Confissões — Livro Livro VII
Livro VII
I.1 Já estava morta a minha adolescência, má e nefanda, e eu ia entrando na juventude, quanto mais crescido na idade, tanto mais torpe na vaidade, eu que não podia pensar substância alguma senão tal qual se costuma ver por estes olhos. Não te pensava, ó Deus, em figura de corpo humano; desde que comecei a ouvir alguma coisa sobre a sabedoria, sempre fugi disso, e alegrava-me de ter achado o mesmo na fé da nossa mãe espiritual, a tua católica; mas que outra coisa pensar que fosses, não me ocorria. E tentava pensar-te, eu, homem, e homem tal, a ti, sumo e único e verdadeiro Deus; e com toda a medula eu te cria incorruptível e inviolável e imutável, porque, sem saber donde nem como, via claramente, todavia, e estava certo de que aquilo que pode corromper-se é pior do que aquilo que não pode, e o que não pode ser violado, sem hesitar eu o antepunha ao violável, e o que não sofre mudança alguma é melhor do que aquilo que pode mudar. Clamava violentamente o meu coração contra todos os meus fantasmas, e com este só golpe tentava afastar da vista da minha mente a turba de imundícies que esvoaçava em redor; e, mal dispersa, num piscar de olhos, eis que, de novo aglomerada, estava ali e se precipitava sobre o meu olhar e o anuviava, de modo que, embora não sob forma de corpo humano, era todavia obrigado a pensar algo corpóreo através dos espaços dos lugares, ou infundido no mundo, ou também difundido fora do mundo pelo infinito, e até mesmo aquele incorruptível e inviolável e imutável que eu antepunha ao corruptível e violável e mutável; porque tudo o que eu privava de tais espaços me parecia não ser nada, mas absolutamente nada, nem sequer um vazio, como se um corpo fosse tirado de um lugar e o lugar permanecesse esvaziado de todo corpo, terreno e úmido e aéreo e celeste, mas fosse todavia um lugar vazio, como um nada espaçoso.
I.2 Eu, pois, de coração embotado, e nem a mim mesmo visível, julgava que era absolutamente nada tudo aquilo que não se estendesse por certos espaços, ou não se difundisse, ou não se aglomerasse, ou não se avolumasse, ou não tomasse ou não pudesse tomar alguma coisa semelhante. Pois por formas tais quais as que os meus olhos costumam percorrer, por imagens tais ia o meu coração; e não via que esta mesma atenção, com que eu formava aquelas mesmas imagens, não era coisa dessa espécie; e ela, contudo, não as formaria se não fosse algo grande. Assim também a ti, vida da minha vida, eu te pensava grande, penetrando de todos os lados, por espaços infinitos, toda a mole do mundo, e, fora dela, em todas as direções, pelo imenso sem termo, de modo que te tivesse a terra, te tivesse o céu, te tivessem todas as coisas, e elas se acabassem em ti, e tu em parte alguma. E assim como o corpo do ar, deste ar que está sobre a terra, não impediria a luz do sol de passar através dele, penetrando-o, não o rompendo nem cortando, mas enchendo-o todo, assim eu pensava que te fosse permeável não só o corpo do céu e do ar e do mar, mas também o da terra, e penetrável em todas as suas partes, as máximas e as mínimas, para receber a tua presença, que por oculta inspiração, por dentro e por fora, governa todas as coisas que criaste. Assim eu supunha, porque não podia pensar outra coisa; pois era falso. Desse modo, com efeito, a parte maior da terra teria parte maior de ti, e a menor, menor; e de tal maneira todas as coisas estariam cheias de ti, que o corpo de um elefante conteria mais de ti do que o de um pardal, por ser maior que este e ocupar maior lugar; e assim, aos pedaços, farias presentes as tuas partes às partes do mundo: às grandes, grandes; às pequenas, pequenas. Não é assim, porém; mas ainda não tinhas iluminado as minhas trevas.
II.3 Bastava-me, Senhor, contra aqueles enganados enganadores e loquazes mudos, pois não soava neles a tua palavra — bastava-me, pois, aquilo que já desde muito tempo, desde Cartago, Nebrídio costumava propor, e todos nós que o tínhamos ouvido ficamos abalados: que te havia de fazer não sei que raça das trevas, que eles costumam opor-te como mole adversa, se tu não tivesses querido combater com ela? Pois, se se respondesse que te teria causado algum dano, serias tu violável e corruptível. Se, porém, se dissesse que em nada te poderia ter causado dano, não se alegaria nenhuma causa para combater, e para combater de tal modo que uma certa porção tua e membro teu, ou prole da tua mesma substância, se misturasse com potências adversas e naturezas não criadas por ti, e por elas fosse corrompida e mudada para pior a tal ponto que da bem-aventurança se convertesse em miséria e precisasse de um auxílio com que pudesse ser arrancada e purificada; e que essa era a alma, em socorro da qual viria a tua palavra, livre para a escrava, pura para a contaminada, íntegra para a corrompida, mas também ela corruptível, porque de uma só e mesma substância. Portanto, se dissessem que tu, o que quer que sejas, isto é, a tua substância pela qual és, és incorruptível, seriam falsas todas aquelas coisas e execráveis; se, porém, corruptível, isso mesmo já era falso e para abominar à primeira palavra. Bastava, pois, isto contra eles, que de todo modo deviam ser vomitados do peito oprimido, porque não tinham por onde sair sem horrível sacrilégio do coração e da língua, sentindo e falando de ti tais coisas.
