Confissões — Livro Livro IX
Livro IX
I.1 Ó Senhor, eu sou teu servo, eu sou teu servo e filho da tua serva: rompeste as minhas cadeias, a ti imolarei uma hóstia de louvor. Que te louvem o meu coração e a minha língua, e que todos os meus ossos digam: “Senhor, quem é semelhante a ti?” Que o digam, e tu responde-me e dize à minha alma: “Eu sou a tua salvação.” Quem sou eu, e qual sou eu? Que mal não foram os meus atos, ou, se não os atos, as minhas palavras, ou, se não as palavras, a minha vontade? Mas tu, Senhor, és bom e misericordioso, e a tua destra olhava a profundeza da minha morte e esgotava, do fundo do meu coração, o abismo da corrupção. E isto era tudo: não querer o que eu queria, e querer o que tu querias. Mas onde estava, durante tão longos anos, e de que fundo profundo e secreto foi chamado num instante o meu livre-arbítrio, para que eu submetesse a cerviz ao teu jugo suave e os ombros ao teu fardo leve, Cristo Jesus, meu auxílio e meu redentor? Quão doce se me tornou de repente carecer das doçuras das ninharias! E as que fora um medo perder, já era uma alegria deixar. Pois tu as expulsavas de mim, tu, verdadeira e suprema suavidade; expulsavas, e entravas em lugar delas, mais doce que todo prazer, mas não para a carne e o sangue; mais claro que toda luz, mas mais íntimo que todo segredo; mais sublime que toda honra, mas não para os que são sublimes em si mesmos. Já o meu espírito estava livre dos cuidados mordazes de ambicionar, de adquirir, de revolver-me e de coçar a sarna das paixões; e eu tagarelava contigo, minha claridade, minha riqueza e minha salvação, Senhor meu Deus.
II.2 E pareceu-me bem, diante de ti, não arrancar com estrépito, mas retirar suavemente o serviço da minha língua da feira da tagarelice, para que os meninos, que meditavam não a tua lei, não a tua paz, mas loucuras mentirosas e guerras do foro, não comprassem mais da minha boca armas para o seu furor. E, oportunamente, já restavam pouquíssimos dias para as férias da vindima, e resolvi suportá-los, para me retirar na data costumada e, resgatado por ti, não voltar mais a pôr-me à venda. O nosso propósito, portanto, estava diante de ti; diante dos homens, porém, não estava, a não ser diante dos nossos. E tínhamos combinado entre nós que não fosse divulgado a esmo a quem quer que fosse; embora tu, a nós que subíamos do vale do pranto e cantávamos o cântico dos degraus, nos tivesses dado flechas agudas e carvões devastadores contra a língua enganosa, que contradiz como quem aconselha e que, como se costuma fazer com o alimento, consome amando.
II.3 Tu tinhas flechado o nosso coração com a tua caridade, e trazíamos as tuas palavras cravadas nas entranhas; e os exemplos dos teus servos, que de negros fizeras luminosos e de mortos, vivos, amontoados no regaço do nosso pensamento, queimavam e consumiam o pesado torpor, para que não pendêssemos para baixo, e nos acendiam com força, de modo que todo sopro de contradição vindo da língua enganosa pudesse inflamar-nos mais vivamente, e não extinguir-nos. Contudo, como o nosso voto e propósito, por causa do teu nome, que santificaste por toda a terra, havia de ter certamente também quem o louvasse, parecia coisa semelhante à jactância não esperar o tempo, tão próximo, das férias, e abandonar antes uma profissão pública e posta diante dos olhos de todos; de modo que, voltados para o meu ato os rostos de todos os que viam como eu quisera antecipar o dia, tão vizinho, das vindimas, dissessem muitas coisas, como se eu tivesse ambicionado parecer grande. E de que me servia isso, que se opinasse e se disputasse sobre o meu ânimo, e que fosse blasfemado o nosso bem?
II.4 Além disso, naquele mesmo verão, o meu pulmão começara a ceder ao trabalho excessivo das letras, a respirar com dificuldade, a mostrar-se ferido com dores no peito e a recusar a voz mais clara ou mais prolongada; e isso a princípio me perturbara, porque me obrigava, quase já por necessidade, a depor o fardo daquele magistério, ou, se eu pudesse curar-me e convalescer, ao menos a interrompê-lo. Mas, quando nasceu em mim e se firmou a vontade plena de ter vagar e de ver que tu és o Senhor (tu o sabes, meu Deus), comecei até a alegrar-me por ter também esta desculpa, nada mentirosa, que temperasse o desgosto dos homens que, por causa dos seus filhos, nunca queriam que eu fosse livre. Cheio, pois, de tal alegria, eu suportava aquele intervalo de tempo até que se escoasse (não sei se eram uns vinte dias); mas eram suportados com fortaleza, porque se fora a cobiça, que costumava carregar comigo o pesado negócio, e eu teria ficado esmagado, se a paciência não lhe tomasse o lugar. Algum dos teus servos, meus irmãos, dirá talvez que pequei nisto, por ter consentido, já com o coração pleno ao serviço da tua milícia, em sentar-me nem que fosse uma hora na cátedra da mentira; eu não o contesto. Mas tu, Senhor misericordiosíssimo, acaso não me perdoaste e remiste também este pecado, com os outros, horrendos e fúnebres, na água santa?
III.5 Verecundo consumia-se de angústia por esse nosso bem, porque via que, por causa dos laços que o prendiam tenacissimamente, ficaria privado da nossa companhia. Ainda não era cristão, e tinha esposa fiel; e era essa mesma, contudo, grilhão mais apertado que os demais, que o retardava no caminho que tínhamos empreendido; e dizia que não queria ser cristão de outro modo senão daquele de que não era capaz. Ofereceu-nos, com toda a bondade, que, enquanto ali estivéssemos, ficássemos na sua propriedade. Tu lho retribuirás, Senhor, na ressurreição dos justos, pois já lhe deste em retribuição o próprio quinhão. Pois, estando nós ausentes, quando já estávamos em Roma, foi tomado de uma doença do corpo e, nela, feito cristão e fiel, partiu desta vida. Assim tiveste compaixão não só dele, mas também de nós, para que, pensando na egrégia humanidade do amigo para conosco e não o contando no teu rebanho, não fôssemos atormentados por uma dor intolerável. Graças a ti, Deus nosso! Somos teus. Mostram-no as tuas exortações e consolações: fiel no que prometes, retribuis a Verecundo, em troca daquela sua propriedade de Cassicíaco, onde descansamos em ti do ardor do século, a amenidade do teu paraíso sempre verdejante, porque lhe perdoaste os pecados sobre a terra, no monte coalhado, no teu monte, no monte fértil.
