Confissões — Livro Livro XI
Livro XI
I.1 Acaso, Senhor, sendo tua a eternidade, ignoras o que te digo, ou vês no tempo o que se faz no tempo? Por que, então, te exponho por ordem tantas narrações de coisas? Não, certamente, para que por mim as conheças, mas desperto para ti o meu afeto e o daqueles que leem isto, para que digamos todos: “Grande é o Senhor e sumamente digno de louvor.” Já o disse e o direi: “Por amor do teu amor faço isto.” Pois também oramos, e, no entanto, a Verdade diz: “Vosso Pai sabe do que tendes necessidade antes que lhe peçais.” Descobrimos, pois, para ti o nosso afeto, confessando-te as nossas misérias e as tuas misericórdias sobre nós, para que nos libertes de todo, já que começaste; para que deixemos de ser miseráveis em nós e sejamos feitos bem-aventurados em ti, já que nos chamaste para sermos pobres de espírito, e mansos, e chorosos, e famintos e sedentos de justiça, e misericordiosos, e puros de coração, e pacíficos. Eis que te narrei muitas coisas, as que pude e as que quis, porque tu primeiro quiseste que eu te confessasse, ao Senhor meu Deus, porque és bom, porque a tua misericórdia é para sempre.
II.2 Mas quando bastarei, com a língua da pena, para enunciar todas as tuas exortações, e todos os teus terrores, e as tuas consolações e direções, pelas quais me conduziste a pregar a palavra e a dispensar o teu sacramento ao teu povo? E, ainda que baste para enunciá-las por ordem, custam-me caro as gotas do tempo. E há muito ardo por meditar na tua lei e nela te confessar a minha ciência e a minha imperícia, os primórdios da tua iluminação e os restos das minhas trevas, até que a fraqueza seja devorada pela fortaleza. E não quero que se escoem para outra coisa as horas que encontro livres das necessidades de refazer o corpo e a tensão do espírito, e do serviço que devemos aos homens, e daquele que não devemos e, no entanto, prestamos.
II.3 Senhor meu Deus, atende à minha oração, e que a tua misericórdia ouça o meu desejo, porque não arde só por mim, mas quer servir à caridade fraterna; e tu vês no meu coração que é assim. Que eu te sacrifique o serviço do meu pensamento e da minha língua, e dá-me o que te ofereça. Pois sou indigente e pobre, e tu, rico para com todos os que te invocam, tu que, sem cuidado, tens cuidado de nós. Circuncida de toda temeridade e de toda mentira os meus lábios interiores e exteriores. Sejam as tuas Escrituras as minhas castas delícias; que eu não me engane nelas, nem engane com elas. Senhor, atende e tem piedade, Senhor meu Deus, luz dos cegos e força dos fracos, e logo luz dos que veem e força dos fortes; atende à minha alma e ouve-me clamar do profundo. Pois, se os teus ouvidos não estiverem também no profundo, aonde iremos? Para onde clamaremos? Teu é o dia e tua é a noite; a um aceno teu voam os instantes. Concede-nos deles um espaço para as nossas meditações nos recessos da tua lei, e não a feches aos que batem. Pois não quiseste em vão que se escrevessem tantas páginas de segredos obscuros; ou não têm aquelas selvas os seus cervos, que nelas se recolhem e se refazem, andam e pastam, deitam-se e ruminam? Ó Senhor, aperfeiçoa-me e revela-as a mim. Eis que a tua voz é a minha alegria, a tua voz acima da abundância dos prazeres. Dá-me o que amo; pois amo, e isto tu o deste. Não abandones os teus dons, nem desprezes a tua erva sedenta. Que eu te confesse tudo o que encontrar nos teus livros, e ouça a voz do louvor, e te beba, e considere as maravilhas da tua lei, desde o próprio princípio em que fizeste o céu e a terra até o reino, perpétuo contigo, da tua santa cidade.
II.4 Senhor, tem piedade de mim e ouve o meu desejo. Pois penso que não é desejo da terra, nem de ouro, e prata, e pedras, ou de vestes formosas, ou de honras e poderes, ou de prazeres da carne, nem das coisas necessárias ao corpo e a esta vida da nossa peregrinação, todas as quais nos são acrescentadas quando buscamos o teu reino e a tua justiça. Vê, meu Deus, de onde vem o meu desejo. Contaram-me os injustos os seus deleites, mas não como a tua lei, Senhor: eis de onde vem o meu desejo. Vê, Pai, olha, e vê, e aprova, e seja do teu agrado, diante da tua misericórdia, que eu encontre graça diante de ti, para que se abra a mim, que bato, o íntimo das tuas palavras. Suplico-te por nosso Senhor Jesus Cristo, teu Filho, o varão da tua direita, o Filho do homem, que confirmaste para ti como mediador teu e nosso; por quem nos buscaste quando não te buscávamos, e nos buscaste para que te buscássemos; o teu Verbo, por quem fizeste todas as coisas (e entre elas a mim); o teu Unigênito, por quem chamaste à adoção o povo dos crentes (e nele a mim): por ele te suplico, que está sentado à tua direita e intercede junto de ti por nós, e em quem estão escondidos todos os tesouros da sabedoria e da ciência. São esses que procuro nos teus livros. Moisés escreveu a respeito dele; é ele mesmo quem o diz, é a verdade quem o diz.
III.5 Que eu ouça e entenda como no princípio fizeste o céu e a terra. Isto escreveu Moisés; escreveu e foi-se, passou daqui, de ti para ti, e agora não está diante de mim. Pois, se estivesse, eu o reteria, e lhe perguntaria, e por ti lhe suplicaria que me explicasse estas coisas, e prestaria os ouvidos do meu corpo aos sons que brotassem da sua boca; e, se falasse em língua hebraica, em vão feriria o meu sentido, e nada dali tocaria a minha mente; se falasse em latim, porém, eu saberia o que dizia. Mas de onde saberia se dizia a verdade? E, ainda que também isto soubesse, acaso o saberia dele? Dentro de mim, sim, dentro, na morada do pensamento, a Verdade, nem hebraica, nem grega, nem latina, nem bárbara, sem os órgãos da boca e da língua, sem o estrépito das sílabas, me diria: “Ele diz a verdade”; e eu logo, certo, diria confiadamente àquele teu homem: “Dizes a verdade.” Já que não posso, pois, interrogá-lo, a ti, Verdade, de quem ele estava cheio quando disse coisas verdadeiras, a ti te rogo, meu Deus, rogo-te: perdoa os meus pecados; e tu, que deste àquele teu servo dizer estas coisas, dá também a mim entendê-las.
