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16–43

O discurso aos monges

16 Certo dia, pois, ele saiu; e, como todos os monges tinham vindo ter com ele e lhe pediam para ouvir dele uma palavra, disse-lhes em língua egípcia o seguinte: As Escrituras bastam para o ensino; mas é bom que nos exortemos uns aos outros na fé e nos unjamos com palavras. Vós, pois, como filhos, trazei ao pai e dizei-lhe o que sabeis; e eu, como mais velho que vós em idade, vos comunico o que sei e o que experimentei. Seja, antes de tudo, comum a todos este empenho: tendo começado, não afrouxar nem desanimar nos trabalhos, nem dizer: “Já faz muito tempo que estamos na ascese”; mas antes, como quem começa a cada dia, aumentemos o nosso ardor. Pois toda a vida dos homens é brevíssima, medida com os séculos futuros, de modo que todo o nosso tempo nada é diante da vida eterna. No mundo, toda coisa se vende pelo que vale, e cada um troca igual por igual; mas a promessa da vida eterna se compra por bem pouco. Pois está escrito: “Os dias da nossa vida, neles, são setenta anos; e, para os robustos, oitenta anos; e o que passa disso é fadiga e dor.” Se, pois, perseverarmos na ascese todos os oitenta anos, ou até cem, não reinaremos um tempo igual aos cem anos, mas, em vez dos cem, reinaremos pelos séculos dos séculos; e, tendo combatido na terra, não recebemos a herança na terra, mas temos as promessas nos céus; e, depondo o corpo corruptível, recebemo-lo de volta incorruptível.

17 Por isso, filhos, não desanimemos, nem pensemos que já faz muito tempo, ou que fazemos algo grande. Pois “os sofrimentos do tempo presente não têm proporção com a glória que há de ser revelada em nós”. Nem, olhando para o mundo, pensemos ter renunciado a grandes coisas; pois a terra inteira é pequeníssima em comparação com todo o céu. Ainda que fôssemos senhores da terra inteira e renunciássemos à terra inteira, também isso nada valeria diante do reino dos céus. Pois, assim como quem desprezasse uma dracma de cobre para ganhar cem dracmas de ouro, assim quem é senhor da terra inteira e renuncia a ela deixa pouco e recebe cem vezes mais. E, se nem a terra inteira vale o que valem os céus, quem deixou umas poucas aruras, como quem nada deixa, ainda que deixe uma casa ou bastante ouro, não deve vangloriar-se nem entregar-se à acídia. Além disso, devemos considerar que, se não deixarmos essas coisas pela virtude, depois, ao morrer, as deixamos, e muitas vezes a quem não queremos, como lembrou o Eclesiastes. Por que, então, não as deixamos nós pela virtude, para herdarmos também um reino? Por isso, nenhum de nós se deixe tomar pelo desejo de possuir. Pois que ganho há em possuir coisas que nem levamos conosco? Por que não adquirimos antes aquelas que podemos levar conosco, que são a prudência, a justiça, a temperança, a fortaleza, a inteligência, a caridade, o amor aos pobres, a fé em Cristo, a ausência de cólera, a hospitalidade? Se adquirirmos essas coisas, as acharemos lá, à nossa frente, preparando-nos hospedagem na terra dos mansos.

18 Que cada um, pois, também por estas razões, se persuada a não ser negligente; sobretudo se considerar que é servo do Senhor e que deve servir ao seu senhor. Assim como o servo não ousaria dizer: “Como trabalhei ontem, hoje não trabalho”, nem, contando o tempo passado, deixará de trabalhar nos dias seguintes, mas cada dia, como está escrito no Evangelho, mostra o mesmo ardor, para agradar a seu senhor e não correr perigo, assim também nós perseveremos cada dia na ascese, sabendo que, se formos negligentes um só dia, ele não nos perdoará por causa do tempo passado, mas se irritará contra nós por causa da negligência. Assim o ouvimos também em Ezequiel; assim também Judas, por uma só noite, perdeu o trabalho de todo o tempo passado.

19 Apeguemo-nos, pois, filhos, à ascese, e não nos entreguemos à acídia. Pois temos nisto também o Senhor como cooperador, como está escrito: “Com todo aquele que escolhe o bem, Deus coopera para o bem.” E, para não sermos negligentes, é bom meditar a palavra do Apóstolo: “Morro cada dia.” Pois, se também nós vivermos como quem morre cada dia, não pecaremos. O sentido do que foi dito é este: que, ao levantar-nos cada dia, pensemos que não chegaremos até a tarde; e, quando formos dormir, pensemos que não nos levantaremos; pois a nossa vida é incerta por natureza e medida dia a dia pela Providência. Assim dispostos, e vivendo assim cada dia, não pecaremos, nem teremos desejo de coisa alguma, nem guardaremos rancor a ninguém, nem acumularemos tesouros na terra; mas, como quem espera morrer cada dia, ficaremos sem posses e perdoaremos tudo a todos; e ao desejo de mulher ou de outro prazer imundo não nos apegaremos de modo algum, mas lhe voltaremos as costas como coisa passageira, sempre em angústia e tendo diante dos olhos o dia do juízo. Pois o temor maior e a angústia dos tormentos sempre dissolvem a doçura do prazer e reerguem a alma que se inclina.

