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Confissões — Livro Livro XII

Livro XII

I.1 Muito se afana o meu coração, Senhor, nesta penúria da minha vida, batido pelas palavras da tua santa Escritura; e por isso, as mais das vezes, é copiosa no falar a pobreza da inteligência humana, porque a busca fala mais do que o achado, e o pedido é mais longo do que a obtenção, e a mão que bate trabalha mais do que a mão que recebe. Temos a promessa: quem a há de corromper? Se Deus é por nós, quem será contra nós? “Pedi e recebereis, buscai e achareis, batei e vos será aberto. Pois todo aquele que pede recebe, e quem busca achará, e a quem bate será aberto.” As promessas são tuas; e quem temeria ser enganado, quando quem promete é a Verdade?

II.2 Confessa à tua altura a humildade da minha língua que tu fizeste o céu e a terra: este céu que vejo, e a terra que piso, de que é feita esta terra que carrego, tu os fizeste. Mas onde está o céu do céu, Senhor, de que ouvimos na voz do salmo: “O céu do céu é do Senhor; mas a terra, ele a deu aos filhos dos homens”? Onde está o céu que não vemos, diante do qual é terra tudo isto que vemos? Pois todo este conjunto corpóreo, que não está todo em toda parte, recebeu de tal modo uma bela forma até nas suas partes mais baixas, cujo fundo é a nossa terra, que, diante daquele céu do céu, até o céu da nossa terra é terra. E não é absurdo que um e outro destes grandes corpos sejam terra diante daquele não sei qual céu que é do Senhor, e não dos filhos dos homens.

III.3 E, sem dúvida, esta terra era invisível e incomposta, e uma não sei qual profundeza do abismo, sobre a qual não havia luz, porque não tinha forma nenhuma; por isso mandaste que se escrevesse que “as trevas estavam sobre o abismo”. Que é isso, senão ausência de luz? Pois onde estaria a luz, se existisse, senão em cima, sobressaindo e iluminando? Onde, portanto, ainda não havia luz, que era estarem presentes as trevas, senão estar ausente a luz? Em cima, pois, estavam as trevas, porque em cima faltava a luz; assim como, onde não há som, há silêncio. E que é haver ali silêncio, senão não haver ali som? Não foste tu, Senhor, que ensinaste esta alma que te confessa? Não foste tu, Senhor, que me ensinaste que, antes de formares e distinguires esta matéria informe, não havia coisa alguma, nem cor, nem figura, nem corpo, nem espírito? Não, contudo, um nada absoluto: havia uma certa informidade sem forma nenhuma.

IV.4 Como, então, se havia de chamar, para que de algum modo se fizesse entender também aos de sentido mais lento, senão por algum vocábulo usual? E que se pode achar, em todas as partes do mundo, mais próximo da informidade completa do que a terra e o abismo? Pois, pelo seu grau ínfimo, são menos belos do que as outras coisas, mais altas, todas transparentes e luminosas. Por que, então, não hei de entender que a informidade da matéria, que fizeste sem forma para dela fazeres o mundo belo, foi dada a conhecer aos homens de modo tão conveniente que se chamasse terra invisível e incomposta,

V.5 para que, quando o pensamento busca nela o que os sentidos alcancem e diz consigo: “Não é forma inteligível, como a vida, como a justiça, porque é matéria dos corpos; nem sensível, porque no invisível e incomposto não há o que se veja nem o que se sinta”, enquanto o pensamento humano diz isto consigo, se esforce por conhecê-la ignorando, ou por ignorá-la conhecendo?

VI.6 Quanto a mim, Senhor, se eu te confessar inteiro, com a minha boca e com a minha pena, tudo o que me ensinaste acerca desta matéria — cujo nome eu antes ouvia sem o entender, quando me falavam dela os que não a entendiam —, eu a pensava com formas inumeráveis e variadas, e por isso não a pensava. O meu ânimo revolvia formas feias e horríveis, em ordens transtornadas, mas formas, afinal; e eu chamava informe não ao que carecesse de forma, mas ao que tivesse uma tal que, se aparecesse, os meus sentidos se desviariam dela como de coisa insólita e incongruente, e a fraqueza humana se perturbaria. Mas aquilo que eu pensava era informe não por privação de toda forma, e sim por comparação com coisas mais formosas; e a razão verdadeira me persuadia a tirar de todo quaisquer restos de qualquer forma, se quisesse pensar o inteiramente informe; e não podia. Pois mais depressa julgava que não existia o que fosse privado de toda forma do que pensava alguma coisa entre a forma e o nada, nem formada nem nada, um informe quase nada. E a minha mente deixou de interrogar sobre isto o meu espírito, cheio das imagens dos corpos formados, que ele mudava e variava a seu arbítrio; voltei-me para os próprios corpos e examinei mais a fundo a sua mutabilidade, pela qual deixam de ser o que tinham sido e começam a ser o que não eram; e suspeitei que essa mesma passagem de forma em forma se fazia por meio de algo informe, não por meio de um nada absoluto. Mas eu queria saber, não suspeitar. E, se a minha voz e a minha pena te confessassem inteiro tudo o que me desataste nesta questão, qual dos leitores teria fôlego para o apreender? Nem por isso, contudo, deixará o meu coração de te dar honra e um cântico de louvor por aquilo que não é capaz de ditar. Pois a mutabilidade das coisas mutáveis é ela mesma capaz de todas as formas em que se mudam as coisas mutáveis. E ela, que é? Será espírito? Será corpo? Será alguma forma do espírito ou do corpo? Se se pudesse dizer “um nada que é algo” e “um é que não é”, assim eu a chamaria; e, no entanto, de algum modo ela já existia, para receber estas formas visíveis e compostas.

VII.7 E de onde existiria, de algum modo, senão de ti, de quem são todas as coisas, na medida em que são? Mas tanto mais longe de ti quanto mais dessemelhante; pois não se trata de lugares. Assim, tu, Senhor, que não és ora uma coisa e ora outra, nem ora de um modo e ora de outro, mas o Mesmo, e o Mesmo, e o Mesmo, santo, santo, santo, Senhor Deus onipotente, no princípio, que procede de ti, na tua sabedoria, que nasceu da tua substância, fizeste alguma coisa, e a fizeste do nada. Pois fizeste o céu e a terra não de ti; porque então seriam iguais ao teu Unigênito, e por isso também a ti, e de modo nenhum seria justo que fosse igual a ti o que não procedesse de ti. E fora de ti nada havia de que os fizesses, ó Deus, Trindade una e Unidade trina; e por isso fizeste do nada o céu e a terra, uma coisa grande e uma coisa pequena, porque és onipotente e bom para fazer todas as coisas boas: um céu grande e uma terra pequena. Existias tu, e nenhuma outra coisa de que fizesses o céu e a terra: duas coisas, uma perto de ti, outra perto do nada; uma acima da qual só tu estivesses, outra abaixo da qual nada houvesse.

