Prólogo, 1–15
A vocação e os primeiros combates
0 PRÓLOGO. Boa emulação empreendestes com os monges do Egito, decididos a igualá-los ou até a superá-los pela vossa ascese na virtude. Pois também entre vós já há mosteiros, e o nome de monge ganhou direito de cidadania. Esse propósito, qualquer um o louvaria com justiça; e Deus, ouvindo as vossas orações, o leve a termo. Mas, como me pedistes também a mim notícias sobre o modo de viver do bem-aventurado Antão, querendo saber como começou a ascese, quem era antes dela, que fim teve a sua vida, e se é verdade o que dele se conta, para vos moverdes também a imitar o seu zelo, recebi com grande prontidão o vosso encargo. Pois também para mim é grande ganho e proveito o simples fato de recordar Antão. E sei que também vós, ao ouvir, além de admirar o homem, querereis imitar o seu propósito; pois a vida de Antão é para os monges modelo suficiente de ascese. Não descreiais, portanto, do que ouvistes a seu respeito da boca dos que vos trouxeram notícias; pensai, antes, que ouvistes deles pouca coisa; pois certamente também eles a custo puderam contar esse tanto. Também eu, instado por vós, por mais que vos diga nesta carta, não farei mais do que vos mandar umas poucas lembranças dele; e vós não deixeis de interrogar os que daqui navegam. Pois talvez, dizendo cada um o que sabe, se chegue a custo a uma narração digna dele. Eu queria, ao receber a vossa carta, mandar chamar alguns dos monges, sobretudo os que costumavam visitá-lo com mais frequência, para que, sabendo algo mais, vos escrevesse de modo mais completo; mas, como a estação da navegação ia chegando ao fim e o portador da carta tinha pressa, por isso me apressei a escrever à vossa piedade o que eu mesmo sei (pois muitas vezes o vi) e o que pude saber dele próprio, tendo-o seguido não pouco tempo e derramado água sobre as suas mãos; cuidando em tudo da verdade, para que ninguém, ouvindo mais do que houve, deixe de crer, nem, por outro lado, sabendo menos do que convém, despreze o homem.
1 Antão era egípcio de nascimento, de pais nobres e possuidores de bens suficientes; e, sendo eles cristãos, também ele foi criado cristãmente. Quando criança, vivia junto dos pais, sem conhecer nada além deles e da casa; mas, quando cresceu, se tornou menino e foi avançando na idade, não quis aprender as letras, porque desejava ficar longe até da companhia dos outros meninos; todo o seu desejo era, conforme está escrito de Jacó, viver como homem simples em sua casa. Ia, porém, com os pais à igreja; e nem era descuidado como menino, nem, ao crescer na idade, se tornou desdenhoso; mas era submisso aos pais e, atento às leituras, guardava em si o proveito que delas tirava. Nem, por outro lado, sendo menino numa casa de recursos razoáveis, importunava os pais pedindo comidas variadas e caras, nem buscava os prazeres delas; contentava-se só com o que encontrava e nada mais pedia.
2 Depois da morte dos pais, ficou sozinho com uma única irmã, ainda muito pequena; tinha uns dezoito ou vinte anos, e cuidava ele mesmo da casa e da irmã. Não tinham ainda passado seis meses da morte de seus pais, quando, indo como de costume à igreja e recolhendo em si o pensamento, ia refletindo pelo caminho como os apóstolos deixaram tudo e seguiram o Salvador; como, nos Atos, havia os que vendiam o que era seu e o traziam e depositavam aos pés dos apóstolos, para ser repartido entre os necessitados; e qual e quão grande esperança lhes está reservada nos céus. Com esses pensamentos entrou na igreja, e aconteceu que então se lia o Evangelho, e ouviu o Senhor dizer ao rico: “Se queres ser perfeito, vai, vende todos os teus bens, dá aos pobres, e vem, segue-me, e terás um tesouro nos céus.” Antão, como se a lembrança dos santos lhe tivesse vindo de Deus, e como se por causa dele se tivesse feito a leitura, saiu logo da igreja e deu de presente aos da aldeia as propriedades que tinha dos antepassados (eram trezentas aruras, férteis e muito boas), para que em nada mais os importunassem, a ele e à irmã. Todos os outros bens móveis que tinham, vendeu-os e, juntando uma boa soma de dinheiro, deu-a aos pobres, guardando um pouco por causa da irmã.