20 Tendo, pois, começado e já entrado no caminho da virtude, lancemo-nos ainda mais para a frente, para chegarmos ao que está adiante. E ninguém se volte para trás, como a mulher de Ló; sobretudo porque o Senhor disse: “Ninguém que põe a mão no arado e se volta para trás é apto para o reino dos céus.” E voltar-se não é outra coisa senão arrepender-se e tornar a pensar nas coisas do mundo. Não tenhais medo ao ouvir falar de virtude, nem estranheis a palavra; pois ela não está longe de nós, nem se forma fora de nós: a obra está em nós, e a coisa é fácil, contanto que o queiramos. Os gregos viajam para longe e atravessam o mar para aprender as letras; nós, porém, não temos necessidade de viajar para longe por causa do reino dos céus, nem de atravessar o mar por causa da virtude. Pois o Senhor disse de antemão: “O reino dos céus está dentro de vós.” A virtude, portanto, só precisa do nosso querer, visto que está em nós e de nós se forma. Pois a virtude existe quando a alma mantém a sua parte intelectual conforme à natureza. E ela está conforme à natureza quando permanece como foi feita; e foi feita bela e muito reta. Por isso Josué, filho de Num, ao dar ordens ao povo, dizia: “Endireitai o vosso coração para o Senhor, Deus de Israel”; e João: “Fazei retas as vossas veredas.” Pois ser reta a alma é ter a sua parte intelectual conforme à natureza, tal como foi criada. Quando, ao contrário, ela se desvia e se perverte, afastando-se do que é conforme à natureza, então se fala de maldade da alma. A coisa, portanto, não é difícil: se permanecermos como fomos feitos, estamos na virtude; mas, se pensarmos coisas más, somos julgados maus. Se fosse preciso buscar a coisa fora de nós, seria de fato difícil; mas, como está em nós, guardemo-nos dos pensamentos imundos e, como quem recebeu um depósito, guardemos a alma para o Senhor, para que ele reconheça a sua obra, encontrando-a tal como a fez.

21 Seja o nosso combate não deixar que a cólera nos tiranize nem que o desejo nos domine. Pois está escrito: “A ira do homem não realiza a justiça de Deus; e o desejo, tendo concebido, dá à luz o pecado; e o pecado, consumado, gera a morte.” Vivendo assim, sejamos sóbrios e firmes e, como está escrito, guardemos o nosso coração com toda a vigilância. Pois temos inimigos terríveis e astutos, os demônios maus; e contra eles é a nossa luta, como disse o Apóstolo: “Não contra o sangue e a carne, mas contra os principados, contra as potestades, contra os dominadores do mundo destas trevas, contra os espíritos da maldade nas regiões celestes.” Grande é a multidão deles no ar que nos rodeia, e não estão longe de nós; e é grande a diferença que há entre eles. Sobre a natureza deles e a sua diferença haveria muito que dizer, e tal exposição é própria de outros, maiores do que nós; o que agora nos urge e é necessário é só conhecer as astúcias deles contra nós.

22 Saibamos, pois, primeiro isto: os demônios não foram feitos tais como os indica o nome de demônios; pois Deus nada fez de mau. Também eles foram feitos bons; mas, decaídos da sabedoria celeste e, desde então, rolando pela terra, enganaram os gregos com as suas aparições e, por inveja de nós, cristãos, movem tudo, querendo impedir-nos a subida aos céus, para que não subamos nós para o lugar de onde eles caíram. Por isso há necessidade de muita oração e ascese, para que alguém, recebendo pelo Espírito o carisma do discernimento dos espíritos, possa conhecer o que lhes diz respeito: quais deles são menos maus e quais são piores que os outros, a que ocupação cada um se aplica, e como cada um é derrubado e expulso. Pois muitos são os seus ardis e os movimentos de suas ciladas. O bem-aventurado Apóstolo e os que eram como ele conheciam tais coisas, quando diziam: “Pois não ignoramos os seus desígnios”; e nós, pelo que deles experimentamos, devemos instruir-nos uns aos outros a respeito deles. Eu, pois, que tenho em parte experiência deles, vos falo como a filhos.

