Confissões — Livro Livro XIII
Livro XIII
I.1 Eu te invoco, meu Deus, misericórdia minha, que me fizeste e não te esqueceste de mim, que me esquecera de ti. Invoco-te na minha alma, que preparas para receber-te pelo desejo que lhe inspiraste. Agora que te invoco, não me abandones, tu que, antes que eu te invocasse, te antecipaste e insististe, com vozes cada vez mais frequentes e de muitos modos, para que eu ouvisse de longe, e me convertesse, e invocasse a ti, que me chamavas. Pois tu, Senhor, apagaste todos os meus maus merecimentos, para não dares a paga às minhas mãos, com as quais me afastei de ti; e te antecipaste a todos os meus bons merecimentos, para dares a paga às tuas mãos, com as quais me fizeste; porque também antes que eu fosse tu eras, e eu não era alguém a quem concedesses ser; e, no entanto, eis que sou, pela tua bondade, que se antecipou a tudo isto que me fizeste e àquilo de que me fizeste. Pois nem precisaste de mim, nem sou eu um bem tal que te ajude, Senhor meu e Deus meu; não para que eu te sirva como se assim não te cansasses no agir, ou para que não seja menor o teu poder, se lhe faltar a minha homenagem; nem para que eu te cultive como à terra, de modo que fiques inculto se eu não te cultivar; mas para que eu te sirva e te cultue, a fim de que de ti me venha o bem, de ti, de quem me vem o ser alguém a quem o bem possa vir.
II.2 Pois foi da plenitude da tua bondade que a tua criatura veio a subsistir, para que um bem que de nada te aproveitaria, nem, saído de ti, te seria igual, não faltasse todavia, já que de ti podia ser feito. Pois que mereceram de ti o céu e a terra, que fizeste no princípio? Digam que mereceram de ti a natureza espiritual e a corporal, que fizeste na tua sabedoria, para que dela pendessem também as coisas incoadas e informes, cada qual no seu gênero, espiritual ou corporal, que caminhavam para a desmedida e para a longínqua dessemelhança contigo — o espiritual informe, mais excelente do que se fosse um corpo formado; o corporal informe, mais excelente do que se de todo nada fosse —, e assim pendessem informes no teu Verbo, se pelo mesmo Verbo não fossem chamadas de volta à tua unidade, e formadas, e não viessem a ser, por ti, uno e sumo bem, todas muito boas. Que tinham merecido de ti para serem ao menos informes, elas que nem isto seriam senão por ti?
II.3 Que mereceu de ti a matéria corporal para ser ao menos invisível e incomposta, ela que nem isto seria se não a tivesses feito? E por isso, como não existia, não podia merecer de ti que existisse. Ou que mereceu de ti o começo da criatura espiritual para flutuar ao menos tenebrosa, semelhante ao abismo, dessemelhante de ti, se pelo mesmo Verbo não se convertesse para aquele mesmo por quem foi feita e, por ele iluminada, não se tornasse luz, ainda que não de modo igual, contudo conforme à forma igual a ti? Pois, assim como para o corpo não é o mesmo ser e ser belo (de outro modo não poderia ser disforme), assim também para o espírito criado não é o mesmo viver e viver sabiamente: de outro modo seria imutavelmente sábio. Mas o seu bem é estar sempre unido a ti, para que não perca pela aversão a luz que alcançou pela conversão, e não recaia numa vida semelhante ao abismo tenebroso. Pois também nós, que segundo a alma somos criatura espiritual, desviados de ti, nossa luz, fomos outrora trevas naquela vida, e trabalhamos nos restos da nossa escuridão, até que sejamos a tua justiça no teu Unigênito, como os montes de Deus. Porque fomos os teus juízos, como um abismo imenso.
III.4 Quanto ao que disseste na primeira criação, “Faça-se a luz, e a luz foi feita”, não sem razão o entendo da criatura espiritual, porque já havia uma vida, qualquer que fosse, que iluminasses. Mas, assim como não tinha merecido de ti ser uma vida tal que pudesse ser iluminada, assim também, quando já existia, não mereceu de ti ser iluminada. Pois a sua informidade não te agradaria se não se tornasse luz, não pelo simples existir, mas contemplando a luz que ilumina e unindo-se a ela, para que tanto o viver de algum modo como o viver bem-aventurado não o devesse senão à tua graça, convertida, por uma mudança para melhor, àquilo que não pode mudar nem para melhor nem para pior. Isso és tu somente, porque só tu és simplesmente, tu para quem não é uma coisa viver e outra viver bem-aventurado, porque tu mesmo és a tua bem-aventurança.
IV.5 Que te faltaria, pois, para o bem que tu és para ti mesmo, ainda que estas coisas não existissem de todo ou permanecessem informes, elas que não fizeste por indigência, mas pela plenitude da tua bondade, contendo-as e convertendo-as à forma, não como se a tua alegria se completasse com elas? Pois a ti, que és perfeito, desagrada a imperfeição delas, para que sejam aperfeiçoadas por ti e te agradem; não, porém, a ti como a um imperfeito, como se também tu tivesses de ser aperfeiçoado com a perfeição delas. Pois o teu Espírito bom pairava sobre as águas, não era levado por elas, como se nelas repousasse. Pois aqueles em quem se diz que o teu Espírito repousa, a esses ele faz repousar em si. Mas pairava a tua vontade incorruptível e imutável, bastando-se ela mesma em si e a si, sobre aquela vida que tinhas feito: vida para a qual não é o mesmo viver e viver bem-aventurada, porque vive também quando flutua na sua escuridão; vida à qual resta converter-se para aquele por quem foi feita, e viver mais e mais junto da fonte da vida, e na sua luz ver a luz, e ser aperfeiçoada, e iluminada, e feita bem-aventurada.
V.6 Eis que me aparece em enigma a Trindade, que tu és, meu Deus, porque tu, Pai, no princípio da nossa sabedoria, que é a tua sabedoria nascida de ti, igual a ti e coeterna, isto é, no teu Filho, fizeste o céu e a terra. E muito dissemos do céu do céu, e da terra invisível e incomposta, e do abismo tenebroso, segundo os desfalecimentos errantes da informidade espiritual, se não se convertesse para aquele de quem tinha a vida, qualquer que fosse, e pela iluminação não se tornasse vida bela, e não fosse o céu do céu daquele céu que depois foi feito entre água e água. E eu já tinha o Pai no nome de Deus, que fez estas coisas, e o Filho no nome do princípio, no qual fez estas coisas; e, crendo que o meu Deus é Trindade, como cria, buscava nas suas santas palavras, e eis que o teu Espírito pairava sobre as águas. Eis a Trindade, meu Deus: Pai, e Filho, e Espírito Santo, criador de toda a criatura.
VI.7 Mas qual tinha sido a causa — ó luz verídica, a ti aproximo o meu coração, para que não me ensine vaidades; dissipa as suas trevas e dize-me, eu te suplico pela mãe caridade, eu te suplico, dize-me —, qual tinha sido a causa de que, depois de nomeados o céu e a terra invisível e incomposta e as trevas sobre o abismo, só então a tua Escritura nomeasse o teu Espírito? Seria porque convinha insinuá-lo assim, de modo que se dissesse que pairava sobre? Não se poderia dizer isso sem que antes se mencionasse aquilo sobre o qual se pudesse entender que o teu Espírito pairava. Pois não pairava sobre o Pai nem sobre o Filho, e não se diria com propriedade que pairava sobre, se não pairasse sobre coisa alguma. Antes, pois, devia dizer-se aquilo sobre o que pairava, e depois aquele que não convinha mencionar de outro modo senão dizendo que pairava sobre. Por que, então, não convinha insinuá-lo de outro modo senão dizendo que pairava sobre?
VII.8 Daqui em diante, siga com o entendimento quem puder o teu apóstolo, que diz que a tua caridade foi derramada em nossos corações pelo Espírito Santo, que nos foi dado, e que, ensinando acerca das coisas espirituais, mostra o caminho supereminente da caridade, e dobra os joelhos por nós diante de ti, para que conheçamos a ciência supereminente da caridade de Cristo. E por isso, desde o início, o supereminente pairava sobre as águas. A quem direi, como direi, do peso da cupidez rumo ao abismo escarpado, e da elevação da caridade pelo teu Espírito, que pairava sobre as águas? A quem o direi? Como o direi? Pois não são lugares aqueles em que submergimos e emergimos. Que há de mais semelhante, e que há de mais dessemelhante? São afetos, são amores: a imundície do nosso espírito, que se escoa para baixo pelo amor dos cuidados, e a santidade do teu, que nos ergue para o alto pelo amor da segurança, para que tenhamos o coração ao alto, voltado para ti, onde o teu Espírito paira sobre as águas, e cheguemos ao repouso supereminente, quando a nossa alma tiver atravessado as águas que são sem substância.