III.6 Ele, pois, se angustiava então; Nebrídio, porém, alegrava-se conosco. Pois, embora também ele, ainda não cristão, tivesse caído naquela fossa do erro perniciosíssimo de crer que a carne do teu Filho, a Verdade, era um fantasma, contudo, saindo dali, estava neste estado: ainda não iniciado em nenhum sacramento da tua Igreja, mas pesquisador ardentíssimo da verdade. Não muito depois da nossa conversão e regeneração pelo teu batismo, a ele, já também fiel católico, que te servia em perfeita castidade e continência na África, entre os seus, depois que toda a sua casa se fizera cristã por meio dele, tu o soltaste da carne. E agora ele vive no seio de Abraão. Seja o que for aquilo que esse seio significa, ali vive o meu Nebrídio, doce amigo meu, mas teu, Senhor, filho adotivo, de liberto que era: ali vive. Pois que outro lugar para tal alma? Ali vive, no lugar sobre o qual me fazia tantas perguntas, a mim, homenzinho inexperiente. Já não põe o ouvido à minha boca, mas a boca espiritual à tua fonte, e bebe quanto pode a sabedoria, conforme a sua avidez, feliz sem fim. E não creio que se embriague dela a ponto de se esquecer de mim, quando tu, Senhor, a quem ele bebe, te lembras de nós. Assim estávamos, pois: consolávamos Verecundo, triste, sem dano da amizade, por causa dessa nossa conversão, e o exortávamos à fé própria do seu estado, isto é, da vida conjugal; e esperávamos que Nebrídio nos seguisse, o que ele podia fazer, estando tão perto; e já estava a ponto de fazê-lo, quando eis que se escoaram enfim aqueles dias. Pois pareciam longos e numerosos, pelo amor da liberdade ociosa para cantar do fundo de todas as medulas. Disse-te o meu coração: “Busquei a tua face; a tua face, Senhor, eu buscarei.”
IV.7 E chegou o dia em que eu havia de ser desatado de fato da profissão de retórica, da qual já em pensamento estava desatado; e assim se fez. Arrancaste a minha língua de onde já tinhas arrancado o meu coração, e eu te bendizia alegre, partindo para a casa de campo com todos os meus. O que ali fiz nas letras, já a teu serviço, é verdade, mas que ainda respiravam, como numa pausa ofegante, a escola da soberba, atestam-no os livros das discussões com os presentes e comigo mesmo, a sós diante de ti; e o que discuti com Nebrídio ausente, atestam-no as cartas. E quando me bastaria o tempo para recordar todos os grandes benefícios que nos fizeste naquele tempo, sobretudo tendo eu pressa de chegar a outros maiores? Pois a minha lembrança me chama de volta, e é-me doce, Senhor, confessar-te com que estímulos interiores me domaste por completo, e como me aplanaste, abaixando à humildade os montes e as colinas dos meus pensamentos, e endireitaste o que em mim era tortuoso e suavizaste o que era áspero; e de que modo submeteste também o próprio Alípio, irmão do meu coração, ao nome do teu Unigênito, nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo, nome que a princípio ele desdenhava ver inserido nos nossos escritos. Pois preferia que eles cheirassem aos cedros dos ginásios, que o Senhor já quebrou, a que cheirassem às ervas salutares da Igreja, contrárias às serpentes.
IV.8 Que vozes te dei, meu Deus, quando lia os salmos de Davi, cânticos de fé, sons de piedade que excluem o espírito inchado, eu, rude no genuíno amor de ti, catecúmeno de férias na casa de campo com o catecúmeno Alípio, tendo junto de nós minha mãe, com hábito de mulher, fé de homem, serenidade de anciã, caridade de mãe, piedade de cristã! Que vozes te dava naqueles salmos, e como por eles me inflamava em ti, e me acendia no desejo de recitá-los, se pudesse, a todo o orbe da terra, contra o fumo do orgulho do gênero humano! E, contudo, eles são cantados em todo o orbe, e não há quem se esconda do teu calor. Com que dor veemente e acerba me indignava contra os maniqueus, e de novo me compadecia deles, porque não conheciam aqueles sacramentos, aqueles medicamentos, e eram insanos contra o antídoto que os poderia ter tornado sãos! Quisera que estivessem então em algum lugar ali perto e, sem que eu soubesse que ali estavam, contemplassem o meu rosto e ouvissem as minhas vozes quando li o quarto salmo naquele ócio de então: o que fez de mim aquele salmo (“Quando eu invocava, ouviu-me o Deus da minha justiça; na tribulação me dilataste. Tem piedade de mim, Senhor, e ouve a minha oração”), quisera que o ouvissem sem que eu soubesse se ouviam, para que não pensassem que eu dizia por causa deles o que disse no meio destas palavras; porque, na verdade, eu nem o diria, nem o diria assim, se sentisse que era ouvido e visto por eles; nem eles, se eu o dissesse, o receberiam como eu o dizia comigo e para mim, diante de ti, pelo afeto íntimo do meu ânimo.