23 Quando eles veem todos os cristãos, e sobretudo os monges, amantes do trabalho e progredindo, primeiro os atacam e tentam, pondo tropeços junto ao caminho; e os seus tropeços são os maus pensamentos. Mas não devemos temer as suas sugestões; pois com orações, jejuns e a fé no Senhor eles caem logo. Mesmo caídos, porém, não desistem, mas voltam de novo à carga, com astúcia e dolo. Pois, quando não conseguem enganar o coração abertamente e pelo prazer imundo, investem de outro modo: forjando aparições, procuram meter medo, mudando de forma e imitando mulheres, feras, répteis, corpos gigantescos e multidões de soldados. Mas nem assim se devem temer as suas aparições; pois não são nada e desaparecem depressa, sobretudo se alguém se cerca da fé e do sinal da cruz. São audaciosos e muito despudorados. Se também assim são vencidos, investem outra vez de outro modo. Fingem adivinhar e predizer o que há de acontecer dali a dias, e mostram-se altos, até tocar o teto, e de enorme largura, para arrebatar ao menos com tais aparições aqueles que não puderam enganar com os pensamentos. E, se também assim encontram a alma fortificada pela fé e pela esperança do espírito, trazem então o seu chefe.

24 E dizia que muitas vezes eles aparecem tais como o Senhor revelou o diabo a Jó, dizendo: “Os seus olhos são como a aparência da estrela da manhã. De sua boca saem tochas acesas, e espalham-se braseiros de fogo; de suas narinas sai a fumaça de uma fornalha que arde com fogo de carvões. A sua alma são brasas, e uma chama sai de sua boca.” Aparecendo assim, o chefe dos demônios, o astuto, mete medo, como eu disse antes, proferindo palavras soberbas, como de novo o Senhor o pôs a descoberto, dizendo a Jó: “Pois tem o ferro por palha e o bronze como madeira podre; tem o mar como um frasco de unguento, e o tártaro do abismo como um cativo; considerou o abismo como um lugar de passeio”; e pelo profeta: “Disse o inimigo: ‘Perseguirei e alcançarei’”; e ainda por outro: “Tomarei com a mão a terra inteira como um ninho, e como ovos abandonados a recolherei.” Numa palavra, empenham-se em tais fanfarronices e fazem tais promessas, para enganar os que servem a Deus. Mas nem assim nós, os fiéis, devemos temer as suas aparições nem dar atenção às suas palavras. Pois ele mente e não diz absolutamente nada de verdadeiro. De fato, mesmo dizendo tais e tantas coisas e mostrando-se tão atrevido, foi puxado pelo Salvador com o anzol, como um dragão; recebeu, como um animal de carga, o cabresto em volta do focinho; como escravo fugido, foi amarrado pelas narinas com uma argola e teve os lábios furados com um aro. Foi amarrado pelo Senhor como um passarinho, para que zombemos dele; e ele e os demônios que estão com ele foram postos, como escorpiões e serpentes, para serem pisados por nós, cristãos. E sinal disso é o fato de agora levarmos a nossa vida contra ele. Pois aquele que prometia apagar o mar e apoderar-se da terra inteira, eis que agora não pode impedir a vossa ascese, nem sequer a mim, que falo contra ele. Não demos, pois, atenção ao que ele diga (pois mente), nem temamos as suas aparições, que também são falsas. Pois a luz que nelas aparece não é luz verdadeira; antes, eles trazem consigo os prelúdios e as imagens do fogo que lhes está preparado; e é com aquilo em que hão de arder que tentam aterrorizar os homens. De fato, aparecem e logo em seguida desaparecem, sem ter feito mal a nenhum dos fiéis, mas levando consigo a semelhança do fogo que os há de receber. Por isso nem assim convém temê-los; pois, pela graça de Cristo, todas as suas manobras se reduzem a nada.

25 São enganadores e prontos a mudar-se e transformar-se em tudo. Muitas vezes, sem aparecer, fingem salmodiar com cânticos e recitam palavras das Escrituras; às vezes, quando lemos, logo repetem eles, como um eco, muitas vezes o mesmo que se leu; e, quando dormimos, despertam-nos para as orações; e fazem isso continuamente, quase sem nos deixar sequer dormir. Às vezes também, tomando a figura de monges, fingem falar como homens piedosos, para seduzir pela semelhança da figura e depois arrastar para onde querem os que enganaram. Mas não se deve dar-lhes atenção, ainda que despertem para a oração, ainda que aconselhem a não comer absolutamente nada, ainda que finjam acusar-nos e repreender-nos por coisas de que outrora foram nossos cúmplices. Pois não fazem isso por piedade nem por amor da verdade, mas para levar os simples ao desespero, para dizer que a ascese é inútil, para fazer os homens sentirem náusea da vida solitária, como se fosse coisa pesada e penosíssima, e para pôr obstáculos aos que levam a vida contra eles.

