Segundos Cantos
A Virgem
— Tiene mas de vaporosa sombra
De infabile vision que de muger. (Zorilla)
De infabile vision que de muger. (Zorilla)
Linda virgem simelha a linda rosa,
Que se abre ao romper d'alva;
Encapelam-se as pétalas mimosas,
Lacradas de pudor com rubro selo:
Cego mortal só lhe respira o incenso,
Quando mais puro mel a abelha encontra.
Seu puro coração é como um templo,
Onde só Deus habita;
Ali reina o mistério envolto em sombras,
E maga placidez envolta em cantos:
Só vê isto o profano, mas o antiste
De Deus a sombra vê, e a voz lhe escuta.
É como um lago de marmóreo leito
Sua alma ingênua e bela:
No fundo não se enxerga o verde limo,
E a lisa face nos amostra os astros.
E onde o humilde pastor só vê luzeiros,
Os anjos lá dos céus contemplam mundos.
E se eu a vejo nos saraus ruidosos
C'roada de beleza,
E assomos de tristeza irresistível
Prender-lhe a ação, e desbotar-lhe o riso;
Na mulher, que outros veem, descubro o anjo,
Que as asas d'oiro, que perdeu, lamenta!
Então como que sinto arrebatar-me
Simpática atração!
Quisera doces cantos de ternura
Nas mais delgadas cordas da minha Harpa
Cantar-lhe, e assim dizer-lhe: «Um canto ao menos
O acerbo exílio teu torne mais brando!»
Baldado empenho! Começado apenas,
Afrouxa-se-me o canto;
Debaixo dos meus dedos mal palpita
A corda melindrosa da minha Harpa;
E como em espaço, que até d'ar carece,
Tangida, o extremo som morre sem eco!