IV.6 Eis que existem o céu e a terra! Clamam que foram feitos, pois mudam e variam. Ora, naquilo que não foi feito e, no entanto, é, nada há que antes não houvesse: e é isto mudar e variar. Clamam também que não se fizeram a si mesmos: “Somos porque fomos feitos. Não éramos, pois, antes de ser, para podermos ser feitos por nós.” E a voz dos que dizem isto é a própria evidência. Tu, pois, Senhor, os fizeste: tu que és belo (pois eles são belos), que és bom (pois são bons), que és (pois são). Mas não são tão belos, nem tão bons, nem são do modo como tu és, tu que os criaste; comparados contigo, nem são belos, nem são bons, nem são. Sabemos isto: graças te sejam dadas; e a nossa ciência, comparada com a tua ciência, é ignorância.
V.7 Mas como fizeste o céu e a terra? E qual foi a máquina de tão grande obra tua? Pois não é como um homem artífice que formas um corpo a partir de um corpo, pelo arbítrio da alma, capaz de impor de algum modo a forma que vê em si mesma com o olho interior (e de onde lhe viria essa capacidade, senão de a teres feito tu?); e ela impõe essa forma ao que já existe e tem de onde ser, como à terra, ou à pedra, ou à madeira, ou ao ouro, ou a qualquer coisa desse gênero. E de onde existiriam essas coisas, se tu não as tivesses estabelecido? Tu fizeste ao artífice o corpo; tu, o espírito que impera sobre os membros; tu, a matéria de que ele faz alguma coisa; tu, o engenho com que apreende a arte e vê dentro o que há de fazer fora; tu, o sentido do corpo, pelo qual, como por intérprete, faz passar do espírito à matéria o que faz, e anuncia ao espírito o que foi feito, para que ele consulte lá dentro a verdade que o preside, se a obra está bem feita. Todas estas coisas te louvam a ti, criador de todas. Mas tu, como as fazes? Como fizeste, Deus, o céu e a terra? Certamente não foi no céu nem na terra que fizeste o céu e a terra, nem no ar, nem nas águas, porque também estes pertencem ao céu e à terra; nem foi no mundo inteiro que fizeste o mundo inteiro, porque não havia onde se fizesse antes que se fizesse, para que existisse. Nem tinhas na mão alguma coisa de que fizesses o céu e a terra: pois de onde te viria isso que tu não tivesses feito, para dele fazeres alguma coisa? Pois que coisa é, senão porque tu és? Logo, disseste, e foram feitos, e no teu Verbo os fizeste.
VI.8 Mas como disseste? Acaso do modo como se fez a voz vinda da nuvem, que dizia: “Este é o meu Filho amado”? Pois aquela voz se fez e passou, começou e acabou. Soaram as sílabas e passaram, a segunda depois da primeira, a terceira depois da segunda, e daí por diante em ordem, até a última depois das demais, e o silêncio depois da última. Daí se vê, claro e manifesto, que foi o movimento de uma criatura que a exprimiu, servindo à tua vontade eterna, ele mesmo temporal. E estas tuas palavras, feitas no tempo, o ouvido exterior as anunciou à mente prudente, cujo ouvido interior está voltado para o teu Verbo eterno. E ela comparou estas palavras que soavam no tempo com o teu Verbo eterno no silêncio, e disse: “De longe é outra coisa, outra coisa de longe. Estas estão longe, abaixo de mim, e nem são, porque fogem e passam; mas o Verbo do meu Deus permanece acima de mim para sempre.” Se, pois, com palavras que soavam e passavam disseste que se fizessem o céu e a terra, e assim fizeste o céu e a terra, já havia uma criatura corporal antes do céu e da terra, por cujos movimentos temporais aquela voz corresse no tempo. Mas não havia corpo algum antes do céu e da terra; ou, se havia, certamente o tinhas feito sem voz passageira, para dele fazeres a voz passageira com que dirias que se fizessem o céu e a terra. Pois, fosse o que fosse aquilo de que se fizesse tal voz, se não tivesse sido feito por ti, de modo nenhum existiria. Para que se fizesse, então, o corpo de que se fizessem essas palavras, com que palavra foi dito por ti?
VII.9 Chamas-nos, pois, a entender o Verbo, Deus junto de ti, Deus, que é dito eternamente e no qual são ditas eternamente todas as coisas. Pois não se acaba o que se dizia para se dizer outra coisa, de modo que todas as coisas possam ser ditas, mas todas ao mesmo tempo e eternamente; do contrário, já haveria tempo e mudança, e não verdadeira eternidade, nem verdadeira imortalidade. Isto eu sei, meu Deus, e dou graças. Sei, confesso-te, Senhor, e comigo o sabe e te bendiz todo aquele que não é ingrato à verdade certa. Sabemos, Senhor, sabemos que, na medida em que uma coisa não é o que era e é o que não era, nessa medida morre e nasce. Nada, pois, do teu Verbo cede e sucede, porque é verdadeiramente imortal e eterno. E por isso, com o Verbo coeterno a ti, dizes ao mesmo tempo e eternamente tudo o que dizes, e faz-se tudo o que dizes que se faça. E não fazes de outro modo senão dizendo; e, no entanto, não se fazem ao mesmo tempo e eternamente todas as coisas que fazes dizendo.
VIII.10 Por quê, pergunto, Senhor meu Deus? Vejo-o de algum modo, mas não sei como exprimi-lo, a não ser assim: tudo o que começa a ser e deixa de ser começa a ser e deixa de ser no momento em que se reconhece, na razão eterna, que devia começar ou deixar de ser; ali onde nada começa nem deixa de ser. Essa razão é o teu Verbo, que é também o princípio, porque também nos fala. Assim, no Evangelho, ele o diz pela carne, e isto ressoou por fora aos ouvidos dos homens, para que fosse crido, e buscado dentro, e encontrado na verdade eterna, onde o bom e único mestre ensina a todos os discípulos. Ali ouço, Senhor, a tua voz, que me diz que nos fala aquele que nos ensina, e que aquele que não nos ensina, ainda que fale, não fala para nós. E quem nos ensina, senão a verdade estável? Pois, mesmo quando somos advertidos por meio de uma criatura mutável, somos conduzidos à verdade estável, onde verdadeiramente aprendemos, quando estamos de pé e o ouvimos, e nos alegramos de alegria por causa da voz do esposo, devolvendo-nos àquele de quem somos. E por isso é o princípio: porque, se não permanecesse quando andávamos errantes, não haveria para onde voltar. E, quando voltamos do erro, é conhecendo, certamente, que voltamos; e, para que conheçamos, ele nos ensina, porque é o princípio e nos fala.