26 O profeta enviado pelo Senhor chamava desgraçados a esses tais, dizendo: “Ai de quem dá a beber ao seu próximo uma ruína turva.” Pois tais manobras e pensamentos são a ruína do caminho que leva à virtude. E o próprio Senhor, por si mesmo, embora os demônios dissessem a verdade (pois diziam a verdade: “Tu és o Filho de Deus”), contudo os fazia calar e os impedia de falar, para que não semeassem, junto com a verdade, também a sua própria maldade, e para nos acostumar também a nós a nunca dar atenção a tais seres, ainda que pareçam dizer a verdade; pois não convém que nós, que temos as santas Escrituras e a liberdade que nos vem do Salvador, sejamos ensinados pelo diabo, que não guardou o seu próprio posto, mas passou a pensar umas coisas em lugar de outras. Por isso, mesmo quando ele recita palavras das Escrituras, o Senhor o impede, dizendo: “Ao pecador, porém, disse Deus: ‘Por que narras tu os meus preceitos e tomas a minha aliança em tua boca?’” Pois fazem de tudo: falam, fazem tumulto, fingem e perturbam, para engano dos simples. Fazem estrondos, riem como insensatos e assobiam; e, se ninguém lhes dá atenção, então choram e se lamentam como vencidos.

27 O Senhor, como Deus, fazia calar os demônios; a nós, instruídos pelos santos, convém fazer como eles e imitar a sua coragem. Pois também eles, vendo tais coisas, diziam: “Quando o pecador se levantou diante de mim, emudeci, humilhei-me e calei-me até sobre o bem”; e ainda: “Mas eu, como surdo, não ouvia, e era como mudo que não abre a boca. E tornei-me como homem que não ouve.” Também nós, portanto, nem os escutemos, pois nos são estranhos, nem lhes obedeçamos, ainda que nos despertem para a oração, ainda que falem de jejuns; atendamos antes ao propósito da nossa ascese, e não nos deixemos enganar por eles, que tudo fazem com dolo. Não se deve temê-los, ainda que pareçam atacar, ainda que ameacem de morte; pois são fracos e nada podem, a não ser ameaçar.

28 Já falei disso de passagem; mas agora não se deve hesitar em falar deles mais longamente, pois a lembrança vos será segura. Desde que o Senhor veio habitar entre nós, o inimigo caiu, e as suas forças se enfraqueceram. Por isso, embora nada possa, mesmo assim, como um tirano, ainda caído não sossega, mas ameaça, ao menos com palavras. Considere isto cada um de vós, e poderá desprezar os demônios. Se estivessem presos a corpos como os nossos, poderiam dizer: “Os homens que se escondem, não os encontramos; mas, se os encontramos, fazemos-lhes mal.” E também nós poderíamos, escondendo-nos, escapar-lhes, fechando-lhes as portas. Mas, se não são assim, e podem entrar com as portas fechadas, e estão por todo o ar, eles e o primeiro deles, o diabo; se são malévolos e prontos a fazer mal, e, como disse o Salvador, o diabo, pai da maldade, é homicida desde o princípio; e se, no entanto, nós vivemos agora, e até levamos a vida contra ele, é claro que eles nada podem. Pois nem o lugar os impede de armar ciladas, nem nos veem como amigos seus, para nos pouparem, nem são amigos do bem, para se emendarem; ao contrário, são ainda piores, e nada procuram com tanto afã como fazer mal aos que amam a virtude e servem a Deus. É por nada poderem fazer que nada fazem, a não ser ameaçar; pois, se pudessem, não tardariam, mas fariam logo o mal, tendo para isso a vontade pronta, e sobretudo contra nós. Eis que agora estamos reunidos e falamos contra eles, e eles sabem que, quando nós progredimos, eles se enfraquecem. Se, pois, tivessem poder, não deixariam viver nenhum de nós, cristãos; pois “para o pecador a piedade é abominação”. Mas, como nada podem, ferem-se antes a si mesmos, porque não podem fazer nada do que ameaçam. Depois, também isto se deve considerar, para não os temer: se tivessem o poder, não viriam em multidão, nem produziriam aparições, nem usariam de artifícios mudando de forma; bastaria que viesse um só e fizesse o que pode e quer; sobretudo porque todo aquele que tem o poder não mata com aparições, nem amedronta com multidões, mas usa logo do seu poder como quer. Mas os demônios, nada podendo, brincam como num palco, mudando de formas e amedrontando as crianças com a aparição de multidões e com os seus disfarces; e por isso mesmo devem antes ser desprezados como fracos. O verdadeiro anjo, enviado pelo Senhor contra os assírios, não precisou de multidões, nem de aparições exteriores, nem de estrondos, nem de ruídos; mas usou serenamente do seu poder e matou de uma vez cento e oitenta e cinco mil. Mas demônios que nada podem, como são estes, tentam ao menos amedrontar com aparições.

