Confissões — Livro Livro VIII
Livro VIII
I.1 Deus meu, que eu recorde, em ação de graças a ti, e confesse as tuas misericórdias para comigo. Que os meus ossos se inundem do teu amor e digam: “Senhor, quem é semelhante a ti?” Rompeste as minhas cadeias: que eu te sacrifique um sacrifício de louvor. Como as rompeste, eu o narrarei, e todos os que te adoram dirão, ao ouvirem estas coisas: “Bendito o Senhor no céu e na terra; grande e admirável é o seu nome.” As tuas palavras tinham-se entranhado no fundo do meu peito, e por todos os lados eu estava sitiado por ti. Da tua vida eterna eu estava certo, embora a tivesse visto em enigma e como por um espelho; toda dúvida acerca da substância incorruptível, de que dela procede toda substância, me fora tirada, e eu não desejava estar mais certo de ti, mas mais firme em ti. Quanto à minha vida temporal, porém, tudo vacilava, e o coração precisava ser purificado do fermento velho. E agradava-me o caminho, o próprio Salvador, e ainda me custava andar pelas suas estreitezas. E tu me puseste na mente, e pareceu bom aos meus olhos, ir ter com Simpliciano, que me parecia um bom servo teu, e nele brilhava a tua graça. Ouvira também que desde a juventude vivia para ti com toda a devoção; e então já tinha envelhecido, e, numa longa vida passada em tão bom empenho de seguir o teu caminho, parecia-me ter experimentado muito e aprendido muito: e assim era, de verdade. Por isso eu queria que ele, quando eu lhe expusesse as minhas inquietações, me apontasse qual seria o modo apropriado, para alguém disposto como eu estava, de andar no teu caminho.
I.2 Pois eu via a igreja cheia, e um ia deste modo, outro daquele. A mim, porém, desagradava o que eu fazia no século, e me era um peso enorme, agora que as cobiças já não me inflamavam, como costumavam, com a esperança de honra e de dinheiro, para suportar aquela servidão tão pesada. Pois aquelas coisas já não me deleitavam, diante da tua doçura e da beleza da tua casa, que amei; mas ainda me prendia tenazmente a mulher, e o Apóstolo não me proibia o casamento, embora exortasse ao melhor, querendo acima de tudo que todos os homens fossem como ele era. Mas eu, mais fraco, escolhia o lugar mais macio, e por causa desta só coisa me revolvia, lânguido em tudo o mais e consumido em cuidados murchos, porque também em outras coisas, que eu não queria suportar, era obrigado a acomodar-me à vida conjugal, à qual, uma vez entregue, me via atado. Tinha ouvido da boca da Verdade que há eunucos que se castraram a si mesmos por causa do reino dos céus; mas “quem pode”, diz ela, “compreender, compreenda”. Vãos são, certamente, todos os homens em quem não há a ciência de Deus, e que, pelos bens que se veem, não puderam encontrar aquele que é. Mas eu já não estava naquela vaidade. Tinha-a transposto e, com o testemunho de toda a criação, encontrara a ti, nosso Criador, e o teu Verbo, Deus junto de ti e contigo um só Deus, pelo qual criaste todas as coisas. E há outro gênero de ímpios, os que, conhecendo a Deus, não o glorificaram como Deus nem lhe deram graças. Também nesse eu tinha caído, e a tua destra me amparou, e, tirando-me dali, me puseste onde eu convalescesse; pois disseste ao homem: “Eis que a piedade é a sabedoria”, e: “Não queiras parecer sábio, porque os que se diziam sábios tornaram-se estultos.” E eu já tinha encontrado a boa pérola, e, vendido tudo o que tinha, devia comprá-la; e hesitava.
II.3 Fui, pois, ter com Simpliciano, pai, no receber da graça, de Ambrósio, então bispo, e a quem este amava verdadeiramente como a um pai. Contei-lhe os rodeios do meu erro. Quando, porém, mencionei que tinha lido alguns livros dos platônicos, traduzidos para a língua latina por Vitorino, outrora retor da cidade de Roma, que, segundo eu ouvira, morrera cristão, felicitou-me por não ter caído nos escritos de outros filósofos, cheios de falácias e enganos segundo os elementos deste mundo, ao passo que nestes, de todos os modos, se insinuam Deus e o seu Verbo. Depois, para me exortar à humildade de Cristo, escondida aos sábios e revelada aos pequeninos, recordou o próprio Vitorino, a quem conhecera com toda a intimidade quando estava em Roma, e dele me contou o que não calarei. Pois encerra um grande louvor da tua graça, que se deve confessar a ti: como aquele velho doutíssimo e peritíssimo em todas as artes liberais, que tantas obras dos filósofos tinha lido e julgado, mestre de tantos senadores nobres, que, como insígnia de um magistério ilustre, coisa que os cidadãos deste mundo julgam excelsa, merecera e recebera até uma estátua no foro romano; que até aquela idade fora adorador de ídolos e participante de ritos sacrílegos, com que então quase toda a nobreza romana, inflada, já insuflava no povo tanto os monstros de deuses de toda espécie como Anúbis ladrador, que outrora tinham empunhado armas “contra Netuno dos mares e Vênus e a sábia Minerva”, e a quem Roma, depois de os ter vencido, agora suplicava; monstros que esse velho Vitorino defendera durante tantos anos com a sua boca atroadora: esse não se envergonhou de ser menino do teu Cristo e criança da tua fonte, submetendo o pescoço ao jugo da humildade e domando a fronte ao opróbrio da cruz.
