Alma em Flor
Alma em Flor
Primeiro canto
1900
Primœvo flore juventæ — Virgilio
I
Foi... Não me lembra bem que idade eu tinha,
Se quinze anos ou mais;
Creio que só quinze anos... Foi aí fora
Numa fazenda antiga,
Com o seu engenho e as alas
De rústicas senzalas,
Seu extenso terreiro,
Seu campo verde e verdes canaviais.
Era... Também o mês esquece agora
À infiel memória minha!
Maio... Junho... não sei se Julho diga,
Julho ou Agosto. Sei que havia o cheiro
Do sassafrás em flor;
Sei que era o céu azul, e a mesma cor
Sorria num gradil de trepadeiras;
Sei que era ao tempo em que na serra, além,
Cor de rosa se tornam as paineiras
De tanta flor que cor de rosa têm.
II
Sei que um perfume intenso em tudo havia.
Era, enfeitada e nova, a laranjeira,
E o pomar verde pela vez primeira
Florido; era na agreste serrania,
Com os botões de ouro e a espata luzidia
Rachando ao sol, a tropical palmeira;
Era o sertão, era a floresta inteira
Que em corimbos, festões e luz se abria.
Sei que um frêmito de asas multicores
Se ouvia. Eram insetos aos cardumes
A rebolir, fosforescendo no ar.
Era a Criação toda, aves e flores,
Flores e sol, e astros e vaga-lumes
A amar... a amar... E que ânsia em mim de amar
III
Que ânsia de amar! E tudo a amar me ensina;
A fecunda lição decoro atento.
Já com liames de fogo ao pensamento
Incoercível desejo ata e domina.
Em vão procuro espairecer ao vento,
Olhando o céu, os morros, a campina.
Escalda-me a cabeça e desatina,
Bate-me o coração como em tormento.
E à noite, ai! como em mal sofreado anseio,
Por ela, a ainda velada, a misteriosa
Mulher, que nem conheço, aflito chamo!
E sorrindo-me, ardente e vaporosa,
Sinto-a vir (vem em sonho) une-me ao seio,
Junta o rosto ao meu rosto e diz-me:—Eu te amo!
IV
Vem!—Se ao meu peito alguém colasse o ouvido,
Isto ouviria então como uma prece
Lá sussurrando:—Sonho meu querido,
Vem! abre as asas! mostra-te! aparece!
Queima-me a fronte, a vista se amortece,
Aflui-me o sangue ao cérebro incendido.
Oh! vem! não tardes, que me desfalece
O coração gemido por gemido.
Vem, que eu não posso mais. Olha, o que vejo
Em derredor de mim, é tudo afeto,
Amor, núpcias, carícia, enlace, beijo...
Paira por tudo uma volúpia infinda,
Une-se flor a flor, inseto a inseto...
E eu até quando hei de esperar ainda?
V
Por esse tempo sabedor um dia
Sou (conversava-se ao jantar) que entrando
O mês próximo, e acaso melhorando
O estado do caminho, ela viria.
Ela! ia vê-la, enfim! vê-la! mas quando,
Se a estrada um pantanal me parecia,
E inesgotáveis os beirais chorando
'Stavam! E se chovia! se chovia!
Nunca aos pés de um altar, de Deus à face,
Eu rezei como então para que aquela
Chuva contínua, e temporal passasse,
E para que outro céu, manhã mais bela
Viesse, e eu pudesse ver quando apontasse
Na estrada, ao fim do campo, o vulto dela.
VI
Mas continuava ininterruptamente
A chuva. Em lamaçais com as enxurradas
E em peraus fundos mudam-se as estradas.
Fala-se de barreiras e de enchente.
Pelas vidraças largas e molhadas
Eu, preso em casa, olho estupidamente.
Raros viajantes na campina em frente
Passam com as botas altas enlameadas.
Quando o lampião se acende e em torno à mesa
Ficamos todos, que aborrecimento!
Bocejo, prostra-me uma inércia infinda...
E aos que entendem de tempo, chuva e vento,
Ouço, esmagado de mortal tristeza,
Que a lua é nova, e vai chover ainda.
VII
Que noite! O coração mal o contenho,
Salta, pula-me, pulsa e o peito abala.
Só, com os meus planos vãos que no ar desenho,
Passeio ao longo da comprida sala.
Dorme a fazenda. Nem uma senzala
Vozeia aberta. Emudeceu o engenho,
E no roer surdo com que o milho rala,
O moinho monótono e roufenho.
Ah! dorme tudo, e eu velo e sofro! E louca,
Ó alma apaixonada, este impassível
Céu, por que o tempo aclare, aflita imprecas;
E a responder-te ouves apenas, rouca,
Crebra, arrastada, em seu ran-ran horrível,
A algazarra dos sapos nas charnecas.
VIII
Efeito foi, talvez, da prece ardente
Que de meus lábios para o espaço voava:
Na luz do sol o claro azul se lava,
Traja-se de ouro a serrania em frente.
Mas se inda chove! mas se de repente
Se torna o tempo como há pouco estava!
Não o permitireis, não (murmurava,
Olhando o céu) ó Deus onipotente!
Deixai-a vir! mandai que estes caminhos
Depressa enxuguem. Para recebê-la
Floreai os campos, rumorai os ninhos!
Entre aromas e luz e entre harmonia,
Deus de bondade, é que eu desejo vê-la,
Como vejo este sol que me alumia.
IX
Graças! podia, enfim, sair lá fora
A ver quando ela vinha,
Quando, no fim da linha
Do campo e a limitá-lo,
A cancela sonora
Batesse, dando entrada ao seu cavalo.
Imaginava como montaria,
O seu porte real
Na sela, o farfalhar de seu roupão;
Brincando à ventania
O véu, e no estalido com que instiga
A marcha do animal,
O chicotinho a lhe tremer na mão.
Imaginava-a muito minha amiga,
Muito achegada a mim, quando o momento
Viesse de maior intimidade,
E se nos fosse todo o acanhamento
Próprio de sua idade e minha idade.
Imaginava-a...
X
Foi, talvez, nessa hora
—Como em chão virgem nascem num só dia
Duas flores irmãs, que, flor e flor,
Ao tempo em que acordava para o Amor,
Eu acordei também para a Poesia.
XI
Chegou, mas tarde. Eu despertei, sentindo
Aos animais o tropear lá fora,
E os passos apressados àquela hora
De pessoas de casa a porta abrindo.
Soergui-me na cama... Ó sonho lindo,
Tardavas tanto!—E alucinado, agora
Que ela até à sala vem, fico a sonora
Triunfal entrada ao seu roupão ouvindo.
Dela essa noite apenas pude ansioso
A voz lhe conhecer que sorvo atento,
E o rugir do arrastar de seus vestidos;
E dessa música ao divino acento
Readormeço, trêmulo de gozo,
Ébrios de ouvi-la e cheios os ouvidos.
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