Segundos Cantos
O Donzel
Onde vais, ó cavalleiro?
— Ver quem de amor me matou.
— Vês este cadaver? — Vejo.
— E vais a entrevista.? — Vou. (Freire de Serpa)
— Ver quem de amor me matou.
— Vês este cadaver? — Vejo.
— E vais a entrevista.? — Vou. (Freire de Serpa)
I
Já tremula sobre o ocaso
Do sol o disco fulgente:
Já se ergueu a lua inteira
Lá das partes do oriente;
Ergueu-se a brisa fagueira,
Ergueu-se a voz da corrente.
Ergueu-se tênue e macio
Perfume de linda flor;
Ergueram as densas matas
O seu leve arfar de amor;
Ergueu a voz do oceano
O seu hino ao Criador.
II
Eis que donoso mancebo
Que brancas telas vestia,
Por senda patente e clara
Em seu ginete corria.
Não vê no trépido ocaso
Do sol o disco fulgente,
Nem da lua alvinitente
O deleitoso fulgor;
Não escuta o arfar dos bosques,
Nem das aves o carpido,
Nem das vagas o rugido,
Nem da tarde almo frescor
Sentir pode! — Corre a brisa,
Ouve-se estranha harmonia;
Mas na acesa fantasia
Ferve inquieto, imenso amor!
III
Praticando n'outros tempos
Alguns velhos encontrou:
Louco! louco! — murmuraram.
Sorriu-se o moço e passou.
Velhos que a vida viveram,
Que já não sabem viver,
Que sobre a terra dos vivos
Não têm de que ter prazer,
Uns aos outros se perguntam,
Quando em paz descansarão!
Já vivestes vossa vida,
Já não tendes coração!
Tendes o corpo alquebrado,
Tendes morto o coração,
Tendes a alma desmaiada,
Nem sentis uma afeição.
Afeição, ledice, amores...
Sobre as cãs não vinga o amor,
Como sobre a rocha dura
Não cresce mimosa flor.
IV
Mais além — gentis donzelas
Brincando se divertiam,
Embebidas nos folgares
Lúbricas danças teciam.
— Onde vais, gentil mancebo,
— Nesse correr afanoso?
— Onde vais? detém-te, espera;
— Não nos fujas pressuroso!
« Vou-me longe inda esta noite,
« Vou rever os meus amores;
« Já demais hei sopeado
« Meu desejo e meus ardores.
« A vossa vida é ventura,
« Vosso sorriso inocência,
« Vossa alma formosa e pura
« Não sofre de crua ausência!
« Vosso amor, e só desejo
« É o sorriso da aurora,
« O arbusto, e a flor do prado,
« E a corrente sonora »
Disse e passou: eis renascem
Leves danças na clareira,
Ledos gritos pelo bosque,
Leda cena feiticeira!
V
E não para, e prossegue, e devora
Toda a senda o fogoso corcel;
Aos reflexos da lua brilhante
Vê-se o vulto do nobre Donzel.
Entrevê-se os vestidos luzentes,
Entrevê-se o corcel a fugir;
Aos reflexos da lua brilhante
Vê-se a pluma da gorra luzir!
Que lh'importa que a noite o convide
A sereno e tranquilo pensar?
Que lh'importa o frondoso arvoredo,
Que lh'importa agoureiro piar?
Que lh'importa a beleza da terra,
Que lh'importam estrelas ou mar?
Que lh'importa? — o mancebo não pode
Mais que a ela no mundo enxergar.
Ela é pura, é celeste, é mimosa,
É feitiço do nobre Donzel;
Ela o ama, assim disse, ela o espera..,
Ledo o moço esporeia o corcel!
Temerário, onde vais pressuroso,
Por que buscas na terra prazer?
Insensato, prazer n'este mundo...
Só no triste que almeja morrer!
Porque afetos, ledice e ventura,
Porque extremos de acesa paixão,
São delírios que o tempo consome,
São caprichos de amarga ilusão!
É veneno de flor que não cheira,
Que a existência amargura cruel!...
Esta vida é festejo de amores,
É de flores — clamava o Donzel!
E não para, e prossegue, e devora,
Toda a senda, e se apeia, — inda mal!
Eis um vulto, ei-lo corre — já sente
Penetrar-lhe no peito um punhal!
Nesse instante de acerba agonia,
Nesse instante de louca paixão,
Nesse instante... pesou-se de extremos
Tão mal pagos, de tanta traição.
VI
Virgem! virgem! que o amor recompensas
Por tal arte, tão dura e cruel,
Nunca sintas amor em tua vida
Nunca extremos de nobre Donzel.
Nunca escutes a meiga linguagem
De sincera, infinita paixão;
E nas vascas da morte impiedosa
Do que estimas te colha a traição.