II.4 Ó Senhor, Senhor, que inclinaste os céus e desceste, tocaste os montes e fumegaram, por que meios te insinuaste naquele peito? Lia, como diz Simpliciano, a santa Escritura, e investigava com todo o empenho e esquadrinhava todas as letras cristãs, e dizia a Simpliciano, não em público, mas em segredo e na intimidade: “Fica sabendo que já sou cristão.” E este respondia: “Não acreditarei nem te contarei entre os cristãos enquanto não te vir na igreja de Cristo.” Ele, porém, zombava, dizendo: “Então são as paredes que fazem os cristãos?” E dizia isto muitas vezes, que já era cristão, e Simpliciano muitas vezes lhe dava aquela resposta, e muitas vezes ele repetia a zombaria das paredes. É que temia ofender os seus amigos, soberbos adoradores de demônios, e julgava que, do cume da dignidade babilônica, como dos cedros do Líbano que o Senhor ainda não quebrara, lhe haviam de desabar em cima pesadas inimizades. Mas, depois que, lendo e ansiando, sorveu firmeza, e temeu ser negado por Cristo diante dos santos anjos se temesse confessá-lo diante dos homens, e pareceu a si mesmo réu de um grande crime por se envergonhar dos sacramentos da humildade do teu Verbo e não se envergonhar dos ritos sacrílegos dos demônios soberbos, que, soberbo imitador, recebera, perdeu o pudor diante da vaidade e corou diante da verdade; e, de repente e inesperadamente, disse a Simpliciano, como ele próprio contava: “Vamos à igreja: quero fazer-me cristão.” E este, não cabendo em si de alegria, foi com ele. Iniciado nos primeiros sacramentos da instrução, não muito depois deu também o nome para ser regenerado pelo batismo, admirando-se Roma, alegrando-se a Igreja. Os soberbos viam e se iravam, rangiam os dentes e se consumiam. Mas, para o teu servo, o Senhor Deus era a sua esperança, e ele não olhava para as vaidades e para as loucuras mentirosas.
II.5 Enfim, quando chegou a hora de professar a fé, que em Roma costumam recitar, com palavras fixas, aprendidas e retidas de memória, de um lugar mais alto, à vista do povo fiel, aqueles que estão para aproximar-se da tua graça, contava ele que os presbíteros ofereceram a Vitorino recitá-la mais em segredo, como era costume oferecer a alguns que pareciam haver de tremer de acanhamento; ele, porém, preferira professar a sua salvação à vista da santa multidão. Pois não era salvação o que ele ensinava na retórica, e, no entanto, a professara em público. Quanto menos devia, pois, temer o teu manso rebanho, ao pronunciar a tua palavra, ele que não temia, nas suas próprias palavras, as turbas dos insensatos? Assim, quando subiu para recitá-la, todos, uns aos outros, cada qual conforme o conhecia, fizeram ressoar o seu nome num rumor de felicitação (e quem ali não o conhecia?), e soou, num som contido, pela boca de todos os que se alegravam juntos: “Vitorino, Vitorino!” Depressa soaram de exultação, porque o viam, e depressa se calaram de atenção, para o ouvir. Ele pronunciou a fé verdadeira com admirável confiança, e todos queriam arrebatá-lo para dentro do seu coração. E arrebatavam-no amando e alegrando-se: eram essas as mãos dos que o arrebatavam.
III.6 Deus bom, que se passa no homem, para que se alegre mais com a salvação de uma alma desesperada e libertada de um perigo maior do que se a esperança sempre lhe tivesse assistido ou o perigo tivesse sido menor? Pois também tu, Pai misericordioso, te alegras mais por um só penitente do que por noventa e nove justos que não precisam de penitência. E nós ouvimos com grande júbilo, quando ouvimos como a ovelha que se tinha extraviado é trazida de volta sobre os ombros exultantes do pastor, e como a dracma é reposta nos teus tesouros, alegrando-se os vizinhos com a mulher que a encontrou; e a alegria da solenidade da tua casa arranca lágrimas, quando se lê na tua casa, a respeito do teu filho mais novo, que “estava morto e reviveu, estava perdido e foi encontrado”. É que te alegras em nós e nos teus anjos, santos pela santa caridade. Pois tu és sempre o mesmo, tu que conheces sempre do mesmo modo todas as coisas que não são sempre nem do mesmo modo.
III.7 Que se passa, pois, na alma, quando se deleita mais com as coisas que ama, se as acha ou as recupera, do que se as tivesse tido sempre? Pois também as outras coisas o atestam, e tudo está cheio de testemunhos que clamam: “Assim é.” Triunfa o general vencedor, e não teria vencido se não tivesse combatido; e quanto maior foi o perigo na batalha, tanto maior é a alegria no triunfo. A tempestade sacode os navegantes e ameaça naufrágio: todos empalidecem diante da morte que se avizinha; acalmam-se o céu e o mar, e exultam demais, porque temeram demais. Adoece alguém querido, e o pulso anuncia o mal: todos os que o querem ver curado adoecem com ele no espírito; ele melhora, e ainda não anda com as forças de antes, e já há uma alegria como não houve quando antes andava são e forte. E esses mesmos prazeres da vida humana, os homens os adquirem por meio de incômodos, e não só dos inesperados e que irrompem contra a vontade, mas também dos procurados e voluntários. Não há prazer em comer e beber se não o precede o incômodo da fome e da sede. E os bêbados comem certas coisinhas salgadas, para que se produza um ardor incômodo, e, enquanto a bebida o apaga, produz-se o deleite. E está estabelecido que as noivas já prometidas não sejam entregues logo, para que o marido não despreze, dada, aquela por quem o noivo não suspirou, adiada.