VIII.9 Escoou-se o anjo, escoou-se a alma do homem, e teriam indicado o abismo de toda a criatura espiritual na profundeza tenebrosa, se não tivesses dito desde o início “Faça-se a luz”, e a luz não se tivesse feito, e não se unisse a ti toda a inteligência obediente da tua cidade celeste e não repousasse no teu Espírito, que paira imutavelmente sobre todo o mutável. De outro modo, até o próprio céu do céu seria em si um abismo tenebroso; mas agora é luz no Senhor. Pois na própria inquietação miserável dos espíritos que se escoaram e que indicam as suas trevas, despidos da veste da tua luz, mostras bem quão grande fizeste a criatura racional, à qual de modo nenhum basta, para o repouso bem-aventurado, tudo o que é menos do que tu, e por isso nem ela mesma a si. Pois tu, nosso Deus, iluminarás as nossas trevas: de ti nascem as nossas vestes, e as nossas trevas serão como o meio-dia. Dá-te a mim, meu Deus, restitui-te a mim. Eis que amo; e, se é pouco, que eu ame com mais força. Não posso medir, para saber quanto me falta de amor para chegar ao que basta, para que a minha vida corra para os teus abraços e não se desvie até se esconder no esconderijo da tua face. Isto somente sei: que mal me vai fora de ti, não só fora de mim, mas também em mim mesmo, e que toda a abundância que não é o meu Deus é para mim indigência.
IX.10 Acaso o Pai, ou o Filho, não pairava sobre as águas? Se como num lugar, à maneira de um corpo, nem o Espírito Santo; se, porém, pela eminência da divindade imutável acima de todo o mutável, pairava sobre as águas o Pai, e o Filho, e o Espírito Santo. Por que, então, se disse isto somente do teu Espírito? Por que somente dele se disse, como de um lugar onde estivesse, ele que não é lugar, e de quem somente se disse que é o teu dom? No teu dom repousamos: ali gozamos de ti. O nosso repouso é o nosso lugar. O amor nos ergue para lá, e o teu Espírito bom exalta a nossa humildade das portas da morte. Na boa vontade está a nossa paz. O corpo tende pelo seu peso para o seu lugar. O peso não leva só para baixo, mas para o seu lugar. O fogo tende para cima, a pedra para baixo; são movidos pelos seus pesos, buscam os seus lugares. O azeite derramado debaixo da água ergue-se acima da água; a água derramada sobre o azeite afunda debaixo do azeite; são movidos pelos seus pesos, buscam os seus lugares. As coisas pouco ordenadas estão inquietas; ordenam-se e repousam. O meu peso é o meu amor; por ele sou levado, para onde quer que seja levado. Pelo teu dom somos acesos e levados para cima; ardemos e vamos. Subimos as subidas no coração e cantamos o cântico dos degraus. Com o teu fogo, com o teu fogo bom ardemos e vamos, porque vamos para cima, para a paz de Jerusalém, porque me alegrei com os que me disseram: “Iremos para a casa do Senhor.” Ali nos colocará a boa vontade, para que nada mais queiramos senão permanecer ali para sempre.
X.11 Bem-aventurada a criatura que não conheceu outra coisa — embora ela mesma fosse outra coisa — senão que, pelo teu dom, que paira sobre todo o mutável, logo que foi feita foi erguida, sem nenhum intervalo de tempo, naquele chamado com que disseste “Faça-se a luz”, e se fez luz. Em nós, com efeito, distingue-se no tempo que fomos trevas e nos tornamos luz; dela, porém, disse-se o que seria se não fosse iluminada; e disse-se assim, como se antes tivesse sido fluida e tenebrosa, para que aparecesse a causa por que veio a ser de outro modo, isto é, para que, convertida à luz indefectível, fosse luz. Quem puder, entenda; peça-o a ti. Por que há de importunar-me, como se eu iluminasse algum homem que vem a este mundo?
XI.12 A Trindade onipotente, quem a entenderá? E quem não fala dela, se é que é dela que fala? Rara é a alma que, quando fala dela, sabe o que fala. E contendem e combatem, e ninguém, sem paz, vê esta visão. Quisera eu que os homens pensassem em si mesmos estas três coisas. Muito diferentes são estas três coisas daquela Trindade; mas digo-as para que nelas se exercitem, e provem, e sintam quão longe estão. Digo, pois, estas três coisas: ser, conhecer, querer. Pois sou, e sei, e quero: sou sabendo e querendo, e sei que sou e que quero, e quero ser e saber. Nestas três coisas, pois, quão inseparável é a vida, e uma só vida, e uma só mente, e uma só essência, quão inseparável, enfim, é a distinção, e no entanto distinção, veja-o quem puder. Certamente está diante de si mesmo; olhe para dentro de si, e veja, e me diga. Mas, quando tiver achado nelas alguma coisa e o tiver dito, não pense já ter achado aquilo que está acima delas, imutável, que é imutavelmente, e sabe imutavelmente, e quer imutavelmente. E se é por causa destas três coisas que também lá há Trindade, ou se estas três estão em cada um, de modo que sejam três de cada um, ou se de ambos os modos, de maneiras admiráveis, simples e multiplamente, num fim infinito em si e para si, pelo qual é, e se conhece, e se basta, imutavelmente o Mesmo, na copiosa grandeza da unidade — quem o pensaria facilmente? Quem o diria de algum modo? Quem, de qualquer modo, o pronunciaria temerariamente?
XII.13 Avança na confissão, minha fé; dize ao Senhor teu Deus: “Santo, santo, santo, Senhor meu Deus, em teu nome fomos batizados, Pai, e Filho, e Espírito Santo; em teu nome batizamos, Pai, e Filho, e Espírito Santo”, porque também entre nós, no seu Cristo, fez Deus o céu e a terra, os espirituais e os carnais da sua Igreja. E a nossa terra, antes de receber a forma da doutrina, era invisível e incomposta, e éramos cobertos pelas trevas da ignorância, porque pela iniquidade corrigiste o homem, e os teus juízos são como um abismo imenso. Mas, porque o teu Espírito pairava sobre a água, a tua misericórdia não abandonou a nossa miséria, e disseste: “Faça-se a luz”; “Fazei penitência, porque está próximo o reino dos céus”. “Fazei penitência”; “Faça-se a luz”. E, porque a nossa alma estava perturbada dentro de nós, lembramo-nos de ti, Senhor, desde a terra do Jordão e desde o monte igual a ti, mas pequeno por nossa causa; e desagradaram-nos as nossas trevas, e convertemo-nos a ti, e a luz foi feita. E eis que fomos outrora trevas, mas agora, luz no Senhor.
XIII.14 E, no entanto, ainda pela fé, não ainda pela visão; pois na esperança fomos salvos. Mas a esperança que se vê não é esperança. Ainda o abismo chama o abismo, mas já na voz das tuas cataratas. Ainda aquele mesmo que diz: “Não vos pude falar como a espirituais, mas como a carnais”, nem ele julga ainda ter alcançado, e, esquecendo o que fica para trás, estende-se para o que está adiante, e geme oprimido, e a sua alma tem sede do Deus vivo, como os cervos das fontes das águas, e diz: “Quando chegarei?”, desejando revestir-se por cima da sua habitação, que é do céu; e chama o abismo inferior, dizendo: “Não vos conformeis com este século, mas reformai-vos na novidade da vossa mente”, e: “Não vos façais crianças na mente, mas sede pequeninos na malícia, para que sejais perfeitos na mente”, e: “Ó gálatas insensatos, quem vos fascinou?” Mas já não com a sua voz; com a tua, pois, tu que enviaste o teu Espírito das alturas por aquele que subiu ao alto e abriu as cataratas dos seus dons, para que o ímpeto do rio alegrasse a tua cidade. Por ela, com efeito, suspira o amigo do esposo, que já tem junto dele as primícias do Espírito, mas que ainda geme em si mesmo, esperando a adoção, a redenção do seu corpo. Por ela suspira (pois é membro da esposa), e por ela tem zelo (pois é amigo do esposo); por ela tem zelo, não por si, porque é na voz das tuas cataratas, não na sua voz, que chama o outro abismo, pelo qual, zeloso, teme que, assim como a serpente enganou Eva com a sua astúcia, assim também se corrompam os sentidos deles, afastando-se da castidade que há no nosso esposo, o teu Unigênito. Que luz é aquela da visão? Quando o virmos tal como é, e tiverem passado as lágrimas, que se tornaram o meu pão de dia e de noite, enquanto todos os dias me dizem: “Onde está o teu Deus?”
