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Versos e Versões

O misantropo

«Je veux que l'on soit homme, et qu'en toute rencontre
Le fond de notre cœur dans nos discours se montre;
Que ce soit lui qui parle, et que nos sentiments
Ne se masquent jamais...» Molière (Le Misanthrope, act. 1.e scen. 1.e)
À boca, às vezes, o louvor escapa
E o pranto aos olhos; mas louvor e pranto
Mentem; tapa o louvor a inveja, enquanto
O pranto a vesga hipocrisia tapa;
Do louvor, com que espanto, sob a capa
Vejo tanta dobrez, ludíbrio tanto!
E o pranto em olhos vejo, com que espanto,
Que, satânicos, riem-se à socapa!
Por que, desde que esse ódio atroz me veio,
Só traições vejo em cada olhar venusto?
Perfídias só em cada humano seio?
Acaso as almas poderei sem custo,
Ver, perspícuo e melhor, só quando odeio?
E é preciso odiar para ser justo?!
Novembro, 84.

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