III.8 Isto na alegria torpe e execrável; isto na que é concedida e lícita; isto na própria e sinceríssima honestidade da amizade; isto naquele que estava morto e reviveu, estava perdido e foi encontrado: em toda parte a alegria maior é precedida de maior incômodo. Que é isto, Senhor meu Deus, se tu és eternamente para ti mesmo, tu próprio, a alegria, e há seres que, de ti, em torno de ti, sempre se alegram? Que é isto, que esta parte das coisas alterna entre o declínio e o progresso, entre desavenças e reconciliações? Será essa a sua medida, e foi isso o que lhes deste, quando, desde o mais alto dos céus até o mais baixo da terra, desde o princípio até o fim dos séculos, desde o anjo até o vermezinho, desde o primeiro movimento até o último, colocavas todos os gêneros de bens e todas as tuas obras justas, cada uma no seu lugar, e as realizavas, cada uma no seu tempo? Ai de mim, quão alto és nas alturas e quão profundo nas profundezas! E de parte alguma te afastas, e a custo voltamos a ti.
IV.9 Eia, Senhor, age: desperta-nos e chama-nos de volta, inflama e arrebata, abrasa, sê doce: amemos, corramos. Acaso não são muitos os que, de um tártaro de cegueira mais profundo que o de Vitorino, voltam a ti, e se aproximam, e são iluminados, recebendo a luz? E os que a recebem recebem de ti o poder de se tornarem teus filhos. Mas, se são menos conhecidos dos povos, menos se alegram com eles até os que os conhecem. Pois, quando a alegria é partilhada com muitos, também em cada um ela é mais abundante, porque se aquecem e se inflamam uns aos outros. Depois, porque, conhecidos de muitos, são para muitos uma autoridade que leva à salvação, e vão à frente de muitos que os hão de seguir; e por isso também os que os precederam se alegram muito com eles, porque não se alegram só por eles. Longe de nós, porém, que na tua tenda se faça acepção das pessoas dos ricos acima dos pobres, ou dos nobres acima dos que não têm nobreza, quando antes escolheste o que é fraco no mundo para confundir o que é forte, e escolheste o que é sem nobreza neste mundo, e o desprezível, e o que não é como se fosse, para reduzir a nada o que é. E, todavia, esse mesmo, o menor dos teus apóstolos, por cuja língua fizeste soar estas tuas palavras, quando o procônsul Paulo, abatida a sua soberba pela milícia dele, foi posto sob o jugo suave do teu Cristo, feito súdito provincial do grande Rei, também ele, de Saulo que antes era, gostou de chamar-se Paulo, como insígnia de tão grande vitória. Pois o inimigo é mais vencido naquele que ele mais domina, e por meio do qual domina mais gente. Ora, ele domina mais os soberbos pelo nome da nobreza, e, por meio deles, mais gente pelo nome da autoridade. Quanto mais grato, pois, era pensar no peito de Vitorino, que o diabo ocupara como um reduto inexpugnável, e na língua de Vitorino, dardo grande e agudo com que matara a muitos, tanto mais abundantemente convinha que exultassem os teus filhos, porque o nosso Rei amarrou o forte, e eles viam os vasos dele, arrebatados, serem purificados e preparados para a tua honra, e se tornarem úteis ao Senhor para toda boa obra.
V.10 Mas, quando esse teu homem, Simpliciano, me narrou estas coisas de Vitorino, ardi por imitá-lo: pois para isso mesmo ele as narrara. E, depois que acrescentou também que, no tempo do imperador Juliano, uma lei proibiu os cristãos de ensinar literatura e oratória (lei que ele abraçou, preferindo abandonar a escola loquaz a abandonar a tua palavra, com a qual tornas eloquentes as línguas das crianças), pareceu-me mais feliz do que forte, porque achou ocasião de se dar todo a ti, coisa por que eu suspirava, amarrado não com ferro alheio, mas com a minha férrea vontade. O inimigo detinha o meu querer, e dele me fizera uma cadeia, e me apertara com ela. Pois da vontade pervertida fez-se a paixão; e, servindo-se à paixão, fez-se o costume; e, não se resistindo ao costume, fez-se a necessidade. Com esses como que elos, enlaçados uns nos outros (por isso a chamei cadeia), uma dura servidão me mantinha preso. Mas a vontade nova, que começara a haver em mim, de te servir gratuitamente e de querer gozar de ti, ó Deus, única alegria certa, ainda não era capaz de vencer a anterior, robustecida pelos anos. Assim, duas vontades minhas, uma velha, outra nova, uma carnal, outra espiritual, batiam-se entre si, e, discordando, dispersavam a minha alma.
V.11 Assim eu compreendia, pela minha própria experiência, aquilo que tinha lido: como a carne cobiça contra o espírito, e o espírito contra a carne. Eu estava, sem dúvida, em ambos, mas era mais eu naquilo que em mim aprovava do que naquilo que em mim reprovava. Pois neste já não era tanto eu, porque em grande parte mais o sofria contra a vontade do que o fazia querendo; mas, ainda assim, o costume se fizera mais aguerrido contra mim por obra minha, porque, querendo, eu chegara aonde não queria. E quem poderia com direito contradizer, se ao que peca segue uma pena justa? E já não havia aquela desculpa com que eu costumava achar que, se ainda não te servia, desprezado o século, era porque me era incerta a percepção da verdade: pois agora também ela era certa. Eu, porém, ainda preso à terra, recusava militar por ti, e tinha tanto medo de me ver desembaraçado de todos os embaraços quanto se deve ter de ficar embaraçado.