IV.9 Estremeci de temor e logo ali me abrasei de esperança e de exultação na tua misericórdia, ó Pai. E tudo isto saía pelos meus olhos e pela minha voz, quando o teu Espírito bom, voltando-se para nós, nos diz: “Filhos dos homens, até quando pesados de coração? Por que amais a vaidade e buscais a mentira?” Pois eu amara a vaidade e buscara a mentira; e tu, Senhor, já tinhas engrandecido o teu Santo, ressuscitando-o dentre os mortos e colocando-o à tua direita, de onde havia de enviar do alto a sua promessa, o Paráclito, o Espírito da verdade. E já o enviara, mas eu não sabia. Enviara-o, porque já fora engrandecido, ressurgindo dos mortos e subindo ao céu. Antes, porém, o Espírito ainda não fora dado, porque Jesus ainda não fora glorificado. E clama a profecia: “Até quando pesados de coração? Por que amais a vaidade e buscais a mentira? E sabei que o Senhor engrandeceu o seu Santo.” Clama “até quando”, clama “sabei”; e eu, tanto tempo sem saber, amei a vaidade e busquei a mentira; e por isso ouvi e estremeci, porque isso se diz a gente tal qual eu me lembrava de ter sido. Pois nos fantasmas que eu tivera por verdade havia vaidade e mentira. E fiz ressoar muitas coisas, grave e fortemente, na dor da minha lembrança. Oxalá as tivessem ouvido os que ainda agora amam a vaidade e buscam a mentira! Talvez se perturbassem e a vomitassem, e tu os ouvirias quando clamassem a ti, porque morreu por nós, com verdadeira morte da carne, aquele que intercede junto de ti por nós.
IV.10 Lia: “Irai-vos e não pequeis”; e como me comovia, meu Deus, eu que já aprendera a irar-me contra mim mesmo pelo passado, para não pecar no futuro, e a irar-me com razão, porque não era outra natureza, a da raça das trevas, que pecava em mim, como dizem os que não se iram contra si mesmos e entesouram para si ira no dia da ira e da revelação do teu justo juízo! Os meus bens já não estavam fora, nem eram buscados com olhos de carne, debaixo deste sol. Pois os que querem alegrar-se no que é de fora facilmente se esvaem e se derramam nas coisas que se veem e são temporais, e lambem com pensamento faminto as imagens delas. E oh, se se cansassem de jejuar e dissessem: “Quem nos mostrará os bens?” E nós lhes disséssemos, e eles ouvissem: “Está impressa em nós a luz da tua face, Senhor.” Pois não somos nós a luz que ilumina todo homem, mas somos iluminados por ti, para que, nós que outrora fomos trevas, sejamos luz em ti. Oh, se vissem o eterno interno! Eu, que o tinha provado, rangia os dentes, porque não lho podia mostrar, se me trouxessem o coração nos olhos, fora de ti, e dissessem: “Quem nos mostrará os bens?” Pois ali onde me irara contra mim, lá dentro, no leito, onde me compungira, onde sacrificara imolando a minha vetustez e esperando em ti, começada a meditação da minha renovação, ali começaras a ser-me doce e me deras alegria no coração. E eu exclamava, lendo estas coisas por fora e reconhecendo-as por dentro, e não queria multiplicar-me em bens terrenos, devorando os tempos e devorado pelos tempos, quando tinha, na eterna simplicidade, outro trigo, e vinho, e azeite.
IV.11 E clamava, no versículo seguinte, com o alto clamor do meu coração: “Oh, em paz! Oh, no Mesmo!” Oh, que disse? “Adormecerei e tomarei o sono!” Pois quem nos resistirá, quando se cumprir a palavra que está escrita: “A morte foi absorvida na vitória”? E tu és o Mesmo em sumo grau, tu que não mudas, e em ti está o repouso que esquece todos os trabalhos, porque nenhum outro está contigo, nem há que alcançar muitas outras coisas que não são o que tu és; mas tu, Senhor, de modo singular me firmaste na esperança. Eu lia e ardia, e não achava o que fazer por aqueles mortos surdos, dos quais eu fora: uma peste, um ladrador amargo e cego contra as letras melífluas do mel do céu e luminosas da tua luz; e me consumia por causa dos inimigos desta Escritura.
IV.12 Quando recordarei tudo daqueles dias de férias? Mas nem esqueci nem calarei a aspereza do teu flagelo e a admirável rapidez da tua misericórdia. Atormentavas-me então com uma dor de dentes, e, como ela se agravasse a tal ponto que eu não conseguia falar, veio-me ao coração exortar todos os meus que estavam presentes a que te implorassem por mim, a ti, Deus de toda salvação. E escrevi isto na cera e dei-o para que lhes fosse lido. Assim que dobramos os joelhos com afeto suplicante, fugiu aquela dor. Mas que dor? Ou como fugiu? Assustei-me, confesso, Senhor meu, Deus meu: pois nada de semelhante experimentara desde a primeira idade. E penetraram no meu íntimo os teus acenos; e, alegre na fé, louvei o teu nome; e essa fé não me deixava estar seguro quanto aos meus pecados passados, que ainda não me tinham sido perdoados pelo teu batismo.
V.13 Terminadas as vindimas, avisei os milaneses de que providenciassem para os seus estudantes outro vendedor de palavras, porque eu tinha escolhido servir-te e porque não dava conta daquela profissão, pela dificuldade de respirar e pela dor no peito. E, por carta, dei a conhecer ao teu prelado, o santo varão Ambrósio, os meus erros passados e o meu propósito presente, para que me aconselhasse qual dos teus livros eu devia ler de preferência, para me tornar mais preparado e mais apto a receber tão grande graça. Ele me mandou ler o profeta Isaías, creio que porque é, mais do que os outros, o anunciador mais claro do Evangelho e da vocação dos gentios. Eu, porém, não entendendo a primeira leitura que dele fiz, e julgando que todo ele era assim, deixei-o para retomá-lo quando estivesse mais exercitado na linguagem do Senhor.
