Sextilhas de Frei Antão
Loa da Princesa Santa
(da Segunda Parte, "Sextilhas de Frei Antão", p. 123) J'ai fait de ma chambre la cellule d'um cloître, j'ai beni et sanctifié ma vie et mn pensée; j'ai raccourci ma vue et j'ai eteint devant mes yeux les lumières de notre âge: j'ai fait mon cœur plus simple, et l'ai baigné dans le benetier de la foi catholique; je me suis appris le parler enfantin du vieux temps: et j'ai ecrit!... (Stello)
Bom tempo foi o d'outrora
Quando o reino era cristão,
Quando nas guerras de mouros
Era o rei nosso pendão,
Quando as donas consumiam
Seus teres em devação.
Dava o rei uma batalha,
Deus lhe acudia do céu;
Quantas terras que ganhava,
Dava ao Senhor que lhas deu,
E só em fazer mosteiros
Gastava muito do seu.
Se haviam muitos Infantes
Torneio não se fazia;
É esse o estilo de Frandres
Onde anda muita heregia:
Para os armar cavaleiros
A armada se apercebia.
Chamava el-rei seus vassalos
E em cortes logo os reunia:
Vinha o povo atencioso,
Vinha muita cleregia,
Vinha a nobreza do reino,
Gente de muita valia.
Quando o rei tinha-los juntos
Começava a discursar:
« Os Infantes já são homens,
Vou-me às terras d'além-mar
Armá-los hi cavaleiros;
Deus Senhor m'há de ajudar.»
Não concluía o pujante
Rei — de assi lhes propor,
Clamavam todos em grita
Com vozes de muito ardor:
« Seremos nessa folgança;
Honra de nosso Senhor!»
E logo todos em sembra,
Todos gente mui de bem,
Na armada se agasalhavam,
Sem se pesar de ninguém;
E os Padres de São Domingos
Iam com eles também.
Iam, si, os bentos Padres;
E que assi fosse, é rezão,
Que o santo em guerras d'Igreja
Foi um bom santo cristão:
Queimou a muitos hereges
No fogo da expiação!
Quando depois se tornava
Toda a frota pera cá,
Primeiro se perguntava,
« Que terras temos por lá?»
Quem em Deus tanto confia,
Sempre Deus por si terá.
El-rei tornava benino,
Como coisa natural:
« Temos Ceita, Arzila ou Tângere,
« Conquistas de Portugal!»
E todos, a voz em grita,
Clamavam real! real!
Bom tempo foi o d'outr'ora
Quando o reino era cristão;
Os moços davam-se à guerra,
As moças à devação:
Aquela terra de mouros
Vivia em muita aflição.
Deu-nos Deus tantas vitórias,
E tanto pera louvar,
Que os Padres de São Domingos
Já não sabiam rezar;
Todolo tempo era pouco
Pera louvores cantar!
Sendo tantas as batalhas,
Nem recontro se perdeu!
Aqueles Padres coitados
Não tinham tempo de seu,
Levavam todo cantando
Louvores ao pai do céu.
Louvores ao pai do céu,
Que eu inda possa cantar,
Quando não vejo nos mares
Nossas quinas tremolar,
Mas somente o templo mudo,
Sem guarnimentos o altar!
Vejo os sinos apeados
Dos campanários subtis,
E a prata das sacristias
Servida em misteres vis,
E ante os leões de Castela
Dobrada a Lusa cerviz!
Cant'eu, em bem que sou Padre,
Digo que sou Português:
Arço de ver nossas coisas
Irem todas ao revés,
Arço de ver nossa gente
Andar conosco ao invés.
Mercê de Deus! minha vida
É vida de muita dura!
Vivo esquecido dos vivos
Na terra da desventura,
Vivo escrevendo e penando
N'um canto de cela escura.
Do meu velho breviairo
Só deixarei a leitura
Pera escrever estes carmes,
Remédio à nossa amargura;
O corpo tenho alquebrado,
Vive minha alma em tristura.
Que armada de tantas velas,
Que armada é essa qu'hi vem?
Vem subindo Tejo acima,
Que fermosura que tem!