V.12 Assim, o fardo do século me oprimia docemente, como costuma acontecer no sono, e os pensamentos com que eu meditava em ti eram semelhantes aos esforços dos que querem despertar, mas, vencidos pela profundeza do torpor, tornam a afundar. E assim como não há ninguém que queira dormir sempre, e, pelo são juízo de todos, é melhor velar, e no entanto muitas vezes o homem adia sacudir o sono quando tem nos membros um pesado torpor, e, embora já lhe desagrade, o desfruta de melhor vontade, ainda que tenha chegado a hora de levantar-se: assim eu tinha por certo que era melhor entregar-me à tua caridade do que ceder à minha cupidez; mas aquilo agradava e vencia, isto aprazia e vinculava. Pois eu não tinha o que te responder quando me dizias: “Levanta-te, tu que dormes, e ergue-te dentre os mortos, e Cristo te iluminará”; e, quando me mostravas por todos os lados que dizias a verdade, eu, convencido pela verdade, não tinha absolutamente nada que responder, senão só palavras lentas e sonolentas: “Já”, “Já, já”, “Deixa mais um pouquinho”. Mas o “já e já” não tinha fim, e o “deixa mais um pouquinho” ia longe. Em vão me comprazia na tua lei segundo o homem interior, quando outra lei nos meus membros lutava contra a lei da minha mente e me levava cativo na lei do pecado que estava nos meus membros. Pois a lei do pecado é a violência do costume, pela qual o espírito é arrastado e retido, mesmo contra a vontade, e merecidamente, já que nela resvalou por vontade própria. Miserável de mim, quem, pois, me livraria do corpo desta morte, senão a tua graça, por Jesus Cristo, nosso Senhor?
VI.13 E agora narrarei e confessarei ao teu nome, Senhor, meu auxílio e meu redentor, de que modo me livraste do laço do desejo da união carnal, que me prendia estreitissimamente, e da servidão dos negócios do século. Fazia o de costume, com angústia crescente, e todos os dias suspirava por ti. Frequentava a tua igreja, quanto me deixavam livre aqueles negócios sob cujo peso eu gemia. Comigo estava Alípio, desocupado do ofício de jurisconsulto depois da terceira assessoria, esperando a quem vender de novo os seus conselhos, como eu vendia a arte de falar, se é que esta se pode dar pelo ensino. Nebrídio, por sua vez, cedera à nossa amizade, aceitando ser auxiliar de ensino de Verecundo, amicíssimo de todos nós, cidadão e gramático de Milão, que desejava ardentemente e, pelo direito da intimidade, reclamava do nosso grupo um auxílio fiel, de que muito carecia. Não foi, pois, a cobiça de vantagens que levou Nebrídio a isso (se quisesse, poderia tirar maior proveito das letras), mas, amigo dulcíssimo e mansíssimo, não quis, por dever de benevolência, desprezar o nosso pedido. E desempenhava aquilo com toda a prudência, cuidando de não se tornar conhecido das pessoas grandes segundo este século, evitando, no trato com elas, toda inquietação do espírito, que queria ter livre e desocupado o maior número de horas possível para buscar, ou ler, ou ouvir alguma coisa sobre a sabedoria.
VI.14 Certo dia, pois (não me lembro do motivo por que Nebrídio estava ausente), eis que veio à nossa casa, a mim e a Alípio, um certo Ponticiano, nosso concidadão enquanto africano, que ocupava um alto posto no palácio: não sei o que queria de nós. E sentamo-nos para conversar. E por acaso reparou num livro sobre uma mesa de jogo que estava diante de nós. Tomou-o, abriu-o, achou o apóstolo Paulo, decerto sem o esperar: pois pensara que fosse algum dos livros cujo ensino me consumia. Então, sorrindo e olhando para mim, admirou-se, como quem felicita, de ter encontrado de repente diante dos meus olhos aqueles escritos, e somente eles. Pois era cristão e fiel, e muitas vezes se prostrava diante de ti, nosso Deus, na igreja, em orações frequentes e demoradas. Quando lhe indiquei que eu dedicava o maior cuidado àquelas Escrituras, começou a conversa, contando ele, sobre Antão, monge do Egito, cujo nome brilhava com grande fama entre os teus servos, mas que a nós até aquela hora ficara oculto. Quando ele percebeu isso, demorou-se nessa conversa, dando a conhecer tão grande homem a nós, que o ignorávamos, e admirando-se dessa nossa ignorância. E nós ficávamos pasmos ao ouvir as tuas maravilhas, tão bem atestadas, de memória tão recente e quase do nosso tempo, na fé reta e na Igreja católica. Todos nos admirávamos: nós, porque eram tão grandes; e ele, porque nós nunca tínhamos ouvido falar delas.