IX.11 Neste princípio, Deus, fizeste o céu e a terra, no teu Verbo, no teu Filho, na tua força, na tua sabedoria, na tua verdade, dizendo de modo admirável e fazendo de modo admirável. Quem o compreenderá? Quem o contará? Que é aquilo que me lampeja e golpeia o meu coração sem o ferir? E estremeço e me abraso: estremeço, na medida em que lhe sou dessemelhante; abraso-me, na medida em que lhe sou semelhante. É a sabedoria, a própria sabedoria que me lampeja, rasgando a minha nuvem, que de novo me cobre, quando desfaleço longe dela, com a névoa e o montão das minhas penas; porque de tal modo se enfraqueceu na indigência o meu vigor, que não suporto o meu bem, até que tu, Senhor, que te fizeste propício a todas as minhas iniquidades, cures também todas as minhas enfermidades; porque também resgatarás da corrupção a minha vida, e me coroarás de compaixão e de misericórdia, e saciarás de bens o meu desejo, porque se renovará a minha juventude como a da águia. Pois é na esperança que fomos salvos, e esperamos com paciência as tuas promessas. Ouça-te falar lá dentro quem puder; eu clamarei confiadamente, com o teu oráculo: “Quão engrandecidas são as tuas obras, Senhor! Tudo fizeste na sabedoria.” E ela é o princípio, e nesse princípio fizeste o céu e a terra.
X.12 Não estão, pois, cheios da sua velhice os que nos dizem: “Que fazia Deus antes de fazer o céu e a terra? Pois, se estava ocioso”, dizem, “e não operava coisa alguma, por que não continuou assim sempre, também daí em diante, como sempre, para trás, se abstivera da obra? Pois, se surgiu em Deus algum movimento novo e uma vontade nova de criar a criatura que nunca antes criara, como pode haver ainda verdadeira eternidade, onde nasce uma vontade que não existia? Porque a vontade de Deus não é criatura, mas é anterior à criatura, já que nada seria criado se a vontade do Criador não precedesse. Pertence, pois, à própria substância de Deus a sua vontade. E, se surgiu na substância de Deus alguma coisa que antes não existia, não se diz com verdade que aquela substância é eterna. Mas, se era eterna a vontade de Deus de que existisse a criatura, por que não é eterna também a criatura?”
XI.13 Os que dizem isto ainda não te entendem, ó sabedoria de Deus, luz das mentes; ainda não entendem como se fazem as coisas que se fazem por ti e em ti; e se esforçam por saborear as coisas eternas, mas o seu coração ainda esvoaça nos movimentos passados e futuros das coisas, e ainda é vão. Quem o segurará e o fixará, para que fique firme um pouco, e capte por um pouco o esplendor da eternidade sempre firme, e o compare com os tempos nunca firmes, e veja que é incomparável; e veja que um tempo longo não se faz longo senão de muitos movimentos que passam, os quais não podem estender-se ao mesmo tempo; que no eterno, porém, nada passa, mas tudo é presente, ao passo que nenhum tempo é todo presente; e veja que todo passado é empurrado pelo futuro, e todo futuro segue do passado, e todo passado e futuro é criado e decorre daquele que é sempre presente? Quem segurará o coração do homem, para que fique firme e veja como a eternidade, firme, nem futura nem passada, dita os tempos futuros e passados? Acaso a minha mão é capaz disto, ou a mão da minha boca, com as suas palavras, realiza coisa tão grande?
XII.14 Eis que respondo a quem diz: “Que fazia Deus antes de fazer o céu e a terra?” Respondo, não aquilo que, segundo se conta, respondeu certo homem, esquivando com um gracejo a violência da pergunta: “Preparava”, disse, “geenas para os que perscrutam as coisas altas.” Uma coisa é ver, outra rir: isso eu não respondo. Pois de melhor vontade responderia “Não sei o que não sei” do que aquilo com que se escarnece quem perguntou coisas altas e se louva quem respondeu coisas falsas. Mas digo que tu, nosso Deus, és o criador de toda criatura; e, se pelo nome de céu e terra se entende toda criatura, digo ousadamente: “Antes de fazer o céu e a terra, Deus não fazia coisa alguma.” Pois, se fazia, que fazia senão uma criatura? E oxalá eu soubesse tudo o que desejo saber com proveito, assim como sei que nenhuma criatura se fazia antes que se fizesse alguma criatura.
XIII.15 Mas, se o sentido esvoaçante de alguém vagueia pelas imagens dos tempos passados e se admira de que tu, Deus que tudo podes, tudo crias e tudo susténs, artífice do céu e da terra, te tenhas abstido de obra tão grande, antes de a fazeres, por inumeráveis séculos, desperte e preste atenção, porque se admira de coisas falsas. Pois como poderiam passar inumeráveis séculos que tu mesmo não tinhas feito, sendo tu o autor e criador de todos os séculos? Ou que tempos teriam existido que não tivessem sido criados por ti? Ou como passariam, se nunca tivessem existido? Sendo tu, pois, o obreiro de todos os tempos, se houve algum tempo antes de fazeres o céu e a terra, por que se diz que te abstinhas da obra? Esse mesmo tempo, tu o tinhas feito, e não puderam passar tempos antes que fizesses os tempos. Mas, se antes do céu e da terra não havia tempo algum, por que se pergunta o que fazias então? Pois não havia então, onde não havia tempo.
XIII.16 Nem é no tempo que tu precedes os tempos; do contrário, não precederias todos os tempos. Mas precedes todos os passados pela excelsitude da eternidade sempre presente, e superas todos os futuros, porque eles são futuros e, quando tiverem vindo, serão passados; tu, porém, és o mesmo, e os teus anos não terão fim. Os teus anos nem vão nem vêm; estes nossos, porém, vão e vêm, para que venham todos. Os teus anos permanecem todos juntos, porque permanecem, e os que vão não são excluídos pelos que vêm, porque não passam; mas estes nossos serão todos quando todos já não forem. Os teus anos são um só dia, e o teu dia não é cada dia, mas hoje, porque o teu hoje não cede ao amanhã, nem sucede ao ontem. O teu hoje é a eternidade; por isso geraste coeterno aquele a quem disseste: “Eu hoje te gerei.” Todos os tempos, tu os fizeste, e antes de todos os tempos tu és, e não houve tempo algum em que não houvesse tempo.
