Tarde
Madalena
“Maria Madalena, Maria de Tiago, e Salomé compraram aromas, para irem embalsamar a Jesus. Mas, olhando, viram revolvida a pedra... E Jesus, tendo ressurgido, apareceu primeiramente a Maria Madalena.” (São Marcos. Cap. XVI.)
Quedaram, frio o sangue, as mulheres chorosas,
Sem cor, sem voz, de espanto e medo. E, de repente,
Caíram-lhes das mãos as ânforas piedosas
De bálsamo odoroso e de óleo rescendente.
Enfeitiçou-se o chão de um perfume dormente,
E o arredor trescalou de essências capitosas,
Como se a terra toda abrisse o seio, e o ambiente
Se enchesse de jasmins, de nardos e de rosas.
E Madalena, muda, ao pé da sepultura,
Tonta da exalação dos cheiros, em delírio,
Viu que uma forma, no ar, divinamente bela,
Vivo eflúvio, vapor fragrante, alva figura,
Aroma corporal, pairava...
Como um lírio,
Num sorriso, Jesus fulgia diante d'ela.