VI.15 Daí a sua conversa passou aos rebanhos dos mosteiros, e aos costumes que exalam o teu suave perfume, e aos desertos fecundos do ermo, de que nós nada sabíamos. E havia em Milão, fora dos muros da cidade, um mosteiro cheio de bons irmãos, sob os cuidados de Ambrósio, que o nutria, e nós não o sabíamos. Ele prosseguia e continuava falando, e nós, atentos, calávamos. Daí veio a contar que, não sei quando, ele e outros três companheiros seus, em Tréveris, sem dúvida, enquanto o imperador estava retido no espetáculo matinal do circo, saíram a passear pelos jardins contíguos às muralhas; e que ali, como por acaso passeavam aos pares, um foi com ele à parte, e os outros dois, igualmente à parte, se afastaram juntos; mas que estes, vagueando, entraram numa choupana onde moravam alguns servos teus, pobres de espírito, dos quais é o reino dos céus, e encontraram ali um livro em que estava escrita a vida de Antão. Um deles começou a lê-la, e a admirar-se, e a inflamar-se, e, enquanto lia, a pensar em abraçar tal vida e, deixada a milícia do século, servir-te. Eram eles daqueles a quem chamam agentes in rebus. Então, de súbito, cheio de santo amor e de sóbria vergonha, irado consigo mesmo, lançou os olhos ao amigo e disse-lhe: “Dize-me, por favor: com todos estes nossos trabalhos, aonde pretendemos chegar? Que buscamos? Por que servimos? Poderá a nossa esperança no palácio ser maior do que chegarmos a ser amigos do imperador? E ali, que há que não seja frágil e cheio de perigos? E por quantos perigos se chega a um perigo maior? E quando será isso? Amigo de Deus, porém, se eu quiser, eis que me torno agora mesmo.” Disse isto e, perturbado pelas dores do parto da vida nova, voltou os olhos às páginas. E lia, e mudava-se por dentro, onde tu vias, e a sua mente se despojava do mundo, como logo se viu. Pois, enquanto lia e revolvia as ondas do seu coração, gemeu algumas vezes, e discerniu e decidiu o melhor, e, já teu, disse ao amigo: “Eu já me arranquei daquela nossa esperança e decidi servir a Deus, e isso, desde esta hora, neste lugar, eu o começo. Se te custa imitar-me, não te oponhas.” O outro respondeu que se unia a ele, companheiro de tão grande recompensa e de tão grande milícia. E ambos, já teus, edificavam a torre com o custo adequado, que é deixar todas as suas coisas e seguir-te. Então Ponticiano e o que com ele passeava por outras partes do jardim, procurando-os, chegaram ao mesmo lugar e, encontrando-os, avisaram-nos de que era hora de voltar, porque o dia já declinava. Mas eles, contando a sua resolução e o seu propósito, e de que modo nascera e se firmara neles tal vontade, pediram que não os importunassem, se se recusavam a juntar-se a eles. Os outros, porém, em nada mudados do que eram antes, choraram, contudo, sobre si mesmos, como ele dizia, e piedosamente os felicitaram, e se encomendaram às suas orações; e, arrastando o coração pela terra, foram para o palácio, ao passo que aqueles, fixando o coração no céu, ficaram na choupana. E ambos tinham noivas, que, depois de ouvirem isto, também elas te consagraram a sua virgindade.
VII.16 Isto narrava Ponticiano. Tu, porém, Senhor, enquanto ele falava, me fazias voltar para mim mesmo, tirando-me de trás das minhas costas, onde eu me tinha posto enquanto não queria olhar para mim, e me colocavas diante do meu rosto, para que eu visse quão torpe era, quão disforme e sórdido, manchado e ulceroso. E eu via, e me horrorizava, e não havia para onde fugir de mim. Mas, se tentava desviar de mim o olhar, ele narrava o que narrava, e tu de novo me punhas diante de mim e me atiravas contra os meus olhos, para que eu descobrisse a minha iniquidade e a odiasse. Eu a conhecia, mas dissimulava, e a reprimia, e a esquecia.
VII.17 Então, quanto mais ardentemente amava aqueles de quem ouvia os afetos salutares, por se terem entregado inteiros a ti para que os curasses, tanto mais execravelmente me odiava a mim mesmo, comparado com eles; porque muitos anos meus se tinham escoado comigo (talvez doze anos) desde que, aos dezenove anos de idade, lido o Hortênsio de Cícero, eu fora despertado para o estudo da sabedoria, e adiava, desprezada a felicidade terrena, dedicar-me à sua investigação, ela, cuja busca somente, para não falar da descoberta, já devia ser preferida até aos tesouros encontrados, e aos reinos dos povos, e aos prazeres do corpo que me rodeassem a um aceno. Mas eu, adolescente muito miserável, miserável já no começo da própria adolescência, tinha-te pedido até a castidade, e dissera: “Dá-me a castidade e a continência, mas não agora.” Pois temia que me ouvisses depressa e depressa me curasses da doença da concupiscência, que eu preferia saciar a extinguir. E tinha andado por caminhos tortos, numa superstição sacrílega, não certo dela, é verdade, mas como que preferindo-a às outras doutrinas, que eu não buscava com piedade, mas combatia com hostilidade.
VII.18 E pensara que adiava de dia para dia desprezar a esperança do século e seguir somente a ti porque não me aparecia nada de certo para onde dirigir o meu rumo. E chegara o dia em que eu ficaria nu diante de mim, e a minha consciência me increparia: “Onde está a língua? Pois tu dizias que, por ser incerta a verdade, não querias lançar fora o fardo da vaidade. Eis que agora ela é certa, e o fardo ainda te oprime, e recebem asas em ombros mais livres aqueles que nem se desgastaram tanto em buscar nem meditaram nestas coisas dez anos e mais.” Assim eu me roía por dentro e me confundia violentamente com uma vergonha horrível, enquanto Ponticiano dizia tais coisas. Terminada a conversa e o assunto por que viera, foi-se ele, e eu, a mim. Que não disse contra mim? Com que açoites de razões não flagelei a minha alma, para que me seguisse, a mim, que me esforçava por ir atrás de ti? E ela resistia, recusava, e não se escusava. Estavam esgotados e refutados todos os argumentos. Restara um tremor mudo, e ela temia como à morte ser retida do fluxo do costume, com que definhava até a morte.
