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Idílios e Cantatas

A Nereida

À Foz do Mandovi sereno, e brando
Alicuto infeliz estava um dia
Amorosos queixumes espalhando:
Alicuto, o marítimo, que ardia
Por Glaura, das Nereidas a mais bela,
Que em vítrea lapa sem pesar o ouvia.
Doudo pela não ver, doudo por vê-la,
E nas algozas pedras debruçado,
Bradava d'esta sorte ali por ela:
«Tanto, oh Glaura cruel, te desagrado,
Que não deixas por mim, nem um momento,
As crespas ondas, o licor salgado!
Olha que em ais, e em lágrimas o alento
Me vai fugindo, que a mordaz saudade
Me rói continuamente o sofrimento:
Olha que lá me tens a liberdade,
E que mais te não peço em recompensa,
Que um ar benigno, uns longes de piedade.
É digno tanto amor de tanta ofensa?
Ah! Que me faz odioso? A má figura?
O pé gretado, a pálida presença?
Queres só quem te iguale em formosura:
Pois sabe, que jamais verás objeto,
Que possa merecer tua ternura.
Não devo à Natureza um grato aspecto,
É verdade: o meu mérito consiste
N'um claro entendimento, e puro afeto.
Se a compasso da lira o verso triste
Entoo alguma vez, ao som canoro,
Ninguém, não sendo tu, ninguém resiste:
Que provas mais fiéis de que te adoro,
Que este incansável pranto? E finalmente,
Do meu mister que requisito ignoro?
Na manobra quem é mais diligente
Que eu? Quem sabe deitar melhor o prumo?
Quem no leme, e n'agulha é mais ciente?
A carga no porão com regra arrumo,
Sei pôr à capa, sei mandar à via,
Como qualquer piloto, e dar o rumo:
Sei como hei de correr com travessia,
E pela balestilha, ou pelo outante
Achar a latitude ao meio-dia:
Sei qual estrela é fixa, e qual errante;
A Lebre, o Cisne, a Lira, a Nau conheço,
E Órion, tão fatal ao navegante.
Talvez muito vaidoso te pareço;
Mas devo assim falar, para que vejas
Que teus desdéns, oh ninfa, não mereço;
E se o que digo é pouco, e mais desejas,
Irei, pois, outros méritos ganhando,
Até que tu de mim contente estejas:
Tentarei, por fazer teu gênio brando,
Nunca tentados, nunca vistos mares,
Os meus antepassados imitando;
E agora, se teus olhos singulares
Puseres à flor d'água um só minuto,
Dando-me alívio, serenando os ares:
Quero fazer-te um mimo... ai! Já te escuto,
Ouço-te já dizer, que não cobiças
Donativos do mísero Alicuto;
Mas apesar de tantas injustiças,
Hei de cada vez mais mostrar-te o fogo,
Que tu com teu rigor n'esta alma atiças.
Ah! Vem, Nereida, amanse-te o meu rogo:
Se te enoja o falar, e estar comigo,
Não fales, aparece, e vai-te logo.
Topamos há três dias o inimigo
N'altura de Chaul; travamos guerra.
Sentiu do português o esforço antigo;
Fez-se uma presa, repartiu-se em terra
Inda agora: o quinhão, que lá me deram,
Este pintado cofrezinho encerra.
Nas mãos um colar de ouro me puseram
Sobre aljôfares mil: vi que, por belos,
Do teu colo, e teus pulsos dignos eram.
O mesmo foi pegar-lhes, que trazê-los
Para of'erecer-tos: vem (não é desdouro)
Vem aceitá-los, ou, sequer, vem vê-los;
Mas que precisas tu, se és um tesouro,
Se tens mais lindas pérolas na boca,
Se tens ouro melhor nas tranças de ouro!
Loucas ideias! Esperança louca!
Louco Amor! E of'reci com voz ousada
À filha de Nereu cousa tão pouca!
Mas se nem alma tão fiel te agrada,
Um pobre, oh Glaura, um triste marinheiro
Que mais te há de of'erecer? Não tem mais nada.
Já te entendo (ai de mim!). Bem sei, primeiro
Qual Glauco irei vagar no pego vasto
Sobre as espaldas de delfim ligeiro;
Pelo embate das ondas será gasto
Do soberbo Netuno o gran tridente,
E os palmares às focas darão pasto;
Lá no oposto horizonte do ocidente
O dia apontará, primeiro (ah dura!)
Que tu me atendas uma vez somente.
Eu que fiz, miserável! Por ventura
Amor é crime? Para ser querida
Não criou Jove eterno a formosura?
A que foi como eu, no mar nascida,
Por vencer Juno, e Palas na beleza
Mais que Palas, e Juno é aplaudida.
Porém se ainda assim supões vileza
Sofreres que um mortal se afoute a amar-te,
Sendo tu de mais alta natureza;
E se levas a mal o importunar-te
Com ais um coração desesperado,
Tirana, porque tardas em vingar-te?
Pune, pune este amor desatinado;
Eu não fujo, aqui estou; das ondas saia
Tragador jacaré, por ti mandado.
Sobre mim de repente o monstro caia:
Folgarás, vendo o sangue de meu peito
Às golfadas saltar, tingindo a praia;
E eu morrerei contente, e satisfeito
Por escapar de estado tão penoso,
E inda mais por morrer por teu respeito.
Só temo que o meu caso lastimoso,
O deplorável fim de meus amores
Faça teu nome a todos horroroso.»
Prosseguiria o triste em vãos clamores,
Mas viu, que para ali vinham remando
Nos lúbricos sadós os pescadores,
E ficou mudo, para o mar olhando.

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