Nas praias se apinha o povo,
E as cobre todas porém.
Dão sinais as fortalezas,
Respondem sinais de lá:
Vem el-rei vitorioso!
Quem de gáudio se terá?
O mar é todo bonança,
O céu mui sereno está!
Oco bronze fumo e fogo
Já começa a despejar;
Acordam alegres ecos
Os sinos a repicar;
Grita e folgança na terra,
Celeuma e grita no mar!
Vinde embora mui depressa
Senhores da capital!
Vinde ver Afonso quinto,
Rei, senhor de portugal;
Vem das terras africanas
Dar-vos festança real.
Nossos reis foram outrora
Fragueiros de condição;
Dormiam quase vestidos,
Espada nua na mão;
Nem repoisavam de noite
Sem fazer sua oração.
Empresa não cometiam
Sem primeiro comungar,
Sem fazer voto a algum santo
De tenção particular;
Porém vitórias houveram,
Que são muito de espantar!
Os vindouros esquecidos
Da proteção divinal,
Conhecerão os poderes
Da bênção celestial,
Se contarem os mosteiros
Das terras de Portugal!
Nossas capelas que temos,
Nossos mosteiros custosos,
São obras santas de Santos,
Obras de reis mui piedosos;
São brados de pedra viva
Que pregão feitos briosos.
Alguns já agora escarnecem
Dos templos edificados;
Dizem que foram mal gastos
Os bens com eles gastados:
Eu creio (Deus me perdoe)
Que são incréus disfarçados!
E mais prasmam dos feitios
De pedra, que Mênfis tem,
Sem ter olhos pera Mafra,
Pera a Batalha ou Belém!
Oh! se a estes conheceras,
Meu Frei Gil de Santarém!
N'aquela vila deserta
Ainda se me afigura
Ver elevar-se nas sombras
Tua válida estatura,
E ouvir a voz que intimava
Ao rei a sentença dura!
E mais a tacha que tinha
Era ser fraco, e não mais!
Tu, meu Santo, que fizeras,
Se ouviras a estes tais,
Que nos assacam motejos
Às nossas obras reais!
Mas vós, quem quer qu'isto lerdes,
Relevai-me esta tardança;
São achaques da velhice:
Vivemos de remembrança
E em longos falas fazemos
De tudo comemorança.
Já el-rei Afonso quinto
Nas suas terras pojou:
Alegre o povo o recebe,
Alegre el-rei se mostrou;
Abriu-se em alas vistosas,
El-rei entre elas passou.
Vem os músicos troando
Nos atabales guerreiros
Tangem outros istromentos
Desses climas forasteiros,
E trás eles vêm marchando,
Passo a passo, os prisioneiros.
São eles mouros gigantes
De bigodes retorcidos,
Caminham a passos lentos,
Com sembrantes atrevidos,
Causa medo vê-los tantos,
Tão membrudos, tão crescidos!
São homens de fero aspeito,
Homens de má condição,
Que vivem na lei nojenta
Do seu nojento alcorão,
Que vinho? nem querem velo,
Só porque o bebe um cristão!
Vêm as mouras despois deles,
Rostos cobertos com véus;
Bem que filhas d'Agarenos,
São também filhas de Deus;
Se foram cristãs ou freiras
Seriam anjos dos céus.
Luziam os olhos delas
Como pedras muito finas;
Deviam ser finas bruxas,
Inda qu'eram bem meninas
Que estas mouras da mourama
Nascem já bruxas cadimas!
Uma delas que lá vinha
Olhou-me através do véu!..
Foi aquilo obra do demo,
Quase, quase me rendeu!
Pensei nela muitas vezes,
Valeram-me anjos do céu!
Via as largas pantalonas,
E o pezinho delicado...
Como pode pensar nisto
Um pobre frade cansado,
Um padre da Observância,
Que sempre come pescado?!
Enfim dizer quanto vimos
Não cabe neste papel;
Vinham muitas alimárias
Como achadas a granel;
Vinha o Infante brioso;
Montado no seu corcel.
Vinham pagens e varletes
Vinham muitos escudeiros,
Vinham do sol abrasados
Nossos robustos guerreiros;
Vinha muita e boa gente,
Muitos e bons cavaleiro!
