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A Costela do Grã Cão

Grã Cão do Outubro, V – Dor

15-X-33
A cidade está mais agitada a meidia.
As ruas devastam minha virgindade
E os cidadãos talvez marquem encontro nos meus lábios.
Minha boca é o peixe macho e derramo núcleos de amor pelas ruas.
Que irão fecundar os ovários da vida algum dia.
Eu venho das altas torres, venho dos matos alagados,
Com meus passos conduzidos pelo fogo do Grã Cão!
Mas pra viver na cidade de São Paulo escondi na corrente de prata
A inútil semente do milho, a maniva,
E enroupei de acerba seda o arlequinal do meu dizer...
E agora apontai-me, janelas do Martinelli,
Calçadas, ruas, ruas, ladeiras rodantes, viadutos,
Onde estão os judeus de consciência lívida?
Os tortuosos japoneses que flertam São Paulo?
Os ágeis brasileiros do Nordeste? os coloridos?
Onde estão os coloridos italianos? onde estão os turcomanos?
Onde estão os pardais, madame la Françoise,
Ergo, ego, Ega, égua, água, iota, calúnia e notícias,
Balouçantes nas marquesas dos roxos arranha-céus?...
Não vos trago a fala de Jesus nem o escudo de Aquiles,
Nem a casinha pequenina ou a sombra do jatobá.
Tudo escondi no caminho da corrente de prata.
Mas eu venho das altas torres trazido ao facho do Grã Cão,
Lábios, lábios para o encontro em que cantareis fatalmente,
Ameaçados pela fome que espia detrás da coxilha,
A dor, a caprichosa dor desocupada que desde milhões de existências
Busca a razão de ser.

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