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Poemas e Canções

Manhã de sol

Na sombra do murtal, cujas flores a leve
Aragem desgrinalda em turbilhões de neve,
Ela vagueia a sós... E como vai formosa!
Tem como uma frescura orvalhada de rosa
Na face... Em seu sorriso amanhece. É tão brando
O seu pisar, que o chão o acolhe suspirando.
— Eis o sol! — canta uma ave ao fitar-lhe a retina...
E por onde ela passa a sombra se ilumina.
Descuidada e feliz, entre as árvores ela
Erra à toa. Sorrindo, as aves interpela.
Corre de flor em flor, salta de mouta em mouta
Ora entre a ramaria o olhar travesso afouta
E tenta surpreender o segredo de um ninho;
Ora cisma, fitando o vago desalinho
Em que toda palpita, em que se entrega toda,
A folhagem que o vento acaricia... Em roda,
Em tudo, vê um ar festivo de noivado,
Cada flor abre ao sol o cálice orvalhado,
Úmido como um lábio em que pousasse um beijo...
E o seu passo é sutil, e erra como um adejo.
Surpreendo-a. Ela estaca, assustada, indecisa;
Mal com os pezinhos nus o chão musgoso pisa
Num ar de juriti prestes a abrir o voo.
Tomo-lhe as mãos; baixinho, ao seu ouvido, entoo
A atrevida canção do amor que tudo pede,
Do amor que não é mais do que um furor de sede,
Que é o amor afinal...
Toda a sua alma escuta,
Todo o seu corpo treme. Amante e irresoluta,
Quer ceder, e resiste; abrasa, e não se atreve...
E de súbito, como a corça arisca e leve
Que sente o caçador e ouve silvar a bala,
Ela das minhas mãos bruscamente resvala,
Salta, foge-me...
Em vão. Salto-lhe em pós; não tomba
Mais faminto um abutre em cima duma pomba.
Ela, sem rumo, vai e erra ao acaso, numa
Vaga trepidação, como ao vento uma pluma.
E o seu passo recorta o chão, que abaixa e alteia
Aqui um charco, adiante um cômoro de areia.
Aos poucos, a carreira afrouxa. Em cada passo
Mais e mais ela mostra a angústia do cansaço,
Arfa-lhe o seio: perde o fôlego; tropeça;
Para...
Alcança-a meu beijo. O noivado começa.

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