XIV.17 Não houve, pois, tempo algum em que não tivesses feito alguma coisa, porque o próprio tempo, tu o tinhas feito. E nenhum tempo te é coeterno, porque tu permaneces; e eles, se permanecessem, não seriam tempos. Que é, pois, o tempo? Quem o explicará com facilidade e brevidade? Quem o terá apreendido, sequer com o pensamento, para proferir dele uma palavra? E, no entanto, que coisa mencionamos ao falar com mais familiaridade e conhecimento do que o tempo? E entendemos, certamente, quando falamos dele; entendemos também quando o ouvimos de outro que fala. Que é, pois, o tempo? Se ninguém me pergunta, sei; se quero explicá-lo a quem me pergunta, não sei. Digo, no entanto, com confiança, que sei que, se nada passasse, não haveria tempo passado; e, se nada adviesse, não haveria tempo futuro; e, se nada existisse, não haveria tempo presente. Aqueles dois tempos, pois, o passado e o futuro, como existem, se o passado já não existe e o futuro ainda não existe? E o presente, se fosse sempre presente e não passasse ao passado, já não seria tempo, mas eternidade. Se, pois, o presente, para ser tempo, só se faz porque passa ao passado, como dizemos que também ele existe, se a causa de existir é que deixará de existir? De modo que não podemos dizer com verdade que o tempo existe, senão porque tende a não existir.
XV.18 E, no entanto, dizemos “tempo longo” e “tempo breve”, e não o dizemos senão do passado ou do futuro. Chamamos longo a um tempo passado, por exemplo, de cem anos atrás, e igualmente longo a um futuro de cem anos adiante; breve, por sua vez, a um passado, se dizemos, por exemplo, dez dias atrás, e breve a um futuro de dez dias adiante. Mas de que modo é longo ou breve o que não existe? Pois o passado já não existe, e o futuro ainda não existe. Não digamos, pois: “é longo”, mas digamos do passado: “foi longo”, e do futuro: “será longo”. Senhor meu, minha luz, também aqui não zombará do homem a tua verdade? Pois o tempo passado que foi longo, foi longo quando já era passado, ou quando ainda era presente? Pois só então podia ser longo, quando existia algo que fosse longo; mas o passado já não existia, e por isso nem podia ser longo o que de modo algum existia. Não digamos, pois: “o tempo passado foi longo”; pois não acharemos o que foi longo, já que, desde que passou, não existe; mas digamos: “aquele tempo presente foi longo”, porque, quando era presente, era longo. Pois ainda não tinha passado, de modo a não existir, e por isso era algo que podia ser longo; mas, depois que passou, deixou ao mesmo tempo de ser longo aquilo que deixou de ser.
XV.19 Vejamos, pois, ó alma humana, se o tempo presente pode ser longo; pois te foi dado perceber as durações e medi-las. Que me responderás? Cem anos presentes são um tempo longo? Vê primeiro se podem estar presentes cem anos. Se está em curso o primeiro deles, esse é presente, mas os noventa e nove são futuros e, por isso, ainda não existem. Se está em curso o segundo ano, um já é passado, outro presente, os demais futuros. E assim, qualquer que seja o ano intermediário deste número de cem que tomemos como presente, os que estão antes dele serão passados, os que estão depois, futuros. Por isso, cem anos não poderão estar presentes. Vê ao menos se esse único ano que está em curso é ele mesmo presente. Também dele, se está em curso o primeiro mês, os demais são futuros; se o segundo, o primeiro já passou e os restantes ainda não existem. Logo, nem o ano que está em curso é todo presente; e, se não é todo presente, não é o ano que é presente. Pois o ano são doze meses, dos quais qualquer um, o mês que está em curso, é presente, e os demais, passados ou futuros. Embora nem mesmo o mês que está em curso seja presente, mas um só dia: se é o primeiro, sendo futuros os demais; se o último, sendo passados os demais; se qualquer dos intermediários, entre passados e futuros.
XV.20 Eis que o tempo presente, o único que achávamos poder chamar-se longo, se reduziu apenas ao espaço de um dia. Mas examinemos também esse, porque nem um só dia é todo presente. Pois ele se completa com todas as vinte e quatro horas, noturnas e diurnas, das quais a primeira tem as demais como futuras, a última as tem como passadas, e qualquer das intermediárias tem antes de si as passadas e depois de si as futuras. E essa mesma única hora transcorre em partículas fugitivas: o que dela voou é passado, o que lhe resta é futuro. Se se concebe algum tempo que já não possa ser dividido em parte alguma de instantes, por mínima que seja, só esse é o que se pode chamar presente; e, no entanto, ele voa tão rapidamente do futuro ao passado que não se estende por duração alguma, por pequena que seja. Pois, se se estende, divide-se em passado e futuro; o presente, porém, não tem espaço algum. Onde está, pois, o tempo que possamos dizer longo? Será o futuro? Não dizemos dele: “é longo”, porque ainda não existe o que seja longo, mas dizemos: “será longo”. Quando, então, o será? Pois, se também então ainda for futuro, não será longo, porque o que seja longo ainda não existirá; e, se então for longo, quando, de futuro que ainda não existe, já tiver começado a existir e se tiver tornado presente, para que possa existir o que seja longo, já o tempo presente clama, com as palavras de há pouco, que não pode ser longo.
XVI.21 E, no entanto, Senhor, percebemos os intervalos dos tempos e os comparamos entre si, e dizemos que uns são mais longos e outros mais breves. Medimos também quanto um tempo é mais longo ou mais breve do que outro, e respondemos que este é duplo ou triplo e aquele simples, ou que este é tanto quanto aquele. Mas medimos os tempos que passam quando os medimos percebendo-os. Os passados, porém, que já não existem, ou os futuros, que ainda não existem, quem os pode medir? A não ser que alguém se atreva a dizer que se pode medir o que não existe. Quando, pois, o tempo passa, pode ser percebido e medido; mas, depois que passou, como não existe, não pode.