XIV.15 E eu digo: “Meu Deus, onde estás?” Eis onde estás. Respiro em ti um pouco, quando derramo sobre mim a minha alma em voz de júbilo e de confissão, no som de quem celebra a festa. E ainda está triste, porque recai e se torna abismo, ou antes sente que ainda é abismo. Diz-lhe a minha fé, que acendeste na noite diante dos meus pés: “Por que estás triste, alma, e por que me perturbas? Espera no Senhor.” Lâmpada para os teus pés é a sua palavra. Espera e persevera, até que passe a noite, mãe dos iníquos, até que passe a ira do Senhor, da qual também nós fomos filhos, nós que fomos outrora trevas, cujos restos arrastamos no corpo morto por causa do pecado, até que sopre o dia e se retirem as sombras. Espera no Senhor: de manhã estarei de pé e contemplarei; sempre o confessarei. De manhã estarei de pé e verei a salvação da minha face, o meu Deus, que vivificará também os nossos corpos mortais por causa do Espírito que habita em nós, porque pairava misericordiosamente sobre o nosso interior tenebroso e fluido. Por isso, nesta peregrinação, recebemos o penhor de que já somos luz, enquanto ainda estamos salvos na esperança, e filhos da luz e filhos do dia, não filhos da noite nem das trevas, o que todavia fomos. Entre eles e nós, nesta incerteza ainda do conhecimento humano, só tu fazes a divisão, tu que provas os nossos corações e chamas à luz dia e às trevas noite. Pois quem nos distingue senão tu? E que temos que não tenhamos recebido de ti, vasos para honra, da mesma massa de que foram feitos também outros para desonra?
XV.16 Ou quem, senão tu, Deus nosso, nos fizeste um firmamento de autoridade sobre nós na tua Escritura divina? Pois o céu será dobrado como um livro, e agora está estendido sobre nós como uma pele. Pois de autoridade mais sublime é a tua divina Escritura, agora que já sofreram esta morte aqueles mortais por meio dos quais no-la dispensaste. E tu sabes, Senhor, tu sabes como vestiste de peles os homens, quando pelo pecado se tornaram mortais. Por isso estendeste como uma pele o firmamento do teu livro, as tuas palavras, de fato concordes, que, pelo ministério de mortais, puseste sobre nós. Pois pela própria morte deles a solidez da autoridade, nas tuas palavras por eles publicadas, estende-se sublimemente sobre todas as coisas que estão debaixo, o que, enquanto eles viviam aqui, não estava estendido tão sublimemente. Ainda não tinhas estendido o céu como uma pele, ainda não tinhas dilatado por toda parte a fama da morte deles.
XV.17 Vejamos, Senhor, os céus, obras dos teus dedos; desanuvia aos nossos olhos o nublado com que os encobriste. Ali está o teu testemunho, que dá sabedoria aos pequeninos. Aperfeiçoa, meu Deus, o teu louvor da boca das crianças e dos que mamam. Pois não conhecemos outros livros que assim destruam a soberba, que assim destruam o inimigo e o defensor que resiste à tua reconciliação defendendo os seus pecados. Não conheci, Senhor, não conheci outras palavras tão castas, que assim me persuadissem à confissão, e amansassem a minha cerviz ao teu jugo, e me convidassem a prestar-te culto de graça. Que eu as entenda, Pai bom; concede-me isto, a mim, que estou posto debaixo delas, pois para os que estão debaixo as firmaste.
XV.18 Há outras águas acima deste firmamento, creio, imortais e apartadas da corrupção terrena. Louvem o teu nome, louvem-te os povos supracelestes dos teus anjos, que não têm necessidade de olhar para o alto, para este firmamento, e de conhecer, lendo, a tua palavra. Pois veem sempre a tua face, e ali leem, sem as sílabas dos tempos, o que quer a tua vontade eterna. Leem, elegem e amam; leem sempre, e nunca passa o que leem. Pois, elegendo e amando, leem a própria imutabilidade do teu desígnio. Não se fecha o seu códice, nem se dobra o seu livro, porque tu mesmo és isso para eles, e o és para sempre, porque os ordenaste acima deste firmamento que firmaste sobre a fraqueza dos povos inferiores, onde olhassem para o alto e conhecessem a tua misericórdia, que no tempo te anuncia a ti, que fizeste os tempos. Pois no céu, Senhor, está a tua misericórdia, e a tua verdade até as nuvens. Passam as nuvens, mas o céu permanece. Passam os pregadores da tua palavra desta vida para outra vida; mas a tua Escritura estende-se sobre os povos até o fim do século. Mas também o céu e a terra passarão, ao passo que as tuas palavras não passarão, porque também a pele será dobrada, e a erva sobre a qual se estendia passará com o seu esplendor, mas a tua palavra permanece para sempre. Ela agora nos aparece no enigma das nuvens e através do espelho do céu, não tal como é, porque também de nós, embora sejamos amados pelo teu Filho, ainda não se manifestou o que seremos. Ele olhou através das redes da carne, e afagou, e inflamou, e corremos atrás do seu perfume. Mas, quando ele se manifestar, seremos semelhantes a ele, porque o veremos tal como é. Tal como é, Senhor: esse é o nosso ver, que ainda não é nosso.
XVI.19 Pois, assim como tu és absolutamente, só tu o sabes, tu que és imutavelmente, e sabes imutavelmente, e queres imutavelmente; e a tua essência sabe e quer imutavelmente, e a tua ciência é e quer imutavelmente, e a tua vontade é e sabe imutavelmente. E não parece justo diante de ti que, assim como a luz imutável se conhece a si mesma, assim seja conhecida pelo iluminado mutável. Por isso a minha alma é para ti como terra sem água, porque, assim como não pode iluminar-se por si mesma, assim também não pode saciar-se por si mesma. Pois assim está junto de ti a fonte da vida, como na tua luz veremos a luz.
XVII.20 Quem ajuntou os amargos numa só sociedade? Pois para eles é o mesmo o fim, a felicidade temporal e terrena, por causa da qual fazem tudo, ainda que flutuem numa variedade inumerável de cuidados. Quem, Senhor, senão tu, que disseste que as águas se ajuntassem num só ajuntamento e aparecesse a terra seca, sedenta de ti? Porque teu é o mar, e tu o fizeste, e a terra seca, as tuas mãos a formaram. Pois não é a amargura das vontades, mas o ajuntamento das águas, que se chama mar. Pois tu reprimes também as más cobiças das almas e fixas limites até onde se permite às águas avançar, para que as suas ondas se quebrem em si mesmas; e assim fazes o mar, pela ordem do teu império sobre todas as coisas.
XVII.21 Mas as almas sedentas de ti, que aparecem diante de ti, apartadas por outro fim da sociedade do mar, tu as regas com uma fonte oculta e doce, para que também a terra dê o seu fruto. E dá o seu fruto, e, mandando-o tu, o Senhor seu Deus, a nossa alma faz germinar obras de misericórdia segundo a espécie, amando o próximo no socorro das necessidades carnais, tendo em si semente segundo a semelhança, porque, a partir da nossa fraqueza, nos compadecemos para socorrer os necessitados, ajudando-os do mesmo modo que quereríamos que nos levassem ajuda, se do mesmo modo estivéssemos necessitados; e não só nas coisas fáceis, como na erva que dá semente, mas também na proteção de um auxílio de robusta fortaleza, como a árvore frutífera, isto é, benfazeja para arrancar da mão do poderoso aquele que sofre injustiça e para oferecer a sombra da proteção com o vigor robusto do justo juízo.