VI.14 Depois, quando chegou o tempo em que eu devia dar o meu nome, deixamos o campo e voltamos a Milão. Aprouve também a Alípio renascer em ti comigo, já revestido da humildade conveniente aos teus sacramentos e domador fortíssimo do corpo, a ponto de pisar com pé descalço o solo gelado da Itália, com ousadia insólita. Juntamos também a nós o menino Adeodato, nascido de mim segundo a carne, do meu pecado. Tu o tinhas feito bem. Tinha quase quinze anos e superava no engenho muitos homens graves e doutos. Confesso-te os teus dons, Senhor meu Deus, criador de todas as coisas e muito poderoso para dar forma às nossas deformidades: pois eu, naquele menino, nada tinha senão o delito. Pois, se também era criado por nós na tua disciplina, foste tu que no-lo inspiraste, nenhum outro. Confesso-te os teus dons. Há um livro nosso que se intitula O mestre: é ele mesmo que ali fala comigo. Tu sabes que são dele todos os pensamentos que ali se põem na boca do meu interlocutor, quando ele tinha dezesseis anos. Experimentei dele, noutras ocasiões, muitas coisas ainda mais admiráveis: aquele engenho me causava assombro. E quem, senão tu, é o artífice de tais maravilhas? Cedo tiraste da terra a sua vida, e eu me lembro dele com mais segurança, sem temer coisa alguma pela sua meninice, nem pela sua adolescência, nem de modo algum por aquele homem. Associamo-lo a nós, da nossa idade na tua graça, para ser educado na tua disciplina; e fomos batizados, e fugiu de nós a inquietação da vida passada. E naqueles dias eu não me saciava de considerar, com admirável doçura, a profundidade do teu desígnio sobre a salvação do gênero humano. Quanto chorei nos teus hinos e cânticos, vivamente comovido pelas vozes da tua Igreja, que cantava com suavidade! Aquelas vozes corriam para dentro dos meus ouvidos, e a verdade se destilava no meu coração, e dali fervia o afeto da piedade, e corriam as lágrimas, e eu me sentia bem com elas.
VII.15 Não fazia muito tempo que a Igreja de Milão começara a celebrar este gênero de consolação e de exortação, com grande fervor dos irmãos, que cantavam juntos com as vozes e com os corações. Fazia, sem dúvida, um ano, ou não muito mais, que Justina, mãe do menino rei Valentiniano, perseguia o teu homem Ambrósio por causa da sua heresia, na qual fora seduzida pelos arianos. O povo piedoso velava na igreja, pronto a morrer com o seu bispo, teu servo. Ali minha mãe, tua serva, a primeira nos cuidados e nas vigílias, vivia de orações. Nós, ainda frios, sem o calor do teu Espírito, éramos contudo agitados pela cidade atônita e perturbada. Foi então instituído que se cantassem hinos e salmos segundo o costume das regiões do Oriente, para que o povo não definhasse no tédio da tristeza; e desde então até hoje se conservou, imitado já por muitos, e quase todos, os teus rebanhos, também pelo resto do orbe.
VII.16 Então revelaste numa visão ao teu referido prelado em que lugar jaziam escondidos os corpos dos mártires Protásio e Gervásio, que por tantos anos tinhas guardado incorruptos no tesouro do teu segredo, para os tirares de lá oportunamente a fim de reprimir uma raiva feminina, mas régia. Pois, quando, descobertos e desenterrados, eram trasladados com a devida honra para a basílica ambrosiana, não só eram curados os que espíritos imundos atormentavam, confessando-o os próprios demônios, mas também um cidadão cego havia muitos anos, e muito conhecido na cidade, tendo perguntado e ouvido a causa da alegria tumultuosa do povo, levantou-se de um salto e pediu ao seu guia que o guiasse até lá. Conduzido até lá, conseguiu que o deixassem tocar com o lenço o esquife dos teus santos, cuja morte é preciosa diante de ti; e, assim que o fez e o levou aos olhos, logo estes se abriram. Daí a fama que corria, daí os teus louvores, ferventes, luminosos; daí o ânimo daquela inimiga, embora não se tenha voltado para a saúde da fé, ficou contudo reprimido no furor de perseguir. Graças a ti, meu Deus! De onde e para onde conduziste a minha lembrança, para que eu te confessasse também estas coisas, que, grandes como são, eu esquecera e deixara passar? E, contudo, então, quando assim se espalhava o perfume dos teus unguentos, não corríamos atrás de ti. Por isso eu chorava mais entre os cânticos dos teus hinos, eu que outrora suspirava por ti e enfim respirava, tanto quanto dá lugar ao ar uma casa de feno.
VIII.17 Tu, que fazes habitar numa casa os que têm um só ânimo, associaste-nos também Evódio, jovem do nosso município. Ele, quando servia como agens in rebus, converteu-se a ti antes de nós, e foi batizado, e, deixada a milícia do século, cingiu-se para a tua. Estávamos juntos, e havíamos de habitar juntos, num santo propósito. Procurávamos que lugar nos seria mais útil para te servirmos; voltávamos juntos para a África. E, quando estávamos em Óstia Tiberina, minha mãe morreu. Muito deixo passar, porque tenho muita pressa: recebe as minhas confissões e ações de graças, meu Deus, por coisas inumeráveis, mesmo em silêncio. Mas não deixarei passar o que a minha alma dá à luz acerca daquela tua serva, que me deu à luz, na carne, para que eu nascesse para esta luz temporal, e no coração, para que nascesse para a luz eterna. Não direi os dons dela, mas os teus dons nela; pois ela não se fizera a si mesma, nem se educara a si mesma. Tu a criaste (nem o pai nem a mãe sabiam o que havia de sair deles), e educou-a no teu temor a vara do teu Cristo, o governo do teu Unigênito, numa casa fiel, membro bom da tua Igreja. E ela não exaltava tanto a diligência da mãe na sua educação quanto a de uma criada decrépita, que carregara o pai dela quando criança, como os pequenos costumam ser carregados às costas pelas meninas já crescidinhas. Por esse motivo, e pela velhice e pelos ótimos costumes, ela era bastante honrada pelos senhores, naquela casa cristã. Por isso também tinha a seu cargo o cuidado das filhas dos senhores, e o desempenhava com diligência; e era veemente, com santa severidade, em corrigi-las quando era preciso, e de uma sóbria prudência em ensiná-las. Pois, fora das horas em que eram alimentadas com toda a moderação à mesa dos pais, ainda que ardessem de sede, nem água as deixava beber, prevenindo um mau costume e acrescentando uma palavra sensata: “Agora bebeis água, porque não tendes o vinho em vosso poder; mas, quando tiverdes ido para a casa dos maridos, feitas senhoras de despensas e adegas, a água vos parecerá vil, mas o costume de beber prevalecerá.” Com este modo de ensinar e com esta autoridade no mandar, refreava a avidez da idade mais tenra e formava a própria sede das meninas para uma medida honesta, de modo que já não lhes aprouvesse o que não lhes conviesse.