XVII.22 Pergunto, Pai, não afirmo. Meu Deus, vela por mim e guia-me. Quem há que me diga que não há três tempos, como aprendemos em meninos e ensinamos aos meninos, o passado, o presente e o futuro, mas só o presente, já que aqueles dois não existem? Ou será que também eles existem, mas, quando do futuro se faz presente, sai de algum esconderijo, e, quando do presente se faz passado, se retira para algum esconderijo? Pois onde viram as coisas futuras os que as vaticinaram, se elas ainda não existem? Porque não se pode ver o que não existe. E os que narram as coisas passadas certamente não narrariam coisas verdadeiras, se não as vissem com o espírito; e, se elas não fossem nada, de modo algum poderiam ser vistas. Existem, pois, as coisas futuras e as passadas.
XVIII.23 Deixa-me, Senhor, procurar mais, ó minha esperança; não se perturbe o meu empenho. Pois, se existem as coisas futuras e as passadas, quero saber onde estão. E, se ainda não sou capaz, sei, no entanto, que, onde quer que estejam, não estão ali como futuras ou passadas, mas como presentes. Pois, se também ali são futuras, ainda não estão ali; se também ali são passadas, já não estão ali. Onde quer, pois, que estejam, sejam quais forem, não existem senão como presentes. Embora, quando se narram com verdade as coisas passadas, não se tirem da memória as próprias coisas que passaram, mas palavras concebidas a partir das suas imagens, as quais elas, ao passar pelos sentidos, gravaram no espírito como vestígios. Pois a minha meninice, que já não existe, está no tempo passado, que já não existe; mas a sua imagem, quando a evoco e a narro, eu a contemplo no tempo presente, porque está ainda na minha memória. Se é semelhante também a razão de se predizerem as coisas futuras, de modo que se pressintam, já existentes, as imagens de coisas que ainda não existem, confesso, meu Deus, não sei. Isto, sim, sei: que muitas vezes premeditamos as nossas ações futuras, e que essa premeditação é presente, ao passo que a ação que premeditamos ainda não existe, porque é futura. Quando a tivermos empreendido e começado a fazer o que premeditávamos, então existirá aquela ação, porque então não será futura, mas presente.
XVIII.24 Seja como for, pois, esse misterioso pressentimento das coisas futuras, não se pode ver senão o que existe. Ora, o que já existe não é futuro, mas presente. Quando, pois, se diz que se veem as coisas futuras, não se veem elas mesmas, que ainda não existem, isto é, que são futuras, mas talvez as suas causas ou sinais, que já existem. Por isso, não são futuras, mas presentes para os que já as veem, e a partir delas se predizem as coisas futuras, concebidas pelo espírito. E essas concepções, por sua vez, já existem, e os que predizem aquelas coisas as contemplam presentes dentro de si. Que tão grande multidão de coisas me diga algum exemplo. Contemplo a aurora: anuncio que o sol vai nascer. O que contemplo é presente; o que anuncio é futuro: não o sol, que já existe, mas o seu nascer, que ainda não existe. E, no entanto, se eu não imaginasse no espírito também o próprio nascer, como agora, quando falo dele, não o poderia predizer. Mas nem aquela aurora que vejo no céu é o nascer do sol, embora o preceda, nem aquela imagem no meu espírito. Estas duas coisas são vistas como presentes, para que se prediga aquele nascer futuro. As coisas futuras, pois, ainda não existem; e, se ainda não existem, não existem; e, se não existem, de modo algum podem ser vistas; mas podem ser preditas a partir das presentes, que já existem e são vistas.
XIX.25 Tu, pois, soberano da tua criação, qual é o modo como ensinas às almas as coisas futuras? Pois ensinaste os teus profetas. Qual é esse modo com que ensinas as coisas futuras, tu para quem nada é futuro? Ou antes ensinas, a respeito das futuras, coisas presentes? Pois o que não existe tampouco pode, certamente, ser ensinado. Demasiado longe está esse modo do alcance da minha vista: é forte demais. Por mim não poderei chegar a ele; poderei, porém, por ti, quando tu o deres, doce luz dos meus olhos ocultos.
XX.26 O que agora, porém, é claro e manifesto é que nem as coisas futuras nem as passadas existem, e que não se diz com propriedade: “Os tempos são três: o passado, o presente e o futuro”; mas talvez se dissesse com propriedade: “Os tempos são três: o presente das coisas passadas, o presente das presentes, o presente das futuras.” Pois estes três estão de algum modo na alma, e em outra parte não os vejo: o presente das coisas passadas é a memória; o presente das presentes, a visão; o presente das futuras, a expectativa. Se nos é permitido dizer isto, vejo três tempos e confesso que são três. Diga-se também: “Os tempos são três: o passado, o presente e o futuro”, como abusivamente diz o costume; diga-se. Eis que não me importo, nem resisto, nem repreendo, contanto que se entenda o que se diz: que nem o que é futuro já existe, nem o que é passado. Pois poucas são as coisas que dizemos com propriedade, muitas as que dizemos sem propriedade; mas entende-se o que queremos dizer.
XXI.27 Disse, pois, há pouco, que medimos os tempos que passam, de modo a podermos dizer que este tempo é duplo em relação àquele, que é simples, ou que este é tanto quanto aquele, e qualquer outra coisa que, medindo, possamos declarar das partes dos tempos. Por isso, como dizia, medimos os tempos que passam; e, se alguém me disser: “Como o sabes?”, responderei: sei porque os medimos, e não podemos medir o que não existe, e não existem os passados nem os futuros. Mas o tempo presente, como o medimos, se não tem espaço? Mede-se, pois, enquanto passa; mas, depois que passou, não se mede, pois não haverá o que se meça. Mas de onde, e por onde, e para onde passa, quando é medido? De onde, senão do futuro? Por onde, senão pelo presente? Para onde, senão para o passado? Daquilo, pois, que ainda não existe, através daquilo que carece de espaço, para aquilo que já não existe. Mas que medimos, senão o tempo em algum espaço? Pois não dizemos “simples”, “duplos”, “triplos” e “iguais”, ou qualquer outra coisa deste modo que digamos no tempo, senão de espaços de tempo. Em que espaço, pois, medimos o tempo que passa? Será no futuro, de onde passa? Mas o que ainda não existe, não o medimos. Será no presente, por onde passa? Mas um espaço nulo não o medimos. Será no passado, para onde passa? Mas o que já não existe, não o medimos.