XVIII.22 Assim, Senhor, assim, eu te peço, brote — como fazes, como dás a alegria e os meios —, brote da terra a verdade, e a justiça olhe do céu, e façam-se luzeiros no firmamento. Partamos o nosso pão com o faminto, e o necessitado sem teto levemo-lo para a nossa casa, vistamos o nu, e não desprezemos os da casa da nossa descendência. Nascidos na terra estes frutos, vê que é bom, e irrompa a nossa luz temporã, e, passando desta colheita inferior da ação às delícias da contemplação e alcançando a palavra da vida, que está mais alto, apareçamos como luzeiros no mundo, unidos ao firmamento da tua Escritura. Pois ali discutes conosco, para que dividamos entre as coisas inteligíveis e as sensíveis, como entre o dia e a noite, ou entre as almas, umas dadas às coisas inteligíveis, outras às sensíveis, de modo que já não sejas só tu, no segredo do discernimento, como antes que se fizesse o firmamento, a dividir entre a luz e as trevas, mas também os teus espirituais, postos e distribuídos no mesmo firmamento, manifestada pelo orbe a tua graça, brilhem sobre a terra, e dividam entre o dia e a noite, e assinalem os tempos: porque as coisas velhas passaram, eis que se fizeram novas; e porque a nossa salvação está mais perto do que quando cremos; e porque a noite passou, e o dia se aproximou; e porque abençoas a coroa do teu ano, enviando operários para a tua messe, em cuja semeadura outros trabalharam, e enviando também para outra sementeira, cuja messe está no fim. Assim dás ao que deseja os seus votos e abençoas os anos do justo; mas tu és sempre o mesmo, e nos teus anos, que não acabam, preparas um celeiro para os anos que passam. Pois, por desígnio eterno, nos tempos próprios dás os bens celestes sobre a terra.
XVIII.23 Porque a um é dada pelo Espírito a palavra de sabedoria, como o luzeiro maior, por causa dos que se deleitam na luz da verdade límpida, como no princípio do dia; a outro, porém, a palavra de ciência, segundo o mesmo Espírito, como o luzeiro menor; a outro a fé, a outro o dom das curas, a outro as operações de milagres, a outro a profecia, a outro o discernimento dos espíritos, a outro os gêneros de línguas; e todas estas coisas são como estrelas. Pois todas estas coisas as opera um só e o mesmo Espírito, repartindo a cada um o que lhe é próprio, como quer, e fazendo aparecer astros em manifestação, para utilidade. Mas a palavra de ciência, em que se contêm todos os sacramentos, que variam com os tempos, como a lua, e os demais conhecimentos dos dons, que em seguida foram lembrados como estrelas, quanto diferem daquele candor da sabedoria com que se alegra o dia de que falamos, tanto estão no princípio da noite. Pois são necessários àqueles a quem aquele teu servo prudentíssimo não pôde falar como a espirituais, mas como a carnais, ele que fala sabedoria entre os perfeitos. Mas o homem animal, como uma criança em Cristo e bebedor de leite, até que se robusteça para o alimento sólido e firme a vista para olhar o sol, não tenha a sua noite deserta, mas contente-se com a luz da lua e das estrelas. Estas coisas discutes conosco sapientissimamente, nosso Deus, no teu livro, no teu firmamento, para que discirnamos tudo numa contemplação admirável, embora ainda em sinais, e em tempos, e em dias, e em anos.
XIX.24 “Mas antes lavai-vos, purificai-vos, tirai a maldade das vossas almas e da vista dos meus olhos, para que apareça a terra seca. Aprendei a fazer o bem, fazei justiça ao órfão e justificai a viúva, para que a terra faça germinar a erva da pastagem e a árvore frutífera. E vinde, discutamos”, diz o Senhor, “para que se façam luzeiros no firmamento do céu, e brilhem sobre a terra.” Aquele rico perguntava ao bom Mestre que havia de fazer para alcançar a vida eterna. Diga-lhe o bom Mestre, que ele julgava homem e nada mais (mas ele é bom porque é Deus), diga-lhe que, se quer chegar à vida, guarde os mandamentos, aparte de si a amargura da malícia e da maldade, não mate, não cometa adultério, não furte, não diga falso testemunho, para que apareça a terra seca e faça germinar a honra à mãe e ao pai e o amor ao próximo. “Fiz tudo isso”, diz ele. De onde, então, tantos espinhos, se a terra é frutífera? Vai, arranca os silvados bravios da avareza, vende o que possuis, e enche-te de frutos dando aos pobres, e terás um tesouro nos céus; e segue o Senhor, se queres ser perfeito, associado àqueles entre os quais fala sabedoria aquele que sabe o que há de distribuir ao dia e à noite, para que também tu o saibas, para que também para ti se façam luzeiros no firmamento do céu. O que não acontecerá se não estiver lá o teu coração; o que, igualmente, não acontecerá se não estiver lá o teu tesouro, como ouviste do bom Mestre. Mas a terra estéril entristeceu-se, e os espinhos sufocaram a palavra.
XIX.25 Mas vós, raça eleita, o que é fraco no mundo, que deixastes tudo para seguir o Senhor: ide após ele e confundi o que é forte; ide após ele, pés formosos, e brilhai no firmamento, para que os céus narrem a sua glória, dividindo entre a luz dos perfeitos, mas não ainda como a dos anjos, e as trevas dos pequeninos, mas não dos desesperados. Brilhai sobre toda a terra, e o dia, cândido de sol, profira ao dia a palavra de sabedoria, e a noite, luzente de lua, anuncie à noite a palavra de ciência. A lua e as estrelas brilham para a noite, mas a noite não as obscurece, porque elas a iluminam na pequena medida dela. Pois eis que, como se Deus dissesse “Façam-se luzeiros no firmamento do céu”, fez-se de repente do céu um som, como se passasse um sopro veemente, e apareceram línguas repartidas como de fogo, que pousou sobre cada um deles; e fizeram-se luzeiros no firmamento do céu, que têm a palavra da vida. Correi por toda parte, fogos santos, fogos formosos. Pois vós sois a luz do mundo e não estais debaixo do alqueire. Foi exaltado aquele a quem vos unistes, e exaltou-vos. Correi por toda parte e dai-vos a conhecer a todas as nações.
XX.26 Conceba também o mar e dê à luz as vossas obras, e produzam as águas répteis de almas vivas. Pois, separando o precioso do vil, vos tornastes a boca de Deus, pela qual ele dizia: “Produzam as águas”, não a alma viva, que a terra produzirá, mas “répteis de almas vivas e aves que voam sobre a terra”. Pois os teus sacramentos, ó Deus, rastejaram, pelas obras dos teus santos, por entre as ondas das tentações do século, para imbuir as nações do teu nome no teu batismo. E entre estas coisas fizeram-se grandes maravilhas, como grandes cetáceos, e as vozes dos teus mensageiros voando sobre a terra, junto ao firmamento do teu livro, que tinham posto acima de si como autoridade, sob a qual voassem para onde quer que fossem. Pois não há falas nem palavras cujas vozes não se ouçam, quando por toda a terra saiu o som deles, e até os confins do orbe da terra as suas palavras, porque tu, Senhor, abençoando, multiplicaste estas coisas.
XX.27 Acaso minto, ou confundo numa mistura, e não distingo os conhecimentos luminosos destas coisas no firmamento do céu e as obras corporais no mar ondoso e sob o firmamento do céu? Pois das mesmas coisas cujos conhecimentos são sólidos e definidos, sem os acréscimos das gerações, como luzes de sabedoria e de ciência, dessas mesmas coisas as operações corporais são muitas e várias, e, crescendo umas das outras, multiplicam-se na tua bênção, ó Deus, que consolaste o fastio dos sentidos mortais, de modo que, para o conhecimento do espírito, uma só coisa é figurada e dita de muitos modos pelos movimentos do corpo. As águas produziram estas coisas, mas na tua palavra. As necessidades dos povos alheados da eternidade da tua verdade produziram estas coisas, mas no teu Evangelho, porque as próprias águas as lançaram, as águas cujo amargo langor foi a causa de que estas coisas procedessem na tua palavra.
