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Remate de Males

A adivinha

Janeiro de 1928
Que é que é?
Ele possui uma alma e um corpo feito o nosso
E vai percorrendo o caminho de todos.
Foi piá, quis bem a mãe, quis bem a casa dele,
E afinal uma feita quis bem a cidade e foi homem.
Então gostou da intrepidez das ruas normativas
E cantou o orgulho do homem no indivíduo.
Pôs a boca no mundo, imaginou que era um,
E era apenas mais um o cantor gastador.
Pôs a boca no mundo e cantou todo o dia,
Porém a voz se fatigou talqualmente os vulcões
E não ficou mais que o instrumento.
Ser o bojo vazio do violão...
A noite igualada separa a vida do universo,
É o momento em que as coisas todas são resumos
E pelas esquinas dos bairros se engrandecem os violões.
Que é que é?...
É um instrumento de música oscilando num soco de pedra.
De pedra sangrenta do Itacolumi.
Careceu que pela entrada da cidade lerdamente,
Ao aboio alto dos homens e dos animais,
Viessem os séculos montando bois castrados,
Pra que o violão fosse afinal violão.
O vento afina e desafina as cordas,
A chuva tantana na táboa do pinho,
Remexe a dança com lambança,
Cada sujeito que passa tira um ponteio só dele...
Tudo ponteios, tudo sons sem resultado,
Reboam ressoam na caixa de todos,
Sem cantos, sem palavras... A voz do homem se acabou.
Sobre o mar cinzento relumeia céu de estrela,
Sobre a Terra girada ao impulso dos passos populares,
Que nem chagas as cidades, que nem chagas...
São berevas. Não! são pensamentos! maravilhas orgulhosas!
São berevas... Taperas e palácios...
E a febre... As águas mornas do Paraíba...
As águas novas do Missuri-Mississipi...
O Reno com vilegiaturas e castelos medievais...
Vamos pra Caxambu! pra Karlsbad!
Vamos ver Mussolini! Vamos ver os escravos!
Vamos ver si Leningrado não mudou de nome, gente!
Que é que é! É o violão. Um ponteio sem voz
Trepadeirando até agarrar lá em riba
Nos espeques firmes das estreias do céu.
Nos ares as luzes torcendo cruzando,
Sempre dança, tudo maxixe impossível,
As luzes fazem traçados em emboladas de luz.
São anúncios. Todas as luzes são anúncios.
Todas as ideias e paixões é tudo anúncio!
Tudo só anúncio, só anúncio no mundo!
E o pinho reboa ressoa se estrala em só anúncio!
Uma bruta duma dança rag remexe a Terra?
Um pensamento fundo rasga um lapo na caixa do pinho?
Porém que é que é! Será choro? Será seresta de festa?
Será que é pensamento mesmo? será piá? Serapião? Será violão!
Que é que é balanceado no soco de pedra
O instrumento saracoteando anúncios de harmonias?...
Os críticos analisarão todas as harmonias,
Os pensamentos conceberão sistemas e tonalidades,
Será possível tirar uma regra e a regra viverá setenta-e-um anos...
Mas que é que é o violão que existe e existirá
Além da regra e a regra não diz nada e o violão vê na regra só anúncio!...
Eh, cordas, cordas, cordas metálicas feitas de século,
Se quebrem logo! Cordas, o violão não pode mais saber o que são cordas,
Não sabe porque soa tanto e a caixa de ressonância
Vibra com tudo, mesmo com o frescor sentimental da Luna sertaneja...
Eh, cordas do violão, porque não viram homem outra vez?
Deixem que ele cante a geometria praceana,
E o Carnaval, e a Flor de Amor, e Mamãe com Papai!
Deixem que ele possa achar de novo as palavras arcaicas!
Mas o violão é mais imenso que as palavras
E não as compreende mais.
Que significa até a palavra “Deus”?
...alguma coisa mais desejada...
Mais bem puxada, mais bem dançada,
Além do mundo e do pensamento...
Catira leve e jongo lento,
Pra que não basta noite de dança...
Êxtase de interminável festança,
Que a insuficiência do amor não abre
Na flor humana duma palavra...
Ele ressoa no bojo do violão! no bordão! gentes, bem no bordão!
Mas o violão não sabe não! ninguém não sabe!
E tudo um sem sins!... Platariviux! gentes, platariviux!...
Que é que é! Que é que é!...
E a tristeza iluminada, vasta, instrumental,
Ácida inquietação, maravilhando, turtuveando,
Recai sobre a adivinha.

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