Sonetos e Poemas
I
A galera de Cleópatra
Rio abaixo lá vai, de proa ao sol do Egito,
A galera real. Cinquenta remos lestos
Impelem-na. O verão faz rutilar, aos estos
Da luz, de um céu de cobre o horizonte infinito.
Pesa, qual se de chumbo, o ar circunstante. Uns restos
De templo ora se vêm, lembrando um velho rito;
E inda um pilono erguido, uma Esfinge em granito
De empoeirada figura e taciturnos gestos.
De quando em quando à flor do Nilo se destaca,
D'água morna emergindo, a escama de um fakaka;
Um branco íbis revoa entre os juncais. Entanto,
N'uma sorte de naos Cleópatra procura
Su'alma distrair, prestando ouvido ao canto
Que a escrava Charmion tristemente murmura.