As Viagens
I
Primeira migração
Sinto às vezes ferir-me a retina ofuscada
Um sonho: — A natureza abre as perpétuas fontes.
E, ao clarão criador que invade os horizontes,
Vejo a Terra sorrir à primeira alvorada.
Nos mares e nos céus, nas rechãs e nos montes,
A Vida canta, chora, arde, delira, brada...
E arfa a Terra, num parto horrendo, carregada
De monstros, de mammouths e de rinocerontes.
Rude, uma geração de gigantes acorda
Para a conquista. A uivar, do refugio das furnas
A migração primeira, em torvelins, transborda.
E ouço, longe, rodar, nas primitivas eras,
Como uma tempestade entre as sombras noturnas,
O estrupido brutal d'essa invasão de feras.