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Segundos Cantos

À Desordem de Caxias

— Le crime est immortel! —
— Ainsi que le remord. (A. Barbier)
Que feios sons de surda e rouca trompa!
Ecoa a brônzea tuba as duras vozes,
Que hão de os vales cobrir de miserandos,
Insepultos guerreiros!
Sobre as cordas da tua Harpa
Pousa, ó Musa, a nívea mão,
Que com tais sons se não casam
Os sons do teu coração!
Que triste soluçar, que triste pranto,
Que amargas queixas, que doridas preces!
Penosas vascas de sangrenta morte
No extremo agonizar!
Musa minha desditosa,
Dos cabelos despe o loiro,
Da tua Harpa malfadada
Despedaça as cordas d'oiro!
Ó Musa, Musa minha! os sons que ouviste
Foi perpassar dos teus, — dos teus que amavas,
Agora sombras vãs, que inultas vagam
A desoras na terra!
Do mísero Cantor que eles amaram,
Talvez em vida, — possa agora ao menos
O triste canto, a suspirada nênia
Simpático aplacá-las!
Foste até qui linfa pura
Que mansamente serpeia,
Entre flores e verdura,
Por sobre um leito d'arreia.
E o sol do inverno derreteu-lhe a neve
Lá da nascente;
Eis o regato que já corre undoso,
Como a torrente!
Acorda, acorda, ó Musa! assaz cantaste
Teu doce amor,
Serena, em ócio, como ao pé da fonte
Descansa a flor.
II.
Como, quando o vulcão prepara a lava
Nas entranhas da terra, e à noite lança,
Pela sangrenta rúbida cratera,
Mais viva chama em turbilhão de fumo;
Encandece-se o ar, cala-se a terra,
Nem gira a brisa, ou só tufão de vento
Com hórrido fragor sacode os troncos:
Assim também quando abafadas rosnam
Sanhas do povo, antes que em fúrias rompam,
Propaga-se confuso borborinho,
Cresce a agitação n'aquele e neste,
E um quê de febre lhes transtorna o siso.
Trêmulos todos, homens e mulheres,
Infantes e anciãos — de mãos travadas,
Turvado o rosto, os olhos lacrimosos,
Lá vão terras do exílio demandando!
Um passo apenas dão, que os alumia
Do vulcão popular a lava ardente.
Sob os trépidos pés soluça a terra,
Sobre as cabeças pávidas volteia
Ou rocha em brasa, ou condensada nuvem
De pó desfeito, que resseca os ares.
E d'entre aquele fumo e aquelas chamas,
N'aquele horror e medo, estátuas vivas,
Sinistro lampejar d'armas descobrem:
Descobrem longe os tetos abrasados,
A pouco e pouco esmorecendo em cinzas;
Escutam gritos de uma voz querida,
De um ser que expira, e que em socorro os chama!
E ali pregados no terreno ingrato
Nem da morte impiedosa fugir sabem,
Nem força têm que lhes escude a vida.
São ali sem ação, sem voz, sem força
Como que má sazão lhes tolhe os membros,
Ou que os sufoca horrível pesadelo.
Mudos, fracos, sem luta os colhe a morte;
E nus, sangrentos, insepultos jazem!
III.
Túrbida reina a bacanal de sangue!
E rei do atroz festim, brinco do vulgo,
Um só campeia! um só, que mal se achega
A lauta mesa, onde se enfrasca o vulgo
De carniça e ralé, tocando apenas
O sangue e o vinho, que alimenta o bródio;
Derruba-o logo a popular vindita,
E folga ultriz em torno aos vis despojos,
Que nem de amigas lágrimas se molham,
Nem de talhadas lápidas se cobrem.
IV.
Malditos sejais vós! malditos sempre
Na terra, inferno e céus! — No altar de Cristo,
Outra vez a paixões sacrificado,
Ímpios sem crença, e precisando tê-la,
Assentastes um ídolo doirado
Em pedestal de movediça areia;
Uma estátua incensastes — culto infame! —