VIII.8 Mas aquele céu do céu é teu, Senhor; e a terra que deste aos filhos dos homens, para ser vista e tocada, não era tal como agora a vemos e tocamos. Pois era invisível e incomposta, e era um abismo sobre o qual não havia luz; ou: as trevas estavam sobre o abismo, isto é, mais do que no abismo. Porque este abismo das águas já visíveis tem, até nas suas profundezas, uma luz da sua forma, de algum modo sensível aos peixes e aos animais que rastejam no seu fundo. Mas aquele todo era quase nada, porque ainda era inteiramente informe; e, no entanto, já era algo que podia ser formado. Pois tu, Senhor, fizeste o mundo de uma matéria informe, que fizeste de coisa nenhuma, uma coisa quase nenhuma, para dela fazeres as grandes coisas que nós, filhos dos homens, admiramos. Pois é muito admirável este céu corpóreo, o firmamento entre água e água, ao qual, no segundo dia, depois da criação da luz, disseste: “Faça-se”, e assim se fez. A esse firmamento chamaste céu, mas céu desta terra e deste mar, que fizeste no terceiro dia, dando forma visível à matéria informe, que fizeste antes de todo dia. Pois já tinhas feito também um céu antes de todo dia, mas o céu deste céu, porque no princípio tinhas feito o céu e a terra. A própria terra, porém, que tinhas feito, era matéria informe, porque era invisível e incomposta, e as trevas sobre o abismo. Desta terra invisível e incomposta, desta informidade, deste quase nada havias de fazer todas estas coisas de que consta e não consta este mundo mutável, em que aparece a própria mutabilidade, na qual se podem perceber e contar os tempos; porque os tempos se fazem com as mudanças das coisas, enquanto variam e se revolvem as formas, cuja matéria é a terra invisível de que se falou.

IX.9 Por isso o Espírito, mestre do teu servo, quando lembra que fizeste no princípio o céu e a terra, cala-se sobre os tempos, silencia sobre os dias. Pois, sem dúvida, o céu do céu, que no princípio fizeste, é uma criatura intelectual que, embora de modo algum coeterna contigo, Trindade, participa contudo da tua eternidade, refreia firmemente a sua mutabilidade pela doçura da tua felicíssima contemplação e, aderindo a ti sem queda alguma desde que foi feita, ultrapassa toda a volúvel alternância dos tempos. Já esta informidade, a terra invisível e incomposta, tampouco foi contada entre os dias. Pois onde não há forma nenhuma, nenhuma ordem, nada vem e nada passa; e onde isso não acontece, não há certamente dias, nem alternância de espaços de tempo.

X.10 Ó Verdade, luz do meu coração, não sejam as minhas trevas que me falem! Escoei-me para estas coisas e me obscureci; mas daqui, mesmo daqui, te amei. Andei errante e lembrei-me de ti. Ouvi a tua voz atrás de mim, para que eu voltasse, e mal a ouvi, pelo tumulto dos que não têm paz. E agora, eis que volto, ardendo e ofegando, à tua fonte. Ninguém me impeça: desta beberei, e dela viverei. Não seja eu a minha vida: vivi mal de mim mesmo; fui morte para mim: em ti revivo. Fala-me tu, conversa tu comigo: cri nos teus livros, e as suas palavras são muito misteriosas.

XI.11 Já me disseste, Senhor, com voz forte, ao ouvido interior, que tu és eterno, o único que possui a imortalidade, porque não mudas por forma ou movimento algum, nem a tua vontade varia com os tempos, já que não é imortal a vontade que é ora uma, ora outra. Isto me é claro diante de ti; e que se esclareça mais e mais, eu te peço, e que nessa manifestação eu persista sóbrio, sob as tuas asas. Também me disseste, Senhor, com voz forte, ao ouvido interior, que todas as naturezas e substâncias que não são o que tu és, e contudo são, foste tu que as fizeste (e só não vem de ti o que não é, e o movimento da vontade que se afasta de ti, que és, para o que é menos, porque tal movimento é delito e pecado); e que o pecado de ninguém te prejudica nem perturba a ordem do teu império, nem no cimo nem no ínfimo. Isto me é claro diante de ti; e que se esclareça mais e mais, eu te peço, e que nessa manifestação eu persista sóbrio, sob as tuas asas.

XI.12 Também me disseste, com voz forte, ao ouvido interior, que nem sequer é coeterna contigo aquela criatura cujo deleite és só tu, e que, sorvendo-te com uma castidade perseverantíssima, em parte alguma e em tempo algum deixa aparecer a sua mutabilidade; e, estando-lhe tu sempre presente, tu a quem se prende com todo o afeto, sem ter futuro que espere nem lançar ao passado coisa de que se lembre, não varia por alternância nenhuma nem se distende em tempo algum. Ó bem-aventurada, se é que existe, por aderir à tua bem-aventurança, bem-aventurada por ti, seu eterno morador e iluminador! Nem acho coisa que, de melhor grado, eu julgue dever chamar-se “o céu do céu, que é do Senhor”, senão a tua casa, que contempla as tuas delícias sem desfalecimento algum que a faça sair para outra coisa: mente pura, una na mais perfeita concórdia, pela estabilidade da paz dos santos espíritos, cidadãos da tua cidade nos céus, acima destes céus.

XI.13 Por isso, entenda a alma, cuja peregrinação se fez longínqua, se já tem sede de ti, se já as suas lágrimas se tornaram o seu pão, enquanto lhe dizem todos os dias: “Onde está o teu Deus?”, se já te pede uma só coisa, e esta procura: habitar na tua casa todos os dias da sua vida? E qual é a sua vida, senão tu? E quais são os teus dias, senão a tua eternidade, como os teus anos, que não acabam, porque tu és sempre o mesmo? Daqui, pois, entenda a alma que o puder quão longe, acima de todos os tempos, és eterno, quando a tua casa, que não peregrinou, embora não seja coeterna contigo, todavia, aderindo a ti sem cessar e sem desfalecer, não sofre nenhuma alternância dos tempos. Isto me é claro diante de ti; e que se esclareça mais e mais, eu te peço, e que nesta manifestação eu persista sóbrio, sob as tuas asas.

XI.14 Eis um não sei quê de informe nestas mudanças das coisas extremas e ínfimas; e quem me dirá — senão aquele que vagueia e se revolve com os seus fantasmas pelos vazios do próprio coração —, quem, senão alguém assim, me dirá que, diminuída e consumida toda forma, se restasse só a informidade, pela qual a coisa se mudava e se revolvia de forma em forma, ela poderia apresentar a sucessão dos tempos? Pois de modo algum o pode, porque sem variedade de movimentos não há tempos, e não há variedade alguma onde não há forma alguma.