3 Mas quando, entrando outra vez na igreja, ouviu no Evangelho o Senhor dizer: “Não vos preocupeis com o dia de amanhã”, não suportou ficar ali mais tempo: saiu e distribuiu também aquilo aos humildes. Confiou a irmã a virgens conhecidas e fiéis, entregando-a a uma casa de virgens para ser educada, e ele, à frente de sua casa, dedicava-se desde então à ascese, vigiando-se e levando-se com dureza. Pois ainda não havia no Egito mosteiros tão próximos uns dos outros, e monge nenhum conhecia sequer o deserto distante; cada um dos que queriam vigiar-se exercitava-se sozinho, não longe de sua aldeia. Havia então na aldeia vizinha um velho que desde a juventude levava a vida solitária. Antão, vendo-o, emulou-o no bem; e primeiro começou também ele a morar nos lugares próximos da aldeia. Dali, se em alguma parte ouvia falar de algum homem zeloso, ia procurá-lo como a abelha sábia, e não voltava a seu lugar sem tê-lo visto; e, recebendo dele como que uma provisão para o caminho da virtude, regressava. Passando ali os primeiros tempos, firmava o pensamento, para não se voltar para os bens dos pais nem se lembrar dos parentes, mas pôr todo o desejo e todo o empenho no esforço da ascese. Trabalhava, pois, com as próprias mãos, por ter ouvido: “Quem é ocioso também não coma”; e gastava uma parte no pão e a outra com os necessitados. Orava continuamente, por ter aprendido que é preciso orar em particular sem cessar. E era tão atento à leitura que nada do que está escrito lhe caía por terra; guardava tudo, e por fim a memória lhe fazia as vezes de livros.
4 Vivendo assim, Antão era amado por todos. Ele, por sua vez, submetia-se sinceramente aos homens zelosos que ia visitar e aprendia por si mesmo em que cada um se avantajava no zelo e na ascese: de um contemplava a amabilidade, de outro o fervor nas orações; num observava a ausência de cólera, noutro a bondade; atentava num enquanto vigiava, noutro enquanto se aplicava ao estudo; admirava um pela resistência, outro pelos jejuns e por dormir no chão; de um reparava na mansidão, de outro na longanimidade; e de todos juntos notava a piedade para com Cristo e o amor de uns pelos outros. E, assim repleto, voltava ao seu lugar de ascese; ali, reunindo em si o que recebera de cada um, esforçava-se por mostrar em si mesmo as virtudes de todos. Com os da sua idade não era porfiado, a não ser apenas para não parecer inferior a eles no que é melhor; e fazia isso de modo a não magoar ninguém, antes de modo que também eles se alegravam com ele. Todos os da aldeia, pois, e os amigos do bem com quem tinha trato, vendo-o assim, chamavam-no amado de Deus; e uns o acolhiam como filho, outros como irmão.
5 Mas o diabo, que odeia o bem e é invejoso, não suportou ver num jovem tal propósito. Antes, o que tem por costume fazer, põe-se a fazê-lo também contra este: primeiro tentava afastá-lo da ascese, sugerindo-lhe a lembrança dos bens, o cuidado da irmã, os laços de família, o amor ao dinheiro, o amor à glória, o prazer variado da comida e as outras comodidades da vida, e por fim a aspereza da virtude e o grande trabalho que ela custa; punha-lhe também diante dos olhos a fraqueza do corpo e a longa duração do tempo. Numa palavra, levantou-lhe na mente uma grande poeira de pensamentos, querendo apartá-lo da reta resolução. Mas, quando o inimigo se viu fraco diante do propósito de Antão, e mais ainda derrubado pela firmeza dele, revirado pela sua grande fé e caído pelas suas orações contínuas, então, confiando nas suas armas que estão “no umbigo do ventre” e gloriando-se nelas (pois essas são as suas primeiras ciladas contra os jovens), investe contra o jovem, perturbando-o de noite e importunando-o de dia, de tal modo que até os que o viam percebiam a luta que se travava entre os dois. Um sugeria pensamentos imundos, o outro os desfazia com orações; um excitava-o, o outro, como que corando, cercava o corpo de muralhas com a fé, as orações e os jejuns; o diabo, o miserável, sujeitava-se até a tomar de noite a figura de mulher e a imitá-la de todos os modos, só para enganar Antão; mas este, pensando em Cristo e na nobreza que por ele recebemos, e considerando a natureza intelectual da alma, apagava a brasa do engano do outro. De novo o inimigo lhe sugeria a doçura do prazer; e ele, como quem se irrita e se aflige, meditava na ameaça do fogo e no tormento do verme; e, opondo-lhe isso, passava ileso. Tudo isso se fazia para vergonha do inimigo. Pois aquele que pensou fazer-se semelhante a Deus era agora escarnecido por um rapaz, e o que se vangloriava contra a carne e o sangue era derrubado por um homem revestido de carne. Pois cooperava com ele o Senhor, que por nós se revestiu de carne e deu ao corpo a vitória sobre o diabo, de modo que cada um dos que verdadeiramente combatem pode dizer: “Não eu, mas a graça de Deus comigo.”