Da política, sórdida manceba
Que aos vestidos, outr'ora reluzentes,
Os andrajos cerziu da vil miséria!
No antropófago altar, mádido, impuro
Em holocausto correu d'hóstia inocente
Humano sangue, fumegante e rubro.
Insensível a dor, ao pranto, às preces,
Insensível as cãs, à verde infância
Tudo sorveu a rábida quadrilha!
A treda mente maquinou suplícios,
Torpe vingança! meditou cruenta
Nos requintes da dor ébria fartar-se,
E lascívia imoral dos lábios d'eles
Em frontes virginais cuspiu veneno.
Afrontas caiam sobre tanta infâmia!
E se a vergonha vos não tinge o rosto,
Tinja o rosto do ancião, do infante
Que em qualquer parte vos roçar fugindo!
Da consciência a voz dentro vos punja,
Timorato pavor vos encha o peito,
E farpado punhal a cada instante
Sintais no coração fundo morder-vos.
Dos que matastes se vos mostre em sonhos
A chusma triste, suplicante, inerme....
Sereis clementes... mas que a mão rebelde
Brandindo mil punhais lhes corte a vida;
E que então vossos lábios confrangidos
Se descerrem sorrindo! — cru sorriso
Entre dor e prazer, — qu'então vos prendam
A poste vergonhoso, e que a mentira
O vosso instante derradeiro infame!
Bradem: Não fomos nós! — e a turba exclame:
Covardes, fostes vós! — e no seu poste
De vaias e baldões cobertos morram.
V.
Mas cantar tão cruel e tão feio,
Donde parte soando ruidoso?
Da minha Harpa nas cordas quem veio
Sons tão rudes, tão roucos tirar?
Pode acaso o cristão impiedoso
Do que sofre avivar o tormento,
Pode acaso dizer-lhe cruento:
Teu suplício não quero acabar?
Pode acaso com torva alegria
Sobre os restos do triste finado
Levantar a cruel voz impía:
Homicida feroz, maldição?
Não tem ele sequer um pecado?
Como pois poderá penitente
Exclamar n'outra vida: Ó clemente
Senhor Deus, tem de mim compaixão?
Réu não sou da cruel impiedade,
Bem que o sangue por eles vertido
Fosse meu; bem que amarga saudade
Sinta eu desses, que a morte ceifou!
Não irei ao sepulcro esquecido
Insultar o mesquinho finado;
Miserando! foi duro o seu fado,
Que um amigo sequer não deixou!
Mas as vítimas tristes, cruentas,
Que hoje dormem na campa florida
Nas funéreas mortalhas sangrentas
Envolvidas, irei visitar:
Lindas flores na aurora da vida!
Murchas flores p'ra terra inclinadas!
Ah! por todas no pó desfolhadas
Ao Senhor compassivo hei de orar!
VI.
E como aparecem n'um sonho ditoso
Fantásticas formas, composto formoso
Da noite que morre e do sol a raiar;
Eu vi muitas sombras, com ar magoado
Chorando e passando: eu estava acordado,
E vi; mas par'ceu-me que estava a sonhar!
Passavam mostrando no peito a ferida,
E a celeste ventura no rosto envolvida
Se lia da morte ao cruel padecer!
E d'esta e d'aquela, de quantas eu via
O nome, as feições e a voz conhecia!...
Meu peito arquejava co'o interno sofrer.
Com triste sorriso nos lábios pousado,
Chamavam-me todas ao tum'lo gelado,
E à paz dos sepulcros, e à vida do céu!
Ó anjos, sofrestes martírio ansiado;
Ao céu remontastes, ficastes ao lado
Do mártir divino que à terra desceu;
Como hei de seguir-vos no etéreo caminho,
Se preso a esta vida, cansado e mesquinho,
O meu longo martírio não posso acabar?
Não posso seguir-vos, mas vós, meus amores,
Da noite nas sombras, do sol nos fulgores
Ah! vinde meus sonhos de flores juncar.

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