XII.15 Consideradas estas coisas, quanto me dás, meu Deus, quanto me incitas a bater e quanto abres a quem bate, acho duas coisas que fizeste isentas de tempo, embora nenhuma das duas seja coeterna contigo: uma, de tal modo formada que, sem desfalecimento algum da contemplação, sem intervalo algum de mudança, mutável, mas não mudada, goza da tua eternidade e imutabilidade; a outra, tão informe que não tinha de que forma passar a que forma, de movimento ou de repouso, para ficar sujeita ao tempo. Mas a esta não a deixaste ficar informe, porque fizeste antes de todo dia, no princípio, o céu e a terra, estas duas coisas de que eu falava. “A terra, porém, era invisível e incomposta, e as trevas sobre o abismo”: com estas palavras se insinua a informidade, para que sejam conduzidos pouco a pouco os que não conseguem pensar uma privação completa de forma que, no entanto, não chegue ao nada; dela se haviam de fazer o outro céu, e a terra visível e composta, e a água bela, e tudo o que depois, na constituição deste mundo, se lembra ter sido feito não sem dias, porque são coisas tais que nelas se dão as alternâncias dos tempos, por causa das mudanças ordenadas dos movimentos e das formas.

XIII.16 É isto que entendo, por ora, meu Deus, quando ouço a tua Escritura dizer: “No princípio fez Deus o céu e a terra. A terra, porém, era invisível e incomposta, e as trevas estavam sobre o abismo”, sem lembrar em que dia fizeste estas coisas. Assim entendo, por ora, por causa daquele céu do céu, o céu intelectual, onde entender é conhecer simultaneamente, não em parte, não em enigma, não por espelho, mas por inteiro, às claras, face a face; não ora isto, ora aquilo, mas, como se disse, conhecer simultaneamente, sem nenhuma alternância dos tempos; e por causa da terra invisível e incomposta, sem nenhuma alternância dos tempos, que costuma ter ora isto e ora aquilo, porque, onde não há forma alguma, não há em parte alguma isto e aquilo. Por causa destas duas coisas, uma formada desde o começo e outra de todo informe — aquela, o céu, mas o céu do céu; esta, a terra, mas a terra invisível e incomposta —, por causa destas duas coisas entendo, por ora, que a tua Escritura diz, sem mencionar os dias: “No princípio fez Deus o céu e a terra”. Pois logo acrescentou de que terra falara; e, ao lembrar que no segundo dia foi feito o firmamento e chamado céu, insinua de que céu tinha falado antes o seu discurso, sem os dias.

XIV.17 Admirável profundidade das tuas palavras! Eis diante de nós a sua superfície, a afagar os pequeninos; mas admirável profundidade, meu Deus, admirável profundidade! Dá horror fitá-la: horror de honor e tremor de amor. Odeio com veemência os seus inimigos: oh, se os matasses com a espada de dois gumes, e deixassem de ser seus inimigos! Pois é assim que os amo: quero que morram para si, para que vivam para ti. Mas eis outros, não detratores, e sim louvadores do livro do Gênesis: “Não”, dizem, “não foi isso que o Espírito de Deus, que por meio de Moisés, seu servo, escreveu estas coisas, quis que se entendesse nestas palavras; não quis que se entendesse o que tu dizes, mas outra coisa, que nós dizemos.” A estes eu, tomando-te por árbitro, ó Deus de todos nós, respondo assim.

XV.18 Acaso direis que é falso o que a Verdade me diz com voz forte, ao ouvido interior, acerca da verdadeira eternidade do Criador: que a sua substância de modo algum varia com os tempos, nem a sua vontade está fora da sua substância? Daí que ele não quer ora isto, ora aquilo, mas de uma só vez, e ao mesmo tempo, e sempre, quer tudo o que quer; não de novo e de novo, nem agora umas coisas, agora outras; nem quer depois o que não queria, nem deixa de querer o que antes queria; porque tal vontade é mutável, e tudo o que é mutável não é eterno; ora, o nosso Deus é eterno. E também o que me diz ao ouvido interior: a expectativa das coisas futuras torna-se visão quando elas chegam, e essa mesma visão torna-se memória quando passam; ora, toda intenção que assim varia é mutável, e tudo o que é mutável não é eterno; ora, o nosso Deus é eterno. Isto recolho e junto, e acho que o meu Deus, o Deus eterno, não fundou a criatura por alguma vontade nova, nem a sua ciência sofre coisa alguma transitória.

XV.19 Que direis, então, contraditores? Acaso isto é falso? “Não”, dizem. E isto? Acaso é falso que toda natureza formada, ou matéria formável, não existe senão por aquele que é sumamente bom, porque é sumamente? “Também isso não negamos”, dizem. Que, então? Negais acaso que existe uma criatura sublime, unida ao Deus verdadeiro e verdadeiramente eterno por um amor tão casto que, embora não lhe seja coeterna, não se desprende dele nem se escoa para nenhuma variedade e alternância dos tempos, mas repousa na contemplação veracíssima só dele, porque tu, ó Deus, te mostras a quem te ama tanto quanto ordenas, e lhe bastas, e por isso ela não se desvia de ti nem para si? Esta é a casa de Deus, não terrena nem feita de alguma mole corpórea celeste, mas espiritual e participante da tua eternidade, porque está sem mácula para sempre. Pois a estabeleceste pelos séculos e pelos séculos dos séculos; puseste um preceito, e ele não passará. Nem por isso, contudo, é coeterna contigo, porque não é sem começo: foi feita.

XV.20 Pois, ainda que não achemos tempo antes dela — porque antes de todas as coisas foi criada a sabedoria; não, certamente, aquela sabedoria plenamente coeterna e igual a ti, nosso Deus, seu Pai, por meio da qual foram criadas todas as coisas, e na qual, como no princípio, fizeste o céu e a terra, mas a sabedoria que foi criada, isto é, a natureza intelectual, que é luz pela contemplação da luz; pois também ela, embora criada, se chama sabedoria; mas quanto vai da luz que ilumina à que é iluminada, tanto vai da sabedoria que cria a esta que foi criada, assim como da justiça que justifica à justiça que foi feita pela justificação (pois também nós fomos chamados justiça tua; diz, com efeito, um servo teu: “para que nós sejamos justiça de Deus nele”) —; portanto, como antes de todas as coisas foi criada uma certa sabedoria, que foi criada, a mente racional e intelectual da tua casta cidade, nossa mãe, que está no alto, e é livre, e é eterna nos céus (em que céus, senão nos que te louvam, os céus dos céus, porque este é também o céu do céu, que é do Senhor?), ainda que não achemos tempo antes dela, porque aquela que foi criada antes de todas as coisas precede também a criação do tempo, antes dela está, contudo, a eternidade do próprio Criador, de quem, feita, tomou começo, não de tempo, porque ainda não havia tempo, mas da sua própria criação.