III.4 Mas também eu, ainda então, embora dissesse e firmemente sentisse que era incontaminável e inconvertível e em parte nenhuma mutável o nosso Deus, o Deus verdadeiro, tu que fizeste não só as nossas almas, mas também os corpos, e não só as nossas almas e os nossos corpos, mas todos e todas as coisas, não tinha explicada e desatada a causa do mal. Qualquer que fosse, porém, via que se devia buscá-la de tal modo que por ela não fosse constrangido a crer mutável o Deus imutável, para não me tornar eu mesmo aquilo que buscava. Por isso a buscava seguro, e certo de que não era verdade o que diziam aqueles de quem eu fugia com toda a alma, porque via que, ao buscar donde vem o mal, estavam repletos de malícia, pela qual opinavam que antes a tua substância padecia o mal do que a deles o praticava.
III.5 E esforçava-me por discernir o que ouvia dizer: que o livre-arbítrio da vontade é a causa de praticarmos o mal, e o teu reto juízo, de o padecermos; e não conseguia discerni-lo com clareza. Assim, tentando tirar do fundo a vista da mente, afundava de novo; e, tentando muitas vezes, afundava de novo, e outra vez. Pois me erguia para a tua luz o saber eu tão bem que tinha vontade quanto que vivia. Por isso, quando queria ou não queria alguma coisa, estava certíssimo de que não era outro senão eu quem queria e não queria, e cada vez mais percebia que ali estava a causa do meu pecado. O que, porém, fazia contra a vontade, via que antes o padecia do que o fazia, e julgava que isso não era culpa, mas pena, e, pensando-te justo, logo confessava que não era castigado injustamente. Mas de novo dizia: “Quem me fez? Não foi o meu Deus, não só bom, mas o próprio bem? Donde me vem, então, querer o mal e não querer o bem? Para que houvesse razão de eu pagar justamente as penas? Quem pôs isto em mim e semeou em mim este viveiro de amargura, se eu fui feito todo pelo meu dulcíssimo Deus? Se o diabo é o autor, donde vem o próprio diabo? E, se também ele, por vontade perversa, de anjo bom se fez diabo, donde vem também nele a vontade má pela qual se tornasse diabo, quando o anjo fora feito todo por um criador ótimo?” Com estes pensamentos era de novo abatido e sufocado, mas não era arrastado até aquele inferno do erro onde ninguém te confessa, enquanto se julga que tu antes padeces o mal do que o homem o pratica.
IV.6 Assim, pois, me esforçava por achar o resto, como já achara que o incorruptível é melhor do que o corruptível; e por isso confessava que tu, o que quer que fosses, eras incorruptível. Pois nenhuma alma jamais pôde nem poderá pensar algo que seja melhor do que tu, que és o sumo e ótimo bem. E como com toda a verdade e com toda a certeza o incorruptível se antepõe ao corruptível, como eu já o antepunha, poderia eu já alcançar com o pensamento algo que fosse melhor do que o meu Deus, se tu não fosses incorruptível. Onde, pois, eu via que o incorruptível deve ser preferido ao corruptível, aí devia buscar-te, e dali observar onde está o mal, isto é, donde vem a própria corrupção, pela qual a tua substância de modo algum pode ser violada. Pois de modo algum, absolutamente, a corrupção viola o nosso Deus: nem por vontade alguma, nem por necessidade alguma, nem por algum acaso imprevisto; porque ele é Deus, e o que quer para si é bom, e ele mesmo é esse mesmo bem; e ser corrompido não é bom. Nem és forçado contra a vontade a coisa alguma, porque a tua vontade não é maior do que o teu poder. Seria maior, porém, se tu mesmo fosses maior do que tu mesmo: pois a vontade e o poder de Deus são o próprio Deus. E que há de imprevisto para ti, que conheces todas as coisas? E nenhuma natureza existe senão porque tu a conheces. E para que dizemos tantas coisas para mostrar por que não é corruptível a substância que é Deus, quando, se o fosse, não seria Deus?
V.7 E buscava donde vem o mal, e buscava mal, e na minha própria busca não via o mal. E punha diante da vista do meu espírito toda a criação: tudo o que nela podemos discernir, como a terra e o mar e o ar e os astros e as árvores e os animais mortais; e tudo o que nela não vemos, como o firmamento do céu lá em cima, e todos os anjos e todos os seus seres espirituais; mas também a estes, como se fossem corpos, a minha imaginação os dispôs, cada um no seu lugar. E fiz da tua criação uma só massa grande, distinta segundo os gêneros dos corpos, tanto dos que eram de fato corpos como dos que eu mesmo tinha fingido em lugar dos espíritos; e fi-la grande, não quanto ela era, o que eu não podia saber, mas quanto me aprouve, limitada, sim, de todos os lados; e a ti, Senhor, rodeando-a e penetrando-a por toda parte, mas infinito em todas as direções; como se houvesse um mar, por toda parte e de todos os lados, pelo imenso, só um mar infinito, e tivesse dentro de si uma esponja tão grande quanto se quisesse, mas finita, contudo: estaria por certo aquela esponja cheia, em todas as suas partes, do mar imenso. Assim eu pensava a tua criação, finita, cheia de ti, infinito, e dizia: “Eis Deus, e eis o que Deus criou; e Deus é bom, e muitíssimo, e de longe, mais excelente que estas coisas; mas, bom, criou coisas boas; e eis como as rodeia e enche. Onde está, pois, o mal, e donde vem, e por onde se insinuou até aqui? Qual a sua raiz e qual a sua semente? Ou não existe de todo? Por que, então, tememos e evitamos o que não existe? Ou, se tememos em vão, certamente ao menos o próprio temor é um mal, com o qual sem motivo se aguilhoa e se tortura o coração; e mal tanto mais grave quanto não existe o que temamos, e tememos. Portanto, ou existe o mal que tememos, ou o mal é isto: que tememos. Donde vem, pois, já que Deus, bom, fez boas todas estas coisas? O bem maior e sumo fez bens menores, é certo; mas, todavia, o que cria e as coisas criadas, tudo é bom. Donde vem o mal? Acaso havia alguma matéria má da qual ele as fez, e ele a formou e ordenou, mas deixou nela alguma coisa que não converteu em bem? E por que também isto? Acaso era impotente para a converter e transformar toda, de modo que nada de mal restasse, sendo ele onipotente? Enfim, por que quis fazer dela alguma coisa, e não fez antes, com a mesma onipotência, que ela não existisse de todo? Ou podia ela existir contra a sua vontade? Ou, se era eterna, por que a deixou ser assim tanto tempo, por infinitos espaços de tempo para trás, e tanto depois lhe aprouve fazer dela alguma coisa? Ou, se de súbito quis fazer alguma coisa, não faria antes isto, sendo onipotente: que ela não existisse, e só ele existisse, o bem todo, verdadeiro e sumo e infinito? Ou, se não era bem que aquele que era bom não fabricasse nem fundasse também algum bem, não instituiria ele mesmo, suprimida e reduzida a nada aquela matéria que era má, uma matéria boa, da qual criasse todas as coisas? Pois não seria onipotente se não pudesse fundar algum bem sem ser ajudado por uma matéria que ele mesmo não fundara.” Tais coisas eu revolvia no peito mísero, carregado de cuidados mordacíssimos pelo temor da morte e por não ter achado a verdade; firmemente, porém, se mantinha no meu coração, na Igreja católica, a fé do teu Cristo, nosso Senhor e Salvador, informe ainda, é verdade, em muitos pontos, e flutuando fora da norma da doutrina; mas, todavia, o meu espírito não a abandonava; antes, de dia em dia, a embebia mais e mais.
