que assim gemo,
Por que meu rosto pálido se encova,
Por que somente a dor me ri nos lábios,
Por que meu coração já todo é cinzas.
Menti, Senhor, menti! — porque te adoro
No altar profano de beleza esquiva
Não queimo incenso vão; — tu só me ocupas
O coração, que eu fiz hóstia sagrada,
Apuro de elevados sentimentos,
Que o teu amor somente asilão, nutrem.
Quando ao pé da cruz me chego aflito,
Sinto que o meu sofrer se vai mingoando,
Sinto minha alma que de novo existe,
Sinto meu coração arder em chamas,
Arder meus lábios ao dizer teu nome.
Assim a cada aurora, a cada noite
Virei consolações beber sedento
Aos pés do meu Senhor; — virei meu peito
Encher de religião, de amor, de fogo,
Que além de infindos céus minha alma exalta.
II.
Quem me dera nas asas d'este vento,
Que agora tão saudoso aqui murmura,
Agitando as cortinas, que me encobrem
Do teu rosto o fulgor que me não cegue,
Subir além dos sóis, além das nuvens
Ao teu trono, ó meu Deus; ou quem me desse
Ser este incenso que se arroja em ondas
A subir, a crescer, em rolo, em fumo,
Até perder-se na amplidão dos ares!
Não qu'ria aqui viver! — Quando eu padeço
Surdez fingida a minha voz responde;
Não tenho voz de amor que me console,
Corre o meu pranto sobre terra ingrata,
E dor mortal meu coração fragoa.
Só tu, Senhor, só tu, no meu deserto
Escutas minha voz que te suplica;
Só tu nutres minha alma de esperança;
Só tu, ó meu Senhor, em mim derramas
Torrentes de harmonia, que me abrasam.
Qual órgão, que ressoa mavioso,
Quando segura mão lhe oprime as teclas,
Assim minha alma, quando a ti se achega
Hinos de ardente amor desfere grata:
E, quando mais serena, inda conserva
Eflúvios d'esse canto que me guia
No caminho da vida áspero e duro.
Assim por muito tempo reboando
Vão no recinto do sagrado templo
Sons, que o órgão soltou, que o ouvido escuta.

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