Sonetos
Tão negro como a turba que vagueia
Tão negro como a turba que vagueia
Na margem do Cocito à luz odioso,
O bando de meus males espantoso
No sepulcro dos vivos me rodeia,
Qual me abala os fuzis da vil cadeia,
Qual me afigura um rótulo afrontoso,
Qual me diz (ai de mim!) que fui ditoso;
Eis d'eles todos o que mais me anseia.
Tomara reforçar pela amargura
Meu ser, que anda c'os fados tão malquisto,
Tomara costumar-me à desventura:
Esquecer-me do bem gozado, e visto,
Pensar que a natureza é sempre escura,
Que é geral este horror, que o mundo é isto.