VI.8 Já também tinha rejeitado as falazes adivinhações e os ímpios delírios dos astrólogos. Confessem-te também por isto, do íntimo das entranhas da minha alma, as tuas misericórdias, meu Deus! Pois tu, tu inteiramente (porque quem mais nos chama de volta da morte de todo erro senão a vida que não sabe morrer, e a sabedoria que ilumina as mentes indigentes sem precisar ela de luz alguma, pela qual o mundo é governado até as folhas volantes das árvores?), tu proveste à minha obstinação, com que lutei contra Vindiciano, velho agudo, e contra Nebrídio, jovem de alma admirável, aquele afirmando com veemência, este dizendo, com alguma dúvida, é verdade, mas todavia frequentemente, que não existia aquela arte de prever o futuro, mas que as conjecturas dos homens têm muitas vezes a força da sorte, e que, de tanto se dizerem muitas coisas, se dizem muitas que hão de acontecer, sem que o saibam os que as dizem, mas dando com elas por não se calarem — proveste, pois, tu um homem amigo, não decerto um consulente indolente dos astrólogos, mas também não bem versado naquelas letras; antes, como disse, um consulente curioso, e que, todavia, sabia uma coisa que dizia ter ouvido de seu pai: quanto ela valia para derrubar o crédito daquela arte, ele o ignorava. Esse homem, pois, chamado Firmino, educado liberalmente e cultivado na eloquência, como me consultasse, como a amicíssimo, sobre certos negócios seus, em que se tinha inchado a sua esperança mundana, perguntando o que me parecia segundo as suas, como lhes chamam, constelações; e como eu, que nesta matéria já começara a dobrar-me ao parecer de Nebrídio, não me recusasse, é certo, a conjecturar e a dizer o que me ocorria na minha hesitação, mas todavia acrescentasse que já estava quase persuadido de que aquilo era ridículo e vão: então ele me contou que seu pai fora curiosíssimo de tais livros e tivera um amigo que os seguia igualmente e ao mesmo tempo. E os dois, com igual empenho e trocando observações, sopravam sobre essas ninharias o fogo do seu coração, a ponto de observarem, até nos animais mudos, se alguns pariam em casa, os momentos dos nascimentos, e de notarem para eles a posição do céu, para recolherem dali experiências daquela como que arte. Dizia, pois, ter ouvido do pai que, quando a mãe estava grávida desse mesmo Firmino, também uma escrava daquele amigo paterno crescia igualmente de ventre; o que não pôde ficar oculto ao senhor, que até dos partos das suas cadelas cuidava de saber com a mais apurada diligência; e assim aconteceu que, contando eles, com a mais cautelosa observação, um os dias e as horas e as frações mais miúdas das horas da esposa, o outro os da escrava, ambas deram à luz ao mesmo tempo, de modo que foram obrigados a fazer as mesmas constelações, até as mesmas minúcias, para um e outro recém-nascido, este para o filho, aquele para o escravinho. Pois, quando as mulheres começaram a ter as dores do parto, indicaram um ao outro o que se passava em casa de cada um, e prepararam mensageiros que mandassem um ao outro, para que, no mesmo instante em que nascesse a criança, fosse anunciado a cada um; e que fosse anunciado sem demora, facilmente o tinham arranjado, como em seu próprio reino. E assim os que foram mandados por um e por outro, dizia ele, encontraram-se a distâncias tão iguais das duas casas, que nenhum dos dois pôde notar outra posição dos astros nem outras parcelas dos momentos. E, todavia, Firmino, nascido em posição ampla entre os seus, corria os caminhos mais brilhantes do mundo, crescia em riquezas, elevava-se em honras; ao passo que aquele escravo, sem que de modo algum se lhe afrouxasse o jugo da condição, servia aos seus senhores, conforme dizia ele próprio, que o conhecera.
