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Sextilhas de Frei Antão

Solau de Gonçalo Hermiguez

Não é mais aquele tempo
Em que era tudo lhaneza!
Ações e vida e costumes
Desta gente portuguesa,
Por tal jeito se trocaram,
Que é hoje tudo impureza.
Não trato d'este ou d'aquele,
Pois há em tudo exeições;
Mas trato da grande lepra
Que vejo hi nos corações:
Desprezo do amor da glória
E apego às ruins tenções.
Outrora, sabeis vós como
Garboso Donzel se havia
Por captar nobres extremos
Da moça que requeria,
Sempre grave, honesto e brando,
Sempre usando cortesia?
Não trescalava pivetes,
Fitas, nem laços comprava,
Nem toda a manhã divina
Seus enfeites concertava,
Nem nos chapins se revia,
Nem nos cabelos primava.
Não corria seca e meca
Trás de mimosa donzela,
Que nas ruas lobrigava;
E por ver mais perto a bela
Não ia ao templo sagrado,
Somente por amor dela.
Nem as noites janeirinhas
Mais compridas e mais frias,
Levava mofino amante,
Por baixo das gelosias,
Desenfiando um rosairo
De trovas e ninherias.
Jamais não foi esse o estilo
Do moço em armas novel,
Em que experto dedilhasse
Na lira do menestrel,
No tempo em que, não domada,
Lutava a gente infiel.
Por mais que amores amasse.
Por mais que fosse gentil,
Ninguém n'o vira a desoras,
Como homem de tenção vil,
Como um ladrão que de medo
Vai passo e manso e subtil.
Não pedia manto às sombras,
Nem ao silêncio mercê,
Nem do sol se arreceava,
Como homem que pouco vê,
Nem da lua apelidada
A casta, não sei por quê.
Mas antes no anfiteatro,
Coberto de espectadores,
Onde mais povo corria,
Mais belas e justadores
Na arena se apresentava
Com letra e tensões d'amores.
No meio d'aquela chusma
D'arautos e passavantes,
Mantenedores do campo
Reis d'armas e circunstantes,
Feixes d'armas resplendentes,
Ondas de plumas brilhantes:
Entrava o novel guerreiro
No cerco dos justadores!
De alguma dona sisuda
Na charpa trazia as cores;
Tinham amores às claras,
Porque eram nobres amores.
Silêncio! que soa a trompa,
A justa vai começar!
Entre si ferem mil lutas
Guerreiros a par e par:
Da lança feita pedaços
Voam estilhas ao ar.
Levam logo mão da espada;
Que feios golpes se dão!
Abolam-se capacetes,
Talham-se arneses; e a mão
Certeira ao través da malha
Vai direita ao coração.
Lá soa de novo a trompa,
Proclama-se o vencedor,
Que aos pés da bela entre as belas
O seu troféu vem depor:
Ao mais valente a mais bela,
Ao mais gentil mais amor.
Era a lei, — e até parece
De acordo co'a natureza,
Que se compraz no consórcio
Da força co'a gentileza;
Mais alma com mais coragem,
Mais brio com mais nobreza.
A abelha construi seus favos
Em troncos alevantados;
E eis a hera graciosa,
Que em abraços apertados
Não cinge mesquinho junco,
Mas carvalhos alentados.
Boa era a lei! — mas eu creio
Que lhe descubro um senão;
Quem nos diz que o mais valente
Deva de ter mais rezão,
Porque seja a sua dona
Como um vaso d'eleição?
Seria coisa de ver-se,
E coisa de mui folgar,
Ver um dragão de mulher,
Chamada a bela sem par,
À pura força de espada,
Sem mais pôr, nem mais tirar!
É bela: e al não digais
Sob pena d'um fendente,
Que vem do céu, como um raio,
Provar ao vilão que mente,
Co'os dentes que tem na boca,
Como um perro maldizente!
Fosse o caso como fosse;
É certo que d'aí vem
Às nossas donas de agora,
Aquele sestro que têm
De amarem a militança
Melhor do que a nenhum bem.
Qual não gosta de ser bela,
Ao menos de o parecer?
Enquanto muitas... Meu Deus
Eu me sei compadecer,
Sofro o mal que os outros passam,
Mais talvez que o meu sofrer.
Muitas há hi, que eu conheço,
Que aqui na terra não são,
Senão porque as vós mandastes,
Meu Deus, por ocasião
De tédio e nojo ao pecado,
E morte da tentação.
Té os moços, que as namoram,
Dirão no confessional,
Jurando por Deus eterno
E pola vida eternal,
Que se falam dele e dela,
É puro aleive e não al.