XX.28 E belas são todas as coisas, quando tu as fazes, e eis que tu és indizivelmente mais belo, tu que fizeste todas as coisas. Se Adão não tivesse caído de ti, não se teria derramado do seu ventre a salsugem do mar, o gênero humano, profundamente curioso, procelosamente inchado e instavelmente fluido; e assim não seria necessário que, nas muitas águas, os teus dispensadores operassem, corporal e sensivelmente, feitos e ditos místicos (pois assim me ocorreram agora os répteis e as aves), com os quais, imbuídos e iniciados, os homens sujeitos aos sacramentos corporais não progrediriam mais além, se a alma não ganhasse vida espiritualmente em outro grau e, depois da palavra do início, não olhasse para a consumação.
XXI.29 E por isso, na tua palavra, não a profundeza do mar, mas a terra apartada da amargura das águas lança, não répteis de almas vivas e aves, mas a alma viva. Pois ela já não precisa do batismo, de que as nações precisam, como precisava quando estava coberta pelas águas; pois não se entra de outro modo no reino dos céus desde que instituíste que assim se entrasse; nem busca as maravilhas dos milagres para que se faça a fé. Pois não é dela que, se não vir sinais e prodígios, não crê, uma vez que já está apartada a terra fiel das águas do mar, amargas de infidelidade, e as línguas são sinal não para os fiéis, mas para os infiéis. Nem, portanto, deste gênero alado que, pela tua palavra, as águas produziram precisa a terra que fundaste sobre as águas. Envia sobre ela a tua palavra por meio dos teus mensageiros. Pois nós narramos as obras deles; mas és tu quem opera neles, e que eles operem a alma viva. A terra a produz, porque a terra é a causa de que eles façam isso nela, assim como o mar foi a causa de que fizessem répteis de almas vivas e aves sob o firmamento do céu, dos quais a terra já não precisa, embora coma o peixe tirado do fundo naquela mesa que preparaste à vista dos que creem; pois por isso foi tirado do fundo, para alimentar a terra seca. E as aves são progênie do mar, mas todavia multiplicam-se sobre a terra. Pois das primeiras vozes dos que evangelizavam foi causa a infidelidade dos homens; mas também os fiéis são exortados e abençoados por elas, de muitos modos, dia após dia. Mas a alma viva tem o seu começo na terra, porque não aproveita senão aos que já são fiéis abster-se do amor deste século, para que a sua alma viva para ti, a alma que estava morta vivendo nas delícias — delícias, Senhor, mortíferas; pois tu és as delícias vitais do coração puro.
XXI.30 Operem, pois, os teus ministros, já na terra, não como nas águas da infidelidade, anunciando e falando por milagres, e sacramentos, e vozes místicas, onde a ignorância, mãe da admiração, se torna atenta no temor dos sinais ocultos (pois tal é a entrada para a fé dos filhos de Adão que se esqueceram de ti, enquanto se escondem da tua face e se tornam abismo); mas operem também como na terra seca, apartada dos sorvedouros do abismo, e sejam modelo para os fiéis, vivendo diante deles e estimulando-os à imitação. Pois assim ouvem não só para ouvir, mas também para fazer: “Buscai a Deus, e viverá a vossa alma, para que a terra produza a alma vivente; não vos conformeis com este século, abstende-vos dele.” Evitando vive a alma que, apetecendo, morre. Abstende-vos da desumana ferocidade da soberba, da inerte volúpia da luxúria e do falaz nome da ciência, para que haja feras mansas, e gado domado, e serpentes inofensivas. Pois estes são, em alegoria, movimentos da alma; mas o fasto da altivez, e o deleite da paixão, e o veneno da curiosidade são movimentos da alma morta, porque ela não morre de modo a carecer de todo movimento, já que morre afastando-se da fonte da vida, e assim é acolhida pelo século que passa e se conforma com ele.
XXI.31 Mas a tua palavra, ó Deus, é fonte de vida eterna e não passa. E por isso, na tua palavra, é refreado aquele afastamento, quando se nos diz: “Não vos conformeis com este século”, para que a terra produza, na fonte da vida, a alma vivente, uma alma continente, na tua palavra, por meio dos teus evangelistas, imitando os imitadores do teu Cristo. Pois isto é “segundo a espécie”, porque a emulação do homem vem do amigo: “Sede”, diz ele, “como eu, porque também eu sou como vós.” Assim haverá na alma viva feras boas, pela mansidão da conduta. Pois mandaste, dizendo: “Faze as tuas obras com mansidão, e serás amado por todos os homens.” E gado bom, que nem, se comer, terá de sobra, nem, se não comer, terá falta; e serpentes boas, não perniciosas para fazer mal, mas astutas para se precaver, e que exploram a natureza temporal só quanto basta para que, pelas coisas que foram feitas, se contemple, compreendida, a eternidade. Pois estes animais servem à razão quando, refreados do avanço mortífero, vivem e são bons.
XXII.32 Pois eis, Senhor nosso Deus, criador nosso, que, quando os afetos tiverem sido refreados do amor do século, pelo qual morríamos vivendo mal, e a alma tiver começado a ser vivente vivendo bem, e se tiver cumprido a tua palavra, com que pelo teu apóstolo disseste: “Não vos conformeis com este século”, há de seguir-se também aquilo que logo acrescentaste, dizendo: “mas reformai-vos na novidade da vossa mente”, não mais segundo a espécie, como imitando o próximo que vai à frente, nem vivendo pela autoridade de um homem melhor. Pois não disseste: “Faça-se o homem segundo a espécie”, mas: “Façamos o homem à nossa imagem e semelhança”, para que nós experimentemos qual é a tua vontade. Para isso, pois, aquele teu dispensador, que gerava filhos pelo Evangelho, para não ter sempre pequeninos que nutrisse com leite e acalentasse como ama, diz: “Reformai-vos na novidade da vossa mente, para experimentardes qual é a vontade de Deus, o que é bom, e agradável, e perfeito.” Por isso não dizes: “Faça-se o homem”, mas: “Façamos”; nem dizes: “segundo a espécie”, mas: “à nossa imagem e semelhança”. Pois quem é renovado na mente e contempla a tua verdade compreendida não precisa de um homem que lha mostre, para imitar a sua espécie, mas, mostrando-lha tu, experimenta ele mesmo qual é a tua vontade, o que é bom, e agradável, e perfeito; e tu o ensinas, já capaz, a ver a Trindade da unidade ou a unidade da Trindade. E por isso, depois de se dizer no plural “Façamos o homem”, acrescenta-se todavia no singular: “E Deus fez o homem”; e, depois de se dizer no plural “à nossa imagem”, acrescenta-se no singular: “à imagem de Deus”. Assim o homem se renova no conhecimento de Deus, segundo a imagem daquele que o criou, e, feito espiritual, julga todas as coisas, as que certamente devem ser julgadas, mas ele mesmo não é julgado por ninguém.
XXIII.33 Que ele julga todas as coisas quer dizer que tem poder sobre os peixes do mar, e as aves do céu, e todo o gado, e as feras, e toda a terra, e todos os répteis que rastejam sobre a terra. Pois isto ele o faz pelo entendimento da mente, pelo qual percebe as coisas que são do Espírito de Deus. De outro modo, o homem, posto em honra, não entendeu; foi comparado aos jumentos insensatos e tornou-se semelhante a eles. Portanto, na tua Igreja, nosso Deus, segundo a tua graça que lhe deste, porque somos feitura tua, criados em boas obras, não só os que espiritualmente presidem, mas também os que espiritualmente estão sujeitos aos que presidem (pois deste modo fizeste o homem macho e fêmea na tua graça espiritual, onde, segundo o sexo do corpo, não há macho e fêmea, porque não há judeu nem grego, nem escravo nem livre) — os espirituais, pois, quer os que presidem, quer os que obedecem, julgam espiritualmente; não dos conhecimentos espirituais que brilham no firmamento (pois não convém julgar de tão sublime autoridade); nem do teu próprio livro, ainda que algo nele não brilhe, porque lhe submetemos o nosso entendimento e temos por certo que também o que está fechado aos nossos olhares foi dito com retidão e verdade (pois assim o homem, ainda que já espiritual e renovado no conhecimento de Deus segundo a imagem daquele que o criou, deve todavia ser cumpridor da lei, não juiz); nem julga daquela distinção, a saber, entre os homens espirituais e os carnais, que são conhecidos aos teus olhos, nosso Deus, e ainda não se nos manifestaram por obra nenhuma para que os conheçamos pelos seus frutos, mas tu, Senhor, já os conheces, e os dividiste, e os chamaste em segredo, antes que se fizesse o firmamento; nem, ainda que espiritual, julga o homem os povos turbulentos deste século — pois que lhe cabe julgar os que estão de fora, ele que ignora quem dali há de vir para a doçura da tua graça e quem há de permanecer na perpétua amargura da impiedade?
