Segundos Cantos
Harmonias
PRIMEIRA VOZ
Quando da noite o denso véu se estende,
E a lua pálida entre nuvens gira,
E d'entre as folhas uma voz suspira
Que diz prazer e doce amor acende;
Ao par amante, que inocente vaga,
Sou eu quem prendo em derretido enleio:
— Secura ou fogo, ardente devaneio
Que dá morte a paixão, que sempre afaga.
Sou eu que às folhas dou verter frescura,
Que falo amores no correr da brisa,
Que deslustro a paixão sincera e lisa
Aos torpes beijos da lascívia impura.
SEGUNDA VOZ
Eu porém no peito amante
Sou quem fomento a paixão,
Amor na virgem mimosa,
No jovem dedicação.
Quem lhes ponho risos n'alma,
Quem falo nos sonhos seus,
Prazeres envergonhados
— Tão puros, como nos céus.
Dou-lhes palavras sublimes
Nunca ouvidas por ninguém,
E gozos nunca fruídos,
E prantos que fazem bem.
Dou-lhes extremos e arrojos,
Talvez subida amargura,
Donde sai o amor provado
À prova da desventura.
PRIMEIRA VOZ
E eu dessa paixão nobre e singela,
Ao meigo jovem, que de amor doudeja,
Dou-lhe fastio, que nem mais deseja
Que apagar seu amor nos braços dela.
Eu os conduzo mais falaz que humano,
Ela adornada de beleza e flores,
Ele mal sufocando seus ardores,
Ao templo, onde os espera o desengano!
Satisfeita a paixão vem logo o frio,
O gelo que lhes lavra em todo o peito;
Já se nota um defeito, e outro defeito,
Já cresce em ambos o pesar tardio!
SEGUNDA VOZ
Talvez ambos se arrependem,
Talvez se nota o defeito,
Tardo pesar que não dura
Talvez lavra em todo o peito;
Mas soando a desventura
Dar-lhes-ei nova paixão,
— Centelha viva, não cinza
Na frágua do coração.
Sou eu que o sono afugento
Quando vela a casta esposa
Junto ao leito, onde repousa
O esposo que mal padece;
Quisera ser em vez dele,
Quando a morte o ameaça;
Té de si mesma se esquece,
Té de quanto sofre e passa.
PRIMEIRA VOZ
Vela meigo-sorrindo a casta esposa,
Vela no leito onde, a aflição descansa,
Mas talvez lhe sugiro uma lembrança
Triste, importuna que expulsar não ousa.
Se compõem um sorriso honesto e brando,
Se ameiga a voz, a doce como esparsa,
Sorriso e voz fino punhal disfarça,
Que vai no peito incauto a furto entrando.
Ah! quantas vezes! quantas! não transuda
O leito conjugal banhado em sangue,
E ele ou ela, atraiçoado, exangue,
Já quase morto, a traição vil desnuda?!
SEGUNDA VOZ
Talvez ciumenta esposa,
Talvez cioso marido,
Irado, o punhal buído
Levanta... mas n'esse instante
Mostro-lhe o meigo semblante
Do filho seu que descansa,
Como que o sono lhe traga
Sonhos que traz na lembrança.
A tal vista se enternece,
A suposta injúria esquece,
A coragem lhe falece,
E o punhal lhe cai da mão;
E onde o ferro traiçoeiro
Devera d'entrar primeiro,
Beijando por derradeiro
Pede chorando o perdão.