Vede pois qual não seria
O pasmo dessa donzela,
Proclamada ao meio-dia
Fermosa como uma estrela,
Sem que houvesse aí no mundo
Coisa melhor, nem mais bela!
Logo no fraco bestunto
Julgara, sem mais rezão,
Que n'este mundo mesquinho
É tudo engano e buzão,
E té que a própria beleza
É coisa de convenção!
Era assi que n'outras eras
Garboso donzel se havia
Por captar nobres extremos
Da moça que requeria,
À ponta de fina espada
E arrojos de valentia.
No tempo de Afonso Henriques,
Que foi nosso rei primeiro
Havia na sua corte,
Corte de rei mui fragueiro,
Um tal Gonçalo Hermiguez,
Destemido cavaleiro.
Era moço e mui donoso,
De mui boa nomeada:
Fiava el-rei muito dele,
E a rainha Mafalda
Folgava de ouvir-lhe os cantos
Aos sons da lira afinada.
Portas adentro do Paço
Não tinha nenhum rival
Em compor trovas mimosas;
E no campo e no arraial
Não n'o havia mais valente,
Mais forte, nem mais leal.
Quanta sanha que ele tinha,
Votara à gente infiel,
Porque o pai lhe haviam morto,
Era ele ainda novel;
Vê-los porém não podia,
Nem pintados no papel.
Era o mesmo ver a um destes
E entrar logo em sanha tal,
Que era força ter mão d'ele,
Ou saltava-lhe ao gorjal
Pera torcer-lhe o gasnate,
Como se fora um pardal.
Mas se tinham tento n'ele,
Era outro conto ruim!
Caía logo em desmaios,
Que era um desmaio sem fim!
Dó era ver tal sujeito
Prostrado e defunto assi.
Andava sempre ocupado
Em perpétua correria
Polas terras do mourisco,
E muito mal lhes fazia;
Dava porém mor realce
Ao nome que já trazia.
Sendo ele e os companheiros
Em um sarau folgazão,
Lembrou-se que perto vinha
A noite de São João,
Azado ensejo de aos Moiros
Fazer-se afronta e lesão.
Cheia de belo hardimento,
Aquela nobre nobreza
Por amor de seus amores
Comete tão grande empresa,
Qual a de ir terras de Mouros
Com feros, ronco e braveza.
Qual apresta o seu ginete,
Qual a fita dependura
No colo nunca domado,
Qual a pesada armadura
Enverga, e aí se recolhe,
Como em arce mui segura!
Qual a Deus por testemunha
Toma da sua tenção,
Qual aos pés da sua dona
Requer-lhe extremo condão,
Extremo volver dos olhos,
Extremo apertar da mão!
Qual desli toma algum nome
Por grito de acometer,
Que nas lidas e pelejas
Saberá fazer valer!
Qual sente o nojo futuro,
Em mal, que lá vai morrer!
Mas nunca será que o rosto
Mostre o que n'alma lhe mora;
Quem viu a morte passar-lhe
De perto, já não descora
Por um presságio funesto,
Sendo ele coisa d'uma hora.
Aqueles bons cavaleiros
Asinha prontos estão;
Lá se partem de Coimbra,
Montes além já lá vão!
Ninguém viu mais escolhido,
Nem mais luzido esquadrão.
Entre eles por mais robusto
Gonçalo Hermiguez campeia;
Diz seu porte sublimado,
Que de nada se arreceia,
Mas antes que a todos repta,
De tanto que o colo alteia!
Caminho vão de Lisboa
Com todo apercebimento!
Não convém que se aprecatem
D'aquele acometimento
Mouros que vivem na regra
Do seu alcorão nojento!
Sabeis a regra qual seja?
É viver dentro do harém,
Dizendo mal do toicinho
E mais do vinho também,
Sem que lhe pese este mundo,
Sem que lhe pese ninguém!
É vegetar entre flores,
É viver vida folgada,
Aspirando incenso e odores
Em moleza efeminada,
Nem que fosse uma odalisca,
Ou mulher alambicada.
Poseram todos a mira
Em Alcácere do Sal,
Covil de feras humanas,
Não de cordeiros curral;
Nó górdio do vil mourisco,
O ferro o corta, não al!
Os que por terra a demandam
Vão em procura d'Almada,
Alcáçova dura e forte,
Em rija pedra assentada,
Como pedra preciosa
Em férrea c'roa engastada.
Outros lá vão Tejo arriba!
Ó Tejo, quanto me é grata
Essa plácida corrente,
Quando a lua se retrata,
Chovendo chuva de raios
No teu chão de lisa prata!