VIII.18 E, todavia, como me contava a mim, seu filho, a tua serva, insinuara-se, insinuara-se nela o gosto pelo vinho. Pois, quando os pais, como de costume, a mandavam, por ser uma menina sóbria, tirar vinho do tonel, ela, metendo o copo pela abertura de cima, antes de verter o vinho puro na garrafinha, sorvia um pouquinho com a ponta dos lábios, porque não podia mais, recusando-o o paladar. Pois não fazia isso por nenhum desejo de embriaguez, mas por certos excessos transbordantes da idade, que fervem em movimentos de brincadeira e que, nas almas pueris, costumam ser reprimidos pelo peso dos mais velhos. Assim, juntando àquele pouco outros poucos de cada dia (pois quem despreza o pouco, pouco a pouco cai), escorregara num tal hábito que já sorvia com avidez copinhos quase cheios de vinho puro. Onde estava então a velha sagaz, e aquela proibição veemente? Acaso valia ela alguma coisa contra a doença oculta, se a tua medicina, Senhor, não velasse sobre nós? Ausentes o pai, a mãe e os que a criavam, tu estavas presente, tu que criaste, que chamas, que até por meio dos homens postos à frente dos outros fazes algum bem para a salvação das almas. Que fizeste então, meu Deus? Com que a curaste? Com que a sanaste? Não tiraste, das tuas providências ocultas, de outra alma, uma injúria dura e aguda, como um ferro medicinal, e com um só golpe cortaste aquela podridão? Pois a criada com quem ela costumava ir ao tonel, brigando com a jovem senhora, como acontece, a sós com ela, lançou-lhe em rosto esse crime, chamando-a, com o insulto mais amargo, de “beberrona”. Ferida por esse aguilhão, ela olhou para a sua torpeza, e logo a condenou e se despojou dela. Assim como os amigos que adulam pervertem, assim os inimigos que brigam muitas vezes corrigem. E tu não lhes retribuis o que fazes por meio deles, mas o que eles quiseram. Pois aquela, irada, quis exasperar a jovem senhora, não saná-la; e por isso o fez às escondidas, ou porque assim as tinham encontrado o lugar e a hora da briga, ou para não correr ela mesma perigo por tê-la denunciado tão tarde. Mas tu, Senhor, governador dos do céu e dos da terra, que torces para os teus usos as profundezas da torrente, o fluxo ordenadamente turbulento dos séculos, também pela insânia de uma alma sanaste a outra, para que ninguém, quando nota isso, o atribua ao seu próprio poder, se outro, a quem ele quer ver corrigido, se corrige pela sua palavra.
IX.19 Educada, pois, com pudor e sobriedade, e antes submetida por ti aos pais do que pelos pais a ti, quando chegou à plena idade de casar, entregue a um marido, serviu-o como a senhor e esforçou-se por ganhá-lo para ti, falando-lhe de ti com os seus costumes, pelos quais a fazias bela, e respeitosamente amável e admirável aos olhos do marido. E suportou de tal modo as ofensas ao leito conjugal que nunca teve com o marido desavença alguma por esse motivo. Pois esperava a tua misericórdia sobre ele, para que, crendo em ti, se tornasse casto. Ele era, além disso, tão notável pela benevolência quanto fervoroso na ira. Mas ela sabia não resistir ao marido irado, não só com atos, mas nem sequer com palavras. E, quando o via já abrandado e quieto, no momento oportuno, dava-lhe razão do que fizera, se acaso ele se tinha exaltado sem refletir. Enfim, como muitas matronas, cujos maridos eram mais mansos, trouxessem marcas de pancadas até no rosto desfigurado, e, em conversas de amigas, elas culpassem a vida dos maridos, ela culpava a língua delas, advertindo-as gravemente, como por gracejo, de que, desde que tinham ouvido ler aquelas tábuas a que chamam matrimoniais, deviam tê-las tido por instrumentos pelos quais tinham sido feitas servas; e que, portanto, lembradas da sua condição, não convinha que se ensoberbecessem contra os seus senhores. E, como elas se admirassem, sabendo quão feroz era o marido que ela aguentava, de que nunca se tivesse ouvido dizer, nem se tivesse tornado patente por indício algum, que Patrício batera na mulher, ou que tivessem estado desavindos um do outro, por briga doméstica, nem um só dia, e lhe perguntassem em confiança a causa, ela lhes ensinava a sua regra, que mencionei acima. As que a guardavam, depois de a provarem, davam graças; as que não a guardavam, continuavam sujeitas e maltratadas.
IX.20 Também a sogra, que a princípio os mexericos de criadas más tinham irritado contra ela, de tal modo a venceu com atenções, perseverando na tolerância e na mansidão, que ela mesma, por iniciativa própria, denunciou ao filho as línguas das criadas que andavam no meio delas, pelas quais se perturbava a paz doméstica entre ela e a nora, e lhe pediu castigo. E assim, depois que ele, obedecendo à mãe, cuidando da disciplina da casa e zelando pela concórdia dos seus, castigou com açoites as denunciadas, ao arbítrio da que as denunciara, ela prometeu que tal recompensa deveria esperar de sua parte qualquer uma que, para lhe agradar, lhe dissesse algum mal da sua nora; e, já não se atrevendo nenhuma, viveram entre si numa memorável suavidade de benevolência.
IX.21 Também este grande dom tinhas concedido, meu Deus, minha misericórdia, àquela tua boa serva, em cujo ventre me criaste: que, entre almas quaisquer em dissensão e em discórdia, onde podia, se mostrava tão pacificadora que, embora ouvisse de uma e de outra muitas coisas amaríssimas a respeito uma da outra, como as costuma arrotar a discórdia inchada e mal digerida, quando, diante da amiga presente, se exala em conversas azedas a indigestão dos ódios contra a inimiga ausente, nada contudo revelava a uma da outra senão o que servisse para reconciliá-las. Pequeno me pareceria este bem, se eu não conhecesse, por triste experiência, turbas inumeráveis (alastrando-se larguissimamente não sei que horrenda peste de pecados) que não só revelam a inimigos irados as palavras de inimigos irados, mas até acrescentam o que não foi dito; quando, ao contrário, a um homem humano deveria parecer pouco não excitar nem aumentar, falando mal, as inimizades dos homens, se não se empenhasse também em extingui-las falando bem. Tal era ela, ensinando-a tu, mestre íntimo, na escola do peito.