6 Por fim, como o dragão nem com isso conseguiu derrubar Antão, e se via, ao contrário, expulso do seu coração, rangendo os dentes, como está escrito, e como fora de si, tal qual é na mente, tal se lhe mostra depois também na aparência: um menino negro. E, como que prostrado, já não o assaltava com pensamentos (pois o astuto tinha sido expulso), mas, usando agora de voz humana, dizia: “Muitos enganei e a muitíssimos derrubei; mas agora, ao investir contra ti e contra os teus trabalhos como contra muitos outros, fiquei sem forças.” Antão então perguntou: “Quem és tu, que me falas assim?” E logo ele soltou estes gritos lastimosos: “Eu sou o amigo da fornicação; eu tomei a meu cargo as ciladas que a ela conduzem e as suas excitações contra os jovens, e me chamam espírito de fornicação. A quantos que queriam ser castos enganei! A quantos continentes demovi com minhas excitações! Eu sou aquele por cuja causa o profeta censura os que caíram, dizendo: ‘Fostes extraviados por um espírito de fornicação’; pois foi por mim que eles tropeçaram. Eu sou o que tantas vezes te importunou e tantas vezes foi derrotado por ti.” Antão deu graças ao Senhor e, cobrando ânimo contra ele, disse-lhe: “Então és bem desprezível: és negro na mente e fraco como um menino. Já não tenho preocupação nenhuma contigo: ‘O Senhor é meu auxílio, e eu olharei do alto os meus inimigos’.” Ouvindo isso, o negro fugiu logo, encolhido de medo diante daquelas palavras, e temendo até aproximar-se do homem.
7 Este foi o primeiro combate de Antão contra o diabo; ou antes, também este feito foi, em Antão, obra do Salvador, que condenou o pecado na carne, para que a justiça da lei se cumprisse em nós, que não andamos segundo a carne, mas segundo o espírito. Mas nem Antão, por estar prostrado o demônio, se descuidou dali em diante e se desleixou, nem o inimigo, por ter sido vencido, deixou de armar ciladas. Andava de novo em volta, como um leão, buscando algum pretexto contra ele. Mas Antão, tendo aprendido das Escrituras que são muitas as astúcias do inimigo, aplicava-se com ardor à ascese, considerando que, se ele não pudera enganar seu coração pelo prazer do corpo, certamente tentaria armar-lhe cilada por outro meio; pois o demônio ama o pecado. Por isso, cada vez mais castigava o corpo e o reduzia à servidão, para não acontecer que, vencedor em umas coisas, fosse arrastado em outras. Resolve, pois, acostumar-se a um regime mais duro. Muitos se admiravam, mas ele suportava o trabalho com facilidade; pois o ardor da alma, perseverando longo tempo, produzira nele um bom hábito, de modo que, recebendo dos outros uma pequena ocasião, mostrava nisso grande empenho. Vigiava tanto que muitas vezes passava a noite inteira sem dormir; e, fazendo isso não uma vez, mas muitíssimas, causava admiração. Comia uma vez por dia, depois do pôr do sol; às vezes de dois em dois dias, e muitas vezes só de quatro em quatro tomava alimento. Seu alimento era pão e sal; a bebida, só água. De carne e de vinho é escusado até falar, pois nem entre os outros homens zelosos se encontrava tal coisa. Para dormir bastava-lhe uma esteira de junco; mas na maior parte das vezes deitava-se na terra nua. Recusava ungir-se com óleo, dizendo que convém mais aos jovens praticar a ascese com ardor e não buscar o que amolece o corpo, mas acostumá-lo aos trabalhos, pensando na palavra do Apóstolo: “Quando estou fraco, então sou forte.” Pois dizia que o vigor da alma é forte quando os prazeres do corpo estão enfraquecidos. E era verdadeiramente admirável também este seu modo de pensar: não achava que se devesse medir pelo tempo o caminho da virtude, nem o retiro empreendido por ela, mas pelo desejo e pela resolução. Ele, pelo menos, não se lembrava do tempo passado; mas cada dia, como quem está começando a ascese, punha maior esforço em progredir, repetindo-se continuamente a palavra de Paulo: “Esquecendo o que fica para trás e lançando-me para o que está à frente”; e lembrando-se também da voz do profeta Elias, que diz: “Vive o Senhor, em cuja presença hoje estou.” Pois observava que, ao dizer “hoje”, Elias não contava o tempo passado; mas, como quem está sempre lançando um começo, cada dia se esforçava por apresentar-se tal como convém aparecer diante de Deus: puro de coração e pronto a obedecer à vontade dele, e a nenhuma outra. E dizia consigo que o asceta deve sempre aprender a sua própria vida no modo de viver do grande Elias, como num espelho.
