Sonetos
A Morte, que da vida o nó desata
A Morte, que da vida o nó desata,
Os nós, que dá o Amor, cortar quisera
Co'a ausência, que é sobre ele espada fera,
E co'o tempo, que tudo desbarata.
Duas contrárias, que uma a outra mata,
A Morte contra Amor junta e altera;
Uma, Razão contra a Fortuna austera;
Outra, contra a Razão Fortuna ingrata.
Mas mostre a sua imperial potência
A Morte em apartar de um corpo a alma,
O Amor n'um corpo duas almas una;
Para que assi triunfante leve a palma
Da Morte Amor a grão pesar da ausência,
Do tempo, da Razão, e da Fortuna.