XXIII.34 E por isso o homem, que fizeste à tua imagem, não recebeu poder sobre os luzeiros do céu, nem sobre o próprio céu oculto, nem sobre o dia e a noite, que nomeaste antes da constituição do céu, nem sobre o ajuntamento das águas, que é o mar; mas recebeu poder sobre os peixes do mar, e as aves do céu, e todo o gado, e toda a terra, e todos os répteis que rastejam sobre a terra. Pois julga, e aprova o que achar reto, e reprova o que achar errado, quer naquela solenidade dos sacramentos com que são iniciados aqueles que a tua misericórdia vai buscar nas muitas águas, quer naquela em que é apresentado o peixe que, tirado do fundo, a terra piedosa come, quer nos sinais das palavras e nas vozes sujeitas à autoridade do teu livro, como que voando sob o firmamento, interpretando, expondo, dissertando, discutindo, bendizendo e invocando a ti, com sinais que irrompem da boca e ressoam, para que o povo responda: “Amém.” De todas estas vozes, que se hão de enunciar corporalmente, a causa é o abismo do século e a cegueira da carne, pela qual os pensamentos não podem ser vistos, de modo que é preciso fazê-los ressoar aos ouvidos. Assim, ainda que as aves se multipliquem sobre a terra, tiram todavia a sua origem das águas. Julga também o espiritual, aprovando o que achar reto e reprovando o que achar errado, nas obras e nos costumes dos fiéis: nas esmolas, como na terra frutífera; e, quanto à alma viva, nos afetos amansados, na castidade, nos jejuns, nos pensamentos piedosos acerca das coisas que se percebem pelo sentido do corpo. Pois agora se diz que ele julga daquelas coisas em que tem também o poder de corrigir.
XXIV.35 Mas que é isto, e que mistério é este? Eis que abençoas os homens, ó Senhor, para que cresçam, e se multipliquem, e encham a terra. Nada nos dás a entender com isto, para que compreendamos alguma coisa? Por que não abençoaste assim a luz, que chamaste dia, nem o firmamento do céu, nem os luzeiros, nem as estrelas, nem a terra, nem o mar? Eu diria, Deus nosso, que nos criaste à tua imagem, eu diria que quiseste conceder este dom da bênção propriamente ao homem, se não tivesses abençoado do mesmo modo os peixes e os cetáceos, para que crescessem, e se multiplicassem, e enchessem as águas do mar, e as aves se multiplicassem sobre a terra. Do mesmo modo, eu diria que esta bênção pertence àqueles gêneros de seres que se propagam gerando de si mesmos, se a encontrasse nas árvores, e nos arbustos, e no gado da terra. Agora, porém, nem às ervas e às árvores se disse, nem às feras e às serpentes: “Crescei e multiplicai-vos”, embora também todos estes, como os peixes, e as aves, e os homens, aumentem gerando e conservem a sua espécie.
XXIV.36 Que direi, pois, luz minha, verdade? Que isto é vão, que foi dito assim inutilmente? De modo nenhum, Pai da piedade; longe esteja que o diga o servo da tua palavra. E, se eu não entendo o que significas com este dito, usem-no melhor os melhores, isto é, os mais inteligentes do que eu, cada um na medida do saber que lhe deste. Mas agrade também diante dos teus olhos a minha confissão, com que te confesso que creio, Senhor, que não falaste assim em vão; e não calarei o que me sugere a ocasião desta leitura. Pois é verdade, e não vejo o que me impeça de entender assim os ditos figurados dos teus livros. Pois sei que se significa de muitos modos, por meio do corpo, o que de um só modo se entende pela mente, e que se entende de muitos modos pela mente o que de um só modo se significa por meio do corpo. Eis o simples amor de Deus e do próximo: por quantos sacramentos multíplices, e inumeráveis línguas, e, em cada língua, por inumeráveis modos de falar, ele se enuncia corporalmente! Assim crescem e se multiplicam as crias das águas. Atenta outra vez, quem quer que leias isto: eis que aquilo que a Escritura oferece e a voz faz soar de um só modo, “No princípio Deus fez o céu e a terra”, não se entende de muitos modos, não pelo engano dos erros, mas por gêneros de entendimentos verdadeiros? Assim crescem e se multiplicam as crias dos homens.
XXIV.37 Assim, se pensarmos as próprias naturezas das coisas, não alegoricamente, mas em sentido próprio, a palavra “Crescei e multiplicai-vos” convém a todas as coisas que nascem de sementes. Se, porém, tratarmos estas coisas como postas em figura (o que, antes, julgo ter sido a intenção da Escritura, que certamente não é à toa que atribui esta bênção somente às crias dos animais aquáticos e dos homens), encontramos multidões também nas criaturas espirituais e corporais, como no céu e na terra; e nas almas justas e iníquas, como na luz e nas trevas; e nos santos autores por meio dos quais foi ministrada a lei, como no firmamento que foi solidificado entre água e água; e na sociedade dos povos amargos, como no mar; e no zelo das almas piedosas, como na terra seca; e nas obras de misericórdia segundo a vida presente, como nas ervas que dão semente e nas árvores frutíferas; e nos dons espirituais manifestados para utilidade, como nos luzeiros do céu; e nos afetos formados para a temperança, como na alma viva. Em todas estas coisas encontramos multidões, e abundâncias, e acréscimos; mas aquilo que cresce e se multiplica de tal maneira que uma só coisa se enuncie de muitos modos e uma só enunciação se entenda de muitos modos, não o encontramos senão nos sinais proferidos corporalmente e nas coisas pensadas inteligivelmente. Os sinais proferidos corporalmente, entendemo-los como as gerações das águas, por causas necessárias da profundeza carnal; as coisas pensadas inteligivelmente, como as gerações humanas, por causa da fecundidade da razão. E por isso cremos que a cada um destes dois gêneros foi dito por ti, Senhor: “Crescei e multiplicai-vos.” Pois nesta bênção recebo a faculdade e o poder, que nos concedeste, tanto de enunciar de muitos modos o que tivermos entendido de um só modo, como de entender de muitos modos o que tivermos lido enunciado obscuramente de um só modo. Assim se enchem as águas do mar, que não se movem senão por significações várias; assim também, das crias humanas, se enche a terra, cuja secura aparece no zelo, e domina sobre ela a razão.
XXV.38 Quero ainda dizer, Senhor meu Deus, aquilo de que a tua Escritura, no que se segue, me adverte, e direi sem temor. Pois direi coisas verdadeiras, inspirando-me tu o que quiseste que eu dissesse a partir dessas palavras. Pois não creio dizer a verdade por inspiração de outro além de ti, já que tu és a verdade, e todo homem é mentiroso; e por isso quem fala mentira fala do que é seu. Logo, para falar a verdade, falo do que é teu. Eis que nos deste como alimento toda erva semeável que dá semente, que está sobre toda a terra, e toda árvore que tem em si fruto de semente semeável. E não só a nós, mas também a todas as aves do céu, e às feras da terra, e às serpentes; aos peixes, porém, e aos grandes cetáceos não deste estas coisas. Pois dizíamos que por estes frutos da terra se significam, e em alegoria se figuram, as obras de misericórdia, que se oferecem às necessidades desta vida a partir da terra frutífera. Tal terra era o piedoso Onesíforo, a cuja casa deste misericórdia, porque muitas vezes reconfortou o teu Paulo e não se envergonhou da sua cadeia. Isto fizeram também os irmãos, e frutificaram com tal colheita, os que lhe supriram desde a Macedônia o que lhe faltava. E como se dói de certas árvores que não lhe deram o fruto devido, quando diz: “Na minha primeira defesa ninguém me assistiu, mas todos me abandonaram: que não lhes seja imputado.” Pois o alimento é devido aos que ministram a doutrina racional pela inteligência dos mistérios divinos, e assim lhes é devido como a homens. E é-lhes devido também como à alma viva, por se oferecerem para serem imitados em toda a continência. Do mesmo modo, é-lhes devido como a aves, por causa das suas bênçãos, que se multiplicam sobre a terra, porque por toda a terra saiu o som deles.