29 E se alguém pensar no caso de Jó e disser: “Por que, então, o diabo saiu e fez tudo contra ele, despojou-o dos bens, matou-lhe os filhos e o feriu com uma chaga maligna?”, saiba esse tal que não era o diabo quem tinha poder, mas Deus, que lhe entregou Jó para o provar; de fato, não podendo fazer nada, pediu e, tendo recebido, fez. De modo que também por isso o inimigo merece ainda mais desprezo, porque, embora quisesse, nada pôde nem sequer contra um só homem justo; pois, se tivesse podido, não teria pedido; e, pedindo não uma vez, mas duas, mostra-se fraco e sem poder algum. E não admira que nada pudesse contra Jó, quando nem contra os seus rebanhos teria havido destruição, se Deus não o tivesse permitido; ele não tem poder nem sequer sobre porcos; pois, como está escrito no Evangelho, rogavam ao Senhor, dizendo: “Permite-nos ir para os porcos.” E, se nem sobre porcos têm poder, muito menos o têm sobre os homens, feitos à imagem de Deus.

30 Só a Deus, portanto, se deve temer; a eles, desprezá-los e não os temer de modo algum. Antes, quanto mais fazem essas coisas, tanto mais intensifiquemos nós a ascese contra eles. Pois grande arma contra eles é a vida reta e a fé em Deus. Temem, de fato, nos ascetas, o jejum, a vigília, as orações, a mansidão, a quietude, o desapego do dinheiro, a ausência de vanglória, a humildade, o amor aos pobres, as esmolas, a ausência de cólera e, sobretudo, a piedade para com Cristo. É por isso que fazem de tudo: para não terem quem os pise. Pois conhecem a graça que o Salvador deu aos fiéis contra eles, quando diz: “Eis que vos dei poder de pisar serpentes e escorpiões e toda a força do inimigo.”

31 Se, pois, fingirem também predizer, ninguém faça caso. Pois muitas vezes anunciam, com dias de antecedência, os irmãos que hão de chegar dali a dias; e eles de fato chegam. Mas fazem isso não por cuidado com os que os ouvem, e sim para persuadi-los a crer neles e então, tendo-os em seu poder, perdê-los; por isso não se deve dar-lhes atenção; antes, quando falam, é preciso rebatê-los, pois não precisamos deles. Que há de admirável em que, tendo corpos mais sutis que os dos homens, e tendo visto os que começaram a viagem, se adiantem correndo e os anunciem? Isso também o prediz quem vai montado a cavalo, adiantando-se ao que viaja a pé; de modo que nem nisso se deve admirá-los. Pois não conhecem de antemão nada do que ainda não aconteceu; só Deus é quem conhece todas as coisas antes que existam. Eles, como ladrões, correm na frente e anunciam o que veem. A quantos estarão agora anunciando as nossas coisas, que nos reunimos e conversamos contra eles, antes que algum de nós saia daqui e o conte! Mas isso pode fazê-lo também um menino que corre depressa, adiantando-se ao que vai devagar. O que quero dizer é isto: se alguém começa a caminhar desde a Tebaida, ou de alguma outra região, antes que comece a caminhar, eles não sabem se caminhará; mas, vendo-o a caminho, correm na frente e o anunciam antes que ele chegue; e assim acontece que os viajantes chegam dias depois. Mas muitas vezes os viajantes voltam atrás, e eles mentiram.

32 Assim também, às vezes, tagarelam sobre a água do rio; pois, tendo visto as muitas chuvas que caem nas regiões da Etiópia, e sabendo que delas vem a cheia do rio, correm na frente e o dizem antes que a água chegue ao Egito. Isso também os homens o diriam, se pudessem correr tanto quanto eles. E, assim como a sentinela de Davi, subindo a um lugar alto, via antes do que quem ficava embaixo aquele que vinha, e o próprio que corria na frente anunciava antes dos outros não o que não tinha acontecido, mas o que já estava a caminho e acontecendo, assim também eles escolhem cansar-se e o anunciam a outros, só para enganar. Mas, se a Providência, nesse meio-tempo, decidir alguma coisa sobre as águas ou sobre os viajantes (pois ela pode), os demônios mentiram, e os que lhes deram atenção foram enganados.

33 Foi assim que surgiram os oráculos dos gregos, e assim foram eles outrora enganados pelos demônios; mas assim também cessou, daí em diante, o engano. Pois veio o Senhor, que reduziu à impotência os demônios, e com eles a sua astúcia. Pois nada sabem por si mesmos; mas, como ladrões, o que veem em outros, isso vão espalhando; e são antes adivinhadores por conjetura do que conhecedores do futuro.