VI.9 Ouvido, pois, e crido isto (pois tal era quem o contara), toda aquela minha resistência se desfez e caiu; e primeiro tentei afastar o próprio Firmino daquela curiosidade, dizendo-lhe que, examinadas as suas constelações, para pronunciar a verdade, eu deveria certamente ver ali pais que estavam entre os primeiros dos seus, família nobre na sua própria cidade, nascimento livre, educação honesta e estudos liberais; mas, se aquele escravo me consultasse sobre as mesmas constelações (pois eram também as dele), para que também a ele eu dissesse a verdade, deveria ver ali, ao contrário, uma família abjetíssima, a condição servil, e o resto, muito alheio e muito distante do primeiro. E, como daí resultava que, olhando as mesmas coisas, eu diria coisas diversas, se dissesse a verdade, e, se dissesse as mesmas, diria o falso, daí concluí com toda a certeza que o que se diz de verdadeiro, consideradas as constelações, não se diz por arte, mas por sorte; e o que de falso, não por imperícia da arte, mas por engano da sorte.
VI.10 Aberto daí o caminho, e ruminando comigo mesmo tais coisas, para que nenhum daqueles mesmos delirantes que seguiam tal negócio, a quem eu já ansiava por atacar e por refutar, cobrindo-os de ridículo, me resistisse dizendo que ou Firmino a mim ou o pai a ele contara coisas falsas, voltei a consideração para os que nascem gêmeos, a maior parte dos quais sai do ventre um após o outro de tal modo que esse pequeno intervalo de tempo, por mais força que pretendam que tenha na natureza das coisas, não pode contudo ser apanhado pela observação humana, nem de modo algum pode ser assinalado nas letras que o astrólogo há de examinar para pronunciar a verdade. E não será verdade, porque, examinando as mesmas letras, deveria ter dito as mesmas coisas de Esaú e de Jacó; mas não sucederam as mesmas coisas a um e a outro. Diria, pois, o falso, ou, se dissesse a verdade, não diria as mesmas coisas; e, no entanto, examinaria as mesmas. Não por arte, pois, mas por sorte diria a verdade. Pois tu, Senhor, justíssimo moderador do universo, sem que o saibam os que consultam e os consultados, por um oculto impulso fazes que cada um, ao consultar, ouça o que lhe convém ouvir, segundo os ocultos méritos das almas, do abismo do teu justo juízo. A isto não diga o homem: “Que é isto?”, “Para que isto?”. Não o diga, não o diga; porque é homem.
VII.11 Já, pois, ó meu auxílio, me tinhas soltado daquelas cadeias, e eu buscava donde vem o mal, e não havia saída. Mas não deixavas que onda alguma do pensamento me arrastasse para longe daquela fé com que eu cria que existes, e que é imutável a tua substância, e que há cuidado e juízo teu sobre os homens, e que em Cristo, teu Filho, nosso Senhor, e nas santas Escrituras, que a autoridade da tua Igreja católica recomendava, puseste o caminho da salvação humana para aquela vida que há de vir depois desta morte. Salvas, pois, estas coisas, e inabalavelmente fortalecidas no meu espírito, buscava, abrasado, donde vem o mal. Que tormentos aqueles do meu coração em dores de parto, que gemidos, meu Deus! E ali estavam os teus ouvidos, sem que eu o soubesse. E quando em silêncio eu buscava com força, grandes vozes eram, para a tua misericórdia, as tácitas contrições do meu espírito. Tu sabias o que eu padecia, e nenhum dos homens. Pois quão pouco era o que daí se dava a conhecer pela minha língua aos ouvidos dos meus mais íntimos! Acaso chegava a eles todo o tumulto da minha alma, para o qual nem o tempo nem a minha boca bastavam? Tudo, porém, ia ao teu ouvido, o que eu rugia do gemido do meu coração; e diante de ti estava o meu desejo, e a luz dos meus olhos não estava comigo. Pois ela estava dentro, e eu fora; e ela não estava em lugar. Mas eu atentava nas coisas que estão contidas em lugares, e não achava ali lugar para repousar; nem elas me acolhiam de modo que eu dissesse: “Basta, e está bem”; nem me deixavam voltar aonde me estivesse bastante bem. Pois eu era superior a elas, mas inferior a ti; e tu eras a minha verdadeira alegria, a mim sujeito a ti, e tu me tinhas sujeitado as coisas que criaste abaixo de mim. E este era o reto equilíbrio e a região mediana da minha salvação: que eu permanecesse à tua imagem e, servindo-te, dominasse o corpo. Mas, quando me levantei soberbamente contra ti e corri contra o Senhor com a cerviz espessa do meu escudo, até estas coisas ínfimas se puseram acima de mim e me oprimiam, e em parte nenhuma havia alívio nem respiro. Elas mesmas me vinham ao encontro de todos os lados, aos montes e em tropel, quando eu olhava; e, quando pensava, as próprias imagens dos corpos se opunham a mim que voltava, como se me dissessem: “Aonde vais, indigno e sórdido?” E estas coisas tinham crescido da minha ferida, porque humilhaste o soberbo como a um ferido; e com o meu inchaço eu me separava de ti, e o rosto demasiado inchado me fechava os olhos.
VIII.12 Tu, porém, Senhor, permaneces eternamente, e não te iras eternamente contra nós, porque te compadeceste da terra e da cinza. E aprouve aos teus olhos reformar as minhas deformidades; e com aguilhões interiores me agitavas, para que eu não tivesse sossego até que, pela vista interior, te fizesses certo para mim. E o meu inchaço ia baixando pela mão oculta da tua medicina, e a vista perturbada e entenebrecida da minha mente ia sarando, de dia para dia, com o colírio acre das dores salutares.
