Sonetos
Nos torpes laços de beleza impura
Nos torpes laços de beleza impura
Jazem meu coração, meu pensamento;
E forçada ao servil abatimento
Contra os sentidos a razão murmura:
Eu, que outr'ora incensava a formosura
Das que enfeita o pudor gentil, e isento,
A já corrupta ideia hoje apascento
Nos falsos mimos de venal ternura:
Se a vejo repartir prazer, e agrado
Àquele, a este, co'a fatal certeza
Fermenta o vil desejo envenenado;
Céus! Quem me reduziu a tal baixeza?
Quem tão cego me pôs?... Ah! Foi meu fado,
Que tanto não podia a natureza.