34 Por isso, ainda que alguma vez digam coisas verdadeiras desse tipo, nem assim alguém os admire. Pois também os médicos, que têm experiência das doenças, quando observam em outros a mesma doença, muitas vezes predizem o que vai acontecer, conjeturando pelo costume. Também os pilotos e os lavradores, olhando, por costume, o estado do céu, predizem se haverá tempestade ou bom tempo; e nem por isso alguém diria que predizem por inspiração divina, mas pela experiência e pelo costume. Por isso, se também os demônios às vezes dizem as mesmas coisas por conjetura, ninguém os admire por isso nem lhes dê atenção. Pois que utilidade há para os que ouvem em saber por eles, com dias de antecedência, o que vai acontecer? Ou que interesse há em conhecer tais coisas, ainda que se conheçam de verdade? Pois isso não produz a virtude, nem é de modo algum sinal de bom caráter. Nenhum de nós é julgado por não saber, e ninguém é chamado bem-aventurado porque aprendeu e soube; mas é nisto que está o juízo de cada um: se guardou a fé e observou sinceramente os mandamentos. Por isso não se deve fazer muito caso dessas coisas, nem praticar a ascese e trabalhar por causa delas, para conhecer o futuro, mas para agradar a Deus vivendo bem. E deve-se orar, não para conhecer o futuro, nem pedir isso como recompensa da ascese, mas para que o Senhor seja nosso cooperador na vitória contra o diabo. E, se de todo nos importa também conhecer o futuro, sejamos puros de espírito. Pois eu creio que a alma pura de todos os lados, e firme no estado conforme à natureza, pode, tornando-se clarividente, ver mais coisas e mais longe que os demônios, tendo o Senhor que lhe faz revelações; tal era a alma de Eliseu, que via o que se passava com Giezi e contemplava as forças que estavam a seu lado.

35 Quando, pois, vierem a vós de noite e quiserem falar do futuro, ou disserem: “Nós somos os anjos”, não lhes deis atenção, pois mentem. E, se louvarem a vossa ascese e vos chamarem bem-aventurados, não os escuteis nem façais caso algum deles; antes, selai-vos a vós mesmos e a casa, e orai; e vereis como desaparecem; pois são covardes e temem muito o sinal da cruz do Senhor, visto que nela o Salvador os despojou e os expôs ao escárnio. E, se ficarem ali com mais despudor, dançando e mudando de aparência em suas aparições, não vos acovardeis, não vos encolhais de medo, nem lhes deis atenção como se fossem bons; pois é fácil e possível distinguir a presença dos bons e a dos maus, quando Deus o concede. A visão dos santos não é perturbada. Pois não disputará, nem gritará, nem alguém ouvirá a voz deles. Ela se dá tão serena e mansamente que logo nascem na alma alegria, júbilo e confiança; pois com eles está o Senhor, que é a nossa alegria e o poder de Deus Pai; e os pensamentos da alma permanecem sem perturbação e sem ondas, de modo que, iluminada por essa visão, ela contempla os que lhe aparecem. Pois entra nela o desejo das coisas divinas e futuras, e quereria de todo unir-se a eles, se pudesse partir com eles. E, se alguns, como homens que são, temerem a visão dos bons, os que aparecem tiram-lhes logo o medo com amor, como fez Gabriel com Zacarias, e o anjo que apareceu às mulheres no divino sepulcro, e o que disse aos pastores, no Evangelho: “Não temais.” Pois o temor deles não nasce da covardia da alma, mas do reconhecimento da presença de seres superiores. Assim é, pois, a visão dos santos.

36 Mas a incursão e a aparição dos maus é perturbada, com estrondo, barulho e gritaria, como seria a agitação de rapazes mal-educados e de salteadores. Disso nascem logo o medo na alma, a perturbação e a desordem dos pensamentos, o abatimento, o ódio aos ascetas, a acídia, a tristeza, a lembrança dos parentes e o medo da morte; e depois o desejo do mal, o descaso pela virtude e a instabilidade do caráter. Quando, pois, virdes alguma coisa e tiverdes medo, se o medo vos for logo tirado e em seu lugar vier uma alegria inefável, bom ânimo, confiança, refrigério, serenidade dos pensamentos e tudo o mais que eu disse antes, a coragem e o amor a Deus, tende confiança e orai; pois a alegria e a serenidade da alma mostram a santidade daquele que está presente. Assim Abraão, vendo o Senhor, exultou; e João, à voz de Maria, Mãe de Deus, saltou de alegria. Mas se, ao aparecerem alguns, houver perturbação, estrondo de fora, aparato mundano, ameaça de morte e tudo o que eu disse antes, sabei que é um ataque dos maus.