XXII.28 Ardeu o meu espírito por conhecer este enigma intricadíssimo. Não feches, Senhor meu Deus, bom Pai, por Cristo te suplico, não feches ao meu desejo estas coisas, tão usuais e tão ocultas, impedindo que ele penetre nelas e que elas se aclarem à luz da tua misericórdia, Senhor. A quem interrogarei sobre isto? E a quem confessarei com mais fruto a minha imperícia senão a ti, a quem não são molestos os meus estudos, que ardem com veemência pelas tuas Escrituras? Dá-me o que amo; pois amo, e isto tu o deste. Dá, Pai, tu que verdadeiramente sabes dar boas dádivas aos teus filhos; dá, porque me propus conhecer, e há trabalho diante de mim até que abras. Por Cristo te suplico, em nome dele, o santo dos santos, que ninguém me perturbe. Também eu cri, e por isso falo. Esta é a minha esperança, para ela vivo: contemplar o deleite do Senhor. Eis que tornaste velhos os meus dias, e eles passam, e como, não sei. E dizemos “tempo” e “tempo”, “tempos” e “tempos”: “Por quanto tempo falou ele isto”, “Por quanto tempo fez ele isto”, e “Há quanto tempo não vi aquilo”, e “Esta sílaba tem o dobro do tempo daquela, simples e breve.” Dizemos estas coisas e as ouvimos, e somos entendidos e entendemos. São claríssimas e usualíssimas, e as mesmas coisas, por outro lado, estão escondidas demais, e a sua descoberta é nova.
XXIII.29 Ouvi de um homem douto que os próprios tempos são os movimentos do sol, da lua e dos astros, e não concordei. Pois por que não seriam antes tempos os movimentos de todos os corpos? Ou será que, se cessassem as luzes do céu e se movesse a roda de um oleiro, não haveria tempo com que medíssemos aqueles giros e disséssemos ou que se fazem em intervalos iguais, ou, se ela se movesse ora mais devagar, ora mais depressa, que uns giros são mais demorados e outros menos? Ou, quando disséssemos isto, não falaríamos também nós no tempo, ou haveria nas nossas palavras umas sílabas longas e outras breves, senão porque aquelas teriam soado por um tempo mais longo, estas por um mais breve? Deus, concede aos homens ver numa coisa pequena as noções comuns às coisas pequenas e às grandes. Há astros e luzeiros do céu para sinais, e para tempos, e para dias, e para anos. Há, sim; mas nem eu diria que o giro daquela rodinha de madeira é o dia, nem tampouco aquele homem diria que, por isso, não há tempo.
XXIII.30 Eu desejo conhecer a força e a natureza do tempo com que medimos os movimentos dos corpos e dizemos, por exemplo, que este movimento é duas vezes mais demorado que aquele. Pois pergunto: já que se chama dia não só a permanência do sol sobre a terra, segundo a qual uma coisa é o dia, outra a noite, mas também todo o seu circuito do oriente ao oriente, segundo o qual dizemos: “Passaram tantos dias” (pois se dizem tantos dias com as suas noites, e não se contam à parte os espaços das noites), já que, pois, o dia se completa com o movimento e o circuito do sol do oriente ao oriente, pergunto se o dia é o próprio movimento, ou a própria duração em que ele se realiza, ou ambas as coisas. Pois, se fosse o primeiro, seria dia ainda que o sol tivesse percorrido aquele curso num espaço de tempo igual ao de uma hora. Se fosse o segundo, não seria dia se de um nascer do sol ao outro houvesse uma duração tão breve como a de uma hora; mas o sol teria de dar vinte e quatro voltas para completar um dia. Se fossem ambas as coisas, nem se chamaria dia aquele em que o sol percorresse todo o seu giro no espaço de uma hora, nem aquele em que, parado o sol, passasse tanto tempo quanto o sol costuma gastar para percorrer todo o seu circuito de uma manhã a outra. Não perguntarei, pois, agora o que é aquilo que se chama dia, mas o que é o tempo, com o qual, medindo o circuito do sol, diríamos que ele se completou na metade do espaço de tempo habitual, se se tivesse completado num espaço de tempo igual ao de doze horas; e, comparando os dois tempos, diríamos que aquele é simples e este duplo, ainda que o sol girasse do oriente ao oriente umas vezes naquele tempo simples, outras neste duplo. Ninguém me diga, pois, que os movimentos dos corpos celestes são os tempos, porque também, quando o sol parou pelo voto de um homem, para que ele levasse a termo uma batalha vitoriosa, o sol estava parado, mas o tempo ia. Pois aquela batalha foi travada e terminada no seu próprio espaço de tempo, o que lhe bastou. Vejo, pois, que o tempo é uma certa distensão. Mas vejo? Ou me parece que vejo? Tu o mostrarás, luz, verdade.
XXIV.31 Mandas que eu aprove, se alguém disser que o tempo é o movimento de um corpo? Não mandas. Pois ouço que nenhum corpo se move senão no tempo: tu o dizes. Mas não ouço que o próprio movimento do corpo seja o tempo: não és tu que o dizes. Pois, quando um corpo se move, meço com o tempo por quanto tempo se move, desde que começa a mover-se até que cessa. E, se não vi quando começou, e ele continua a mover-se, de modo que não vejo quando cessa, não sou capaz de medir, a não ser, talvez, desde que começo a vê-lo até que deixo de vê-lo. E, se o vejo por muito tempo, só posso declarar que é um tempo longo, mas não quanto é; porque também, quando dizemos “quanto”, o dizemos por comparação, como em “isto é tanto quanto aquilo”, ou “isto é o dobro daquilo”, e qualquer outra coisa deste modo. Mas, se pudermos assinalar os espaços dos lugares de onde e para onde vai o corpo que se move, ou as suas partes, se ele se move como num torno, podemos dizer quanto tempo levou o movimento do corpo, ou da sua parte, desde aquele lugar até aquele outro. Sendo, pois, uma coisa o movimento do corpo, outra aquilo com que medimos quanto ele dura, quem não percebe qual destas duas se deve antes chamar tempo? Pois, se um corpo, variando, ora se move, ora está parado, medimos com o tempo não só o seu movimento, mas também a sua parada, e dizemos: “Esteve parado tanto quanto se moveu”, ou: “Esteve parado o dobro ou o triplo do que se moveu”, e qualquer outra coisa que a nossa medição tenha apreendido ou estimado, “mais ou menos”, como se costuma dizer. Logo, o tempo não é o movimento do corpo.