IX.22 Enfim, ganhou também para ti o seu marido, já no fim da vida temporal dele, e não teve de lamentar nele, já fiel, o que tinha suportado nele quando ainda não era fiel. Era também serva dos teus servos. Todo aquele dentre eles que a conhecia muito te louvava, te honrava e te amava nela, porque sentia a tua presença no coração dela, atestada pelos frutos de um santo viver. Pois tinha sido mulher de um só marido, retribuíra aos pais o que deles recebera, governara a sua casa com piedade, tinha o testemunho das boas obras. Criara os filhos, dando-os à luz tantas vezes quantas os via desviar-se de ti. Por fim, de todos nós, Senhor, teus servos (pois, por dom teu, nos deixas falar), que antes da sua dormição já vivíamos associados em ti, recebida a graça do teu batismo, cuidou como se nos tivesse gerado a todos, e serviu-nos como se tivesse sido gerada por todos.
X.23 Aproximando-se o dia em que ela havia de sair desta vida (dia que tu conhecias e nós ignorávamos), aconteceu, segundo creio, por disposição tua, pelos teus modos ocultos, que eu e ela estivéssemos a sós, apoiados a uma janela de onde se avistava o jardim de dentro da casa que nos hospedava, ali em Óstia Tiberina, onde, afastados das multidões, depois do cansaço de uma longa viagem, nos refazíamos para a navegação. Conversávamos, pois, a sós, com grande doçura, e, esquecendo o passado, estendidos para o que está adiante, procurávamos entre nós, junto da verdade presente, que és tu, como seria a vida eterna dos santos, que nem olho viu, nem ouvido ouviu, nem subiu ao coração do homem. Mas abríamos ávidos a boca do coração para as correntes do alto da tua fonte, da fonte da vida, que está junto de ti, para que, aspergidos por ela segundo a nossa capacidade, pensássemos de algum modo em coisa tão grande.
X.24 E, como a conversa chegasse a este termo: que o deleite dos sentidos carnais, por grande que fosse, em luz corpórea por grande que fosse, diante da alegria daquela vida, não só não merecia comparação, mas nem sequer menção, erguendo-nos com afeto mais ardente para o Mesmo, percorremos gradualmente todas as coisas corporais e o próprio céu, de onde o sol, a lua e as estrelas brilham sobre a terra. E subíamos ainda, mais por dentro, pensando, falando e admirando as tuas obras; e chegamos às nossas mentes, e as transcendemos, para alcançar a região da abundância que não se esgota, onde apascentas Israel eternamente com a verdade por pasto; e ali a vida é a sabedoria, pela qual se fazem todas estas coisas, as que foram e as que hão de ser; e ela mesma não se faz, mas é assim como foi, e assim será sempre. Antes, ter sido e haver de ser não estão nela, mas só o ser, porque é eterna; pois ter sido e haver de ser não é eterno. E, enquanto falamos dela e por ela ansiamos, tocamo-la levemente, com todo o ímpeto do coração. E suspiramos, e deixamos lá, presas, as primícias do espírito, e voltamos ao ruído da nossa boca, onde a palavra começa e acaba. E que há semelhante ao teu Verbo, nosso Senhor, que permanece em si mesmo sem envelhecer e renova todas as coisas?
X.25 Dizíamos, pois: “Se para alguém se calar o tumulto da carne, se calarem as imagens da terra, das águas e do ar, se calarem também os polos, e a própria alma se calar para si mesma e passar além de si, não pensando em si, se calarem os sonhos e as revelações imaginárias, toda língua e todo sinal, e tudo o que se faz passando, se para alguém se calar inteiramente (pois, se alguém ouve, todas estas coisas dizem: ‘Não nos fizemos nós mesmas, mas fez-nos aquele que permanece eternamente’); se, ditas estas palavras, já se calarem, porque ergueram o ouvido para aquele que as fez, e ele só falar, não por elas, mas por si mesmo, de modo que ouçamos a sua palavra, não por língua de carne, nem por voz de anjo, nem pelo som da nuvem, nem pelo enigma da semelhança, mas a ele mesmo, a quem amamos nestas coisas, a ele mesmo ouçamos sem elas (assim como agora nos estendemos e, num pensamento rápido, tocamos a eterna sabedoria que permanece acima de todas as coisas); se isto continuar, e forem retiradas as outras visões, de gênero muito inferior, e só esta arrebatar, absorver e esconder nas alegrias interiores o seu contemplador, de modo que a vida eterna seja tal qual foi este momento de intelecção pelo qual suspiramos, não é isto: ‘Entra na alegria do teu Senhor’? E isto, quando? Acaso quando todos ressurgirmos, mas nem todos seremos transformados?”
X.26 Eu dizia tais coisas, ainda que não deste modo nem com estas palavras; contudo, Senhor, tu sabes que naquele dia, enquanto falávamos assim e este mundo, com todos os seus deleites, se tornava vil para nós entre as palavras, ela então disse: “Filho, quanto a mim, já nada me deleita nesta vida. Que farei ainda aqui e por que estou aqui, não sei, consumida já a esperança deste século. Uma só coisa havia por que eu desejava demorar-me um pouco nesta vida: ver-te cristão católico antes de morrer. Isto, o meu Deus mo concedeu com abundância, pois te vejo até, desprezada a felicidade terrena, servo dele. Que faço aqui?”