37 E seja também isto um sinal para vós: quando a alma continua com medo, é a presença dos inimigos. Pois os demônios não tiram o medo dos que o sentem, como fez o grande arcanjo Gabriel com Maria e Zacarias, e o que apareceu às mulheres no sepulcro; ao contrário, quando os veem com medo, aumentam as aparições, para os aterrorizar ainda mais; e depois, investindo, zombam deles, dizendo: “Prostrai-vos e adorai.” Assim enganaram os gregos; pois assim foram tidos entre eles por deuses, com nome falso. Mas a nós o Senhor não deixou ser enganados pelo diabo, quando, diante das aparições que este lhe apresentava, o repreendeu, dizendo: “Vai-te para trás de mim, Satanás; pois está escrito: ‘Adorarás o Senhor teu Deus, e só a ele servirás.’” Por isso, seja o astuto cada vez mais desprezado por nós; pois o que o Senhor disse, fê-lo por nós, para que também os demônios, ouvindo de nós tais palavras, sejam derrubados por causa do Senhor, que com elas os repreendeu.

38 Não devemos vangloriar-nos de expulsar demônios, nem ensoberbecer-nos com as curas; nem admirar só quem expulsa demônios e desprezar quem não os expulsa; mas cada um observe atentamente a ascese de cada qual, e ou a imite e emule, ou a corrija. Pois operar sinais não é coisa nossa: é obra do Salvador. Por isso dizia aos discípulos: “Não vos alegreis porque os demônios vos estão sujeitos, mas porque os vossos nomes estão escritos nos céus.” Pois estarem escritos no céu os nomes é testemunho da nossa virtude e da nossa vida; mas expulsar demônios é graça do Salvador, que a concedeu. Por isso, aos que se gloriavam não na virtude, mas nos sinais, e diziam: “Senhor, não foi em teu nome que expulsamos demônios, e em teu nome fizemos muitos milagres?”, ele respondeu: “Em verdade vos digo: não vos conheço.” Pois o Senhor não conhece os caminhos dos ímpios. Em suma, deve-se orar, como eu disse antes, para receber o carisma do discernimento dos espíritos, para que, como está escrito, não creiamos em todo espírito.

39 Eu queria calar-me e nada dizer de mim mesmo, contentando-me só com isto; mas, para que não penseis que digo estas coisas à toa, e para que creiais que as conto por experiência e conforme a verdade, por isso, ainda que me torne como um insensato, o Senhor que me ouve conhece a pureza da minha consciência, e sabe que não é por mim, mas por amor de vós e para vos animar, que vos conto as manobras dos demônios que vi. Quantas vezes me chamaram bem-aventurado, e eu os amaldiçoei em nome do Senhor! Quantas vezes fizeram predições sobre a água do rio, e eu lhes dizia: “E a vós que vos importa isso?” Vieram uma vez ameaçando e me cercaram como soldados de armadura completa. Outra vez encheram a casa de cavalos, feras e répteis; e eu cantava: “Estes em carros, e aqueles em cavalos; mas nós seremos engrandecidos no nome do Senhor nosso Deus”; e, pelas orações, eles foram derrotados pelo Senhor. Vieram uma vez na escuridão, com uma aparência de luz, e diziam: “Viemos trazer-te luz, Antão.” Mas eu, fechando os olhos, orava, e logo se apagou a luz dos ímpios. Poucos meses depois, vieram como que salmodiando e recitando palavras das Escrituras; mas eu, “como surdo, não ouvia”. Uma vez sacudiram o mosteiro; mas eu orava, permanecendo imóvel no espírito. Depois disso voltaram de novo, batendo palmas, assobiando e dançando. Mas, como eu orava e, deitado, salmodiava comigo mesmo, logo começaram a lamentar-se e a chorar, como quem perdeu as forças; e eu glorificava o Senhor, que abateu e expôs ao escárnio a audácia e a loucura deles.

40 Apareceu uma vez um demônio muito alto, com aparato, e ousou dizer: “Eu sou o poder de Deus”, e: “Eu sou a providência; que queres que te conceda?” Mas eu então soprei contra ele com mais força, pronunciando o nome de Cristo, e tentei golpeá-lo; e pareceu-me que o tinha golpeado, e logo ele, tão grande como era, desapareceu com todos os seus demônios ao nome de Cristo. Uma vez, quando eu jejuava, veio o astuto como um monge, com uma aparência de pães, e me aconselhava, dizendo: “Come e descansa de tantos trabalhos; também tu és homem, e vais adoecer.” Mas eu, percebendo a sua astúcia, levantei-me para orar. E ele não o suportou: desvaneceu-se, e foi visto saindo pela porta como fumaça. Quantas vezes, no deserto, me mostrou uma aparência de ouro, só para que eu o tocasse e olhasse! Mas eu cantava salmos contra ele, e ele se derretia. Muitas vezes me moeram de pancadas, e eu dizia: “Nada me separará do amor de Cristo”; e depois eram antes eles que se espancavam uns aos outros. Mas não era eu quem os fazia parar e os reduzia à impotência; era o Senhor, que diz: “Eu via Satanás cair do céu como um relâmpago.” E eu, filhos, lembrando-me da palavra do Apóstolo, apliquei estas coisas a mim mesmo, para que aprendais a não desanimar na ascese e a não temer as aparições do diabo e dos seus demônios. E, já que me fiz insensato ao contar isto, recebei também o que segue, para vossa segurança e para não terdes medo; e crede-me, pois não minto.