IX.13 E primeiro, querendo mostrar-me quanto resistes aos soberbos e dás a graça aos humildes, e com quanta misericórdia tua foi mostrado aos homens o caminho da humildade, pois o teu Verbo se fez carne e habitou entre os homens, proporcionaste-me, por meio de um homem inchado do mais monstruoso orgulho, alguns livros dos platônicos traduzidos da língua grega para a latina; e ali li, não decerto com estas palavras, mas inteiramente isto mesmo, persuadido por muitas e multiformes razões: que no princípio era o Verbo, e o Verbo estava junto de Deus, e o Verbo era Deus. Este estava no princípio junto de Deus. Todas as coisas foram feitas por ele, e sem ele nada foi feito. O que foi feito nele é vida, e a vida era a luz dos homens; e a luz brilha nas trevas, e as trevas não a compreenderam. E que a alma do homem, embora dê testemunho da luz, não é todavia ela mesma a luz, mas o Verbo, Deus, é a luz verdadeira, que ilumina todo homem que vem a este mundo. E que estava neste mundo, e o mundo foi feito por ele, e o mundo não o conheceu. Mas que veio para o que era seu, e os seus não o receberam, e a todos quantos o receberam deu o poder de se tornarem filhos de Deus, aos que creem no seu nome, isso não o li ali.
IX.14 Li ali também que o Verbo, Deus, não nasceu da carne, nem do sangue, nem da vontade do varão, nem da vontade da carne, mas de Deus; mas que o Verbo se fez carne e habitou entre nós, isso não o li ali. Descobri, sim, naqueles escritos, dito de vários modos e de muitas maneiras, que o Filho, estando na forma do Pai, não julgou usurpação ser igual a Deus, porque por natureza é isso mesmo; mas que se aniquilou a si mesmo, tomando a forma de servo, feito à semelhança dos homens e achado no porte como homem, humilhou-se, feito obediente até a morte, e morte de cruz, pelo que Deus o exaltou dentre os mortos e lhe deu o nome que está acima de todo nome, para que ao nome de Jesus se dobre todo joelho dos celestes, dos terrestres e dos infernais, e toda língua confesse que o Senhor Jesus está na glória de Deus Pai, isso não o têm aqueles livros. Pois que antes de todos os tempos e acima de todos os tempos permanece imutavelmente o teu Filho unigênito, coeterno contigo, e que da sua plenitude recebem as almas para serem bem-aventuradas, e que pela participação da sabedoria que permanece em si mesma são renovadas para serem sábias, isso está ali; mas que, segundo o tempo, morreu pelos ímpios, e que não poupaste o teu Filho único, mas o entregaste por todos nós, isso não está ali. Pois escondeste estas coisas aos sábios e as revelaste aos pequeninos, para que viessem a ele os fatigados e sobrecarregados, e ele os aliviasse, porque é manso e humilde de coração; e guiará os mansos no juízo e ensina aos brandos os seus caminhos, vendo a nossa humildade e a nossa fadiga e perdoando todos os nossos pecados. Mas os que, alçados no coturno de uma doutrina como que mais sublime, não ouvem aquele que diz: “Aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração, e achareis repouso para as vossas almas”, esses, ainda que conheçam a Deus, não o glorificam como Deus nem lhe dão graças, mas desvanecem-se nos seus pensamentos, e obscurece-se o seu coração insensato; dizendo-se sábios, tornaram-se estultos.
IX.15 E por isso lia ali também a glória da tua incorrupção trocada em ídolos e em vários simulacros, à semelhança da imagem do homem corruptível, e de aves, e de quadrúpedes, e de serpentes — isto é, o alimento egípcio pelo qual Esaú perdeu a sua primogenitura —, pois o povo primogênito honrou em teu lugar a cabeça de um quadrúpede, voltado de coração para o Egito e curvando a tua imagem, a sua alma, diante da imagem de um bezerro que come feno. Achei isto ali, e não o comi. Pois te aprouve, Senhor, tirar de Jacó o opróbrio da diminuição, para que o maior servisse ao menor; e chamaste os gentios à tua herança. E eu viera a ti dentre os gentios, e atentei no ouro que quiseste que o teu povo levasse do Egito, porque era teu, onde quer que estivesse. E disseste aos atenienses, pelo teu apóstolo, que em ti vivemos, e nos movemos, e somos, como também disseram alguns dos seus; e certamente era dali que vinham aqueles livros. E não atentei nos ídolos dos egípcios, a quem serviam com o teu ouro aqueles que mudaram a verdade de Deus em mentira, e adoraram e serviram à criatura antes que ao Criador.
X.16 E, advertido por ali a voltar a mim mesmo, entrei no meu íntimo, guiado por ti, e pude, porque te fizeste o meu auxílio. Entrei, e vi, com o olho da minha alma, qualquer que ele fosse, acima desse mesmo olho da minha alma, acima da minha mente, a luz imutável: não esta luz vulgar e visível a toda carne, nem uma como que do mesmo gênero, porém maior, como se esta brilhasse muito, muito mais claramente e tudo ocupasse com a sua grandeza. Não era isso aquela luz, mas outra coisa, outra coisa muito diversa de todas estas. Nem estava acima da minha mente como o azeite sobre a água, nem como o céu sobre a terra; mas superior, porque ela me fez, e eu inferior, porque feito por ela. Quem conhece a verdade a conhece, e quem a conhece conhece a eternidade. A caridade a conhece. Ó eterna verdade, e verdadeira caridade, e cara eternidade! Tu és o meu Deus, por ti suspiro dia e noite. E, quando primeiro te conheci, tu me tomaste para que eu visse que existia o que eu havia de ver, e que ainda não existia eu, que o visse. E rebateste a fraqueza da minha vista, irradiando sobre mim com veemência, e estremeci de amor e de horror. E achei-me longe de ti, na região da dessemelhança, como se ouvisse a tua voz do alto: “Sou o alimento dos grandes: cresce, e me comerás. E não me mudarás em ti, como o alimento da tua carne, mas tu serás mudado em mim.” E conheci que pela iniquidade corrigiste o homem, e fizeste definhar a minha alma como a aranha; e disse: “Acaso a verdade não é nada, já que não está difundida por espaços de lugares, nem finitos nem infinitos?” E clamaste de longe: “Antes, sim: eu sou o que sou.” E ouvi, como se ouve no coração, e não havia absolutamente de que duvidar; e mais facilmente duvidaria eu de que vivo do que de que existe a verdade, que se vê, compreendida por meio das coisas que foram feitas.