XXV.32 E confesso-te, Senhor, que ainda ignoro o que é o tempo; e de novo te confesso, Senhor, que sei que digo estas coisas no tempo, e que já há muito falo do tempo, e que esse mesmo “há muito” não é “há muito” senão pela duração do tempo. Como, pois, sei isto, se não sei o que é o tempo? Ou será que não sei dizer o que sei? Ai de mim, que nem sequer sei o que não sei! Eis, meu Deus, diante de ti: não minto. Como falo, assim é o meu coração. Tu iluminarás a minha lâmpada, Senhor meu Deus, iluminarás as minhas trevas.
XXVI.33 Não te confessa a minha alma, com confissão verídica, que eu meço os tempos? Será assim, meu Deus, que meço e não sei o que meço? Meço com o tempo o movimento de um corpo; e o próprio tempo, não o meço? Ou poderia eu medir o movimento de um corpo, quanto dura e quanto leva para chegar daqui até ali, se não medisse o tempo em que ele se move? O próprio tempo, então, com que o meço? Será que com um tempo mais breve medimos um mais longo, como com o espaço de um côvado o espaço de uma viga? Assim, de fato, parece que medimos com o espaço de uma sílaba breve o espaço de uma sílaba longa, e dizemos que esta é o dobro. Assim medimos os espaços dos poemas pelos espaços dos versos, e os espaços dos versos pelos espaços dos pés, e os espaços dos pés pelos espaços das sílabas, e os espaços das longas pelos espaços das breves: não nas páginas (pois desse modo medimos lugares, não tempos), mas quando as palavras passam ao ser pronunciadas, e dizemos: “É longo o poema, pois se compõe de tantos versos; longos os versos, pois constam de tantos pés; longos os pés, pois se estendem por tantas sílabas; longa é a sílaba, pois é o dobro da breve.” Mas nem assim se apreende uma medida certa do tempo, já que pode acontecer que um verso mais breve, se for pronunciado mais pausadamente, ressoe por um espaço de tempo mais amplo do que um mais longo pronunciado mais depressa. Assim o poema, assim o pé, assim a sílaba. Por isso me pareceu que o tempo não é outra coisa senão distensão; mas de quê, não sei; e seria de admirar se não fosse do próprio espírito. Pois que meço eu, suplico-te, meu Deus, quando digo, ou de modo indefinido: “Este tempo é mais longo que aquele”, ou mesmo de modo definido: “Este é o dobro daquele”? Meço o tempo, sei; mas não meço o futuro, porque ainda não existe; não meço o presente, porque não se estende por espaço algum; não meço o passado, porque já não existe. Que meço, então? Os tempos que passam, não os passados? Assim, de fato, eu tinha dito.
XXVII.34 Persiste, meu espírito, e atende com firmeza. Deus é o nosso auxílio: ele nos fez, e não nós. Atende onde alvorece a verdade. Eis, suponhamos, que uma voz corpórea começa a soar, e soa, e ainda soa, e eis que cessa, e já há silêncio, e aquela voz é passada e já não é voz. Era futura antes de soar, e não podia ser medida, porque ainda não existia; e agora não pode, porque já não existe. Então, pois, podia, quando soava, porque então existia algo que se pudesse medir. Mas também então não estava parada: ia e passava. Ou será que por isso mesmo podia mais? Pois, ao passar, estendia-se por algum espaço de tempo em que pudesse ser medida, já que o presente não tem espaço algum. Se, pois, então podia, eis, suponhamos, que outra voz começou a soar e ainda soa, num tom contínuo, sem nenhuma interrupção. Meçamo-la enquanto soa; pois, quando tiver cessado de soar, já será passada e não haverá o que se possa medir. Meçamo-la, pois, de fato, e digamos quanto é. Mas ainda soa, e não pode ser medida senão desde o seu início, quando começou a soar, até o fim, quando cessa. Pois é o próprio intervalo que medimos, desde algum início até algum fim. Por isso, uma voz que ainda não terminou não pode ser medida, para se dizer quão longa ou breve é, nem se pode dizer que é igual a outra, ou simples, ou dupla em relação a outra, ou qualquer outra coisa. Mas, quando tiver terminado, já não existirá. De que modo, pois, poderá ser medida? E, no entanto, medimos os tempos: não os que ainda não existem, nem os que já não existem, nem os que não se estendem por duração alguma, nem os que não têm limites. Não medimos, pois, nem os tempos futuros, nem os passados, nem os presentes, nem os que passam; e, no entanto, medimos os tempos.
XXVII.35 Deus creator omnium: este verso de oito sílabas alterna sílabas breves e longas. As quatro breves, pois, a primeira, a terceira, a quinta e a sétima, são simples em relação às quatro longas, a segunda, a quarta, a sexta e a oitava. Cada uma destas tem, em relação a cada uma daquelas, o dobro do tempo. Pronuncio-o e declaro, e é assim, tanto quanto se percebe por um sentido manifesto. Tanto quanto o sentido é manifesto, meço a longa com a breve e percebo que a contém duas vezes. Mas, como uma soa depois da outra, se a primeira é breve e a longa vem depois, como reterei a breve, e como a aplicarei à longa para medi-la, de modo a achar que esta a contém duas vezes, uma vez que a longa não começa a soar senão quando a breve deixou de soar? E a própria longa, acaso a meço presente, se não a meço senão terminada? Mas o seu término é a sua passagem. Que é, então, o que meço? Onde está a breve com que meço? Onde está a longa que meço? Ambas soaram, voaram, passaram, já não existem. E eu meço e respondo com confiança, tanto quanto se pode confiar num sentido exercitado, que esta é simples e aquela dupla, no espaço do tempo, entenda-se. E não posso fazê-lo senão porque passaram e terminaram. Não meço, pois, a elas mesmas, que já não existem, mas alguma coisa na minha memória, que nela permanece gravada.