Que doce que é teu remanso,
Quando manso o vento gira,
Que nas folhas rumoreja,
E como que ali suspira
Melindres d'amor suave,
Que nem tangidos na lira!
Que arroubos que infiltras n'alma,
Quando vai ao som das águas
Navegando o passageiro;
Já, se as tem, não sente as fráguas,
Que no peito a dor derrama,
Como uma enchente de mágoas!
Mas talvez dos cavos olhos
Polas faces a correr
Sinta o pranto represado
Polo seu muito sofrer:
Corra embora, qu'esse pranto
Dor não é, senão prazer!
Que neste val' de amarguras,
Onde viemos penar,
Por cada dia um marteiro
Por cada instante um pesar,
É bem feliz quem só passa
Dores que fazem chorar!
Não sei ledice o que seja,
Nem o que seja prazer;
Nunca os senti n'esta vida,
Nem n'os posso conhecer;
Que não sou dos bem-fadados,
E nunca o não hei de ser!
Mas o pranto extravasado
Não é quem nos dá morrer,
Nem quem o viço dos anos
Faz secar e emurchecer;
É antes aquele pranto
Que não sabemos verter!
Lá vão indo Tejo acima,
Olhos longos polo mar,
Lá onde enxergam Lisboa
Com fogueiras de espantar;
Fogo acendido na terra
Sobe em centelhas ao ar!
D'aqueles fogos acesos
Em roda os velhos estão,
E as donzelas feiticeiras
Com sorriso folgazão,
Cantando coitas de amores,
Quites de coitas então.
É a noite milagrosa
Do Bautista milagroso,
Té dos mouros da mourama
Havido por glorioso:
Folgam nobres e senhores,
Folga o vilão descuidoso.
Horas de noite folgada
Não tardam, não têm vagar:
A noite assi do Bautista
Vai serena a escorregar,
Como areia da ampulheta,
Um grão e outro a tombar!
Vai assi como o perfume
Respirado d'uma frol,
Que não vemos, mas sentimos;
Que sentimos no arrebol
Da manhã, que pola terra
Se espalha em antes do sol!
Vai assi como o rocio
De serena madrugada,
Rorejado gota a gota
De branca nuvem prenhada
Sobre o cálice musgoso
De uma flor aveludada.
Vai assi, qual sói prender-se,
Em quem de amores não cura,
Doce peçonha de amores:
Donzela de vida pura,
Quando há temores de havê-lo,
É qu'ele já não tem cura.
Do Alcácer' as lindas filhas,
Já era nascida a aurora,
Pera ver uma corrida
Saíram portas afora,
E mais pera colher flores,
Persuadidas da hora.
Logo saídas no prado
Foram, qual soem de ser
Mansas águas d'um regato
Em chão sem leito a correr,
Cada qual por seu caminho
Cada qual a seu prazer!
Desli pulando e cantando
Vão nas matas de alecrim,
Colhem a rosa corada
E a branca flor do jasmim;
Brincam brinquedos contentes,
Folgam folguedos sem fim!
Oh! que festas! que alegrias!
Que arruído vai no prado!
Que bem cantando rimance,
Que solau tão bem cantado!
Não têm as aves atito,
Nem gorjeio mais brincado!
Oh! que vozes melindrosas,
Que acentos encantadores
N'aquele prazer d'uma hora!
As moças vão colher flores,
E os moços que vão com elas
Vão lá por colher amores.
Eis nisto... estranho arruído!
Rouca trompa abala o ar;
Logo assomam cavaleiros
Com figuras de espantar:
Alá nos valha, mofinas!
Dizem moiras a chorar.
Alá! repetem n'os Mouros,
Vendo o pendão português;
E do alfange recurvado
Levam mão sem pavidez!
Feios golpes se preparam,
Outra folgança outra vez!
Retine o ferro no ferro,
Talham-se cotas e arneses;
O fino alfange mourisco
Abre o elmo aos portugueses;
E a espada que bem degola,
Bem multiplica os reveses.
Lá chega o alarma à Cidade!
Lá vem mouros descansados
Em descansados ginetes:
Cavaleiros esforçados,
Que chamam por São Tiago,
Não têm de que ter cuidados.
Gonçalo Hermiguez, o cabo,
Avante! brada e não al:
Brilha o valente nas lides,
Que ali não acha rival,
Aquele cabo entre todos
Sanhudo e forte e fatal.
Maneja tão facilmente
O seu pesado montante,
Que Alcides com sua clava,
E nem o Titã gigante,
Serra a serra sobrepondo
Não tinha aquele semblante.