XI.17 E olhei as demais coisas abaixo de ti, e vi que nem são inteiramente nem inteiramente não são: são, sim, porque vêm de ti; mas não são, porque não são o que tu és. Pois verdadeiramente é aquilo que imutavelmente permanece. Para mim, porém, é bom aderir a Deus, porque, se não permanecer nele, também não poderei permanecer em mim. Ele, porém, permanecendo em si, renova todas as coisas; e tu és o meu Senhor, porque não precisas dos meus bens.
XII.18 E foi-me manifesto que são boas as coisas que se corrompem, as quais não poderiam corromper-se nem se fossem sumamente boas, nem se não fossem boas; porque, se fossem sumamente boas, seriam incorruptíveis; e, se não fossem boas de modo algum, não haveria nelas o que se corrompesse. Pois a corrupção prejudica, e, se não diminuísse o bem, não prejudicaria. Ou, portanto, a corrupção em nada prejudica, o que não pode ser, ou, o que é certíssimo, todas as coisas que se corrompem são privadas de bem. Mas, se forem privadas de todo bem, de todo deixarão de ser. Pois, se continuarem a ser e já não puderem corromper-se, serão melhores, porque permanecerão incorruptivelmente. E que há de mais monstruoso do que dizer que se tornaram melhores perdendo todo bem? Logo, se forem privadas de todo bem, de todo serão nada; logo, enquanto são, são boas. Logo, tudo o que é, é bom; e aquele mal cuja origem eu buscava não é substância, porque, se fosse substância, seria um bem. Pois ou seria substância incorruptível, grande bem, sem dúvida, ou seria substância corruptível, a qual, se não fosse boa, não poderia corromper-se. Assim vi, e foi-me manifesto, que tu fizeste boas todas as coisas, e que não há absolutamente substância alguma que tu não tenhas feito. E, porque não fizeste iguais todas as coisas, por isso todas são: porque cada uma é boa, e todas juntas muito boas, pois o nosso Deus fez todas as coisas muito boas.
XIII.19 E para ti de modo algum existe o mal; e não só para ti, mas nem para toda a tua criação, porque fora dela não há coisa alguma que irrompa e corrompa a ordem que lhe impuseste. Nas suas partes, porém, algumas coisas, por não se ajustarem a outras, são tidas por más; e essas mesmas coisas ajustam-se a outras, e são boas, e em si mesmas são boas. E todas estas coisas, que não se ajustam umas às outras, ajustam-se à parte inferior das coisas, a que chamamos terra, que tem o seu céu nublado e ventoso, adequado a ela. E longe de mim dizer já: “Estas coisas não deveriam existir”; porque, ainda que só elas eu visse, desejaria, é certo, coisas melhores, mas já mesmo só por elas deveria louvar-te; pois mostram que deves ser louvado, desde a terra, os dragões e todos os abismos, o fogo, o granizo, a neve, o gelo, o vento da tempestade, que cumprem a tua palavra, os montes e todas as colinas, as árvores frutíferas e todos os cedros, as feras e todo o gado, os répteis e as aves de penas; os reis da terra e todos os povos, os príncipes e todos os juízes da terra, os jovens e as virgens, os anciãos com os mais novos louvem o teu nome. E, como também desde os céus te louvam, louvem-te, nosso Deus, nas alturas, todos os teus anjos, todas as tuas potências, o sol e a lua, todas as estrelas e a luz, os céus dos céus e as águas que estão acima dos céus louvem o teu nome. Já não desejava coisas melhores, porque pensava em todas; e as superiores, é certo, eu as tinha por melhores que as inferiores, mas, com juízo mais são, avaliava que todas juntas são melhores do que só as superiores.
XIV.20 Não há sanidade naqueles a quem desagrada alguma coisa da tua criação, como não a havia em mim quando me desagradavam muitas coisas que fizeste. E, porque a minha alma não ousava que lhe desagradasse o meu Deus, não queria que fosse teu tudo o que lhe desagradava. E daí tinha ido parar na opinião das duas substâncias, e não repousava, e falava coisas alheias. E, voltando de lá, tinha feito para si um deus estendido pelos espaços infinitos de todos os lugares, e pensara que ele eras tu, e colocara-o no seu coração, e de novo se tornara templo do seu ídolo, abominável para ti. Mas, depois que acalentaste a cabeça de quem não o sabia e fechaste os meus olhos para que não vissem a vaidade, cessei um pouco de mim, e adormeceu a minha loucura; e despertei em ti, e vi-te infinito de outro modo, e esta visão não vinha da carne.
XV.21 E olhei para as outras coisas, e vi que te devem o serem, e que em ti estão todas as coisas finitas, mas de outro modo: não como num lugar, mas porque tu és aquele que tudo sustém, com a mão, com a verdade; e todas as coisas são verdadeiras na medida em que são, e a falsidade não é coisa alguma, senão quando se julga que é o que não é. E vi que cada coisa não só convém aos seus lugares, mas também aos seus tempos; e que tu, o único eterno, não começaste a operar depois de inumeráveis espaços de tempo, porque todos os espaços de tempo, tanto os que passaram como os que hão de passar, nem se iriam nem viriam, se não operasses tu e não permanecesses.