XI.27 O que lhe respondi a isto não me lembro bem, pois, entretanto, passados apenas uns cinco dias, ou não muito mais, ela caiu de cama com febres. E, estando doente, certo dia sofreu um desmaio e ficou por um pouco alheada dos presentes. Acorremos, mas depressa voltou a si, e olhou para nós, que estávamos ali, eu e meu irmão, e nos disse, como quem procura alguma coisa: “Onde eu estava?” Depois, vendo-nos atônitos de tristeza: “Sepultais aqui”, disse, “a vossa mãe.” Eu me calava e refreava o pranto; meu irmão, porém, disse algo com que desejava para ela, como sorte mais feliz, que não morresse em terra estrangeira, mas na pátria. Ouvindo isso, ela, com o rosto ansioso, repreendendo-o com os olhos por pensar tais coisas, e depois olhando para mim: “Vê”, disse, “o que ele diz.” E logo, a ambos: “Sepultai”, disse, “este corpo em qualquer lugar; não vos perturbe nada o cuidado dele. Só isto vos peço: que vos lembreis de mim ao altar do Senhor, onde quer que estiverdes.” E, tendo exposto este pensamento com as palavras que podia, calou-se, e era atormentada pela doença, que se agravava.
XI.28 Eu, porém, pensando nos teus dons, Deus invisível, que infundes nos corações dos teus fiéis, e dali nascem frutos admiráveis, alegrava-me e te dava graças, recordando o que sabia: com quanto cuidado ela sempre se inquietara a respeito do sepulcro que providenciara e preparara para si junto ao corpo do marido. Pois, porque tinham vivido em grande concórdia, queria também (tão pouco capaz das coisas divinas é o ânimo humano) que se acrescentasse àquela felicidade, e que os homens o recordassem, ter-lhe sido concedido, depois da peregrinação além-mar, que a terra unida de ambos os esposos fosse coberta de terra. Mas quando esse vazio, pela plenitude da tua bondade, começara a não estar no coração dela, eu não sabia, e alegrava-me, admirado de que assim se me tivesse mostrado (embora também naquela nossa conversa à janela, quando disse: “Que faço já aqui?”, não tivesse mostrado desejo de morrer na pátria). Ouvi também depois que, quando já estávamos em Óstia, ela conversava certo dia, com confiança de mãe, com alguns amigos meus, sobre o desprezo desta vida e o bem da morte, não estando eu presente; e, espantados eles com a virtude daquela mulher (porque tu lha tinhas dado) e perguntando-lhe se não temia deixar o corpo tão longe da sua cidade, ela disse: “Nada está longe de Deus, e não é de temer que ele não reconheça, no fim do século, de onde me há de ressuscitar.” Assim, no nono dia da sua doença, no quinquagésimo sexto ano da sua idade e no trigésimo terceiro da minha, aquela alma religiosa e piedosa foi solta do corpo.
XII.29 Eu lhe fechava os olhos, e uma tristeza imensa confluía ao meu peito e transbordava em lágrimas; e logo ali os meus olhos, sob a ordem violenta do espírito, tornavam a sorver a sua fonte até secá-la, e numa tal luta eu estava muito mal. Então, quando ela exalou o último suspiro, o menino Adeodato rompeu em pranto, e, contido por todos nós, calou-se. Assim também algo de pueril em mim, que resvalava para o choro, era contido pela voz juvenil do coração, e calava-se. Pois não julgávamos conveniente celebrar aquele funeral com queixas lacrimosas e gemidos, porque com eles se costuma deplorar, as mais das vezes, uma certa miséria dos que morrem, ou como que a sua extinção total. Mas ela nem morria miseravelmente, nem morria de todo. Disso estávamos seguros, pelos testemunhos dos seus costumes, pela sua fé não fingida e por razões certas.
XII.30 Que era, pois, o que lá dentro me doía gravemente, senão a ferida recente de se ter rompido de repente o costume, dulcíssimo e caríssimo, de vivermos juntos? Alegrava-me, sim, com o testemunho dela, porque, naquela sua última doença, retribuindo com carinho os meus cuidados, me chamava piedoso e recordava, com grande afeto de amor, que nunca ouvira sair da minha boca, lançado contra ela, um som duro ou injurioso. Mas, contudo, que havia de semelhante, meu Deus, que nos fizeste, que havia de comparável entre a honra que eu lhe prestava e a servidão que ela me prestara? Por isso, porque ficava privado de tão grande consolo dela, a alma era ferida, e como que se dilacerava a vida, que da minha e da dela se fizera uma só.
XII.31 Contido, pois, o menino no seu choro, Evódio tomou o saltério e começou a cantar um salmo, ao qual respondíamos, a casa inteira: “Cantarei a ti, Senhor, a misericórdia e o juízo.” Mas, quando se soube o que se passava, acorreram muitos irmãos e mulheres religiosas; e, enquanto aqueles cujo ofício era esse cuidavam do funeral, como de costume, eu, à parte, onde podia fazê-lo com decência, com os que julgavam que eu não devia ser deixado só, discorria sobre o que convinha àquele momento, e com esse lenitivo da verdade mitigava o tormento, conhecido de ti, ignorado por eles, que me escutavam atentamente e me julgavam sem sentimento de dor. Mas eu, aos teus ouvidos, onde nenhum deles ouvia, repreendia a moleza do meu afeto e represava o fluxo da tristeza, e ela cedia-me um pouco; mas de novo era arrastada pelo seu ímpeto, não até romperem as lágrimas, nem até mudar o rosto; mas eu sabia o que comprimia no coração. E, porque me desagradava veementemente que tivessem tanto poder sobre mim estas coisas humanas, que é necessário que aconteçam pela ordem devida e pela sorte da nossa condição, doía-me da minha dor com outra dor, e consumia-me numa dupla tristeza.