XV.21 Por isso ela procede de ti, nosso Deus, de tal modo que é claramente outra coisa que tu, e não o Mesmo. E, ainda que não só antes dela, mas nem sequer nela, achemos tempo, porque é capaz de ver sempre a tua face e nunca se desvia dela (donde resulta que não varia por mudança alguma), há nela, contudo, a própria mutabilidade, pela qual se entenebreceria e esfriaria, se, unida a ti por um grande amor, não brilhasse e ardesse de ti como um perpétuo meio-dia. Ó casa luminosa e bela, amei a tua formosura e o lugar da habitação da glória do meu Senhor, teu artífice e possuidor! Por ti suspire a minha peregrinação; e digo àquele que te fez que me possua também a mim em ti, porque também a mim me fez. Andei errante como ovelha perdida; mas nos ombros do meu pastor, teu construtor, espero ser reconduzido a ti.

XV.22 Que me dizeis, contraditores a quem eu me dirigia, vós que, no entanto, credes que Moisés foi piedoso servo de Deus e que os seus livros são oráculos do Espírito Santo? Não é esta a casa de Deus, não coeterna com Deus, é verdade, mas, a seu modo, eterna nos céus, onde em vão buscais a sucessão dos tempos, porque não a achais? Pois ultrapassa toda distensão e todo espaço volúvel de duração aquela para quem é bom aderir sempre a Deus. “É”, dizem. Que coisa, então, das que o meu coração clamou ao meu Deus, quando ouvia interiormente a voz do seu louvor, que coisa, afinal, pretendeis que seja falsa? Será porque havia uma matéria informe, onde, por não haver forma alguma, não havia ordem alguma? Mas onde não havia ordem alguma, não podia haver nenhuma alternância dos tempos; e, no entanto, este quase nada, na medida em que não era um nada absoluto, vinha certamente daquele de quem vem tudo o que é, tudo o que de algum modo é alguma coisa. “Também isso”, dizem, “não negamos.”

XVI.23 Com estes, pois, quero conversar um pouco diante de ti, meu Deus, com os que concedem que é verdadeiro tudo isto que a tua verdade não cala dentro da minha mente. Pois os que o negam, que ladrem quanto quiserem e se atordoem com o próprio alarido: procurarei persuadi-los a que se aquietem e deem passagem, até si, à tua palavra. E, se não quiserem e me repelirem, suplico-te, meu Deus, que não te cales para mim. Fala tu no meu coração com verdade, porque só tu falas assim; e eu os deixarei lá fora, soprando o pó e levantando terra nos próprios olhos, e entrarei no meu quarto, e te cantarei canções de amor, gemendo gemidos inenarráveis na minha peregrinação, e lembrando-me de Jerusalém, com o coração estendido para o alto, para ela, Jerusalém, minha pátria, Jerusalém, minha mãe, e de ti, que sobre ela és rei, iluminador, pai, tutor, esposo, castas e fortes delícias, e sólida alegria, e todos os bens inefáveis, todos juntos, porque és o único bem, supremo e verdadeiro. E não me desviarei até que, na paz dela, mãe caríssima, onde estão as primícias do meu espírito, de onde me vêm estas certezas, recolhas tudo o que sou desta dispersão e deformidade, e me conformes e confirmes para sempre, meu Deus, minha misericórdia. Mas com aqueles que não dizem que é falso tudo aquilo que é verdadeiro, que honram e põem conosco, no cume da autoridade que se deve seguir, esta tua santa Escritura, publicada por meio do santo Moisés, e, contudo, nos contradizem em alguma coisa, falo assim. Sê tu, nosso Deus, árbitro entre as minhas confissões e as contradições deles.

XVII.24 Pois dizem: “Ainda que estas coisas sejam verdadeiras, não eram contudo estas duas que Moisés tinha em vista quando, por revelação do Espírito, dizia: ‘No princípio fez Deus o céu e a terra’. Não significou com o nome de céu aquela criatura espiritual ou intelectual que contempla sempre a face de Deus, nem com o nome de terra a matéria informe.” Que, então? “O que nós dizemos”, afirmam, “isso é o que aquele homem pensou, isso é o que expressou com estas palavras.” E que é? “Com o nome de céu e de terra”, dizem, “quis significar primeiro, de modo universal e breve, todo este mundo visível, para depois distribuir, pela enumeração dos dias, como que membro a membro, todas as coisas que aprouve ao Espírito Santo enunciar assim. Pois eram homens tais aquele povo rude e carnal a quem falava, que julgou não lhes dever recomendar senão as obras de Deus visíveis.” Mas a terra invisível e incomposta e o abismo tenebroso, de que em seguida se mostra terem sido feitas e dispostas, naqueles dias, todas estas coisas visíveis, que todos conhecem, concordam que não é impróprio entendê-los como esta matéria informe.

XVII.25 E se outro disser que essa mesma informidade e confusão da matéria foi insinuada primeiro com o nome de céu e de terra, porque dela foi fundado e acabado este mundo visível, com todas as naturezas que nele aparecem com toda a evidência, o qual muitas vezes se costuma chamar pelo nome de céu e de terra? E se ainda outro disser que não é impróprio chamar céu e terra à natureza invisível e à visível, e que, por isso, toda a criatura que Deus fez na sabedoria, isto é, no princípio, ficou compreendida nestes dois vocábulos; mas que, como todas as coisas foram feitas não da própria substância de Deus, e sim do nada, porque não são o Mesmo que Deus, e há em todas uma certa mutabilidade, quer permaneçam, como a eterna casa de Deus, quer mudem, como a alma e o corpo do homem, a matéria comum de todas as coisas, invisíveis e visíveis, ainda informe, mas certamente formável, de que se haviam de fazer o céu e a terra, isto é, a criatura invisível e a visível, uma e outra já formadas, foi enunciada com os nomes com que se diz terra invisível e incomposta e trevas sobre o abismo, com esta distinção: que por terra invisível e incomposta se entenda a matéria corporal antes da qualidade da forma, e por trevas sobre o abismo, a matéria espiritual antes de refreada a sua como que fluida desmedida, e antes da iluminação da sabedoria?

XVII.26 Há ainda o que possa dizer outro, se quiser: que, quando se lê “No princípio fez Deus o céu e a terra”, com o nome de céu e de terra não se significam as naturezas invisíveis e visíveis já acabadas e formadas, mas que com estes nomes se chamou o próprio começo das coisas, ainda informe, a matéria formável e criável, porque nela já estavam confusas, ainda não distintas por qualidades e formas, as coisas que agora, já dispostas cada qual na sua ordem, se chamam céu e terra: aquela, a criatura espiritual; esta, a corporal.

