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Últimos Cantos

Anália

Canto I
A vida do homem com todos os seus projectos se eleva como uma torre cuja corôa é a morte.
S. Pierre.
Noite propícia aos tímidos amantes,
Consolação dos tristes que suspiram,
Que não podem sofrer do sol os raios,
Esse manto de estrelas não recolhas,
Que os olhos chama aos céus, e a Deus a mente
E em plácido remanso a dor abranda
De quem maior alívio não procura
Que sentir sempre aberta a chaga antiga.
Noite não era já, não era dia;
Porém a fresca, matutina brisa
Começava a correr, prenhe de aromas,
Por entre as verdes folhas dos olmeiros,
Como o suspiro que remata o sono
De uma virgem que dorme. D'entre as ramas
Em desafio as aves entornavam
As notas varias do seu hino eterno,
A cujos sons a natureza acorda
E o coração se alegra: da neblina
Os densos rolos — dos profundos vales
E dos cimos erguidos — procuravam,
Atraídos do sol, mais alta esfera!
Anália, oh bela filha dos amores,
Porque tremes assim? porque t'encobres?
Porque essa palidez? esse agitado
Pulsar do seio, esses modestos olhos,
Perlustrando em redor té onde alcançam?
Ninguém te espreita ou vê; ninguém te segue:
Sob o avito solar descansam todos,
Teu nobre e velho pai te crê dormida!
E tu do leito virginal te ergueste,
Quando a noturna alâmpada brilhava
Incerta, frouxa luz nas brancas telas,
Como nos brancos muros de um mosteiro
Estampa a lua os pálidos reflexos.
Anália! oculta voz entre suspiros
Duvidosa murmura: volta o rosto
A donzela gentil, descora, treme,
Vacila, cai nos braços de um mancebo,
Qual palha sobre o alambre, ou como fibra
De magnética força comovida!
Não tem voz, não tem cor, — pálida rosa
Simelha n'um jardim cortada a pouco!
Quem pudesse acabar entre os delíquios
De um puro e doce amor! — fazer pedaços
Desta vida misérrima as cadeias,
Morrer primeiro que se esgote a fonte
D'uma ilusão doirada, — e entre suspiros,
Entre as notas de um ai mal rematado,
Chegar de Deus ao trono, como um canto,
Que a brisa leva ao céu entre perfumes!
Mal distintas palavras murmuraram:
Não voz, porém acentos mal formados,
Quase grito e rugidos, que passavam
De um peito a outro sem roçar nos lábios;
Frases do coração que ao destacar-se
Levavam após si o melhor dele.
Aquela tempestade enfim se amaina,
Já menos fortes sensações tão vivas
Podem termos achar com que s'exprimam.
« Não sentes, doce bem, quanto é penoso
Lutar em vão co'a sorte? — quanto punge
O prazer que fruir nos fora dado,
E não fruído se converte em penas!
Pensar que a minha vida, à sós contigo,
Decorrera feliz, tranquila e pura!
Sentir que este desejo assim nutrido
Há de esvair-se, e não mui tarde, um dia,
Como ao romper do sol se esvai a sombra!
É vida de martírios que enlouquecem,
D'ansiedade, que mata! — Oh muito amada,
Luz desta alma, que a dor me vai gastando,
Como viver sem ti n'um ermo triste,
Sem qu'eu te escute a voz, sem que os teus olhos
Me falem da tua alma a cada instante?
Nunca t'eu vira, nem me viras nunca,
Menos agra talvez nos fosse a vida. »
Com voz que os seios d'alma penetrava
Respondia a donzela. — O fado as vezes
Cansa de ser cruel! — Quem sabe? — Um dia
Este pesar será, que ora passamos,
Grato de ser lembrado: espera ainda. —
— Espero, — oh! inda espero; mas a esp'rança
Ao passo que meus dias se devolvem,
De tanto se alongar me vai fugindo,
Rico e nobre é teu pai: seus feitos voam
De boca em boca — em longa série ilustre,
Não denegrida, não cortada: o orgulho
De rico e d'infanção, que tanto o exalta,
Ergueu alta barreira entre nós ambos.
« Q'importa! o nosso amor é mais valente:
Iremos ambos a seus pés lançar-nos,
Dizer que a nossa vida pende agora
Do nosso amor. — Há de escutar-me afável,
A mim que mais que a vida estima e presa,
Último alívio dos seus curtos dias. »
Eis nisto sobrevém o pai turbado,
A quem roaz suspeita rouba o sono;
Mal vê o arrojo do mancebo, e a filha,
Que mancha os seus brasões, prorompe irado:
« Mal haja o vil, o sedutor corrupto,
Que tantos anos de honradez deslustra,
Cobrindo a virgem de vergonha; e ao velho
D'opróbrio e negra infâmia! » Assim dizendo,
Leva a trêmula mão da clara espada.
