Sextilhas de Frei Antão
Solau do Senhor Rei Dom João
Ora pois direi um feito
Do senhor rei Dom João,
Segundo que foi do nome,
Primeiro na devação,
Primeiro mais que o primeiro,
Mais que nenhum rei cristão.
Nem sempre rezar no coro,
Nem sempre velar convém;
É mister algum descanso,
Alguma folga também,
Entre o labor já passado
E o novo, que perto vem.
Ao duro mal que passamos
Algum remédio é mister:
E se a nenhum conhecemos,
Que mais nos há de valer
Que recordar o passado
E contos dele fazer?
É assi que no mar alto
O cansado mareante
Luta em vão contra a tormenta
E contra o vento inconstante;
Negras vagas se encapelam,
Negra morte tem diante.
Quando n'aquele deserto
Lânguidos olhos estende,
Vê mar que ferve revolto
E chuva que do céu pende:
Como deixou seu alvergue,
O triste não compreende!
Sembram-lhe então formidáveis
Os p'rigos que ele afrontou;
Figura risonhos quadros
Dos gozos que já gozou,
Do que na terra o convida,
Dos que na terra deixou.
Do que outrora foi passado
E mais do que vai passando,
Medonho e mau paralelo
Vai o mesquinho traçando;
Dor de espinhos penetrantes
O peito lhe está cravando
Dias lembrar já passados
E já passada ventura,
Quando o viver é tormento,
Tormento que sempre dura,
É certo desdita grande
E muito grande amargura.
Mas vede o que val a vida!
É aquela aventurada,
Se dizemos verdadeiros:
Foi um dia, uma hora, um nada,
Não do pesar combatida,
Mas do prazer bafejada.
Simelha quem pola calma
Um dia inteiro vagou,
Depois no marco da estrada
Cansado e triste quedou;
Ali tesouro sem dono,
Ventura sua, encontrou.
Era na santa semana,
Semana de devação!
Com jejuns e penitências
Apresta-se o bom cristão
Pera os mistérios mais altos
Da mais alta religião.
Quantas coisas que nos falam
N'aquele passo sagrado
D'aquele homem divino
D'aquele Deus humanado,
Que por amor de seus filhos,
Ingratos, foi maltratado!
Não foi por ódio ou vingança,
Mas por dinheiro traído!
Por um homem refalsado,
Por um discíp'lo querido;
Traído por meio infame!...
Um falso beijo vendido!
Foi mister por mor tormento,
Que morresse polos seus!
Entregue por um eleito
Nas garras dos Fariseus,
Homem morreu polos homens,
Morreu judeu por judeus.
C'roou a fronte sagrada
C'roa d'espinhos tecida,
Correram dados infames
Em tábua vil, denegrida;
Em hástea foi rematada
Túnica em sangue tingida.
Tormentos, baldões e mofa
Quem mais do qu'ele sofreu?
Quem mais comprido marteiro,
Quem mais afronta e labéu?
Tal foi que o homem divino
O rosto ao cálix torceu.
Tal foi que o Deus humanado
Disse ao Deus que era seu pai:
« Senhor Deus, s'inda é possível,
Do vosso intento tornai;
Este cálix de amargura
Dos lábios meus afastai!»
Carpindo males alheios,
Quantos não vemos per hi,
Que nem sequer se recordam
De quanto sofreu por si,
Um Deus na cruz afixado,
Mil dores sofrendo ali!
Ante esta vítima augusta
Da mais feroz crueldade,
Cala quanto o homem sofre,
Quanto sofre a humanidade:
Tormento não foi como ele,
Não foi como ela impiedade.
E comtudo alguns incréus
E refalsados ateus,
Guardam n'as êxtasis todas
E mais os transportes seus,
Pera Sócrates que morre,
Que não pola dor de um Deus!
E não vê a cega gente,
Imiga de toda luz,
Que longe que vai do Grego
Ao Nazareno Jesus,
E da masmorra ao calvário,
E da cicuta a uma cruz!
E aos efeitos da morte
Não atenderão também:
Se emparelhamos ideias
Às coisas que corpo tem;
Entre eles vai mor distância,
Que vai da Grécia a Belém.