A Princesa Dona Joana
Saiu dos Paços reais;
Era moça, e muito airosa,
E dona de partes tais,
Que todos lhe qu'riam muito,
Estranhos e naturais!
Foi requerida de muitos
E muito grandes senhores,
Por fama que dela tinham,
E por cópia de pintores,
Que muitos vinham de fora
Ao cheiro de seus louveres.
E diz-se d'um rei de França.
Ludovico, creio eu:
Um pobre frade mesquinho
Só trata em coisas do céu;
Sabe ele que muito sabe
Se a bem morrer aprendeu.
Pois diz-se do rei de França
O onzeno do nome seu,
Que vendo um retrato destes
Pera si logo entendeu,
Qu'era prodígio na terra
Quem tanto tinha do céu.
E logo sem mais tardança
Caiu giolhos no chão,
No feltro traz arrelíquias,
Assi usa um rei cristão;
O seu feltro pôs diante,
E fez hi sua oração!
Saiu a real Princesa,
Saiu dos Paços reais
Nos pulsos ricas pulseiras,
Na fronte finos ramais;
De longe seguem-lhe a trilha
Muitos bons homens segrais.
Traçava um mantéu vistoso
Sobolas suas espaldas,
E as largas roupas na cinta
Prendia em muitas laçadas;
Seus olhos valiam tanto
Como duas esmeraldas.
Tinha elevada estatura
E meneio concertado,
Solto o cabelo em madeixas,
Pelas costas debruçado:
Cadeixo de fios d'oiro,
Franjas de templo sagrado.
Vinha assi a régia Dona,
Vinha muito pera ver:
O povo em si não cabia,
Quando a via, de prazer;
Era ela santa as ocultas
E anjo no parecer!
Debaixo das telas finas
E dos brocados luzidos,
Trazia à raiz das carnes
Duros cilícios cozidos
E umas crinas muito agras,
Tudo extremos mui subidos.
Passava noites inteiras
No oratório a rezar,
Dormia despois na pedra
Sem ninguém o suspeitar:
Extremos tais em princesa
Quem n'os há de acreditar?
No dia de lava-pés
Ordenava ao seu Vedor,
Trazer-lhe doze mulheres;
E depois com muita dor;
Lavava-lhe os pés chorando,
Honra de nosso Senhor!
E depois de os ter lavado,
Não perdia a ocasião,
Despedia a todas juntas
Com sua esmola na mão:
Dizia que era humildade,
E obra de devação.
E as mendigas prasmadas
Saíam de tal saber,
E perguntavam, quem era
Aquela santa mulher?!
Mãos pecados que ela tinha
Só pera assi proceder!
O mesmo Vedor foi quem
Isto despois revelou,
Quando aquela humanidade
Em o Senhor descansou;
Dona Joana era já morta,
Ele porém m'o contou.
Mas sendo tanto o resguardo
Que guardava em coisas tais
Sabiam algo os estranhos
Por muitos certos sinais,
Que o ar é todo perfume,
Se a terra é toda rosais.
É coisa de maravilha
Que me faz cismar a mi,
Que as donas d'hoje pareçam
Uns camafeus d'alfini,
Não donas de carne e osso;
As donas d'outrora — si.
Hoje leigos de nonada
(É lhes o demo caudel)
Praguejam a mesa escassa
E as arestas do burel;
Querem mimos e regalos,
E jejuns a leite e mel.
Lá caminha Dona Joana,
Regente de Portugal;
Traz sobre si muitas joias
Do tesouro paternal;
Deus lhe pôs graça divina
Sobre a graça natural.
Acostou-se a comitiva
Muito senhora de si:
Perante el-rei se agiolha,
Disse-lhe el-rei: não assi!
E ao peito a cinge dizendo:
Não a meus pés, mas aqui!»
« Sois um bom pai, Senhor rei,
Tornou-lhe a santa Princesa:
Eu que sou vassala vossa
E filha por natureza,
Peço mercê como aquela,
Como esta peço fineza.»
Ficaram logo suspensos
Todolos que eram ali,
Ficaram como enleados,
Enleio tal nunca vi;
Eis que a Princesa medrosa
Começa a propor assi.
