Sonetos
Gentil Senhora, se a Fortuna imiga
Gentil Senhora, se a Fortuna imiga,
Que contra mi com todo o Céu conspira,
Os olhos meus de ver os vossos tira,
Porque em mais graves casos me persiga;
Comigo levo esta alma, que se obriga
Na mor pressa de mar, de fogo, e d'ira,
A dar-vos a memória, que suspira
Só por fazer convosco eterna liga.
Nesta alma, onde a fortuna pode pouco,
Tão viva vos terei, que frio e fome,
Vos não possam tirar, nem mais perigos.
Antes, com som de voz trêmulo e rouco
Por vós chamando, só com vosso nome
Farei fugir os ventos, e os imigos.