Morre o Grego, e não dá fruitos;
Morre Jesus por nos dar
A lei do céu pera a terra;
Lei que só pôde lavrar
O sangue do bom cordeiro
Dos falsos Deuses no altar.
Vivem algozes d'aquele,
E uns homens apenas são;
Enquanto os algozes deste,
Em que povo de eleição,
Sumiram-se, como argueiro
Nas asas d'um furacão.
Era na santa semana,
Semana de devação:
Consigo mesmo propunha
O senhor rei Dom João;
« Confessarei minhas culpas,
Que além de rei, sou cristão.
« Ao Senhor, pai de nós todos,
Meus erros confessarei;
Que me dê força indomável
Pera guardar minha lei,
Pera punir os culpados,
Que além de cristão, sou rei.»
Asinha chamando um pajem
Lhe diz, e lhe ordena assi:
« Ide aos Padres Dominicos
(Melhor lhes quero que a mi)
Dir-lhes-eis que sou lá prestes,
Que vou comungar ali.»
Veio logo o mensageiro
Com a mensagem real;
Recado qu'el-rei lhe dera,
Dá ele ao Provincial.
« É certo mercê mui grande,
Responde, — tenho-a por tal.»
Ao padre Tomás da Costa
Chama n'uma Ave-Maria;
Sabia o bom do Prelado
O muito qu'el-rei lhe qu'ria:
De tão lisonjeiro acerto
Consigo mesmo sorria.
Demais que o bom do Prelado
Dizia com bem justeza:
« Prazer aos reis cá da terra
Não é nem uma vileza;
Praz a Deus que lhes prazamos,
Pois vem dele a realeza.»
Apresta-se com trigança
Tudo quanto era mister:
Sabia o Padre Tomás
Encargos do seu dever;
« Vergar colossos, dizia,
Quem tem posses de o poder?
« Sob as mãos do jardineiro
Torto arbusto lá se ajeita;
Mas onde existe essa força
Que um rudo tronco sujeita,
Se a força é balda no tronco,
Se o tronco a força rejeita?
« Em bem do pastor sagrado,
Que por mercê divinal
Vive no ermo escondido,
Como um singelo zagal;
Cura pastor de pastores,
Não de pessoa real.
« É fácil o seu encargo,
Pejo, nem dor lhe não traz;
Não é assi nos palácios,
Onde só vejo disfraz:
Vêm logo as rezões de estado,
Inventos de Satanás.
« Vêm logo as leis cá da terra
Contrapor-se às leis dos céus:
Sede cristãos, reis senhores,
Ou então de todo incréus!
Leis dos homens não se casam,
Não seguem às leis de Deus.
« Não ligueis n'um só consórcio
Terra feia e céu luzente:
Leis da terra a terra buscam,
Como a raiz da semente;
Leis do céu os céus procuram,
Como flor que o sol presente.»
Era ali na pedra rasa
O senhor rei Dom João;
Ante o velho sacerdote
Fazia a sua oração,
As mãos em cruz sobre o peito,
Giolhos postos no chão.
Armas que sempre cingia,
Todalas tinha despido;
Não tinha sedas, nem joias,
Mas peito d'aço batido:
Era qual homem vivente
Em férrea prisão metido.
Curva-se um rei poderoso
Perante um homem de pé;
Perante um Padre coitado,
Que nada tem, nada é:
Lição profunda e subida,
Preceitos da nossa fé!
Portas adentro do templo,
Onde Deus eterno habita,
Onde aquele amor sem zelos
Somente os peitos agita,
Nas diferenças do mundo
Fiel cristão não cogita.
Foi assi na antiga Roma
Polas festas saturnais,
Folgavam, senhor e servo,
Como se foram iguais;
Mas o que lá foi licença,
Aqui são leis divinais.
Aqui são todos curvados,
Todos — o servo, o senhor;
Aqueles que a vida fruem,
E aqueles que só tem dor;
Pobres que almejam a morte,
Ricos que à morte hão pavor.
Nem é por vil comezaina,
Que ali reunidos estão;
Mas sim, porque a Deus importa
Que não haja distinção
Entre irmãos, no pátrio abrigo,
Rezando a mesma oração.
Sobe assi aquela prece
Da multidão apinhada,
Qual lisonjeiro perfume
Das flores d'uma grinalda;
Tem uma odor, outra espinhos
Outras tem cor, outras nada.