XVIII.27 Ouvidas e consideradas todas estas coisas, não quero disputar sobre palavras: isso para nada serve, senão para a ruína dos que ouvem. Mas para a edificação a lei é boa, se alguém a usa legitimamente, porque o seu fim é a caridade que vem de um coração puro, de uma boa consciência e de uma fé não fingida; e sei de que dois preceitos o nosso Mestre fez depender toda a Lei e os Profetas. A mim, que isto confesso ardentemente, meu Deus, luz dos meus olhos no segredo, que me prejudica, se nestas palavras se podem entender coisas diversas, desde que sejam verdadeiras? Que me prejudica, repito, se eu entender que aquele que escreveu quis dizer uma coisa, e outro entender que quis dizer outra? Todos nós que lemos nos esforçamos, sim, por investigar e compreender o que quis dizer aquele que lemos; e, como o cremos veraz, não ousamos julgar que tenha dito coisa alguma que sabemos ou pensamos ser falsa. Enquanto, pois, cada um procura entender nas santas Escrituras o que nelas entendeu aquele que escreveu, que mal há se entender o que tu, luz de todas as mentes verazes, mostras ser verdadeiro, ainda que não tenha sido isso o que entendeu o autor que ele lê, uma vez que também este entendeu uma verdade, embora não essa?

XIX.28 Pois é verdade, Senhor, que fizeste o céu e a terra. E é verdade que o princípio é a tua sabedoria, na qual fizeste todas as coisas. Também é verdade que este mundo visível tem por suas grandes partes o céu e a terra, compêndio breve de todas as naturezas feitas e fundadas. E é verdade que todo o mutável insinua ao nosso conhecimento uma certa informidade, pela qual recebe forma, ou pela qual muda e se revolve. É verdade que não padece tempo algum o que adere de tal modo à forma imutável que, embora seja mutável, não muda. É verdade que a informidade, que é quase nada, não pode ter sucessão de tempos. É verdade que aquilo de que algo se faz pode, por um certo modo de falar, ter já o nome da coisa que dele se faz; por isso qualquer informidade de que se fez o céu e a terra pôde chamar-se céu e terra. É verdade que, de todas as coisas formadas, nada há mais vizinho do informe do que a terra e o abismo. É verdade que não só o que é criado e formado, mas também tudo o que é criável e formável, foste tu que o fizeste, tu de quem são todas as coisas. É verdade que tudo o que do informe se forma é primeiro informe, e depois formado.

XX.29 De todas estas verdades, de que não duvidam aqueles a quem deste ver tais coisas com o olho interior e que creem inabalavelmente que Moisés, teu servo, falou no espírito da verdade — de todas estas, pois, toma uma para si aquele que diz: “No princípio fez Deus o céu e a terra”, isto é, no seu Verbo coeterno consigo fez Deus a criatura inteligível e a sensível, ou a espiritual e a corporal; outra, aquele que diz: “No princípio fez Deus o céu e a terra”, isto é, no seu Verbo coeterno consigo fez Deus toda esta mole do mundo corpóreo, com todas as naturezas manifestas e conhecidas que ela contém; outra, aquele que diz: “No princípio fez Deus o céu e a terra”, isto é, no seu Verbo coeterno consigo fez a matéria informe da criatura espiritual e da corporal; outra, aquele que diz: “No princípio fez Deus o céu e a terra”, isto é, no seu Verbo coeterno consigo fez Deus a matéria informe da criatura corporal, em que ainda estavam confusos o céu e a terra, que agora percebemos já distintos e formados na mole deste mundo; outra, aquele que diz: “No princípio fez Deus o céu e a terra”, isto é, no próprio começo do fazer e do operar fez Deus a matéria informe, que continha confusamente o céu e a terra, os quais, dela formados, agora sobressaem e aparecem com tudo o que há neles.

XXI.30 Do mesmo modo, quanto ao entendimento das palavras seguintes, de todas aquelas verdades toma uma para si aquele que diz: “A terra, porém, era invisível e incomposta, e as trevas estavam sobre o abismo”, isto é, aquilo corporal que Deus fez era ainda matéria informe das coisas corpóreas, sem ordem, sem luz; outra, aquele que diz: “A terra, porém, era invisível e incomposta, e as trevas estavam sobre o abismo”, isto é, tudo isto que foi chamado céu e terra era ainda matéria informe e tenebrosa, de que se haviam de fazer o céu corpóreo e a terra corpórea, com tudo o que neles há, conhecido pelos sentidos do corpo; outra, aquele que diz: “A terra, porém, era invisível e incomposta, e as trevas estavam sobre o abismo”, isto é, tudo isto que foi chamado céu e terra era ainda matéria informe e tenebrosa, de que se haviam de fazer o céu inteligível (que em outro lugar se chama céu do céu) e a terra, isto é, toda a natureza corpórea, sob cujo nome se entenda também este céu corpóreo; isto é, de que se havia de fazer toda criatura invisível e visível; outra, aquele que diz: “A terra, porém, era invisível e incomposta, e as trevas estavam sobre o abismo”: não foi aquela informidade que a Escritura chamou com o nome de céu e de terra, mas já existia, diz ele, a própria informidade que ela chamou terra invisível e incomposta e abismo tenebroso, da qual antes dissera que Deus fez o céu e a terra, isto é, a criatura espiritual e a corporal; outra, aquele que diz: “A terra, porém, era invisível e incomposta, e as trevas estavam sobre o abismo”, isto é, uma certa informidade já era a matéria de que, como a Escritura antes dissera, Deus fez o céu e a terra, isto é, toda a mole corpórea do mundo, repartida em duas grandíssimas partes, a superior e a inferior, com todas as criaturas usuais e conhecidas que há nelas.

XXII.31 Pois, se alguém tentar resistir a estas duas últimas opiniões, dizendo assim: “Se não quereis que se veja esta informidade da matéria chamada com o nome de céu e de terra, então havia alguma coisa que Deus não tinha feito, de que fizesse o céu e a terra; porque a Escritura não narrou que Deus fez esta matéria, a não ser que a entendamos significada pelo vocábulo de céu e de terra, ou só de terra, quando se dizia: ‘No princípio fez Deus o céu e a terra’, de modo que o que se segue — ‘A terra, porém, era invisível e incomposta’ —, embora tenha aprazido chamar assim a matéria informe, não o entendamos senão daquela que Deus fez no que antes foi escrito: ‘Fez o céu e a terra’” — responderão os defensores destas duas opiniões que pusemos em último lugar, desta ou daquela, quando ouvirem isto, e dirão: “Não negamos que esta matéria informe foi feita por Deus, Deus de quem vêm todas as coisas muito boas; porque, assim como dizemos que é um bem maior o que foi criado e formado, assim confessamos que é um bem menor o que foi feito criável e formável, mas, ainda assim, um bem; dizemos, porém, que a Escritura não lembrou que Deus fez esta informidade, assim como não lembrou muitas outras coisas, como os querubins e os serafins, e as que o Apóstolo enumera distintamente, ‘tronos, dominações, principados, potestades’, coisas que todas, no entanto, é manifesto que Deus fez. Ou, se no que foi dito — ‘fez o céu e a terra’ — estão compreendidas todas as coisas, que dizemos das águas sobre as quais pairava o Espírito de Deus? Pois, se elas se entendem juntamente quando se nomeia a terra, como se toma já pelo nome de terra a matéria informe, quando vemos águas tão belas? Ou, se assim se toma, por que está escrito que da mesma informidade foi feito o firmamento e chamado céu, e não está escrito que foram feitas as águas? Pois já não são informes e invisíveis as águas que vemos correr com forma tão bela. Ou, se receberam esta forma quando Deus disse: ‘Junte-se a água que está debaixo do firmamento’, de modo que o ajuntamento seja a própria formação, que se há de responder acerca das águas que estão sobre o firmamento, já que nem, sendo informes, teriam merecido receber uma sede tão honrosa, nem está escrito com que palavra foram formadas? Portanto, se o Gênesis calou que Deus fez alguma coisa, que, no entanto, nem a fé sã nem a inteligência segura duvida que Deus fez, e se nem por isso doutrina sóbria alguma ousará dizer que estas águas são coeternas com Deus, porque as ouvimos mencionadas no livro do Gênesis, mas não achamos onde foram feitas, por que não havemos de entender, ensinando-o a verdade, que também aquela matéria informe, que esta Escritura chama terra invisível e incomposta e abismo tenebroso, foi feita por Deus do nada, e por isso não lhe é coeterna, ainda que esta narração tenha omitido dizer onde foi feita?”

