Últimos Cantos
O Baile
Sonemos gozando
Fortuna tan vana,
Y el sol de mañana
Que vea al salir
Que al son de la orquesta
Danzando en la fiesta,
No es carga funesta
La vida feliz.
Zorrilla.
As salas vão-se enchendo, as luzes brilham
Nos prismas de cristal repercutidas,
Enquanto as flores
Dos bufetes nas jarras coloridas
Acres odores
Soltam; ao mar de luzes misturando
D'inocente perfume outro mar brando
Com requebros e amor gentis donzelas,
Em riso e festa,
Medindo os passos
Aos sons da orquestra;
Pendem dos braços
Do namorado, lépido galã!
Esta risonha, aquela pensativa,
Outra menos esquiva,
Atenta as vozes, que o prazer lhe entranham,
E à frase cortesã,
Que lhe entorna a lisonja nos ouvidos;
Vão descuidosas,
Nos lábios risos,
Nas faces rosas,
Dando fé a protestos fementidos.
Triunfo às belas! o prazer começa:
Correm da taça vinhos espumosos,
Gratos licores;
Tangida pela mão dos Trovadores
Desfaz-se a lira em sons melodiosos,
Em cântico de amores.
Soltam mais viva luz as brancas velas,
Melhor perfume as flores.
Ativa-se o prazer; triunfo às belas!
Aqui, ali, alem, mil rostos belos,
Da valsa ao giro rápido se mostram,
De gemas enastrados os cabelos;
E o peito que anelante
Palpita entumecido
Nas ondas do prazer ebrifestante,
D'um leve colorido
Banha o semblante,
Que mais e mais co'a noite se enrubece:
Triunfo às belas, — o prazer recresce!
Perdido entanto neste mar de luzes,
Mar de amor, de perfumes, que me inunda,
Contemplo indiferente
Quanto em redor diviso;
E entre tanto ruido e tanta gente,
Nem um sorriso
Verdadeiro, inocente!
Nem um sincero raio de alegria,
Nem um peito contente
Neste mar de perfumes e harmonia!
Então digo entre mim: — Talvez aquela,
Que tem melhores cores,
Que mais leda se mostra,
Que mais feliz no gesto se revela,
Sente mais finas dores;
O íntimo desgosto,
A febre que a devora
Lhe dá calor ao rosto,
E no silêncio chora,
Presa de uma aflição devoradora.
Uma tristeza funda, inexprimível
O coração me anseia;
E triste e solitário n'um recanto,
Nunca mais solitário, nem mais triste
Do que entre a multidão que me rodeia,
Não encontro maior, mais doce encanto
Que deixar-me arrastar por uma ideia,
Que me avassala a mente.
¿Que m'importa esta gente,
Estes rostos que vejo e não conheço,
E o riso a que mil outros dão apreço?
Esta fingida alegria,
Esta ventura que mente,
Que será delas ao romper do dia?
Destas virgens louçãs as mais mimosas
Mortas serão talvez antes que murchem
Do branco seio as encarnadas rosas!
Grinaldas festivais, que a morte espalha
No lúgubre terreiro;
O pó as enxovalha,
Murchas aos pés do esquálido coveiro!