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Sonetos

Eu vivia de lágrimas isento

Eu vivia de lágrimas isento,
N'um engano tão doce e deleitoso,
Qu'em qu'outro amante fosse mais ditoso
Não valiam mil glórias um tormento.
Vendo-me possuir tal pensamento,
De nenhuma riqueza era invejoso;
Vivia bem, de nada receoso,
Com doce amor e doce sentimento.
Cobiçosa a Fortuna, me tirou
Deste meu tão contente e alegre estado;
E passou-se este bem, que nunca fora:
Em troco do qual bem só me deixou
Lembranças, que me matam cada hora,
Trazendo-me à memória o bem passado.

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