Lampeja o aço aos olhos do mancebo,
Que sobre o peito inerme cruza os braços,
E não descora, nem recua: a virgem,
Que um amável terror empalidece,
Cobrindo com seu corpo o corpo dele,
Não teme a folha trêmula, que oscila
Na mão que os muitos anos já cansaram.
A vida of'rece a quem lhe dera a vida,
Que a amava tanto! — seu amor confessa,
Finezas dele, que a vencera amando,
Extremos de ambos que viver não podem,
Não sabem desunidos. Rude o velho
Medita e cisma, e conhecer intenta
O amor do jovem; quer talvez prová-lo,
Talvez do estranho arrojo quer puni-lo.
Ergue-se perto um monte de granito
Altivo, colossal, — no cimo erguido,
Nenhuma flor brotou, nenhum arbusto
Prestou-lhe grata sombra, onde asilado,
Canoro rouxinol soltasse o canto.
Com gesto brusco e breve o mostra ao jovem,
E diz-lhe em voz, d'onde o furor transpira!
« Se deste monte o píncaro vingares,
Tendo nos braços a mulher que adoras,
Sem que descanses.... — Se o vingar?... É tua;
Mas ai de ti, ai dela, se esmoreces,
Se a oferta iludes, si tua alma fraca
Aos teus desejos inferior se mostra!.... —
É tua! — Estas palavras no mancebo
Coaram grato enleio; — gota amiga
D'orvalho no Sahrá, clarão nas trevas,
Brando calor nos polos. — Minha! minha!
Como louco bradava, e nos seus braços
Tomou, correndo, a virgem delicada!
Canto II
Oh! que ditoso par! os corpos de ambos,
Que o amor ligara, estreitamente unidos,
Lá vão, como um só vulto, indivisíveis.
Prende o mancebo nos nervosos braços
O leve corpo dela, doce, ebúrneo,
Elástico e tão meigo!... Oh! que não possa
Linguagem d'homem retratar ao vivo
O arroubo estreme, os êxtasis divinos,
De quando a vez primeira, entre delíquios,
Unimos contra o peito, arfando ardente,
Uns peitos que se elevam, que se abatem,
Que suspiram por nós! — Os olhos d'ambos
Cintilavam de amor! hálito ardente
Crestava os lábios d'ambos, derramando
Mais do que vida, do que amor, nas faces
Que em vivo fogo ardiam. Amorosa,
Por que mais leve se tornasse, a virgem,
Lançando ao colo dele os níveos braços,
Meia suspensa lhe dizia:
« Amado,
Não tenhas nímio ardor; sê mais prudente,
Calcula os passos, mede-os; ouço as pedras
Rolar-te sob os pés: mais vagaroso
Caminha; — a queda é morte, o afã, a pressa
Quebra o arrojo, enfraquece: — alcantilado
É deste monte o cume, — falta muito,
E do rosto o suor te corre em fios. »
— Não sabes! por te amar daria a vida
Até a gota extrema, que em meu peito,
Q'inda em meu coração girar sentisse;
E quando a própria vida me faltara,
Minha alma, e o que me espera além da morte,
Daria por te amar. — É fraca a prova
De sofrer doce peso algumas horas
Por viver em delícias longos anos. —
Anima-se, prossegue mais brioso,
Sorvendo sob os pés a senda ingrata.
Imensa multidão, a quem tal caso
Ali reúne, e tem como suspensa,
Aplaude entusiasta, brada, clama,
Da base da montanha.... — infindos rogos
Eleva, exalta ao céu: — coragem! grita;
Gentil mancebo, alento! — Fraca, incerta,
Chegava ao par amante a voz ruidosa.
O mancebo feliz todo se embebe
No futuro gozar dos seus amores.
Bagas e bagas de suor cresciam
Na fronte afogueada: o rosto aceso
Ao desejado fim dos seus trabalhos
Volvia: a casta virgem, desprendendo
A loura trança, avelutada e longa,
Tentou limpar-lhe o rosto: mal sentira
A fragrância, o contato, o sangue em ondas
Correu-lhe ao coração, — a cor das faces
Sumiu-se de relance. — Sofres! sofres!
Inquieta a virgem perguntava. O triste
Começou de correr com novo alento.
« A trança, a loura trança me eletriza,
Requeima o sangue e a pele, inflama e cega!
Querida, amada, mais que tudo amada,
Luz da minha alma, norte meu, feitiço
Desta existência, que sem ti é morte,
Oh! não queiras, por Deus, tirar-me as forças! »
Bradava assim, correndo; já mais fraco,
Inda mais fraco sente-se, — caminha,
— Ouves? a bela virgem lhe dizia:
Quando assentares que vencer não podes
Esta íngreme costeira, não mo digas;
Porém ao fundo abismo negrejante,
Que a nossos pés terrífico se cava,
Leva-me, por Deus, presa em teus braços,
E esta vida contigo ali se acabe. —
« Que falas em morrer, tão nova ainda!