VIII.19 Então, naquela grande contenda da minha casa interior, que eu tinha suscitado com violência contra a minha alma no nosso quarto, o meu coração, perturbado tanto no rosto quanto na mente, lanço-me sobre Alípio e exclamo: “Que é que sofremos? Que é isto? Que ouviste? Levantam-se os indoutos e arrebatam o céu, e nós, com as nossas doutrinas, sem coração, eis onde nos revolvemos, na carne e no sangue! Acaso, porque eles foram à frente, temos vergonha de segui-los, e não temos vergonha de nem sequer segui-los?” Disse coisas assim, não sei como, e o meu ardor me arrancou de junto dele, enquanto ele se calava, olhando-me atônito. Pois a minha voz não soava como de costume. Mais falavam do meu espírito a fronte, as faces, os olhos, a cor, o tom da voz do que as palavras que eu proferia. Havia um jardinzinho na casa em que nos hospedávamos, de que nos servíamos como de toda a casa: pois o hospedeiro, dono da casa, não morava ali. Para lá me arrastara o tumulto do peito, onde ninguém atrapalhasse a ardente contenda que eu travara comigo mesmo, até que chegasse ao fim — pelo caminho que tu sabias, mas eu não: eu apenas enlouquecia salutarmente e morria vitalmente, conhecedor do mal que eu era, e desconhecedor do bem que dentro em pouco havia de ser. Retirei-me, pois, para o jardim, e Alípio, pé após pé. Pois não deixava de estar a sós comigo quando ele estava presente. Ou quando me havia ele de deixar, vendo-me assim? Sentamo-nos o mais longe que pudemos da casa. Eu fremia no espírito, indignando-me com a mais turbulenta indignação por não entrar na resolução e no pacto contigo, meu Deus, aonde todos os meus ossos clamavam que se devia ir, e que eles exaltavam aos céus com louvores. E não se ia lá de navio, nem de carro, nem a pé, nem sequer o tanto que eu tinha andado da casa até aquele lugar onde estávamos sentados. Pois não só ir, mas também chegar lá não era outra coisa senão querer ir, mas querer com força e por inteiro; não revirar e lançar para cá e para lá uma vontade meio ferida, que luta, com uma parte que se ergue contra outra parte que cai.
VIII.20 Enfim, nos próprios ardores da hesitação, eu fazia com o corpo muitas coisas que os homens às vezes querem e não podem, se não têm os próprios membros, ou se estes estão atados com cadeias, ou desfeitos pelo langor, ou de qualquer modo impedidos. Se arranquei os cabelos, se bati na fronte, se, entrelaçando os dedos, abracei o joelho, fiz porque quis. Mas poderia ter querido e não fazer, se a mobilidade dos membros não obedecesse. Tantas coisas, pois, eu fiz, onde querer não era o mesmo que poder; e não fazia aquilo que me agradava com afeto incomparavelmente maior, e que poderia, assim que quisesse, porque, assim que quisesse, certamente quereria. Pois ali a faculdade era o mesmo que a vontade, e o próprio querer já era fazer; e, no entanto, não se fazia; e mais facilmente obedecia o corpo à mais tênue vontade da alma, movendo os membros a um aceno, do que a alma obedecia a si mesma para realizar, só na vontade, a sua grande vontade.
IX.21 Donde este monstro? E por que isto? Que brilhe a tua misericórdia, e que eu pergunte, se acaso me podem responder os esconderijos das penas dos homens e os tenebrosíssimos quebrantamentos dos filhos de Adão. Donde este monstro? E por que isto? Manda o espírito ao corpo, e é obedecido logo; manda o espírito a si mesmo, e encontra resistência. Manda o espírito que a mão se mova, e é tamanha a facilidade que mal se distingue o mando da obediência; e o espírito é espírito, ao passo que a mão é corpo. Manda o espírito que o espírito queira, e não é outro, e contudo não o faz. Donde este monstro? E por que isto, digo eu, que mande querer aquele que não mandaria se não quisesse, e não faça o que manda? Mas não quer por inteiro; logo, não manda por inteiro. Pois manda na medida em que quer, e na medida em que não quer não se faz o que manda, porque é a vontade que manda que haja vontade, e não outra, mas ela mesma. Não manda, pois, plena; por isso não existe o que manda. Pois, se fosse plena, nem mandaria que existisse, porque já existiria. Não é, pois, monstro querer em parte e em parte não querer, mas doença do espírito, que não se ergue inteiro, soerguido pela verdade, sobrecarregado pelo costume. E por isso há duas vontades: porque nenhuma delas é inteira, e o que está presente numa falta à outra.
X.22 Pereçam diante da tua face, ó Deus, como perecem, os faladores vãos e sedutores das mentes que, por terem observado duas vontades na deliberação, afirmam que há duas naturezas de duas mentes, uma boa, outra má. Eles é que são verdadeiramente maus, quando sentem essas coisas más; e esses mesmos serão bons, se sentirem o que é verdadeiro e consentirem no que é verdadeiro, para que o teu apóstolo lhes diga: “Fostes outrora trevas, mas agora, luz no Senhor.” Pois eles, querendo ser luz, não no Senhor, mas em si mesmos, julgando que a natureza da alma é o mesmo que Deus é, tornaram-se assim trevas mais densas, porque com horrenda arrogância se afastaram mais de ti, de ti, luz verdadeira que ilumina todo homem que vem a este mundo. Prestai atenção ao que dizeis, e corai, e achegai-vos a ele, e sede iluminados, e os vossos rostos não corarão. Quando eu deliberava servir já ao Senhor meu Deus, como havia muito tinha disposto, era eu quem queria, eu quem não queria: era eu. Nem queria plenamente nem plenamente não queria. Por isso lutava comigo e me dispersava de mim mesmo, e essa própria dispersão acontecia, é verdade, contra a minha vontade, mas não mostrava a natureza de uma mente alheia, e sim o castigo da minha. E por isso já não era eu que a produzia, mas o pecado que habitava em mim, em castigo de um pecado mais livre, porque eu era filho de Adão.
