Por Amor de uma Lágrima
Por amor de uma lágrima
A Affonso Celso Junior
1895
I
Sob as copadas árvores me assento
E a fumar passo o dia.
Sussurra a voz do vento
Na ramaria.
As folhas verdes agitadas se olham
Com um modo singular,
E algumas que se esfolham
Vêm me falar.
E o vento passa. E as folhas, descobrindo
O meu grande tormento,
Afastam-se, fugindo
Com o vento.
II
Dem-me estas velhas árvores alento
E ensinem-me a viver,
Ensinem-me a viver sem o tormento
Do pensamento...
Ó árvores, dizei: que hei de fazer
Para essa imagem pérfida esquecer?
III
Que desgraçados amores
Os meus amores!.. Porém,
Esta lembrança a que vem?
'Stamos no meio das flores.
Nasce a manhã, o sol nasce...
Ah! que figura faço eu,
Sozinho, diante do céu,
Com estas lágrimas na face!
IV
Porque, se te esqueci, sonho contigo?
E, se também me esqueces,
Porque, sorrindo-me e com rosto amigo,
Em sonhos me apareces?
V
Portas de ouro e marfim dos sonhos meus, cuidado!
Não a deixeis entrar!
Cerrai-vos, que dormir preciso, sossegado,
Longe de seu olhar!
A noite é quente. No ar há uma volúpia estranha.
Exala o ativo aroma o cacto da montanha.
Das virações ao leve e perfumado açoite,
Une-se inseto a inseto... Oh! tentações da noite!
Se ela vem! se através das cousas se insinua,
Neste silêncio, sob o resplendor da lua....
Portas de ouro e marfim dos sonhos meus, cuidado!
Não a deixeis entrar!
Cerrai-vos, que dormir preciso, sossegado,
Longe de seu olhar!
VI
Tu para mim estás morta.
Que importa que o coração
Proteste, diga que não,
Que te ama ainda! que importa!
Tu para mim estás morta!
Mal abafando um lamento,
Eu mesmo a cova te abri
E ao fundo lá te desci...
Gemem ciprestes ao vento,
E dormes no esquecimento...
Olho-te como a um fantasma;
Vejo-te os lábios em flor,
E o seio ansiando de amor;
Mas nada me entusiasma.
Olho-te como a um fantasma.
Sombra de um túmulo vinda
Eis tudo o que agora és...
E já rojei a teus pés
E ardi na paixão infinda...
E eras tão linda! tão linda!
Tu para mim estás morta.
Que importa que o coração
Proteste, diga que não,
Que te ama ainda! que importa!
Tu para mim estás morta.
VII
Eras a nuvem que me transportava
Da terra ao céu, nuvem rosada e linda;
Eras a estrela que me alumiava
O caminho da vida... Oh! dor infinda!
A nuvem se desfez, levou-a o vento,
A estrela se apagou no firmamento!
VIII
IX
A maior aspiração
Que eu tinha na minha vida
Era ver a tua mão
Unida à minha, para sempre unida...
A tua mão!
Nem quero me lembrar como formosa
Era essa leve pétala de rosa!
X
Hão de dizer de ti: — Coitada!
Pobre mulher!
De mim — perverso! hão de dizer...
Mas, minha extinta bem-amada,
O que entre nós se deu... sossega,
Nunca a razão
Há de saber a gente cega...
Basta que a saiba o coração.
XI
Costumava procurar-te
Quando — alma da dor escrava,
Em tudo o que me cercava
Não via consolação;
Mas depois de ver-te, os olhos
Ficavam-me cheios d'água,
Sentia não sei que mágoa...
Porque te buscava então?
XII
Custou-me tanto esquecê-la,
Mas esqueci-a, esqueci-a!
Todo o dia a pensar nela,
Em minha imaginação,
Julgava que enlouquecesse;
E ao meu coração dizia
Todo o dia:
— Acalma-te, coração!
O coração satisfeito,
Como se nada tivesse,
Volta à vida no meu peito
E palpita, alegre e são;
Mas eu em suas pancadas
Ouço às vezes, contrafeito,
Umas queixas abafadas
E surda lamentação...
Não te entendo, coração!
XIII
Disseram-me que choraste
E iam me dar a razão,
Quando a porta do salão
Se abriu e súbito entraste.
Disfarçando o que sentias,
Chegaste, bondoso o olhar,
E eu vi, eu pude notar
Que uma lágrima trazias.
Inda uma lágrima, presa
Ao canto dos olhos teus,
Como uma estrela nos céus,
Equilibrava-se acesa.
De deixar-te tão sentida
Talvez que tivesse dó,
E, pobre lágrima! só,
Ali ficara escondida.
E cintilava e tremia,
E tremia... e a cintilar
E a tremer, sempre a me olhar,
Parece que me dizia:
— « Tem pena dela! serena
A sua pobre razão!
Eu vim de seu coração...
Tem pena dela, tem pena! »
XIV
Razão de sobra me assiste
P'ra aborrecer-te hoje em dia;
Mas essa lágrima triste...
Ah! se não fosse essa lágrima,
Quanto te aborreceria!
A ofensa que me fizeste
Esquecer quem poderia?
