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Remate de Males

As bodas montevideanas

15-I-1928
Todas as coisas estarão boazinhas porque são indiferentes...
Vocês chegaram até o ponto da alegria...
Praquê matutar mais?
— “Pois que a gente se quer bem, tanto! que o corpo
Consegue ficar na espera tempo longo de conversa,
Não venham nos avisar que é Buenos Aires lá fora,
Que é Buenos Aires com toda a magnitude firme dela!
Não venham nos avisar que até o garçom olha pra nós...
Não venham não! E que ninguém não venha mais!
Diz, pássaro, diz outra vez como foi que você veio parar aqui!
Diz tudo, e diz principalmente outra vez, pássaro!
Repete, não faz mal, repete o caso, colhereira chiquita do Brasil!...
Será mesmo que a gente se escuta falando?
Diz, pássaro! Que a voz de você ameigue as coisas que muito já sei,
Enquanto os nossos olhos entram fundo no invisível de nós dois,
Praquê matutar mais!...”
— “Ah, flores duma outra idade e marchas nupciais, véus de noiva...
Amanhã cedo iremos a Montevidéu casar...
Tem mais comodidade lá na Lei, até divórcio nos reserva,
E nós iremos a Montevidéu só pra casar...
Praquê matutar mais, viva o Uruguai!
Nem bem chegando lá vou no cabeleireiro concertar as sobrancelhas, stou medonha,
E você bota a gravata listrada que dei pra você.
Nos casaremos alinhados.
Flores de laranjeira não, bobagem! mas... que tal umas laranjas?
Umas laranjas bem geladas, bem acidas pro jantar... Vai ser bom!”
Ah, flores duma outra idade e marchas nupciais, véus de noiva,
Até vocês podem cair sobre eles, os noivos aceitarão tudo!
A terra enorme em todos os seus gritos que ranja na marcha nupcial!
A burundanga dos ventos de poeira, pampeiros, noroestes, sulões,
Cheirosos, se tecendo em véu de noiva sobre o pássaro,
E a florada meridional das estrelas despencando em flor sobre eles!...
Aceitam tudo porque já não é mais hora de enxergar.
E que o quarto de hotel, Montevidéu, a Terra, o mundo,
Sejam pequenos ou grandes, qual! de nada saberão mais!
Canta, som complacente de minha voz, a louvação nupcial com entusiasmo!
Canta por ti, canta apostando!
Canta, que o canto nupcial é torcida também, torce pra eles!
A equipe nova seguiu andarilha,
Torce pra que eles cheguem juntos no destino!
Torce, ri contente, grita que embora não ouçam-te o grito,
O som irá dinamizar o ardor dos jogadores!
Dinamiza! Dá força, dá ritmo, porque o jogo bem torcido
É comovente, mais movimentado e bem de esporte leal!
Abaixo os profissionais!
Canta num som mui alto, casta e desnecessária!
Desabaladamente, feito boba, canta e recanta muito,
Eles estão no jogo e já não podem cantar mais!
Torce, torce e grita boba-alegre comovida sem sentido!
Para eles vai ser a vitória ou a derrota no jogo, despeito ou completamento,
Porém pra ti, voz minha, resta o canto de esporte vital, acima dos resultados!
Canta alegre na torcida, voz de poeta!
Canta sem ter razão pra estar alegre!
Dois seres sem temor, sem matutar se uniram, dois a mais!
Não tens razão especial não pra estar alegre, voz de poeta?
Pois canta assim mesmo ignorando a razão que te leva,
Mas canta sempre! Canta empolgada à violência da Terra,
A violência dos seres que através das civilizações aflitivas,
Inda enxergam o Sol na abertura dos dias
E bailam sobre os vulcões!

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