XII.32 E eis que o corpo foi levado: vamos, voltamos sem lágrimas. Pois nem naquelas preces que te derramamos, quando se oferecia por ela o sacrifício do nosso resgate, já junto ao sepulcro, estando o cadáver ali posto antes de ser depositado, como ali se costuma fazer, nem naquelas preces, digo, eu chorei; mas o dia inteiro estive gravemente triste em segredo, e, com a mente perturbada, rogava-te, como podia, que sanasses a minha dor, e não o fazias, creio que para gravar na minha memória, ao menos por esta única prova, o laço de todo costume, mesmo contra uma mente que já não se alimenta de palavra enganosa. Pareceu-me bem também ir tomar banho, porque ouvira dizer que os banhos receberam este nome porque os gregos lhes chamaram balanion, por expulsar do ânimo a angústia. Eis que também isto confesso à tua misericórdia, Pai dos órfãos: tomei banho e fiquei tal qual era antes de tomá-lo; pois a amargura da tristeza não saiu do meu coração com o suor. Depois dormi e acordei, e encontrei a minha dor mitigada em não pequena parte; e, como estava sozinho no meu leito, recordei os versos verídicos do teu Ambrósio. Pois tu és,
“Ó Deus, criador de quanto existe
e regedor do céu, que o dia
de luz formosa tu revestes,
e a noite, em graça soporosa,
que os membros soltos o repouso
devolva ao uso do trabalho,
e as fatigadas mentes erga,
e do seu luto solte os tristes.”
XII.33 E daí, pouco a pouco, eu trazia de volta ao meu antigo sentir a tua serva, e o seu trato, piedoso para contigo, e santamente terno e dócil para conosco, de que de repente me vi privado; e aprouve-me chorar diante de ti sobre ela e por ela, sobre mim e por mim. E soltei as lágrimas que continha, para que corressem quanto quisessem, estendendo-as debaixo do meu coração; e ele repousou nelas, porque ali estavam os teus ouvidos, e não os de algum homem que interpretasse com soberba o meu pranto. E agora, Senhor, confesso-te por escrito: leia quem quiser, e interprete como quiser; e, se achar pecado em eu ter chorado minha mãe por uma pequena parte de uma hora, a mãe morta por um tempo aos meus olhos, que me chorara durante muitos anos para que eu vivesse aos teus olhos, não se ria, mas antes, se tem grande caridade, chore ele mesmo pelos meus pecados diante de ti, Pai de todos os irmãos do teu Cristo.
XIII.34 Eu, porém, curado já o coração daquela ferida, em que se poderia repreender um afeto carnal, derramo-te, Deus nosso, por aquela tua serva, um gênero de lágrimas muito diferente, que mana de um espírito abalado pela consideração dos perigos de toda alma que morre em Adão. Embora ela, vivificada em Cristo, mesmo antes de libertada da carne, tenha vivido de tal modo que o teu nome é louvado na sua fé e nos seus costumes, não ouso, contudo, dizer que, desde que a regeneraste pelo batismo, nenhuma palavra saiu da sua boca contra o teu preceito. E foi dito pela Verdade, teu Filho: “Se alguém disser a seu irmão: ‘Louco’, será réu do fogo da geena”; e ai até da vida louvável dos homens, se a examinares pondo de lado a misericórdia! Mas, porque não esquadrinhas com rigor os delitos, esperamos confiadamente algum lugar junto de ti. E quem quer que te enumere os seus verdadeiros méritos, que te enumera senão os teus dons? Oh, se os homens se reconhecessem homens, e quem se gloria se gloriasse no Senhor!
XIII.35 Eu, pois, louvor meu e vida minha, Deus do meu coração, deixando por um pouco de lado as suas boas ações, pelas quais te dou graças com alegria, rogo-te agora pelos pecados de minha mãe. Ouve-me pelo remédio das nossas feridas, que pendeu do lenho e que, sentado à tua direita, intercede junto de ti por nós. Sei que ela agiu com misericórdia e que de coração perdoou aos seus devedores as suas dívidas. Perdoa-lhe também tu as dívidas dela, se algumas contraiu em tantos anos depois da água da salvação. Perdoa, Senhor, perdoa, eu te suplico; não entres em juízo com ela. Que a misericórdia exulte acima do juízo, porque as tuas palavras são verdadeiras e prometeste misericórdia aos misericordiosos. E que o fossem, tu lho deste, tu que terás compaixão de quem tiveres tido compaixão, e usarás de misericórdia com quem tiveres sido misericordioso.
XIII.36 E creio que já fizeste o que te peço; mas aprova, Senhor, as ofertas voluntárias da minha boca. Pois ela, iminente o dia da sua libertação, não pensou em que o seu corpo fosse suntuosamente amortalhado ou embalsamado com aromas, nem desejou um monumento escolhido, nem se preocupou com o sepulcro da sua terra. Não nos encomendou essas coisas, mas desejou somente que se fizesse memória dela ao teu altar, ao qual servira sem omitir um só dia, de onde sabia que se dispensava a vítima santa, pela qual foi apagada a cédula que nos era contrária, pela qual se triunfou do inimigo que conta os nossos delitos e procura o que nos lançar em rosto, e nada encontra naquele em quem vencemos. Quem lhe devolverá o sangue inocente? Quem lhe restituirá o preço com que nos comprou, para nos arrebatar a ele? Ao sacramento deste preço do nosso resgate, a tua serva ligou a sua alma com o vínculo da fé. Ninguém a arranque da tua proteção; não se interponha, nem pela força nem pelas insídias, o leão e o dragão. Pois ela não responderá que nada deve, para não ser convencida e apanhada pelo acusador astuto; mas responderá que as suas dívidas lhe foram perdoadas por aquele a quem ninguém pagará o que ele, sem nada dever, pagou por nós.
XIII.37 Esteja, pois, em paz com o marido, antes do qual a nenhum outro e depois do qual a nenhum outro foi casada; a quem serviu, oferecendo-te fruto com paciência, para ganhá-lo também a ele para ti. E inspira, Senhor meu, Deus meu, inspira aos teus servos, meus irmãos, teus filhos, meus senhores, a quem sirvo com o coração, com a voz e com os escritos, que todos quantos lerem estas coisas se lembrem, ao teu altar, de Mônica, tua serva, com Patrício, outrora seu esposo, por cuja carne me introduziste nesta vida, de que modo não sei. Lembrem-se, com piedoso afeto, daqueles que foram meus pais nesta luz passageira, e meus irmãos sob ti, Pai, na mãe católica, e meus concidadãos na Jerusalém eterna, pela qual suspira a peregrinação do teu povo, desde a partida até o regresso: para que o que ela me pediu por último lhe seja concedido mais abundantemente nas orações de muitos, por meio das confissões, do que por meio das minhas orações.
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