Que punhalada me deste!
Ah! se não fosse essa lágrima,
Eu não te perdoaria!
O ódio ferve-me n'alma
E irrompe em surda agonia,
Irrompe e ruge... e se acalma...
Ah! se não fosse essa lágrima,
Cem anos te odiaria!
XV
Tenho enfermo o coração.
Ninguém ao seu lado. Apenas
Fala-lhe, aumentando as penas,
De quando em quando, a razão:
— « Pobre louco, sofre agora
Por tão insensato amor! »
O coração ouve e chora,
Estorcendo-se de dor.
— « Dize: de que te valeu
Rebelde e orgulhoso seres!
Vê lá o que são mulheres!
Quem as compreende sou eu!
Pobre louco, sofre agora,
Por tão insensato amor! »
O coração ouve e chora,
Estorcendo-se de dor...
E, estorcendo-se de dor,
O coração adormece;
E ela em sonhos aparece
E jura-lhe o mesmo amor.
XVI
Ah! meu amor, meu amor!
Já te supunha desfeito,
Que horror!
E inda te sinto no peito!
Vou novamente lutar
Contra ti, de qualquer modo;
Ou te matarei de todo
Ou bem tu me hás de matar!
Que luta vai ser travada!
Como o lenhador que investe
A uma árvore imensa e agreste,
Secularmente enraizada:
Tenho, estranho lenhador,
De também deitar por terra
O mal que meu peito encerra...
Meu amor, meu pobre amor!
Hei de vencer ou morrer!
Vencer, sim! hei de, suponho,
Vencer!
Os sonhos, sonho por sonho,
E ilusão por ilusão
As ilusões que alimento
E ajudam o sofrimento,
Matarei no coração.
E no coração não há de
Ficar do antigo desejo
Nada, nem mesmo um lampejo,
Uma réstia de saudade!
Será seu interior
O interior de casa morta:
Pesadas trancas à porta...
Tudo morto meu amor!
Ah! meu amor, meu amor!
Já te supunha desfeito,
Que horror!
E inda te sinto no peito!
Vou novamente lutar
Contra ti, de qualquer modo;
Ou te matarei de todo,
Ou bem tu me hás de matar!
XVII
Enganas-te, se crês que em raiva choro,
Que, aos céus os braços trêmulos alçando,
Conto daqui tua perversidade;
Que daqui, destes ermos onde moro,
Colérico, quem foste recordando,
Meus prantos a engolir, vingança brade.
Não! a indignação minha é já passada;
Durou pouco, desfez-se ao mesmo instante
Em que teu mudo padecer senti...
Para me desarmar a alma irritada
Foi bastante uma lágrima, bastante
O pingo d'água que em teus olhos vi.
Descansa, pois, fica tranquila e calma.
Nenhum mau sentimento me consome,
Nenhum rancor meu coração abriga;
Serena teu espírito. Em minh'alma
Se não há bençãos p'ra louvar teu nome,
Ódios também não há com que o maldiga.
Esquece-me (outro tanto não te importe
Possa eu fazer) Tudo entre nós é findo,
Tudo, menos em mim não sei que mágoa...
Deixa que a sofra, deixa que a suporte,
Vendo, vendo de novo, reluzindo
Nos olhos teus aquele pingo d'água.
XVIII
Esqueci tudo. Dize-me, entretanto:
Viste céu mais azul que aquele céu?
Oh! que noite! por entre as ramarias
Do jardim verde, sob o leve manto
Tu me sorrias...
Porque lembrar esse sorriso teu!
Foi essa a noite em que ambos nos juramos
Eterno amor. À ponta de teu véu
Vinham brincar as auras fugidias;
Ouviam-nos de cima os altos ramos...
E tu mentias,
Tu mentias, olhando aquele céu!
XIX
Não dirá minha boca
(Odeio queixas e ais)
Não dirá minha boca
Jamais
O que entre nós se deu!
Foi uma história louca
O que entre nós se deu...
Cala-te, minha boca!
Tudo, ó cabeça louca!
Morreu!
XX
Tudo, tudo acabado,
Como um fatal noivado!
Tudo afinal desfeito...
E inda bem!
Nem mesmo uma saudade
O coração me invade,
Nem um pesar ao peito
Me vem!
Que horrível pesadelo,
Após sonho tão belo!
Mas tudo evaporou-se
Prestes no ar!
Tudo acabado, tudo!
E tanto amei, contudo!
E era um prazer tão doce
Amar!
XXI
Entre nós ambos tudo está desfeito.
A causa... no meu peito
Cale-se o coração.
Não tiveste razão... Mas também dizes
Que eu não tive razão...
Que infelizes que somos! que infelizes!
XXII
Amamo-nos um dia,
Um só, na vida! Amamo-nos: nascia
A manhã fulgurante;
Amamo-nos: brilhava no levante
O sol; na plaga infinda
O sol brilhava: amamo-nos ainda;
Caia o sol no oceano:
Ardia em nós o mesmo afeto insano;
Mas veio a noite e, unidos
Nossos rostos, os braços enlaçados,
Num longo e último abraço confundidos,
Morremos abraçados!