XXVI.39 Alimentam-se destes alimentos os que se alegram com eles; e não se alegram com eles aqueles cujo deus é o ventre. Pois também naqueles que oferecem estas coisas, o fruto não é aquilo que dão, mas o ânimo com que dão. Por isso, aquele que servia a Deus e não ao seu ventre, vejo bem de que se alegra; vejo, e congratulo-me muito com ele. Pois tinha recebido dos filipenses o que lhe tinham mandado por Epafrodito; mas, todavia, vejo de que se alegra. E daquilo de que se alegra, disso se alimenta, porque, falando com verdade, diz: “Alegrei-me grandemente no Senhor, porque enfim rebrotastes no pensar em mim, como já pensáveis; mas tivestes tédio.” Estes, pois, por um longo tédio tinham murchado e como que secado, longe deste fruto da boa obra; e ele se alegra por eles, porque rebrotaram, não por si, porque socorreram a sua indigência. Por isso continua, dizendo: “Não o digo porque me falte alguma coisa; pois aprendi a bastar-me naquilo em que estou. Sei ter menos, sei ter abundância; em tudo e em todas as coisas estou instruído: tanto em estar saciado como em ter fome, tanto em ter abundância como em padecer penúria. Tudo posso naquele que me fortalece.”
XXVI.40 De que te alegras, pois, ó grande Paulo? De que te alegras, de que te alimentas, homem renovado no conhecimento de Deus segundo a imagem daquele que te criou, e alma viva de tamanha continência, e língua alada que falas mistérios? Pois a tais viventes se deve este alimento. Que é que te alimenta? A alegria. Ouça eu o que se segue: “Contudo”, diz ele, “fizestes bem em tomar parte na minha tribulação.” Disto se alegra, disto se alimenta: de que eles fizeram bem, não de que a sua angústia foi aliviada, ele que te diz: “Na tribulação me dilataste”, porque sabe tanto ter abundância como padecer penúria em ti, que o fortaleces. “Pois sabeis também vós, filipenses”, diz ele, “que, no princípio do Evangelho, quando parti da Macedônia, nenhuma igreja tomou parte comigo em conta de dar e receber, senão vós somente; porque também para Tessalônica, uma e outra vez, me mandastes para as minhas necessidades.” De que eles tenham voltado a estas boas obras se alegra agora, e de que tenham rebrotado se regozija, como se revivesse a fertilidade de um campo.
XXVI.41 Acaso por causa das suas necessidades, porque disse “me mandastes para as minhas necessidades”, acaso é por isso que se alegra? Não é por isso. E como o sabemos? Porque ele mesmo continua, dizendo: “Não porque busque a dádiva, mas procuro o fruto.” Aprendi de ti, meu Deus, a discernir entre a dádiva e o fruto. A dádiva é a própria coisa que dá quem reparte estas coisas necessárias, como o dinheiro, a comida, a bebida, a roupa, o teto, o auxílio. O fruto, porém, é a vontade boa e reta de quem dá. Pois o bom Mestre não disse só “quem receber um profeta”, mas acrescentou “em nome de profeta”; nem disse só “quem receber um justo”, mas acrescentou “em nome de justo”; pois assim aquele receberá a recompensa de profeta, este a recompensa de justo. Nem disse só “quem der a beber um copo de água fria a um dos meus pequeninos”, mas acrescentou “somente em nome de discípulo”, e assim ajuntou: “Em verdade vos digo, não perderá a sua recompensa.” A dádiva é receber o profeta, receber o justo, oferecer o copo de água fria ao discípulo; o fruto, porém, é fazer isto em nome de profeta, em nome de justo, em nome de discípulo. Com o fruto é alimentado Elias pela viúva, que sabia que alimentava um homem de Deus e que por isso o alimentava; pelo corvo, porém, era alimentado com a dádiva. E não era alimentado o Elias interior, mas o exterior, que podia também perecer pela falta de tal alimento.
XXVII.42 E por isso direi o que é verdade diante de ti, Senhor: quando homens incultos e infiéis — para cuja iniciação e conquista são necessários os sacramentos da iniciação e as maravilhas dos milagres, que cremos significados sob o nome de peixes e de cetáceos — acolhem os teus servos para os refazer no corpo ou para os ajudar em alguma necessidade da vida presente, sem saberem por que se deve fazer isso e a que se destina, nem eles alimentam a estes, nem estes são alimentados por eles; porque nem eles fazem isso com vontade santa e reta, nem estes se alegram com as suas dádivas, onde ainda não veem fruto. Pois o ânimo se alimenta daquilo de que se alegra. E por isso os peixes e os cetáceos não se nutrem dos alimentos que só a terra faz germinar, quando já está distinta e apartada da amargura das ondas do mar.
XXVIII.43 E viste, ó Deus, todas as coisas que fizeste, e eis: muito boas; porque também nós as vemos, e eis: todas muito boas. Em cada gênero das tuas obras, quando tinhas dito que se fizessem, e se fizeram, viste que isto e aquilo é bom. Contei sete vezes estar escrito que viste que é bom o que fizeste; e esta é a oitava: que viste todas as coisas que fizeste, e eis: não só boas, mas também muito boas, como todas juntas. Pois cada uma era apenas boa; todas juntas, porém, boas e muito. Isto dizem também todos os corpos belos, porque é muito mais belo o corpo que consta de membros todos belos do que esses mesmos membros, cada um por si, de cujo concerto ordenadíssimo se completa o todo, embora também eles, mesmo separadamente, sejam belos.
XXIX.44 E prestei atenção, para descobrir se foram sete ou oito vezes que viste que as tuas obras são boas, quando te agradaram, e na tua visão não achei tempos pelos quais entendesse que tantas vezes viste o que fizeste; e disse: “Ó Senhor, não é verdadeira esta tua Escritura, já que tu, verídico e Verdade, a publicaste? Por que, então, me dizes que na tua visão não há tempos, e esta tua Escritura me diz que dia a dia viste que é bom o que fizeste, e, quando os contei, achei quantas vezes?” A isto tu me dizes, porque tu és o meu Deus e dizes com voz forte ao ouvido interior do teu servo, rompendo a minha surdez e clamando: “Ó homem, o que a minha Escritura diz, sou eu que o digo. E, todavia, ela o diz no tempo, ao passo que à minha palavra o tempo não chega, porque subsiste numa eternidade igual à minha. Assim, aquilo que vós vedes pelo meu Espírito, eu o vejo, assim como aquilo que vós dizeis pelo meu Espírito, eu o digo. E assim, quando vós o vedes no tempo, não sou eu que vejo no tempo; do mesmo modo que, quando vós o dizeis no tempo, não sou eu que digo no tempo.”
XXX.45 E ouvi, Senhor meu Deus, e lambi uma gota de doçura da tua verdade, e entendi que há alguns a quem desagradam as tuas obras, e dizem que muitas delas as fizeste forçado pela necessidade, como as estruturas dos céus e as composições dos astros, e isto não do que é teu, mas que já estavam criadas noutra parte e vindas de outro lugar, e que tu as reunias, e as juntavas, e as entrelaçavas, quando, com os inimigos vencidos, levantavas as muralhas do mundo, para que, presos por essa construção, não pudessem de novo rebelar-se contra ti; e que outras nem as fizeste nem de todo as compuseste, como todas as carnes, e todos os animais mais minúsculos, e tudo o que se prende à terra pelas raízes, mas que uma mente hostil e uma outra natureza, não criada por ti e contrária a ti, as gera e forma nas regiões inferiores do mundo. Dizem isto os insensatos, porque não veem as tuas obras pelo teu Espírito, nem te reconhecem nelas.