XXVII.36 Em ti, meu espírito, meço os tempos. Não me atordoes; isto é, não te atordoes com o tumulto das tuas impressões. Em ti, digo, meço os tempos. A impressão que as coisas, ao passar, produzem em ti, e que permanece quando elas já passaram, é essa que meço, presente, e não as coisas que passaram para que ela se produzisse; é a ela que meço quando meço os tempos. Portanto, ou os tempos são isso, ou não são tempos o que meço. E quando medimos os silêncios e dizemos que aquele silêncio durou tanto tempo quanto durou aquela voz? Não estendemos o pensamento à medida da voz, como se ela soasse, para podermos declarar alguma coisa dos intervalos dos silêncios no espaço do tempo? Pois também, calada a voz e quieta a boca, percorremos com o pensamento poemas, e versos, e qualquer discurso, e quaisquer medidas de movimentos, e declaramos dos espaços dos tempos quanto um é em relação ao outro, não de outro modo do que se os disséssemos em voz alta. Suponha-se que alguém quis emitir uma voz um tanto longa e fixou de antemão, premeditando, quão longa haveria de ser: esse percorreu, sem dúvida, em silêncio aquele espaço de tempo e, confiando-o à memória, começou a emitir aquela voz, que soa até ser levada ao termo proposto. Ou antes, soou e soará: pois o que dela já se completou certamente soou, e o que resta soará; e assim se vai realizando, enquanto a intenção presente faz passar o futuro ao passado, diminuindo o futuro e crescendo o passado, até que, consumido o futuro, tudo seja passado.
XXVIII.37 Mas como diminui ou se consome o futuro, que ainda não existe, ou como cresce o passado, que já não existe, senão porque no espírito que realiza isso há três coisas? Pois ele espera, e atende, e recorda, de modo que aquilo que espera passa, através daquilo a que atende, para aquilo que recorda. Quem nega, pois, que as coisas futuras ainda não existem? E, no entanto, já existe no espírito a expectativa das futuras. E quem nega que as passadas já não existem? E, no entanto, existe ainda no espírito a memória das passadas. E quem nega que o tempo presente carece de espaço, porque passa num ponto? E, no entanto, perdura a atenção, através da qual vai passando à ausência o que estará presente. Não é, pois, longo o tempo futuro, que não existe; mas um futuro longo é uma longa expectativa do futuro; nem é longo o tempo passado, que não existe; mas um passado longo é uma longa memória do passado.
XXVIII.38 Vou recitar um cântico que conheço. Antes de começar, a minha expectativa se estende ao todo; mas, depois que comecei, tudo quanto dela vou colhendo para o passado se estende também na minha memória; e a vida desta minha ação se distende na memória, por causa do que já recitei, e na expectativa, por causa do que vou recitar. Presente, porém, está a minha atenção, pela qual passa o que era futuro para se tornar passado. E, quanto mais isto se faz e se faz, tanto mais, abreviada a expectativa, se prolonga a memória, até que toda a expectativa se consuma, quando toda aquela ação, terminada, tiver passado para a memória. E o que acontece no cântico inteiro acontece em cada uma das suas partículas e em cada uma das suas sílabas; o mesmo numa ação mais longa, da qual talvez aquele cântico seja uma partícula; o mesmo na vida inteira do homem, da qual são partes todas as ações do homem; o mesmo em todo o século dos filhos dos homens, do qual são partes todas as vidas dos homens.
XXIX.39 Mas, porque a tua misericórdia é melhor do que as vidas, eis que a minha vida é distensão, e a tua direita me acolheu no meu Senhor, o Filho do homem, mediador entre ti, que és um, e nós, que somos muitos, em muitas coisas e por muitas coisas, para que por ele eu alcance aquele em quem também fui alcançado, e me recolha dos dias antigos, seguindo o uno, esquecido das coisas passadas, não distendido para as coisas que hão de vir e passar, mas estendido para as que estão adiante; não segundo a distensão, mas segundo a intenção, prossigo rumo à palma da vocação do alto, onde ouvirei a voz do louvor e contemplarei o teu deleite, que nem vem nem passa. Agora, porém, os meus anos se passam em gemidos, e tu, meu consolo, Senhor, meu Pai, és eterno. Mas eu me estilhacei pelos tempos, cuja ordem ignoro, e os meus pensamentos, as entranhas íntimas da minha alma, são dilacerados por tumultuosas variedades, até que eu conflua em ti, purificado e liquefeito pelo fogo do teu amor.
XXX.40 E ficarei firme, e me consolidarei em ti, na minha forma, a tua verdade; e não suportarei as perguntas dos homens que, por uma doença que é castigo, têm mais sede do que capacidade, e dizem: “Que fazia Deus antes de fazer o céu e a terra?”, ou: “Que lhe veio à mente para fazer alguma coisa, se antes nunca fizera coisa alguma?” Dá-lhes, Senhor, pensar bem no que dizem e descobrir que não se diz “nunca” onde não há tempo. Daquele, pois, de quem se diz que nunca fez, que outra coisa se diz senão que não fez em tempo algum? Vejam, pois, que nenhum tempo pode existir sem a criatura, e deixem de dizer essa vaidade. Estendam-se também para as coisas que estão adiante, e entendam que tu és, antes de todos os tempos, o criador eterno de todos os tempos, e que nenhum tempo te é coeterno, nem criatura alguma, ainda que haja alguma acima dos tempos.
XXXI.41 Senhor meu Deus, que seio é esse do teu alto segredo, e quão longe dele me lançaram as consequências dos meus delitos? Cura os meus olhos, e que eu me alegre com a tua luz. Certamente, se existe um espírito dotado de tão grande ciência e presciência que conheça todas as coisas passadas e futuras como eu conheço um único cântico muito conhecido, esse espírito é admirável em extremo e assombroso até o arrepio, pois não lhe fica oculto nada do que se realizou nem nada do que resta dos séculos, assim como a mim não me fica oculto, quando canto aquele cântico, o que e quanto dele já passou desde o início, o que e quanto resta até o fim. Mas longe de ti, criador do universo, criador das almas e dos corpos, longe de ti conhecer assim todas as coisas futuras e passadas. Tu conheces de modo muito outro, muito mais admirável e muito mais secreto. Pois não é como o afeto de quem canta coisas conhecidas, ou de quem ouve um cântico conhecido, que varia e cujo sentido se distende com a expectativa das palavras futuras e a memória das passadas; não é assim que algo te acontece a ti, imutavelmente eterno, isto é, verdadeiramente eterno criador das mentes. Assim, pois, como conheceste no princípio o céu e a terra sem variação do teu conhecimento, assim fizeste no princípio o céu e a terra sem distensão da tua ação. Quem entende, que te confesse; e quem não entende, que te confesse. Oh, quão excelso és, e os humildes de coração são a tua casa! Pois tu levantas os abatidos, e não caem aqueles cuja excelsitude és tu.
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