XVI.22 E senti, por experiência, que não é de admirar que ao paladar que não é são seja castigo até o pão, que ao são é suave, e aos olhos doentes seja odiosa a luz, que aos puros é amável. E a tua justiça desagrada aos iníquos, quanto mais a víbora e o vermezinho, que criaste bons, apropriados às partes inferiores da tua criação, às quais também os próprios iníquos são apropriados, tanto quanto são mais dessemelhantes de ti, mas apropriados às superiores, tanto quanto se fazem mais semelhantes a ti. E busquei o que era a iniquidade, e não achei substância, mas a perversidade de uma vontade desviada da suma substância, de ti, Deus, para as coisas ínfimas, que lança fora o seu íntimo e se incha para fora.
XVII.23 E admirava-me de que já te amava a ti, e não um fantasma em teu lugar; e não me firmava no gozo do meu Deus, mas era arrebatado para ti pela tua formosura, e logo arrancado de ti pelo meu peso, e precipitava-me nestas coisas com gemido; e esse peso era o costume carnal. Mas comigo estava a lembrança de ti, e de modo algum duvidava de que havia a quem eu me unisse, mas de que eu ainda não era quem se unisse; porque o corpo que se corrompe pesa sobre a alma, e a morada terrena abate a mente que pensa muitas coisas; e estava certíssimo de que as tuas coisas invisíveis, desde a criação do mundo, se veem, compreendidas por meio das coisas que foram feitas, e também o teu eterno poder e a tua divindade. Pois, buscando donde vinha que eu aprovasse a beleza dos corpos, quer celestes, quer terrestres, e o que me assistia quando julgava com integridade das coisas mutáveis e dizia: “Isto deve ser assim, aquilo não assim” — buscando, pois, isto, donde vinha o meu julgar, quando assim julgava, tinha encontrado a imutável e verdadeira eternidade da verdade acima da minha mente mutável. E assim, por degraus, dos corpos à alma que sente por meio do corpo, e daí à sua força interior, a quem os sentidos do corpo anunciassem as coisas exteriores, e até onde podem os animais; e daí, de novo, à potência raciocinante, a quem se leva para ser julgado o que se recebe dos sentidos do corpo. E ela, achando-se também mutável em mim, ergueu-se à sua própria inteligência, e afastou o pensamento do costume, subtraindo-se às turbas contraditórias dos fantasmas, para achar de que luz era banhada, quando sem dúvida alguma clamava que o imutável deve ser preferido ao mutável, e donde conhecia o próprio imutável (pois, se de algum modo não o conhecesse, de modo algum o anteporia com certeza ao mutável); e chegou àquilo que é, no lampejo de um olhar trêmulo. Então, sim, vi as tuas coisas invisíveis, compreendidas por meio das coisas que foram feitas; mas não fui capaz de fixar a vista e, rebatida a minha fraqueza, devolvido às coisas costumeiras, não levava comigo senão uma lembrança amante e como que desejosa daquilo cujo aroma sentira e que ainda não podia comer.
XVIII.24 E buscava o caminho de alcançar a força que fosse idônea para gozar de ti, e não o achava, até que abracei o mediador entre Deus e os homens, o homem Cristo Jesus, que está acima de todas as coisas, Deus bendito pelos séculos, que chama e diz: “Eu sou o caminho, e a verdade, e a vida”, e que mistura à carne o alimento que eu não tinha forças para tomar; porque o Verbo se fez carne, para que a tua sabedoria, pela qual criaste todas as coisas, se fizesse leite para a nossa infância. Pois eu não abraçava, humilde ao humilde, o meu Deus Jesus, nem sabia de que coisa a sua fraqueza era mestra. Pois o teu Verbo, a verdade eterna, eminente acima das partes superiores da tua criação, ergue até si os que se lhe sujeitam; mas nas inferiores edificou para si uma casa humilde do nosso barro, pela qual abatesse de si mesmos os que haviam de sujeitar-se e os fizesse passar para si, sarando o tumor e nutrindo o amor, para que não fossem mais longe na confiança em si mesmos, mas antes se fizessem fracos, vendo diante dos seus pés a divindade fraca pela participação na nossa túnica de peles, e, cansados, se prostrassem sobre ela, e ela, levantando-se, os levantasse.
XIX.25 Eu, porém, pensava outra coisa, e do meu Senhor Cristo não sentia senão o que se sente de um homem de excelente sabedoria, a quem ninguém se pudesse igualar; sobretudo porque, nascido maravilhosamente de uma virgem, para exemplo de como desprezar as coisas temporais em vista de alcançar a imortalidade, parecia, pelo cuidado divino para conosco, ter merecido tão grande autoridade de mestre. Mas que mistério continha o Verbo feito carne, nem sequer o podia suspeitar. Só tinha conhecido, pelo que dele se transmitia por escrito — que comeu e bebeu, dormiu, andou, alegrou-se, entristeceu-se, conversou —, que aquela carne não se uniu ao teu Verbo senão com alma e mente humana. Isto o sabe todo aquele que conhece a imutabilidade do teu Verbo, que eu já conhecia, quanto podia, e disso de modo algum duvidava. Pois ora mover os membros do corpo pela vontade, ora não os mover; ora ser tocado por algum afeto, ora não ser tocado; ora proferir por sinais sentenças sábias, ora estar em silêncio, são coisas próprias da mutabilidade da alma e da mente. E, se estas coisas tivessem sido escritas falsamente a respeito dele, também tudo o mais correria o perigo de ser mentira, e não restaria naqueles escritos nenhuma salvação da fé para o gênero humano. Como, pois, foram escritas com verdade, eu reconhecia em Cristo um homem inteiro: não só o corpo de um homem, ou, com o corpo, uma alma sem mente, mas o próprio homem; e julgava que ele devia ser preferido aos demais, não por ser a pessoa da Verdade, mas por uma grande excelência da natureza humana e por uma participação mais perfeita da sabedoria. Alípio, por sua vez, pensava que os católicos criam num Deus revestido de carne de tal modo que em Cristo não havia nada além de Deus e da carne; não julgava que se pregasse nele uma alma e uma mente de homem. E, porque estava bem persuadido de que as coisas que dele se confiaram à memória não se fazem sem uma criatura vital e racional, movia-se com mais lentidão para a própria fé cristã. Mas depois, conhecendo que este era o erro dos hereges apolinaristas, alegrou-se com a fé católica e ajustou-se a ela. Eu, por minha vez, confesso que aprendi algum tempo depois como, a respeito de o Verbo se ter feito carne, a verdade católica se distingue da falsidade de Fotino. Pois a reprovação dos hereges faz sobressair o que sente a tua Igreja e o que contém a sã doutrina. Pois era necessário que houvesse também heresias, para que os provados se tornassem manifestos entre os fracos.