X.23 Pois, se há tantas naturezas contrárias quantas vontades resistem umas às outras, já não serão duas, mas muitas. Se alguém delibera se há de ir ao conventículo deles ou ao teatro, eles clamam: “Eis duas naturezas: uma boa o leva para cá, outra má o puxa de volta para lá; pois donde viria essa hesitação de vontades que se opõem uma à outra?” Eu, porém, digo que ambas são más, tanto a que leva a eles como a que puxa de volta ao teatro. Mas eles não creem que seja boa senão aquela pela qual se vai a eles. E então? Se algum dos nossos deliberar, e vacilar, altercando consigo duas vontades, entre ir ao teatro ou à nossa igreja, não vacilarão também eles quanto ao que responder? Pois ou confessarão o que não querem, que é com boa vontade que se vai à nossa igreja, como a ela vão os que foram iniciados nos seus sacramentos e neles perseveram; ou pensarão que duas naturezas más e duas mentes más se combatem num só homem, e não será verdade o que costumam dizer, que uma é boa e a outra má; ou se converterão à verdade e não negarão que, quando alguém delibera, uma só alma se agita entre vontades diversas.
X.24 Não digam, pois, mais, quando sentem duas vontades opostas entre si num só homem, que lutam duas mentes contrárias, vindas de duas substâncias contrárias e de dois princípios contrários, uma boa, outra má. Pois tu, Deus veraz, os reprovas, e os refutas, e os convences, como nas duas vontades más, quando alguém delibera se há de matar um homem com veneno ou com ferro; se há de invadir esta ou aquela terra alheia, quando não pode as duas; se há de comprar o prazer com a luxúria ou guardar o dinheiro com a avareza; se há de ir ao circo ou ao teatro, se ambos se exibem no mesmo dia. E acrescento ainda um terceiro: ou ir furtar numa casa alheia, se há ocasião; e acrescento um quarto: ou ir cometer adultério, se ao mesmo tempo também essa possibilidade se abre. Se tudo concorre num mesmo ponto do tempo, e se desejam igualmente todas as coisas que não se podem fazer ao mesmo tempo, o espírito é dilacerado por quatro vontades opostas entre si, ou ainda mais, em tão grande abundância de coisas que se apetecem; e, no entanto, eles não costumam falar de tão grande multidão de substâncias diversas. Assim também nas vontades boas. Pois lhes pergunto se é bom deleitar-se com a leitura do Apóstolo, e se é bom deleitar-se com um salmo sóbrio, e se é bom explicar o Evangelho. Responderão a cada uma: “É bom.” E então? Se todas deleitarem igualmente e ao mesmo tempo, não distenderão o coração do homem vontades diversas, enquanto se delibera qual coisa abraçaremos de preferência? E todas são boas, e lutam entre si, até que se escolha uma só coisa, para a qual se mova inteira uma só vontade, que estava dividida em muitas. Assim também, quando a eternidade deleita do alto e o prazer de um bem temporal retém embaixo, é a mesma alma que não quer com vontade inteira nem aquilo nem isto, e por isso é dilacerada por grave aflição, enquanto, pela verdade, antepõe aquilo, e, pela familiaridade, não depõe isto.
XI.25 Assim eu adoecia e me atormentava, acusando-me a mim mesmo com muito mais aspereza que de costume, e revolvendo-me e revirando-me no meu laço, até que se rompesse de todo aquilo que, já pequeno, me prendia, mas me prendia ainda. E tu me apertavas no meu íntimo, Senhor, com severa misericórdia, redobrando os açoites do temor e da vergonha, para que eu não tornasse a parar, e aquele pouco e tênue que restara não deixasse de romper-se, e não recobrasse força, e não me amarrasse mais robustamente. Pois eu dizia comigo, por dentro: “Eis, seja agora, seja agora”, e com a palavra já ia para a resolução. Já quase o fazia, e não o fazia; e, no entanto, não recaía no que era antes, mas ficava bem perto e tomava fôlego. E de novo tentava, e faltava pouco para estar lá, e menos ainda, e já, já o tocava e o segurava. E não estava lá, nem o tocava, nem o segurava, hesitando em morrer para a morte e viver para a vida; e mais podia em mim o pior, inveterado, do que o melhor, inusitado; e o próprio instante do tempo em que eu havia de ser outro, quanto mais se aproximava, tanto maior horror me incutia. Mas não me fazia recuar nem me desviava: deixava-me suspenso.
XI.26 Retinham-me as ninharias das ninharias e as vaidades dos vaidosos, minhas antigas amigas, e sacudiam a minha veste de carne, e murmuravam baixinho: “Tu nos despedes?” e “Desde este momento não estaremos mais contigo, para sempre”, e “Desde este momento não te será mais permitido isto e aquilo, para sempre”. E o que me sugeriam naquilo que chamei “isto e aquilo”, o que me sugeriam, meu Deus, que a tua misericórdia o afaste da alma do teu servo! Que imundícies sugeriam, que torpezas! E eu já as ouvia com muito menos que a metade de mim, não como se me contradissessem às claras, vindo-me ao encontro, mas como que cochichando pelas costas e, quando eu me afastava, beliscando-me às escondidas, para que eu olhasse para trás. Retardavam-me, contudo, a mim que hesitava em arrancar-me e desprender-me delas e saltar para onde era chamado, enquanto o costume violento me dizia: “Pensas que poderás passar sem elas?”