XXIII.32 Ouvidas, pois, e examinadas estas coisas segundo a capacidade da minha fraqueza, que te confesso a ti, meu Deus, que a conheces, vejo que podem surgir dois gêneros de desacordo quando alguma coisa é anunciada por sinais, por mensageiros verazes: um, se o desacordo é sobre a verdade das coisas; outro, se é sobre a vontade daquele mesmo que anuncia. Pois uma coisa é perguntarmos o que é verdadeiro acerca da criação da criatura; outra, o que Moisés, egrégio doméstico da tua fé, quis que o leitor e o ouvinte entendessem nestas palavras. No primeiro gênero, afastem-se de mim todos os que julgam saber coisas falsas; no segundo, do mesmo modo, afastem-se de mim todos os que julgam que Moisés disse coisas falsas. Mas que eu me una, Senhor, em ti, e em ti me deleite, com aqueles que se apascentam da tua verdade na amplidão da caridade; e cheguemo-nos juntos às palavras do teu livro, e busquemos nelas a tua vontade através da vontade do teu servo, por cuja pena as dispensaste.

XXIV.33 Mas quem de nós a achou de tal modo, entre tantas verdades que se oferecem aos que buscam nestas palavras, entendidas de um modo e de outro, que diga com tanta confiança que Moisés pensou isto e quis que nesta narração se entendesse isto, com quanta confiança diz que isto é verdadeiro, quer ele tenha pensado isto, quer outra coisa? Pois eis, meu Deus, eu, teu servo, que te fiz voto do sacrifício da confissão nestes escritos, e te peço que, pela tua misericórdia, eu cumpra para contigo os meus votos, eis com quanta confiança digo que no teu Verbo imutável fizeste todas as coisas, as invisíveis e as visíveis. Acaso digo com a mesma confiança que Moisés não teve em vista outra coisa senão esta, quando escrevia: “No princípio fez Deus o céu e a terra”, se não vejo na mente dele, como vejo com certeza na tua verdade, que ele tenha pensado isso ao escrever estas palavras? Pois pôde pensar “no próprio começo do fazer”, quando dizia: “No princípio”; pôde também querer que, neste lugar, por céu e terra se entendesse não uma natureza já formada e acabada, espiritual ou corporal, mas uma e outra apenas começadas e ainda informes. Vejo, de fato, que se pôde dizer com verdade qualquer destas coisas que se dissesse; mas qual delas ele pensou nestas palavras, não o vejo assim; embora não duvide de que, quer tenha contemplado com a mente alguma destas, quer alguma outra que eu não mencionei, aquele homem tão grande, ao proferir estas palavras, viu a verdade e a enunciou com acerto.

XXV.34 Ninguém mais me importune, dizendo-me: “Moisés não pensou o que tu dizes, mas pensou o que eu digo.” Pois, se me dissesse: “Como sabes que Moisés pensou isso que dizes acerca destas palavras dele?”, eu deveria aceitá-lo com serenidade de ânimo, e responderia talvez o que respondi mais acima, ou um pouco mais amplamente, se ele fosse mais duro. Mas quando diz: “Ele não pensou o que tu dizes, mas o que eu digo”, e no entanto não nega que uma e outra coisa que cada um de nós diz são verdadeiras, ó vida dos pobres, meu Deus, em cujo seio não há contradição, chove brandura no meu coração, para que eu suporte com paciência gente assim. Não me dizem isto por serem divinos e terem visto no coração do teu servo o que dizem, mas por serem soberbos; e não conhecem o pensamento de Moisés, mas amam o seu, não porque seja verdadeiro, mas porque é seu. Do contrário, amariam igualmente outro pensamento verdadeiro, assim como eu amo o que eles dizem, quando dizem a verdade, não porque é deles, mas porque é verdade; e por isso mesmo já não é deles, porque é verdade. Mas, se o amam porque é verdade, então já é deles e é meu, pois pertence em comum a todos os amantes da verdade. Quanto ao que eles sustentam, que Moisés não pensou o que eu digo, mas o que eles dizem, isso não o quero, não o amo; porque, ainda que assim seja, essa temeridade não é de ciência, mas de audácia, e não a gerou a visão, mas o fumo do orgulho. Por isso, Senhor, são de temer os teus juízos, porque a tua verdade não é minha, nem deste ou daquele, mas de todos nós, a quem chamas publicamente à sua comunhão, advertindo-nos terrivelmente que não queiramos tê-la como privada, para não sermos privados dela. Pois todo aquele que reivindica como propriedade sua o que tu propões a todos para que dele gozem, e quer que seja seu o que é de todos, é repelido do que é comum para o que é seu, isto é, da verdade para a mentira. Porque quem fala mentira fala do que é seu.