8 Tendo-se assim cingido com firmeza, Antão partiu para os sepulcros que ficavam longe da aldeia; encarregou um dos conhecidos de lhe trazer pão a intervalos de muitos dias, entrou num dos sepulcros e, depois que o outro fechou a porta sobre ele, ficou lá dentro sozinho. Então o inimigo, não suportando isso, e temendo até que pouco a pouco ele enchesse também o deserto com a ascese, veio uma noite com uma multidão de demônios e o moeu de pancadas de tal modo que ele ficou estendido no chão, sem voz, de tanta dor; pois afirmava que as dores tinham sido tão violentas que, dizia, golpes dados por homens nunca poderiam causar tal tormento. Mas, pela providência de Deus (pois o Senhor não despreza os que nele esperam), no dia seguinte chega o conhecido trazendo-lhe os pães; abre a porta e, vendo-o estendido no chão como morto, toma-o nos braços, leva-o à igreja da aldeia e o deita no chão. Muitos dos parentes e os da aldeia sentaram-se em volta de Antão, como junto de um morto. Pela meia-noite, Antão voltou a si e despertou; e, vendo todos dormindo e só o conhecido acordado, fez-lhe sinal que viesse até ele e pediu-lhe que o tomasse de novo e o levasse para os sepulcros, sem acordar ninguém.
9 Foi, pois, levado pelo homem, e, fechada a porta como de costume, estava de novo sozinho lá dentro. Não podia ficar de pé, por causa dos golpes, mas orava deitado. E, depois da oração, dizia em alta voz: “Aqui estou eu, Antão; não fujo de vossos golpes. Ainda que me deis mais, nada me separará do amor de Cristo.” Depois cantava também: “Ainda que um exército se ponha em linha contra mim, meu coração não temerá.” Assim pensava e falava o asceta. Mas o inimigo que odeia o bem, admirado de que, mesmo depois dos golpes, ele tivesse ousado voltar, convocou os seus cães e, rebentando de raiva, disse: “Vedes que nem com o espírito de fornicação nem com golpes o fizemos parar; ao contrário, ainda se atreve contra nós. Ataquemo-lo de outro modo.” É fácil ao diabo tomar formas para fazer o mal. Então, de noite, fazem tal estrondo que todo aquele lugar parecia tremer; e os demônios, como que rompendo as quatro paredes da pequena casa, pareciam irromper por elas, transformados em aparições de feras e de répteis; e logo o lugar ficou cheio de aparições de leões, ursos, leopardos, touros, e de serpentes, áspides, escorpiões e lobos. E cada um deles se movia segundo a figura que tinha. O leão rugia, querendo lançar-se sobre ele; o touro parecia investir com os chifres; a serpente rastejava sem chegar até ele; e o lobo arremetia, mas era contido; e, de todas aquelas aparições juntas, terríveis eram os ruídos e cruéis os furores. Antão, açoitado e aguilhoado por elas, sentia uma dor do corpo ainda mais terrível; mas jazia imperturbável, e ainda mais vigilante na alma; gemia pela dor do corpo, mas, sóbrio no pensamento e como que zombando, dizia: “Se houvesse em vós algum poder, bastaria que viesse um só de vós; mas, como o Senhor vos tirou as forças, por isso tentais de algum modo meter medo pelo número; sinal da vossa fraqueza é imitardes as formas dos animais sem razão.” E, cheio de confiança, dizia ainda: “Se podeis e recebestes poder contra mim, não tardeis: atacai! Mas, se não podeis, por que vos agitais em vão? Pois a fé em nosso Senhor é para nós selo e muralha de segurança.” Depois de muitas tentativas, rangiam os dentes contra ele, porque zombavam antes de si mesmos, e não dele.