41 Certa vez alguém bateu à minha porta, no mosteiro; e, saindo, vi alguém que se mostrava alto e de grande estatura. Perguntei-lhe: “Quem és tu?”, e ele disse: “Eu sou Satanás.” E, como eu lhe dissesse: “Então, por que estás aqui?”, ele respondia: “Por que os monges e todos os outros cristãos me censuram em vão? Por que me amaldiçoam a toda hora?” Eu lhe disse: “E por que os importunas?” Ele disse: “Não sou eu quem os importuna, mas eles se perturbam a si mesmos; pois eu fiquei fraco. Não leram que ‘as espadas do inimigo falharam para sempre, e destruíste as cidades’? Já não tenho lugar, nem dardo, nem cidade. Por toda parte há cristãos; e agora até o deserto está cheio de monges. Que vigiem a si mesmos e não me amaldiçoem em vão.” Então eu, admirado da graça do Senhor, disse-lhe: “Tu, que és sempre mentiroso e nunca dizes a verdade, desta vez, mesmo sem querer, disseste a verdade; pois Cristo, ao vir, te deixou fraco e, derrubando-te, te despojou.” Ele, ouvindo o nome do Salvador e não suportando a queimadura que dele vinha, desapareceu.

42 Se, pois, até o próprio diabo confessa que nada pode, devemos desprezar inteiramente a ele e aos seus demônios. O inimigo, com os seus cães, tem todas essas astúcias; mas nós, conhecendo a fraqueza deles, podemos desprezá-los. Assim, pois, não nos deixemos abater de antemão no espírito, nem alimentemos na alma pensamentos de medo, nem forjemos temores para nós mesmos, dizendo: “Não venha um demônio derrubar-me; não me levante e me jogue no chão; ou não me apareça de repente e me perturbe.” Não pensemos de modo algum em tais coisas, nem nos entristeçamos como quem se perde; tenhamos antes confiança e alegremo-nos sempre, como quem é salvo; e consideremos na alma que o Senhor está conosco, ele que os pôs em fuga e os reduziu à impotência. Pensemos e meditemos sempre que, estando o Senhor conosco, os inimigos nada nos farão. Pois, quando vêm, tais como nos encontram, tais se fazem também eles para conosco; e, conforme os pensamentos que encontram em nós, assim também eles moldam as suas aparições. Se, pois, nos encontram medrosos e perturbados, logo, como salteadores que acham o lugar sem guarda, invadem-no; e o que nós pensamos por nós mesmos, isso eles fazem, e com acréscimo. Pois, se nos veem com temor e medo, aumentam ainda mais o medo com as aparições e as ameaças, e assim a pobre alma é atormentada por elas. Mas, se nos encontram alegres no Senhor, pensando nos bens futuros, meditando nas coisas do Senhor e refletindo que tudo está na mão do Senhor, e que um demônio nada pode contra um cristão, nem tem poder algum sobre ninguém, vendo a alma fortificada com tais pensamentos, retiram-se envergonhados. Assim o inimigo, vendo Jó cercado de proteção, retirou-se dele; mas, achando Judas despido dessas defesas, fê-lo cativo. Portanto, se queremos desprezar o inimigo, pensemos sempre nas coisas do Senhor, e que a alma se alegre sempre na esperança; e veremos que os jogos dos demônios são como fumaça, e que eles antes fogem do que perseguem. Pois são, como eu disse antes, muito covardes, sempre à espera do fogo que lhes está preparado.

43 E, para não os temerdes, tende também convosco este sinal seguro: quando houver alguma aparição, não te deixes abater de antemão pelo medo; mas, seja qual for, pergunta primeiro com confiança: “Quem és tu, e de onde vens?” E, se for visão de santos, eles te darão plena certeza e mudarão o teu medo em alegria; mas, se for diabólica, logo perde as forças, vendo o espírito firme; pois o simples fato de perguntar: “Quem és, e de onde vens?” é prova de serenidade. Assim o filho de Num, perguntando, ficou sabendo; e o inimigo não passou despercebido a Daniel, que perguntou.

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