XXXI.46 Mas os que as veem pelo teu Espírito, és tu que vês neles. Portanto, quando veem que são boas, és tu que vês que são boas; e tudo o que agrada por causa de ti, és tu que agradas nisso; e as coisas que nos agradam pelo teu Espírito, a ti agradam em nós. Pois quem dentre os homens sabe as coisas do homem, senão o espírito do homem que está nele? Assim também as coisas de Deus ninguém as sabe, senão o Espírito de Deus. “Mas nós”, diz ele, “não recebemos o espírito deste mundo, mas o Espírito que vem de Deus, para que saibamos as coisas que nos foram dadas por Deus.” E sou movido a dizer: “Certamente ninguém sabe as coisas de Deus, senão o Espírito de Deus. Como, então, sabemos também nós as coisas que nos foram dadas por Deus?” E me é respondido que aquilo que sabemos pelo seu Espírito também assim ninguém o sabe senão o Espírito de Deus. Pois, assim como se disse com razão “Não sois vós que falais” aos que falavam no Espírito de Deus, assim com razão se diz “Não sois vós que sabeis” aos que sabem no Espírito de Deus. Não menos com razão, portanto, se diz “Não sois vós que vedes” aos que veem no Espírito de Deus. Assim, tudo o que no Espírito de Deus veem que é bom, não são eles, mas Deus quem vê que é bom. Uma coisa é, pois, alguém julgar mau o que é bom, como aqueles de quem falei acima; outra, o homem ver que é bom o que é bom, como a muitos agrada a tua criatura, porque é boa, aos quais todavia não agradas tu nela, e por isso querem gozar antes dela do que de ti; outra ainda, quando o homem vê que alguma coisa é boa, ser Deus quem nele vê que é boa, para que seja amado naquilo que fez aquele que não seria amado senão pelo Espírito que deu, porque a caridade de Deus foi derramada em nossos corações pelo Espírito Santo, que nos foi dado, por meio do qual vemos que é bom tudo o que de algum modo é: pois vem daquele que não é de algum modo, mas é: é.
XXXII.47 Graças a ti, Senhor! Vemos o céu e a terra, quer a parte corporal superior e a inferior, quer a criatura espiritual e a corporal; e, no ornamento destas partes, de que consta ou toda a mole do mundo ou toda a criação absolutamente, vemos a luz feita e dividida das trevas. Vemos o firmamento do céu, quer o corpo primordial do mundo, entre as águas espirituais superiores e as corporais inferiores, quer este espaço do ar, porque também ele se chama céu, através do qual vagueiam as aves do céu entre as águas que em vapor pairam sobre ele e orvalham até nas noites serenas, e estas que, pesadas, correm sobre a terra. Vemos a forma das águas ajuntadas pelas planícies do mar, e a terra seca, ou nua ou formada, para que fosse visível e composta, matéria das ervas e das árvores. Vemos os luzeiros resplandecerem do alto, o sol bastar ao dia, a lua e as estrelas consolarem a noite, e por todos eles notarem-se e significarem-se os tempos. Vemos a natureza úmida fecundada por toda parte de peixes, e de monstros marinhos, e de aves, porque a corpulência do ar, que sustenta o voo das aves, se adensa com a exalação das águas. Vemos a face da terra adornar-se de animais terrestres, e o homem, à tua imagem e semelhança, ser posto à frente de todos os animais irracionais precisamente por essa tua imagem e semelhança, isto é, pela virtude da razão e da inteligência; e, assim como na sua alma há uma parte que domina deliberando e outra que se submete para obedecer, assim também, para o varão, foi feita, mesmo corporalmente, a mulher, que tivesse na mente, é certo, igual natureza de inteligência racional, mas que, pelo sexo do corpo, fosse submetida ao sexo masculino, assim como se submete o apetite da ação para conceber, a partir da razão da mente, a destreza de agir retamente. Vemos estas coisas, e cada uma é boa, e todas são muito boas.
XXXIII.48 Louvam-te as tuas obras para que te amemos, e te amamos para que te louvem as tuas obras. Têm princípio e fim no tempo, nascimento e ocaso, crescimento e declínio, forma e privação. Têm, pois, em consequência, manhã e tarde, em parte de modo oculto, em parte de modo evidente. Pois foram feitas do nada por ti, não de ti, não de alguma matéria que não fosse tua ou que tivesse existido antes, mas de uma matéria concriada, isto é, criada por ti ao mesmo tempo, porque deste forma à sua informidade sem nenhum intervalo de tempo. Pois, sendo uma coisa a matéria do céu e da terra, outra a forma do céu e da terra, fizeste a matéria do absolutamente nada, e a forma do mundo da matéria informe, mas fizeste ambas ao mesmo tempo, para que a forma seguisse a matéria sem nenhum intervalo de demora.
XXXIV.49 Consideramos também em figura de que coisas quiseste que estas fossem feitas em tal ordem, ou em tal ordem escritas, e vimos que cada uma é boa e todas são muito boas, no teu Verbo, no teu Unigênito, o céu e a terra, a cabeça e o corpo da Igreja, na predestinação anterior a todos os tempos, sem manhã e sem tarde. Mas, quando começaste a executar no tempo o que estava predestinado, para manifestar o oculto e compor o que em nós era incomposto (porque os nossos pecados estavam sobre nós, e tínhamos ido para longe de ti, para a profundeza tenebrosa, e o teu Espírito bom pairava para nos socorrer no tempo oportuno), justificaste os ímpios e os distinguiste dos iníquos, e consolidaste a autoridade do teu livro entre os superiores, que fossem dóceis a ti, e os inferiores, que se sujeitassem a ela; e ajuntaste a sociedade dos infiéis numa só conspiração, para que aparecesse o zelo dos fiéis, para que te dessem à luz obras de misericórdia, distribuindo também aos pobres os bens terrenos, para adquirir os celestes. E depois acendeste certos luzeiros no firmamento, os teus santos, que têm a palavra da vida e resplandecem com sublime autoridade, elevada pelos dons espirituais; e depois, para imbuir as nações infiéis, produziste da matéria corporal os sacramentos, e os milagres visíveis, e as vozes das palavras segundo o firmamento do teu livro, com as quais também os fiéis fossem abençoados; e depois formaste a alma viva dos fiéis por meio dos afetos ordenados pelo vigor da continência; e em seguida renovaste à tua imagem e semelhança a mente submetida só a ti e que não precisa de nenhuma autoridade humana para imitar; e ao intelecto superior submeteste a ação racional, como ao varão a mulher; e quiseste que a todos os teus ministérios, necessários nesta vida para aperfeiçoar os fiéis, fossem oferecidas pelos mesmos fiéis, para os usos temporais, obras que darão fruto no futuro. Vemos todas estas coisas, e são muito boas, porque tu as vês em nós, tu que nos deste o Espírito com que as víssemos e nelas te amássemos.
XXXV.50 Senhor Deus, dá-nos a paz (pois tudo nos deste), a paz do repouso, a paz do sábado, a paz sem entardecer. Pois toda esta ordem belíssima de coisas muito boas, cumpridas as suas medidas, há de passar: pois nelas houve manhã e houve tarde.
XXXVI.51 Mas o sétimo dia é sem entardecer e não tem ocaso, porque o santificaste para uma permanência sempiterna, para que, ao dizer que tu, depois das tuas obras muito boas, embora as tenhas feito em repouso, repousaste no sétimo dia, a voz do teu livro nos diga de antemão isto mesmo: que também nós, depois das nossas obras, muito boas precisamente porque tu no-las deste, repousemos em ti no sábado da vida eterna.
XXXVII.52 Pois também então repousarás em nós, assim como agora operas em nós, e assim aquele repouso será teu por meio de nós, como agora estas obras são tuas por meio de nós. Tu, porém, Senhor, sempre operas e sempre repousas, e não vês no tempo, nem te moves no tempo, nem repousas no tempo; e, no entanto, fazes as visões temporais, e os próprios tempos, e o repouso que sucede ao tempo.
XXXVIII.53 Nós, pois, vemos estas coisas que fizeste porque são; tu, porém, porque as vês, elas são. E nós vemos de fora que são, e de dentro que são boas; tu, porém, viste-as feitas lá onde as viste por fazer. E nós, num outro tempo, fomos movidos a fazer o bem, depois que o nosso coração concebeu do teu Espírito; mas, no tempo anterior, éramos movidos a fazer o mal, abandonando-te; tu, porém, Deus uno e bom, nunca deixaste de fazer o bem. E há algumas obras boas nossas, dom teu, é certo, mas não sempiternas: depois delas esperamos repousar na tua grande santificação. Tu, porém, Bem que de nenhum bem precisas, estás sempre em repouso, porque o teu repouso és tu mesmo. E entender isto, que homem o dará a um homem? Que anjo a um anjo? Que anjo a um homem? A ti se peça, em ti se busque, à tua porta se bata: assim, assim se receberá, assim se achará, assim se abrirá.
Fim
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