10 Mas o Senhor, também nesta hora, não se esqueceu do combate de Antão; antes, veio em seu socorro. Erguendo os olhos, ele viu o teto como que se abrir e um raio de luz descer até ele. Os demônios desapareceram de repente, a dor do corpo cessou logo, e a casa estava de novo inteira. Antão, sentindo o socorro, respirando mais livremente e aliviado das dores, dirigiu à visão que lhe aparecera esta súplica: “Onde estavas? Por que não apareceste desde o começo, para fazer cessar as minhas dores?” E veio a ele uma voz: “Antão, eu estava aqui, mas esperava para ver o teu combate. Já que resististe e não foste vencido, serei sempre o teu auxílio e farei que teu nome seja conhecido por toda parte.” Ouvindo isso, levantou-se e pôs-se a orar; e ganhou tanta força que sentiu ter agora no corpo mais vigor do que antes tinha. Tinha então cerca de trinta e cinco anos.
11 No dia seguinte, saiu ainda mais ardente no serviço de Deus e, indo ter com aquele velho de outrora, pediu-lhe que fosse morar com ele no deserto. Como este recusou, por causa da idade e porque ainda não havia tal costume, partiu ele mesmo, sem demora, para a montanha. Mas de novo o inimigo, vendo o seu zelo e querendo impedi-lo, pôs-lhe no caminho a aparência de um grande prato de prata. Antão, percebendo o artifício do que odeia o bem, parou e, olhando o prato, desmascarou o diabo que nele estava, dizendo: “De onde vem um prato no deserto? Este caminho não é batido, nem há aqui rastro de ninguém que tenha passado; se tivesse caído, não poderia passar despercebido, sendo tão grande. E quem o perdesse, voltando e procurando, o teria achado, por ser deserto o lugar. Isto é artifício do diabo. Não impedirás com isto o meu ardor, diabo. Vá isto contigo para a perdição!” E, dizendo Antão isto, aquilo se desvaneceu como fumaça diante do fogo.
12 Depois, seguindo adiante, viu de novo, já não uma aparência, mas ouro verdadeiro jogado no caminho. Se foi o inimigo que o mostrou, ou se alguma força superior exercitava o atleta e mostrava ao diabo que ele nem das riquezas verdadeiras fazia caso, nem ele o contou nem nós o soubemos; só sabemos que era ouro o que aparecia. Antão admirou-se da quantidade, mas, como quem salta por cima de um fogo, passou adiante sem sequer se voltar; e apressou-se correndo tanto que o lugar se escondeu e sumiu de sua vista. Redobrando cada vez mais o seu propósito, partiu para a montanha. E, achando do outro lado do rio um forte abandonado, cheio de répteis por causa do tempo, mudou-se para lá e passou a morar nele. Os répteis, como se alguém os perseguisse, retiraram-se logo; ele, tapando a entrada e guardando pães para seis meses (assim fazem os tebanos, e muitas vezes os pães se conservam sem estragar um ano inteiro), e tendo água lá dentro, como quem se recolhe num santuário, ficou ali dentro sozinho, sem sair ele mesmo e sem ver nenhum dos que vinham. Passou assim muito tempo em ascese, recebendo os pães só duas vezes por ano, do alto, pelo teto.