XXV.35 Atende, ótimo juiz, ó Deus, a própria Verdade, atende ao que direi a este contraditor, atende. Pois é diante de ti que falo, e diante dos meus irmãos, que usam legitimamente da lei até o fim da caridade. Atende e vê o que lhe direi, se te agrada. Esta é a palavra fraterna e pacífica que lhe devolvo: “Se ambos vemos que é verdadeiro o que dizes, e ambos vemos que é verdadeiro o que digo, onde, pergunto, o vemos? Nem eu, certamente, em ti, nem tu em mim, mas ambos na própria verdade imutável, que está acima das nossas mentes. Se, pois, não disputamos sobre a própria luz do Senhor nosso Deus, por que disputamos sobre o pensamento do próximo, que não podemos ver como se vê a verdade imutável, quando, se o próprio Moisés nos tivesse aparecido e dito: ‘Isto pensei’, nem assim o veríamos, mas o creríamos? Não se ensoberbeça, portanto, ninguém, além do que está escrito, a favor de um contra o outro. Amemos o Senhor nosso Deus de todo o coração, de toda a alma, de toda a nossa mente, e ao nosso próximo como a nós mesmos. Se não crermos que Moisés, em tudo o que pensou naqueles livros, o pensou por causa destes dois preceitos da caridade, faremos do Senhor um mentiroso, ao julgarmos do ânimo de um conservo de modo diferente do que ele ensinou. Vê, pois, quão insensato é, em tamanha abundância de sentidos verdadeiríssimos que se podem extrair daquelas palavras, afirmar temerariamente qual deles Moisés teve principalmente em mente, e ofender com perniciosas contendas a própria caridade, por causa da qual disse tudo aquele cujas palavras tentamos expor.”

XXVI.36 E, no entanto, meu Deus, altura da minha humildade e repouso do meu trabalho, tu que ouves as minhas confissões e perdoas os meus pecados, já que me ordenas que ame o meu próximo como a mim mesmo, não posso crer que Moisés, teu servo fidelíssimo, tenha recebido de ti dom menor do que aquele que eu desejaria e quereria que me fosse dado, se eu tivesse nascido no tempo em que ele nasceu e me tivesses posto naquele lugar, para que, pelo serviço do meu coração e da minha língua, fossem dispensadas aquelas letras que, tanto tempo depois, haviam de aproveitar a todos os povos e, por todo o orbe, do alto de tão grande autoridade, haviam de vencer as palavras de todas as doutrinas falsas e soberbas. Eu quereria, de fato, se então eu fosse Moisés (pois todos viemos da mesma massa; e que é o homem, senão porque te lembras dele?), eu quereria, pois, se então eu fosse o que ele foi, e me fosse confiado por ti escrever o livro do Gênesis, que me fosse dada tal faculdade de falar e tal modo de tecer o discurso que nem os que ainda não podem entender como Deus cria rejeitassem as palavras, como superiores às suas forças, e os que já o podem, a qualquer sentido verdadeiro a que tivessem chegado pensando, o achassem não omitido nas poucas palavras do teu servo; e, se outro tivesse visto outro sentido à luz da verdade, também esse não faltasse, para ser entendido, nas mesmas palavras.

XXVII.37 Pois, assim como uma fonte, num lugar pequeno, é mais abundante e, por muitos regatos, fornece corrente a espaços mais amplos do que qualquer desses regatos que, saindo da mesma fonte, é levado por muitos lugares, assim a narração do teu dispensador, que havia de aproveitar a muitos que dela haveriam de falar, faz brotar, num breve curso de palavras, torrentes de límpida verdade, de onde cada um tire para si a verdade que puder sobre estas coisas, este uma, aquele outra, através dos rodeios mais longos das suas falas. Pois alguns, quando leem ou ouvem estas palavras, imaginam Deus como um homem, ou como uma mole dotada de imenso poder, que, por uma decisão nova e repentina, fora de si mesma, como em lugares distantes, fez o céu e a terra, dois grandes corpos, um em cima e outro embaixo, em que estivessem contidas todas as coisas; e, quando ouvem: “Disse Deus: Faça-se isto, e isto se fez”, imaginam palavras começadas e acabadas, que soam no tempo e passam, depois de cuja passagem logo passou a existir o que se mandou que existisse; e qualquer outra coisa que porventura julguem desta maneira, pela familiaridade com a carne. Neles, que são ainda animais pequeninos, enquanto a sua fraqueza é carregada neste humílimo gênero de palavras como num seio materno, edifica-se de modo salutar a fé, pela qual tenham por certo e retenham que Deus fez todas as naturezas que os seus sentidos contemplam ao redor em admirável variedade. Se algum deles, como que desprezando a vileza das palavras, se estender, com soberba fraqueza, para fora do berço que o nutre, ai! cairá o mísero; e tu, Senhor Deus, tem misericórdia, para que os que passam pelo caminho não pisem o filhote implume, e manda o teu anjo, que o reponha no ninho, para que viva até que voe.

XXVIII.38 Outros, porém, para os quais estas palavras já não são ninho, mas moitas sombrias, veem nelas frutos escondidos, e esvoaçam alegres, e chilreiam a perscrutá-los, e os colhem. Pois veem, quando leem ou ouvem estas tuas palavras, ó Deus eterno, que pela tua estável permanência são superados todos os tempos passados e futuros, e que, no entanto, não há nada na criatura temporal que tu não tenhas feito; tu, cuja vontade é o mesmo que tu, e que por isso não fizeste todas as coisas por vontade alguma mudada, ou nascida sem antes existir; e não tiraste de ti a tua semelhança, forma de todas as coisas, mas do nada a dessemelhança informe, que fosse formada pela tua semelhança, voltando a ti, o Uno, segundo a capacidade ordenada, quanto foi dado a cada coisa no seu gênero; e todas fossem muito boas, quer permaneçam junto de ti, quer, em distância gradualmente mais remota, através dos tempos e dos lugares, façam ou sofram belas mudanças. Veem isto e alegram-se na luz da tua verdade, o pouco que aqui podem.

XXVIII.39 E um deles fixa a atenção no que foi dito: “No princípio fez Deus”, e olha para a sabedoria, o princípio, porque também ela nos fala. Outro fixa igualmente a atenção nas mesmas palavras e entende por princípio o começo das coisas criadas, e toma “No princípio fez” como se se dissesse “Primeiro fez”. E, entre os que entendem “No princípio” no sentido de que na sabedoria fizeste o céu e a terra, um deles crê que se chamou assim ao próprio céu e terra, isto é, à matéria criável do céu e da terra; outro, às naturezas já formadas e distintas; outro, a uma natureza formada, e essa espiritual, com o nome de céu, e a outra informe, de matéria corporal, com o nome de terra. E os que entendem, nos nomes de céu e de terra, a matéria ainda informe de que se havia de formar o céu e a terra também não o entendem de um só modo; mas um, a matéria de que se completaria a criatura inteligível e a sensível; outro, só aquela de que viria esta mole sensível e corpórea, que contém no seu grande seio as naturezas visíveis e manifestas. Nem os que creem que neste lugar se chamam céu e terra as criaturas já dispostas e ordenadas o entendem de um só modo; mas um, a invisível e a visível; outro, só a visível, na qual erguemos os olhos para o céu luminoso e para a terra escura, e tudo o que há neles.

