Sonetos e Poemas
XX
Ao luar de Verona
Ao Dr. Henrique Baptista
I
Desceu da escada o mármore polido
Porque, enfim, minha voz de medo a medo
Chamava-a, como um pássaro perdido
Outro chama da sombra do arvoredo.
Da lua de ouro o disco umedecido
Se empinava no céu. Tristonho e quedo
Era tudo em redor; somente ouvido
Fazia-se das auras o segredo.
Veio. Assustada, pálida, distante
Olhou-me e estremeceu, talvez no instante
Em que eu também de longe estremecia.
E, ah! se um canto entre as ramas que oscilavam
Então se ouviu, não era a cotovia...
Eram dous corações que se apertavam.
II
Entrara. Ainda suponho a portinhola
Ouvir nos quícios rápida impelida
Fechar-se. E nada mais! Da umedecida
Noite o aroma balsâmico se evola.
Da casa o mudo aspecto me consola:
Muda como eu, parede a prumo erguida,
Como eu, sem conto estrelas, dolorida,
Estás a rever de um céu que as desenrola.
Largas janelas, peitoris altivos,
Colunatas da açoteia alevantada,
Como eu, quedais lá em cima pensativos.
Porta onde ela passou, que m'a encobriste,
Também tu, qual me vês, estás fechada,
E imota, e muda, e solitária, e triste!