XX.26 Mas então, lidos aqueles livros dos platônicos, depois que, advertido por eles a buscar a verdade incorpórea, vi as tuas coisas invisíveis, compreendidas por meio das coisas que foram feitas, e, repelido, senti o que, pelas trevas da minha alma, não me era dado contemplar, certo de que existes e és infinito, e todavia não te difundes por lugares finitos ou infinitos, e de que verdadeiramente és, tu que és sempre o mesmo, sem te tornares outro nem de outro modo, em parte alguma nem por movimento algum, e de que todas as outras coisas vêm de ti, por esta só prova firmíssima: que são; disto, sim, eu estava certo, mas era demasiado fraco para gozar de ti. Tagarelava, de fato, como perito, e, se não buscasse o teu caminho em Cristo, nosso Salvador, não seria perito, mas perdido. Pois já começara a querer parecer sábio, cheio do meu castigo, e não chorava; e, além disso, inchava-me de ciência. Pois onde estava aquela caridade que edifica sobre o fundamento da humildade, que é Cristo Jesus? Ou quando ma ensinariam aqueles livros? Neles quiseste, creio, que eu tropeçasse antes de considerar as tuas Escrituras, para que se imprimisse na minha memória como fora afetado por eles, e, quando depois, amansado nos teus livros, e tocadas as minhas feridas pelos teus dedos que curam, eu discernisse e distinguisse que diferença há entre a presunção e a confissão, entre os que veem aonde se deve ir e não veem por onde, e o caminho que conduz à pátria beatífica, não só para ser avistada, mas também habitada. Pois, se primeiro tivesse sido formado pelas tuas santas letras, e na familiaridade delas te tivesses tornado doce para mim, e depois tivesse dado com aqueles volumes, talvez ou me arrancassem do chão firme da piedade, ou, se eu persistisse no afeto salutar que tinha bebido, pensaria que também daqueles livros se poderia concebê-lo, se alguém só a eles tivesse estudado.
XXI.27 Assim, pois, com extrema avidez, tomei o venerável estilo do teu Espírito, e, mais que todos, o apóstolo Paulo; e pereceram aquelas questões em que outrora me pareceu que ele se contradizia e que o texto da sua palavra não concordava com os testemunhos da Lei e dos Profetas; e apareceu-me a face única das palavras castas, e aprendi a exultar com tremor. E comecei, e achei que tudo o que de verdadeiro eu lera lá se diz aqui com o encarecimento da tua graça, para que quem vê não se glorie como se não tivesse recebido não só o que vê, mas também o poder ver (pois que tem ele que não tenha recebido?); e para que, a ti, que és sempre o mesmo, não só seja advertido a ver-te, mas também sarado para te possuir; e quem de longe não pode ver, ande todavia pelo caminho por onde venha, e veja, e possua. Porque, ainda que o homem se deleite na lei de Deus segundo o homem interior, que fará da outra lei nos seus membros, que repugna à lei da sua mente e o leva cativo na lei do pecado, que está nos seus membros? Porque tu és justo, Senhor, e nós pecamos, procedemos com iniquidade, agimos impiamente, e a tua mão pesou sobre nós, e justamente fomos entregues ao antigo pecador, o que preside à morte, porque ele persuadiu a nossa vontade à semelhança da sua vontade, com a qual não permaneceu na tua verdade. Que fará o homem miserável? Quem o livrará do corpo desta morte, senão a tua graça, por Jesus Cristo nosso Senhor, que geraste coeterno e criaste no princípio dos teus caminhos, no qual o príncipe deste mundo não achou nada digno de morte, e o matou? E foi anulada a cédula que nos era contrária. Isto aqueles escritos não o têm. Não têm aquelas páginas o rosto desta piedade, as lágrimas da confissão, o teu sacrifício, o espírito atribulado, o coração contrito e humilhado, a salvação do povo, a cidade esposa, o penhor do Espírito Santo, o cálice do nosso preço. Ninguém ali canta: “Não estará a minha alma sujeita a Deus? Pois dele vem a minha salvação; pois ele é o meu Deus e o meu salvador, o meu amparo: não serei mais abalado.” Ninguém ali ouve aquele que chama: “Vinde a mim, vós que estais fatigados.” Desdenham aprender dele, porque é manso e humilde de coração. Pois escondeste estas coisas aos sábios e prudentes, e as revelaste aos pequeninos. E uma coisa é, do alto de um cume selvoso, ver a pátria da paz e não achar o caminho para ela, e esforçar-se em vão por lugares sem caminho, entre os assaltos e as ciladas dos fugitivos desertores, com o seu príncipe, o leão e o dragão; e outra coisa é seguir o caminho que para lá conduz, guardado pelo cuidado do imperador celeste, onde não roubam os que desertaram da milícia celeste; pois o evitam como a um suplício. Estas coisas me entravam nas entranhas de modos admiráveis, quando lia o menor dos teus apóstolos; e eu tinha considerado as tuas obras, e me enchera de espanto.
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