XXIX.40 Mas quem não toma “No princípio fez” senão como se se dissesse “Primeiro fez” não tem como entender com verdade o céu e a terra, a não ser que entenda a matéria do céu e da terra, isto é, de toda a criatura, inteligível e corporal. Pois, se quiser que seja o universo já formado, com razão se lhe poderá perguntar: se Deus fez isto primeiro, que fez em seguida? E, depois do universo, não achará nada, e por isso ouvirá, a contragosto: “Como é isso primeiro, se depois não há nada?” Mas, quando diz que primeiro foi informe e depois formada, não é absurdo, contanto que seja capaz de discernir o que precede por eternidade, o que por tempo, o que por escolha, o que por origem: por eternidade, como Deus a todas as coisas; por tempo, como a flor ao fruto; por escolha, como o fruto à flor; por origem, como o som ao canto. Destes quatro, o primeiro e o último que mencionei entendem-se com extrema dificuldade; os dois do meio, com extrema facilidade. Pois é visão rara e árdua demais contemplar, Senhor, a tua eternidade, que faz imutavelmente as coisas mutáveis, e por isso as precede. E depois, quem terá olhar tão agudo do espírito que consiga discernir sem grande trabalho como o som é anterior ao canto, pelo fato de o canto ser som formado e de poder certamente existir algo não formado, mas não poder ser formado o que não existe? Assim a matéria é anterior àquilo que dela se faz: não anterior porque seja ela que o faz, pois antes é ela que é feita; nem anterior por intervalo de tempo. Pois não emitimos num tempo anterior sons informes, sem canto, para num tempo posterior os ajustarmos ou modelarmos na forma de um cântico, como as madeiras de que se fabrica uma arca, ou a prata de que se fabrica um vaso. Tais matérias precedem também no tempo as formas das coisas que delas se fazem; mas no canto não é assim. Pois, quando se canta, ouve-se o seu som; não soa primeiro sem forma, para depois ser formado em canto. Porque o que primeiro tiver soado, seja como for, passa, e dele não acharás nada que possas retomar e compor com arte. E por isso o canto consiste no seu som, e esse som é a sua matéria. Pois é ele mesmo que é formado, para que seja canto. E por isso, como eu dizia, a matéria do soar é anterior à forma do cantar: não anterior pelo poder de fazer, pois o som não é o artífice do canto, mas está submetido, vindo do corpo, à alma que canta, para que dele faça o canto; nem anterior no tempo, pois é emitido ao mesmo tempo que o canto; nem anterior por escolha, pois o som não é mais valioso do que o canto, visto que o canto não é só som, mas som belo. Mas é anterior por origem, porque não é o canto que é formado para ser som, mas o som que é formado para ser canto. Por este exemplo, entenda quem puder que a matéria das coisas foi feita primeiro e chamada céu e terra, porque dela foram feitos o céu e a terra; e que não foi feita primeiro no tempo, porque são as formas das coisas que fazem surgir os tempos, e ela era informe, e já nos tempos se percebe juntamente com eles; e, no entanto, nada se pode narrar dela senão como se fosse anterior no tempo, embora seja tida pela última em valor, porque as coisas formadas são, sem dúvida, melhores do que as informes; e é precedida pela eternidade do Criador, para que existisse, tirado do nada, aquilo de que algo se fizesse.

XXX.41 Nesta diversidade de opiniões verdadeiras, gere a concórdia a própria verdade, e o nosso Deus tenha misericórdia de nós, para que usemos legitimamente da lei, segundo o fim do preceito, a pura caridade. E por isso, se alguém me perguntar qual destas coisas pensou Moisés, aquele teu servo, estas não seriam as palavras das minhas confissões se eu não te confessasse: “Não sei.” E sei, contudo, que aquelas opiniões são verdadeiras (exceto as carnais, das quais falei quanto julguei necessário — mas a esses pequeninos de boa esperança estas palavras do teu livro não os assustam, dizendo coisas altas humildemente e poucas coisas copiosamente); mas todos nós, os que reconheço verem e dizerem coisas verdadeiras nestas palavras, amemo-nos uns aos outros e amemos igualmente a ti, nosso Deus, fonte da verdade, se temos sede, não de vaidades, mas dela; e ao mesmo teu servo, dispensador desta Escritura, cheio do teu Espírito, honremo-lo de tal modo que creiamos que, quando escrevia estas coisas, por tua revelação, teve em vista aquilo que nelas mais sobressai, tanto pela luz da verdade como pelo fruto da utilidade.

XXXI.42 Assim, quando um disser: “Ele pensou o mesmo que eu”, e outro: “Não, mas o mesmo que eu”, julgo falar com mais piedade se disser: “Por que não, antes, uma e outra coisa, se uma e outra são verdadeiras? E, se alguém vê nestas palavras uma terceira, e uma quarta, e qualquer outra coisa verdadeira, por que não crer que viu todas elas aquele por meio de quem o Deus único temperou as santas Letras para os sentidos de muitos, que nelas haviam de ver coisas verdadeiras e diversas?” Eu, de minha parte — e o declaro sem temor, do fundo do meu coração —, se escrevesse alguma coisa destinada ao cume da autoridade, preferiria escrever de tal modo que as minhas palavras fizessem ressoar tudo o que de verdadeiro cada um pudesse apreender sobre estas coisas, a pôr com mais clareza um só sentido verdadeiro, para excluir os demais, cuja falsidade não me poderia ofender. Não quero, portanto, meu Deus, ser tão precipitado que não creia ter aquele homem merecido isto de ti. Ele entendeu plenamente nestas palavras e pensou, quando as escrevia, tudo o que aqui pudemos achar de verdadeiro, e tudo o que não pudemos, ou ainda não pudemos, e que, no entanto, se pode achar nelas.

XXXII.43 Por fim, Senhor, que és Deus, e não carne e sangue, se o homem viu menos, acaso também ao teu Espírito bom, que me conduzirá à terra reta, pôde ficar oculto tudo o que tu mesmo havias de revelar, nestas palavras, aos leitores vindouros, ainda que aquele por meio de quem foram ditas tenha pensado talvez num só sentido verdadeiro, entre muitos? Se assim é, seja então aquele que ele pensou o mais excelso de todos. A nós, porém, Senhor, mostra-nos esse mesmo, ou outro verdadeiro que te agrade, para que, quer nos descubras o mesmo que àquele teu homem, quer outro, por ocasião das mesmas palavras, sejas tu a apascentar-nos, e não o erro a zombar de nós. Eis, Senhor meu Deus, quanto escrevemos sobre poucas palavras, quanto, eu te rogo! Que forças nossas, que tempos bastarão para todos os teus livros, desta maneira? Deixa-me, pois, confessar-te neles com mais brevidade e escolher uma só coisa que tu me inspirares, verdadeira, certa e boa, ainda que me ocorram muitas, onde muitas puderem ocorrer, com esta lealdade da minha confissão: que, se eu disser o que pensou o teu ministro, será reta e otimamente (pois é isto que devo tentar); e, se não o alcançar, direi contudo aquilo que, por meio das palavras dele, a tua verdade me quis dizer, ela que também a ele disse o que quis.

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