Sonetos e Poemas
XXII
Nox
Chove, embrusca-se o tempo, e quando ao frio
Fuzil, trovão, nos côncavos ribombas
Do céu, vejo passar, como n'um rio
Nadantes monstros, nuvens de éreas trombas.
Só d'esta alcova, cárcere sombrio,
Onde entre morte e amor, minh'alma, tombas,
Meu ser, meu coração, meus ais lhe envio,
Por céu de bronze solitárias pombas.
Não vê-la, e o tempo ver, que mais redobra
Sombra e noite que envolve a natureza,
Plena d'água, de horror, de medo e espanto!
Abro a janela: e a escuridão que sobra
Das cousas, me enche o peito de tristeza,
E, em fina chuva, os olhos meus de pranto.