XI.27 Mas já o dizia muito tibiamente. Pois, daquele lado para onde eu voltara o rosto e para onde tremia de passar, descobria-se a casta dignidade da continência, serena e alegre sem dissolução, afagando-me honestamente para que eu viesse e não hesitasse, e estendendo, para me receber e abraçar, as mãos piedosas, cheias de multidões de bons exemplos. Ali tantos meninos e meninas, ali muita juventude e toda idade, e viúvas graves e virgens anciãs, e em todos a própria continência, de modo algum estéril, mas mãe fecunda de filhos, que são as alegrias, havidas de ti, Senhor, seu esposo. E ria-se de mim com um riso que exortava, como se dissesse: “Tu não poderás o que estes, o que estas podem? Acaso estes e estas o podem por si mesmos, e não no Senhor seu Deus? O Senhor seu Deus deu-me a eles. Por que te firmas em ti, e não ficas firme? Lança-te nele! Não temas. Ele não se retirará para que caias: lança-te sem receio! Ele te acolherá e te curará.” E eu corava muito, porque ainda ouvia os murmúrios daquelas ninharias, e, hesitante, ficava suspenso. E de novo ela, como se dissesse: “Faz-te surdo contra esses teus membros imundos sobre a terra, para que sejam mortificados. Contam-te deleites, mas não como a lei do Senhor teu Deus.” Esta contenda no meu coração não era senão de mim mesmo contra mim mesmo. E Alípio, pegado ao meu lado, aguardava em silêncio o desfecho da minha comoção desusada.
XII.28 Mas, quando, do fundo secreto, uma profunda consideração arrancou e amontoou toda a minha miséria à vista do meu coração, levantou-se uma tempestade imensa, trazendo uma imensa chuva de lágrimas. E, para derramá-la toda com os seus gemidos, levantei-me de junto de Alípio (a solidão me parecia mais própria para a tarefa de chorar) e retirei-me para mais longe, de modo que nem a presença dele me pudesse ser pesada. Assim estava eu então, e ele o percebeu; pois eu tinha dito, creio, não sei quê, em que se notava o som da minha voz já carregado de pranto, e assim me levantara. Ficou, pois, ele onde estávamos sentados, pasmado em extremo. Eu me prostrei, não sei como, debaixo de uma figueira, e soltei as rédeas às lágrimas, e romperam os rios dos meus olhos, sacrifício que te é aceitável; e, não com estas palavras, mas neste sentido, muitas coisas te disse: “E tu, Senhor, até quando? Até quando, Senhor, estarás irado até o fim? Não te lembres das nossas antigas iniquidades.” Pois eu sentia que era por elas que estava preso. Lançava gritos miseráveis: “Até quando, até quando, ‘amanhã e amanhã’? Por que não agora? Por que não nesta hora o fim da minha torpeza?”
XII.29 Dizia estas coisas e chorava na mais amarga contrição do meu coração. E eis que ouço, da casa vizinha, uma voz, como de menino ou de menina, não sei, que dizia cantando e repetia muitas vezes: “Toma, lê; toma, lê.” E logo, mudado o semblante, comecei a pensar com toda a atenção se as crianças costumavam cantarolar algo assim em algum tipo de brincadeira. E não me ocorria de modo algum tê-lo ouvido em parte alguma; e, reprimido o ímpeto das lágrimas, levantei-me, entendendo que outra coisa não me era ordenada do céu senão que abrisse o livro e lesse o primeiro capítulo que encontrasse. Pois ouvira dizer de Antão que, por uma leitura do Evangelho a que chegara por acaso, fora advertido, como se a ele se dissesse o que se lia: “Vai, vende tudo o que tens, e dá aos pobres, e terás um tesouro nos céus; e vem, segue-me”, e que com tal oráculo logo se convertera a ti. Assim, agitado, voltei ao lugar onde Alípio estava sentado: pois ali deixara o livro do Apóstolo quando dali me levantara. Agarrei-o, abri-o e li em silêncio o capítulo em que primeiro caíram os meus olhos: “Não em comilanças e bebedeiras, não em leitos e impudicícias, não em contendas e rivalidades, mas revesti-vos do Senhor Jesus Cristo, e não tenhais cuidado da carne para as suas concupiscências.” Não quis ler mais adiante, nem era preciso. Pois logo, com o fim desta frase, como se uma luz de segurança se infundisse no meu coração, todas as trevas da dúvida se dissiparam.
XII.30 Então, marcando-o com o dedo ou não sei com que outro sinal, fechei o livro e, já com o rosto tranquilo, contei-o a Alípio. E ele, por sua vez, me deu a conhecer assim o que se passava nele, e que eu não sabia: pediu para ver o que eu tinha lido. Mostrei-lhe, e ele atentou também além do que eu lera. E eu ignorava o que se seguia. Seguia-se isto: “Acolhei o fraco na fé.” Ele tomou isso para si e o declarou a mim. E, fortalecido por tal advertência, uniu-se, sem nenhuma hesitação turbulenta, à resolução e ao bom propósito, muito conformes aos seus costumes, nos quais, para o melhor, já desde muito tempo ele distava de mim, e muito, e de longe. Dali entramos onde estava minha mãe, contamos-lhe: alegra-se. Narramos como tudo se passou: exulta e triunfa, e bendizia-te, a ti, que és poderoso para fazer além do que pedimos e entendemos, porque via que lhe tinhas concedido a meu respeito muito mais do que costumava pedir com gemidos miseráveis e chorosos. Pois me converteste a ti, de modo que eu já não buscava esposa nem esperança alguma deste século, firme naquela regra da fé em que, tantos anos antes, me tinhas revelado a ela; e converteste o seu pranto em alegria, muito mais abundante do que ela quisera, e muito mais querida e mais casta do que a que buscava em netos da minha carne.
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