Soluçava o mancebo! oh! não, mais dias
Nos restam, mais felizes, — outros anos,
Outros tempos de amor, que estes não sejam. »
Já se apressa, já corre! — O povo amigo
— Coragem! com mais força lhe gritava.
Açodado correu por longo espaço,
Salvando d'asp'ra senda as pedras soltas;
Porém, do afã, por fim, quase vencido,
Com voz, louca de amor, bradava o triste:
« Oh! como é doce este romper da aurora!
A brisa da manhã, como é suave!
Seca-me as bagas de suor do rosto,
Umedece-me os lábios ressequidos,
E outra vida melhor m'influi no peito. »
E após instantes, prosseguiu mais baixo:
« Quebrou-me este lutar co'a sorte ingrata,
Quase vencido arquejo, os membros lassos
Movo a custo arrastados; mas espero....
Oh! inda espero de chamar-te minha,
De haver-te em prêmio deste afã penoso! »
Volvendo ao cimo da montanha os olhos,
Murmurava a donzela: oh! Deus, tão alta!
— Bem alta, sim, porém vingá-la é força:
O amor é forte e compassivo; os brios,
De que preciso, mos dará; mas dize,
Dize-me tu que serás minha, tudo
Que eu perderei, que eu lucrarei contigo,
E certo vencerei; — dize-me as doces,
Meigas frases de amor com que eu soía
Esquecer-me da vida agra e pesada,
Qu'hei passado sem ti; que em te escutando
Esta fadiga esquecerei, lembrado
Do que me resta de prazer, de enlevos,
D'almas venturas a fruir ditoso.
Assim, assim; crava nos meus teus olhos,
Teus lindos olhos de um azul tão puro,
Como a cerúlea cor do céu, das ondas,
Por noite estiva e bela. Da tua alma
Leio neles a tímida esperança,
E como eles espero. — Um beijo, um beijo!...
Esse macio dos teus lábios causam
Frenesi que transporta, que enlouquece!
Guarda-os por ora, — eles sufocam, roubam
O alento, a razão, — como um cautério
De fogo, inflamam, — o ardor, a vida,
Que prestam — são delírio, raiva insana,
E nutrem como a febre.
Eis que o mancebo
Os passos multiplica nessa estrada,
Que mais se estreita, empina e cresce.
Enfim despareceu! não toda, resta
Curta distância, que vencer é fácil;
Fácil, mas a membros não cansados,
Não exauridos de vigor, em luta
Perigosa e vital. — Meu Deus, não posso!
Murmurava entre si, a medo, e quase
Reflexo interior do pensamento.
— Um passo mais: bradava-lhe a donzela,
Em ânsias de transido desespero.
Hesitas! desfaleces! pois morramos!
Plácido asilo a campa nos of'rece,
Da morte o estreito umbral passemos juntos.
Frequentes sons, agudos, nos ouvidos
Sente o mancebo, — transtornado o rosto,
Mal firme sobre os pés, simelha o tronco
Nutante, cerceado, que procura
O cimo undoso equilibrar nos ares.
Nada ouviu, nada viu, — nem mesmo o pranto,
O adeus extremo soluçado à vida
Risonha e bela e súbito cortada,
Quase ao romper da aurora. O pranto ardente
Caiu no peito do mancebo: — choras! tu choras!
Tenho os olhos vendados, mas sentido
Hei sobre o peito um requeimar de fogo:
Choras, tu choras!
Delirante o moço
De um pulo hardido vinga o resto infando
Da senda malfadada: És minha! és minha! —
Clama em delírio, mas a morte o colhe,
E d'entre os braços da que amava, o arranca!
Caiu gemendo; a mísera donzela,
Oh! vinde! — socorrei-me! repetia,
Oh! vinde, que ele expira — a turba entanto
Enchia os ares de aplaudir ruidoso.
Socorrei-me! bradava enlouquecida.
Bradava a turba: — A noiva, a bela noiva!
Oh! como os cabelos esparzidos
C'o resplendor do sol pleiteiam brilho?!
É bela, hardido o noivo, ambos felizes! —
Lindas capelas de mimosas flores
Fabricavam no entanto — um padre chamam,
Porque em laço de amor juntasse a ambos;
Mas as capelas definharam tristes
Em lutuoso esquife, — a mesma campa
Sorveu — leito nefasto — os dois amantes!
Somente o velho pai do nobre orgulho
No enterro filial o arranco extremo
Soltar medita, transformado em pompa.
Não querendo feliz a filha em vida,
Ao menos quer no mármore brunido
Mostrar poder, nobreza, e o esquartelado
Lutuoso brasão em campo negro.

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