Era ali na pedra rasa
O senhor rei Dom João;
Já disse o — ego peccator —
Já fez a sua oração:
O Padre vai ministrar-lhe
A hóstia da comunhão.
Tem no rosto grave e sério
Expressão nobre e subida;
Maneiras cheias de brio
Em postura comedida,
Parece que vão mostrando
Quanto val o pão da vida.
Parece que mostra, quanto
Por vil e baixo se tem,
Merecendo honra tamanha,
Que a não merece ninguém;
Daí lhe vem ser humilde,
Nobreza daí lhe vem.
Perfez-se o rito sagrado,
Vai ser dado o sacramento;
Principia el-rei — confiteor, —
Quando n'aquele momento
Surge ao pé dele um guerreiro
De marcial hardimento.
Tinha feroz catadura,
Só aço e ferro vestia;
Polas grades da viseira
Raios de luz despedia:
Medonho e fero aparato
Nas sombras da sacristia.
Era o rei brioso e forte,
Homem de muito valor,
Mas olhos lançou à espada
A furto!... seja o que for,
Não creio que homens d'aqueles
Possam jamais ter pavor.
Em voz carregada e forte
Assi começa o guerreiro:
« Em nome do Senhor Deus,
Meu Padre, aqui vos requeiro;
O senhor rei não comungue,
Pois que não é justiceiro.»
A hóstia das mãos do Padre
Caiu do cálix no fundo;
O rei carrega o sobr'olho...
Certo não era jocundo
Afrontar de rosto a rosto
As sanhas de João segundo.
Era então fresca a memória
De um caso mau, miserando:
De noite se ergueu a força;
Mas quando o sol foi raiando,
Não viu ninguém mais a força,
Nem mais ao duque Fernando!
Comtudo o bravo guerreiro
Sanhas do rei não quis ver;
Não há que lhe ponha embargos,
Nem que lhe possa empecer:
« Senhor, sou Padre Tavares!»
Fita-o el-rei sem querer.
Depois lhe diz (que tal nome
Quebrara a fúria real)
« Em bem, meu bravo guerreiro!
Mas esse trem de que val?
Somos em terras d'Espanha,
Ou somos em Portugal?»
— « Senhor, não uso brocados:
Vedes-me assi, e é rezão,
Que havedes os meus haveres
Sem me leixardes, senão
Armas comidas no peito,
Armas gastadas na mão.
— « Fui ter ao vosso palácio,
Ninguém me não conheceu;
Quantos ali são convosco,
Eu vos direi, senhor meu:
Nunca os eu vi nos combates,
Nunca na guerra os vi eu!
— « Voltei d'ali, protestando
Jamais não voltar ali;
Conheceis as minhas armas,
Se não conheceis a mi;
Vesti-me a modo de guerra,
Vim ter convosco, — eis-me aqui!
— « As minhas alcaidarias
De Port'alegre e Assumar,
Senhor rei, vós m'as tirastes,
O que se chama tirar;
Ficavam perto da raia,
Mau azo de guerrear.
— « Das minhas alcaidarias
Eu tinha as rendas reais;
As guerras já são passadas,
Por que ora m'as não tornais?
Mal cabe em reis a cobiça,
Senhor, se m'as cobiçais.
— « Nem porque o velho guerreiro
Já nada vos presta e val,
Vos deveis portar com ele,
Qual dono pouco leal,
Que o seu corcel de batalha
Despreza no almargeal.
— « Assi que, Senhor, vos digo
Que vos não peço mercê;
Aquilo que me é devido,
Só peço que se me dê! —»
Prouve ao rei aqueles ditos
E mais o jeito que vê.
Depois a mão estendendo
Ao seu leal lidador:
« Nós vos faremos justiça,
Assi como justo for;
Tendes a nossa palavra,
Seja-vos ela penhor!»
Alegre o Padre Tomás
O seu mister rematou;
Hóstia tomada do cálix
Aos lábios do rei chegou,
El-rei d'um copo doirado
Um gole d'água tomou.
Mimoso tempo d'outrora
Qual nunca mais o verei,
Nem tão inteiros sujeitos,
Um ao outro dando a lei:
No Paço o rei ao vassalo,
Na Igreja o vassalo ao rei!