13 Os conhecidos que vinham vê-lo, como ele não os deixava entrar, passavam muitas vezes dias e noites do lado de fora e ouviam lá dentro como que multidões que faziam tumulto e estrondo, soltavam gritos lastimosos e clamavam: “Sai do que é nosso! Que tens tu com o deserto? Não aguentarás as nossas ciladas.” A princípio, os de fora pensavam que fossem alguns homens lutando com ele, e que tivessem entrado por escadas até onde ele estava; mas, quando, espiando por uma fresta, não viram ninguém, então concluíram que eram demônios e, cheios de medo, chamaram Antão. Ele os ouvia, a eles, mais do que se preocupava com aqueles. Chegando perto da porta, exortava aqueles homens a se retirarem e não terem medo; pois dizia que é assim que os demônios produzem aparições contra os medrosos. “Vós, pois, selai-vos e ide confiantes; e deixai que estes zombem de si mesmos.” Eles então partiam, protegidos como por muralha pelo sinal da cruz. Ele ficava, e nenhum mal recebia deles, nem se cansava de combater; pois as visões do alto, que lhe eram concedidas cada vez mais, e a fraqueza dos inimigos davam-lhe grande descanso dos trabalhos e o dispunham a um ardor maior. Os conhecidos vinham com frequência, pensando achá-lo morto, e o ouviam cantar: “Levante-se Deus, e sejam dispersos os seus inimigos, e fujam de sua face os que o odeiam. Como se desvanece a fumaça, desvaneçam-se; como a cera se derrete diante do fogo, assim pereçam os pecadores diante da face de Deus”; e ainda: “Todas as nações me cercaram, e em nome do Senhor eu as repeli.”
14 Perto de vinte anos passou assim, em ascese, sozinho, sem sair e sem ser visto com frequência por ninguém. Depois disso, como muitos o desejavam e queriam imitar a sua ascese, vieram outros conhecidos que derrubaram a porta à força e a arrancaram; e Antão saiu, como de um santuário, iniciado nos mistérios e cheio de Deus; e então, pela primeira vez, apareceu fora do forte aos que tinham vindo ter com ele. Eles, quando o viram, ficaram admirados, vendo que seu corpo conservava o mesmo estado, nem engordado, como de quem não se exercita, nem emagrecido, como de quem jejua e luta com demônios: era tal qual o conheciam antes do retiro. E o estado da alma, por sua vez, era puro: nem estava contraído como pela tristeza, nem dissipado pelo prazer, nem dominado pelo riso ou pelo abatimento; pois nem se perturbou ao ver a multidão, nem se alegrou por ser saudado por tantos; mas estava inteiramente equilibrado, como quem é governado pela razão e se mantém firme no estado conforme à natureza. Muitos dos presentes que sofriam no corpo, o Senhor os curou por meio dele, e a outros purificou de demônios. E dava a Antão graça no falar; e assim consolava muitos que estavam tristes e reconciliava em amizade outros que estavam em discórdia, repetindo a todos que nada do mundo se preferisse ao amor de Cristo. E, falando-lhes e exortando-os a lembrar-se dos bens futuros e do amor de Deus para com os homens, que se manifestou para conosco, “ele que não poupou o próprio Filho, mas o entregou por todos nós”, persuadiu muitos a abraçar a vida solitária. E assim, daí em diante, surgiram mosteiros também nas montanhas, e o deserto fez-se cidade, povoado de monges que tinham saído de suas casas e se inscrito na cidadania do céu.
15 Quando teve de atravessar o canal do Arsinoíta (a necessidade era a visita aos irmãos), o canal estava cheio de crocodilos. E, apenas tendo orado, entrou nele, ele e todos os que o acompanhavam, e passaram sem dano. Voltando ao mosteiro, continuou os mesmos trabalhos, austeros e vigorosos. E, conversando continuamente, aumentava o ardor dos que já eram monges e movia a maior parte dos outros ao amor da ascese; e logo, porque a sua palavra os atraía, surgiram muitíssimos mosteiros, e a todos ele guiava como pai.
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