Últimos Cantos
Se Queres que Eu Sonhe
Sur mon front, où peut-etre s'acheve
Un songe noir qui trop long temps dura,
Que ton regard come un astre se leve,
Soudain mon rève
Rayonnerá.
V. Hugo.
Tu queres que eu sonhe! — que ao menos dormido
Conheça alegrias, desfrute prazeres,
Que nunca provei;
Que ao menos nas asas de um sonho mentido
Perdido — arroubado, também diga: amei!
Tu queres que eu sonhe! — não sabes que a vida
Me corre penosa, — que amarga por vezes
A própria ilusão!
No pálido riso d'uma alma afligida,
Qu'invida — ser leda, que dores não vão!
Se o pranto, que os olhos cansados inflama,
Nos olhos de estranhos simpático brilha,
Mais agro penar
Do triste o sorriso nos peitos derrama,
Se a chama — revela, que almeja ocultar.
Sonhando, percebo na mente agitada
Um mar sem limites, áreas fundidas
Aos raios do sol;
E um marco não vejo perdido na estrada
Cansada, — não vejo longínquo farol!
E queres qu'eu sonhe! — Nas águas revoltas
O nauta, ludíbrio d'horrenda procela,
Se pode dormir,
As vagas cruzadas, em sustos involtas,
Às soltas — percebe raivosas bramir.
Talvez porém sonha que as ondas mendazes
O levam domadas à terra querida,
Qu'entrou em seus lares!...
E triste desperta, que os ventos fugazes
Nas faces — a espuma lhe atiram dos mares.
Se queres que eu sonhe, — que alguma alegria
Dormido conheça — que frua prazeres
D'um plácido amor;
Vem tu como estrela da noite sombria,
Que enfia — seus raios das selvas no horror,
Brilhar nos meus sonhos. — Então sossegado,
Cismando prazeres, que n'alma s'entranham,
D'um riso dos teus
Coberto o meu rosto, — fugira o meu fado
Quebrado — aos encantos de um anjo dos céus.
Vem junto ao meu leito, quando eu for dormido,
Que eu sinta os perfumes que exalas passando;
Não sofro — direi:
E ao menos nas asas de um sonho mentido
Perdido — arroubado, talvez diga: — amei! —