Parte I
Chapitre III — Que la dévotion est convenable à toutes sortes de vocations et professions
Capítulo III — Que a devoção convém a toda espécie de vocações e profissões
I.3 Dieu commanda en la création aux plantes de porter leurs fruits, chacune « selon son genre » : ainsi commande-t-il aux chrétiens, qui sont les plantes vivantes de son Église, qu’ils produisent des fruits de dévotion, un chacun selon sa qualité et vacation. La dévotion doit être différemment exercée par le gentilhomme, par l’artisan, par le valet, par le prince, par la veuve, par la fille, par la mariée ; et non seulement cela, mais il faut accommoder la pratique de la dévotion aux forces, aux affaires et aux devoirs de chaque particulier. Je vous prie, Philothée, serait-il à propos que l’évêque voulût être solitaire comme les chartreux ? Et si les mariés ne voulaient rien amasser non plus que les capucins, si l’artisan était tout le jour à l’église comme le religieux, et le religieux toujours exposé à toutes sortes de rencontres pour le service du prochain, comme l’évêque, cette dévotion ne serait-elle pas ridicule, déréglée et insupportable ? Cette faute néanmoins arrive bien souvent, et le monde qui ne discerne pas, ou ne veut pas discerner, entre la dévotion et l’indiscrétion de ceux qui pensent être dévots, murmure et blâme la dévotion, laquelle ne peut mais de ces désordres.
I.3 Deus mandou, na criação, às plantas que dessem os seus frutos, cada uma «segundo o seu gênero»: assim manda ele aos cristãos, que são as plantas vivas da sua Igreja, que produzam frutos de devoção, cada um segundo a sua qualidade e vocação. A devoção deve ser exercida de modo diferente pelo fidalgo, pelo artesão, pelo criado, pelo príncipe, pela viúva, pela donzela, pela casada; e não somente isso, mas é preciso acomodar a prática da devoção às forças, aos negócios e aos deveres de cada um em particular. Peço-vos, Filoteia: seria conveniente que o bispo quisesse ser solitário como os cartuxos? E, se os casados não quisessem juntar nada, como os capuchinhos, se o artesão estivesse o dia inteiro na igreja como o religioso, e o religioso sempre exposto a toda espécie de encontros para o serviço do próximo, como o bispo, essa devoção não seria ridícula, desregrada e insuportável? Essa falta, no entanto, acontece muitíssimas vezes, e o mundo, que não distingue, ou não quer distinguir, entre a devoção e a indiscrição dos que pensam ser devotos, murmura e censura a devoção, que não tem culpa nenhuma dessas desordens.
Non, Philothée, la dévotion ne gâte rien quand elle est vraie, ains elle perfectionne tout, et lorsqu’elle se rend contraire à la légitime vacation de quelqu’un, elle est sans doute fausse. L’abeille, dit Aristote, tire son miel des fleurs sans les intéresser, les laissant entières et fraîches comme elle les a trouvées ; mais la vraie dévotion fait encore mieux, car non seulement elle ne gâte nulle sorte de vocation ni d’affaires, ains au contraire elle les orne et embellit. Toutes sortes de pierreries jetées dedans le miel en deviennent plus éclatantes, chacune selon sa couleur, et chacun devient plus agréable en sa vocation la conjoignant à la dévotion : le soin de la famille en est rendu paisible, l’amour du mari et de la femme plus sincère, le service du prince plus fidèle, et toutes sortes d’occupations plus suaves et amiables.
Não, Filoteia, a devoção não estraga nada quando é verdadeira; antes, aperfeiçoa tudo, e, quando se torna contrária à legítima vocação de alguém, é sem dúvida falsa. A abelha, diz Aristóteles, tira o seu mel das flores sem as danificar, deixando-as inteiras e frescas como as encontrou; mas a verdadeira devoção faz ainda melhor, porque não somente não estraga nenhuma espécie de vocação nem de negócios, mas, ao contrário, os orna e embeleza. Pedras preciosas de toda espécie, lançadas no mel, ficam mais brilhantes, cada uma segundo a sua cor, e cada um se torna mais agradável na sua vocação, unindo-a à devoção: o cuidado da família torna-se com isso tranquilo, o amor do marido e da mulher, mais sincero, o serviço do príncipe, mais fiel, e toda espécie de ocupações, mais suaves e amáveis.
C’est une erreur, ains une hérésie, de vouloir bannir la vie dévote de la compagnie des soldats, de la boutique des artisans, de la cour des princes, du ménage des gens mariés. Il est vrai, Philothée, que la dévotion purement contemplative, monastique et religieuse ne peut être exercée en ces vacations-là ; mais aussi, outre ces trois sortes de dévotion, il y en a plusieurs autres, propres à perfectionner ceux qui vivent ès états séculiers. Abraham, Isaac et Jacob, David, Job, Tobie, Sara, Rébecca et Judith en font foi pour l’ancien testament ; et quant au nouveau, saint Joseph, Lydia et saint Crépin furent parfaitement dévots en leurs boutiques ; sainte Anne, sainte Marthe, sainte Monique, Aquila, Priscilla, en leurs ménages ; Cornélius, saint Sébastien, saint Maurice, parmi les armes ; Constantin, Hélène, saint Louis, le bienheureux Amé, saint Edouard, en leurs trônes. Il est même arrivé que plusieurs ont perdu la perfection en la solitude, qui est néanmoins si désirable pour la perfection, et l’ont conservée parmi la multitude, qui semble si peu favorable à la perfection : Loth, dit saint Grégoire, qui fut si chaste en la ville, se souilla en la solitude. Où que nous soyons, nous pouvons et devons aspirer à la vie parfaite.
É um erro, ou antes uma heresia, querer banir a vida devota da companhia dos soldados, da oficina dos artesãos, da corte dos príncipes, do lar das pessoas casadas. É verdade, Filoteia, que a devoção puramente contemplativa, monástica e religiosa não pode ser exercida nessas vocações; mas também, além dessas três espécies de devoção, há várias outras, próprias para aperfeiçoar os que vivem nos estados seculares. Abraão, Isaac e Jacó, Davi, Jó, Tobias, Sara, Rebeca e Judite dão fé disso no Antigo Testamento; e, quanto ao Novo, são José, Lídia e são Crispim foram perfeitamente devotos nas suas oficinas; santa Ana, santa Marta, santa Mônica, Áquila, Priscila, nos seus lares; Cornélio, são Sebastião, são Maurício, entre as armas; Constantino, Helena, são Luís, o bem-aventurado Amadeu, santo Eduardo, nos seus tronos. Aconteceu até que muitos perderam a perfeição na solidão, que é, no entanto, tão desejável para a perfeição, e a conservaram no meio da multidão, que parece tão pouco favorável à perfeição: Ló, diz são Gregório, que foi tão casto na cidade, manchou-se na solidão. Onde quer que estejamos, podemos e devemos aspirar à vida perfeita.