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Segundos Cantos

O Bardo

Must all the finer thoughts, the thrilling sense,
The electric blood with which their arteries run,
Their body's self-tuned soul with the intense
Feeling of that which is, and fancy of
That which should be, to such a recompense
Conduct? Shall their bright plumage on the rough
Storm be still scatter'd? — Yes, and it must be! (Byron)
Era uma sala de rei comprida e larga
De primores vestida. — Nos tapetes
Hábil artista desenhara a história
Dos anos decorridos; — das janelas
Pendia a seda multicor, — rojavam
No liso pavimento as franjas d'oiro
Do brilhante espaldar. — Sentado nela
O rei, já velho, em roda de ministros
N'um canto do salão retinha os olhos
Segui-lhe a vista, e vi.... Era um mancebo
Modesto e belo; tinha um quê nos olhos
De pudor virginal, de meigo encanto,
Que prendia a atenção. — Em pé, cruzadas
Sobre uma harpa singela as mãos nevadas
Em voz segura e baixa ao rei falava.
« Por isto, senhor rei, vim ter convosco!... »
Isto apenas lhe ouvi; subtil sorriso
Do monarca passou nos roxos lábios,
Que hipócrita e sarcástico dizia:
— Que vos posso eu fazer? — Sois bardo! — As vezes
Quando este encargo de reinar me deixa
Mas livre respirar, — sobre mil praças
Deste palácio meu lançando os olhos,
O doce canto da vossa harpa escuto,
E o longo aplauso palpitante, e os ecos
Do forte sussurrar de amor, de enlevos,
Que a turba eleva com prazer.... Auxílios
Não vos posso prestar, que o erário tenho
Exausto e pobre! —
« Oh! nem de mim vos falo,
Nem por mim, rei senhor! — Que vos hei dito?
Que a moral, crença, e fé, e amor dos povos
São altos fustes, que têm mão do trono
Sois deste o criador, porém d'aqueles
Incumbe o lustre a nós. Se a nossa vida
Nisto gastamos, se mais crente o povo
Depois de nós a nosso exemplo fica,
É justo, senhor rei, que o trono cure
De quem sobre ele de contínuo vela.
Somos do mundo sem saber do mundo;
Aprouve ao senhor Deus lançar-nos nele,
Sem vida para nós, com tanta vida,
Com tanta força de querer p'ra os outros.
Não sabemos ganhar! — Com fome ou frio,
Lemos o nome do Senhor nos astros;
Sonhamos ilusões, lançando os olhos
Sobre a terra florida, ou sobre o campo
Liso, imenso dos céus, — vagando sempre
Do passado ao futuro! — Somos loucos,
Bem loucos, senhor rei,! — Enquanto a vida
Em proceloso mar corre sem termo,
Até que a morte um dia nos afunde
Cantamos sempre; nem de auxílio estranho
Havemos de mister, que o melhor canto
De soluços e lágrimas se embebe! —
Mas se hospícios haveis para os que sofrem,
Nós sofremos também, — também mendigos,
Trocamos, como outrora o velho Homero,
Celestes carmes por um pão de azima! »
— Falais do mundo sem saber do mundo,
E do vosso mister sem saber dele;
Tornou-lhe o rei com rosto carregado.
Sou injusto e cruel!... vós o dissestes!
Mas quem sois? — que fazeis? — Ao povo estulto
Co'a branda lira efeminais; no canto
Vil peçonha entornais em néscias mentes;
De perversa moral lições na cena
Dais em verso pomposo; — loucos, cegos,
Profetas vos dizeis... — Meu trono acaso
Sustentas tu co'a lira? — Se o sustentas,
Retira o braço, quero-o ver por terra,
Quero crer na tua crença; e se és profeta,
Eu t'o suplico, do porvir me fala! —
Como de sob os pés vos foge o bando
De sussurrantes passarinhos, quando
Pensativo calcais na densa mata
As secas folhas, rugidoras, soltas;
Como sobem confusas, pipilantes,
Ouvindo o estranho som que as amedronta,
Da Harpa as notas soam, vibram, fogem:
Lá se perdem nos ares, lá renascem,
Já de novo ressoam, como abelhas.
Que sobre vivas flores descansadas,
Quase filhas do sol, se erguem ruidosas.
« Reis da terra, o que sois? Oh! quase um nada,
Em mãos de infantes caprichosos — brinco,
Autômatos de orgulho, atores tristes
Em público tablado:
Um que em dia aziago entre os clamores
Da multidão falaz entrou no templo;
Era o templo adornado, — ali soldados,
Ali densos convivas,
Resplandecente d'oiro, e seda, e joias;
Ali morno silêncio qual precede
Da batalha o fragor — troava o sino,
E foi c'roado... escravo!
Mas quando o Senhor Deus um bardo cria,
Funde-lhe a mente de trovões, de raios,
De nobre fogo lh'incendia o peito
De cólera e de amor!
E o manda sobre a terra ingrata e nua,
Que voe sobre os astros, que a sentença,
Que Baltasar temeu, grave nos muros
D'impudico festim!
Que suspire, que gema, que soluce,
Que se lembre dos céus cantando a terra,
Que um amigo não tenha que a sua vida
É sofrer e cantar!
« Mas ai do triste que não sente enlevos
De ouvir um doce canto ao som da lira:
Mas ai do rei, que não suspira aflito
De aflito suspirar!
Mas ai do triste rei! que nunca o bardo
Nos versos divinais dirá seus feitos,
Nem o seu nome se lerá na pedra
De gelado sepulcro.
Vai com ele a lisonja a sepultura,
Com ele o seu palácio irá por terra,
Não será pedra sobre pedra
Inteira a mole cairá!
Calou-se, mas cumpriu-se o vaticínio:
Morreu sem nome o rei, — a mole inteira
Por terra jaz — uma coluna atesta
Seu primeiro esplendor.
Que é do bardo porém? — Ninguém pergunta:
O modesto pastor que a dura calma
Passou a sombra da frondosa copa,
Quando sem graça a vê, pergunta acaso
Que impiedoso tufão levou-lhe as folhas?
A virgem que em passeios solitários
Respira o aroma de uma flor singela,
Pergunta acaso no verão torrado
Se a melindrosa flor ainda existe,
Ou existindo, em que lugar se esconde?
Assim do bardo os feiticeiros versos!
Ressoam, como nota harmoniosa,
Como suspiro d'inocente virgem
Na placidez da noite adormecida;
Ressoam, mas também se extinguem prestes,
Como nota de uma harpa vaporosa,
Como o perfume que uma flor exala,
Como o suspiro que uma virgem solta!

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