Ei-lo vai per entre os moiros,
Abre entre eles larga estrada;
Quem fica em prisão de guerra,
Quem lá foge em debandada!
Ficam moiras prisioneiras,
Mulheres — gente coitada!
Gonçalo Hermiguez entanto
Viu que longe lhe fugia
Linda moira desmaiada,
Que um moço moiro cingia,
Dando d'esporas ao bruto,
Que mais que o vento corria!
Vai sobre eles sem tardança:
Conquanto de arremessão
Matá-lo também podera;
Certo o fizera, senão
Temesse que a moira bela
Morresse de sua mão.
Mais logo que foi com ele,
D'um golpe que despediu,
Cerce o cortou pelo meio:
Golpe assi nunca se viu!
E a moira tomando em braços,
Asinha dali fugiu.
Passou terrível com ela
Por meio da gente fera;
Quem n'o vira tão sanhudo
Leão raivoso o dissera,
Passando ao través dos homens
Com a presa que fizera.
Eis nasce novo combate,
Nova peleja maior!
Muitos homens contra um homem,
Contra um forte lutador;
Mas um só que a todos vence
Em força, esforço, e valor!
Mal podia a mão sinistra
Vibrar a sangrenta espada
Co'o pejo d'aquela moira
Disputada e desmaiada,
Cujo corpo em dois pendia,
Como uma frecha quebrada.
Mas inda assi despedia
Um golpe e outro cruel:
E de encontro a este, àquele
Mandava o seu bom corcel,
Que a turba multa alastrava
Aos pés do nobre donzel.
Quando a ventura é incerta,
Acerta em aventurar
Quem a empresa disputada
Tem desejos de acabar:
Só ele demora em terra,
Que os seus já são sobre o mar!
Torce as rédeas ao ginete,
Larga carreira arrepia,
Larga estrada co'o montante
Por entre os mouros se abria,
Despedia muitos golpes,
Muitos estragos fazia.
Chega a praia, os seus avista;
Mas os mouros perto vêm!
Como isto viu, torce o rosto,
Medonho como ninguém;
Temem-se mouros de o verem,
Param, como ele, também!
Vão assi feros monteiros
Trás d'um urso mal sangrado,
Que de repente a carreira
Revira, e volta agastado:
Param monteiros ao vê-lo
Raivoso e mal assombrado.
E a fera d'aquele pasmo,
Sabendo em seu bem valer-se,
Vai a passos descansados
Em densa mata esconder-se,
Sem temor da monteria,
Sem dos monteiros temer-se.
Tal o forte Traga-mouros
Salta dentro do baixel;
Na praia ficam pasmados
Mouros, do feito novel,
Tamanho, que nem sonhado
Foi jamais por menestrel.
E os companheiros aos ventos
Desfraldam velas e panos,
Deixando as praias tingidas
Em sangue por muitos anos;
Quantos bastem, porque chorem
Seu desar os musulmanos.
Aos alegres companheiros
Disse o guerreiro feliz:
« Das presas, que nós fizemos,
Quero tão só a que eu fiz,
A moura que por seu nome
Fátima em Turco se diz!»
Então aquele seu canto
Principiou a compor:
Cant'eu por vergonha minha,
Em bem que o saiba de cor,
Digo que sal lhe não acho,
Nem sei de coisa pior.
Mas era o solau por certo
Aos tempos acomodado,
Que de outro cantar não acho
Que fosse mais decantado,
Nem Figueiral Figueredo,
Nem o Ficade coitado.
E a moira já bautizada
Pertenceu ao lidador,
Duas vezes conquistada
Polo donzel, seu senhor,
Primeiro à força de espada,
Depois à força de amor.
Era assi n'aquele tempo
Coisa sabida e seguida,
Remanso depois da glória,
Descanso depois da lida,
E a fé que espera e milita
Nos atos todos da vida!
Vede vós quamanho é o lucro,
Que lucra a moira pagã,
Desposando o cavaleiro,
Tornada e feita cristã;
É vida e sangue de um homem,
Não de infiéis barregã!
É como troféu ganhado
Em guerras de religião
Por algum peito devoto,
Que por sua devação
Prometeu dependurá-lo
Dentro de templo cristão.
O canto aqui finalizo!
Não devo d'ir por diante,
Narrando casos da vida
Per natureza inconstante,
Trabalhos que sempre duram,
Prazer que dura um instante!
Foi o cabo dos amores
A moça moira acabar
E sobre um covão aberto
Um homem posto a chorar,
Um homem de dó coberto,
A carpir-se, a prantear!

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