El-rei não lhe respondera;
Que lhe havia responder?
Boa filha Deus lhe dera.
Que lhe havia defender?
Sorriu-se, o bom rei quisera
Muito por ela fazer.
A Princesa disse entonces:
« De alguns capitães antigos
Tenho lido, Senhor rei,
Que, vencidos os imigos,
Tornavam, a Deus fazendo
Sacrifícios mui subidos.
« Viam as coisas melhores
Que nos seus reinos haviam,
E logo lh'as ofertavam;
E mercês também faziam,
No dia do seu triunfo
A los que justas pediam.
« Deslembrar a usança antiga
Fora de grande estranheza;
Agora sobre maneira,
Perfeita tamanha empresa,
De tanto lustre aos do reino,
De tal honra a vossa Alteza.
« Digo pois a vossa Alteza,
E digo com muita fé,
Deve a oferta ser tamanha
Quamanha foi a mercê,
Não do nobre rei pujante,
Mas do santo rei qual é.
« A oferta que vos fizerdes,
Será mercê paternal:
Se quereis que conresponda
Ao favor celestial,
Deve ser coisa mui alta,
Deve ser coisa real.
« Ao Deus que vence as batalhas
Dai-lhe a filha muito amada,
Dai-lhe a só filha que tendes
Em tantos mimos criada:
Será a oferta bem quista
E do Senhor aceitada.
« E eu a quem mais custou
De medos esta jornada,
Que muitas noites orando
Passei em pranto banhada,
Sou eu, Senhor, quem vos peço
Ser a hóstia a Deus votada.»
Que santa que era a Princesa,
Que extremos de devação!
Nos sembrantes dos presentes
Viu-se, e não era rezão,
Que a nenhum deles prazia
Deferir tal petição.
Sobr'esteve um pouco e mudo,
El-rei, porque muito a amava:
Aquele dizer da filha
Todo o prazer lhe aguava,
Aquele pedir sem dó
Todo o ser lhe transtornava.
Encostou-se ao ombro dela
O pobre velho cansado,
Chorou o triunfo breve
E o prazer mal rematado,
Não como rei valeroso,
Mas como pai anojado.
El-rei despois mais tranquilo
Rompeu o silêncio alfi';
E entre aflito e satisfeito
Disse à filha: Seja assi;
Velhos guerreiros vi eu
Chorarem também ali.
Cant'eu perdido entre o vulgo
Não sei que tempo gastei,
Nem sei de mim que fizeram,
Nem tão pouco se chorei;
Foi traça da providência:
Nisto comigo assentei.
Foi Jefté corajoso,
O forte rei de Judá
Volta coberto de loiros,
Quem primeiro encontrará?
Sente a filha, torce o rosto
Nada ao triste valerá.
Qual d'estes dois sacrifícios
Soube a Deus mais agradar?
Vai a Hebreia constrangida
Depor o colo no altar,
Vai a cristã jubilosa!
São ambas pera pasmar.
Depois n'um dia formoso,
Era no mês de Janeiro,
Houve uma cena vistosa
Dentro de um pobre mosteiro;
Fundou-o Brites Leitoa,
Dona mui nobre d'Aveiro.
Uma princesa jurada,
Sobrinha d'altos Infantes,
Filha de reis soberanos,
Senhora das mais pujantes,
Era a primeira figura,
Espantava os circunstantes.
Ali humilde e curvada
Pesar de todos os seus,
Giolhos sobre o ladrilho
E as mãos erguidas aos céus,
Ouvi, exígua mortalha
Pedir polo amor de Deus.
Cantemos todos louvores,
Louvores ao Senhor Deus:
Os anjos digam seu nome
Rostos cobertos com véus;
Leiam-no os homens escrito
No liso campo dos céus.
Bom tempo foi o d'outrora
Quando o reino era cristão,
Quando nas guerras mouriscas
Era o rei nosso pendão,
Quando as donas consumiam
Seus teres em devação.
« Isto escreveu Frei Antão
De vida mui alongada,
Nossa Senhora da Escada
O teve por Capelão.»